Quando acabamos de viver

RELÓGIO DE PAREDE ESTÁ QUIETO. Lá fora, a escuridão invade a luz. Solitário, a sala me parece espaçosa e cheia de ausências. Além da solidão, os setenta anos que vivi, uma cadeira, uma mesa e um rato. Meus pensamentos fazem um barulho infernal, mas tudo silencia para eu ouvir apenas aquele roedor a me explicar os caminhos por onde andou. Ele me fala da vida efêmera e sem consciência.

Assim como as águas de um rio correm sempre no sentido da correnteza, o tempo na vida só flui em uma direção. E o que vivi já engoliu quase todo o tempo que tenho para existir. A fração que me resta é como um grande espelho mágico a mostrar o passado. Ele reflete a saudade enganchada em várias épocas, junto com o odor das flores que enfeitam a morte.

As lembranças talvez sejam modos de traduzir o que vivemos, mas não sei se todas as memórias são verdadeiras. De repente, minha infância vem à tona junto com a imagem de Paulo Henrique.

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Depois que o sol nos acordava, os objetos em nossos quintais eram transformados em seres encantados. Momentos inesquecíveis.

Eu o invejava pela mãe que tinha, pois desejava um amor como o que ela lhe dava. A vida não me fez entender por que existo. Em uma relação extraconjugal e de pouca importância para os amantes, fui concebido. Sou o resultado de uma noite celebrada com cervejas, irresponsabilidades e a busca do prazer genital, que faz o macho agir como animal, sem se preocupar com a possibilidade de gerar uma vida. Isso lhe diminuiria o prazer. Não sei quem foi o homem responsável por minha existência. Já minha mãe, contam que lutou exaustivamente para eliminar a prova daquela atitude pecaminosa; na época só a mulher era condenada pelo gozo dos amantes. Os deuses, no entanto, queriam me retirar da lista dos não nascidos e invalidaram todos os métodos usados por ela.

Nascemos em um paraíso, mas quando experimentamos o fruto do conhecimento esquecemos os segredos do universo e somos levados a perceber o que é dor e prazer. Ficamos entre essas duas sensações enquanto nos iludimos com o que chamamos de “mundo real”. Ainda criança, pensava até onde iria nosso universo. Não conseguia pensar o espaço e o tempo sem limite. Tudo o que me ocorria eram infinitos mundos que se repetiam sem que nunca um deles estivesse delimitado. Desse pensamento só a morte poderia me livrar. Então, no velório de Paulo Henrique, tive inveja mais uma vez de meu amigo, que – aliás – nunca gostou de minhas reflexões. Quando eu caía nesses pensamentos, ele me chamava para cavar um buraco, enterrar algum pequeno animal – como um grilo ou um sapinho – dentro de uma caixa de fósforo e acompanhar o sufoco do bichinho, com a satisfação de um deus que determina o destino de um ser.

Diante do caixão, meus neurônios, como as cordas de um violino, tocavam a “Ave Maria” de Schubert. Ao som dessa melodia, assustei-me com a possibilidade de ter outra vida e ser obrigado a cumprir uma eternidade. Fiquei desconfortável, pois não suporto a ideia de algo que nunca termina. Nunca ou sempre são as fantasias mais agressivas que podem me ocorrer. Não conseguimos responder sobre a razão de existirmos, o fim da vida e a existência ou não de Deus. No entanto, cada um pode ter suas certezas e seus mitos para diminuir a angústia causada pelo mistério.

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Vou até o jardim. As flores exibem aos meus sentidos uma exuberância de fragrâncias e beleza. O rato me conta que isso é para atrair os insetos, um ato para corromper o outro e realizar segundas intenções. Era também assim a beleza e os atrativos de Marília, que me fizeram ir de encontro aos valores da sociedade e da família.

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Ela exercia um fascínio que arrebatou de mim qualquer retidão e tudo que pudesse ser chamado de “livre-arbítrio”. O que fazem os homens com a dor de amar? Poetas nos dizem que é melhor sofrer por amor que ser privado de amar. Se amor é dependência e envolvimento, então talvez só haja gozo se houver sofrimento na mesma intensidade. Para sentirmos prazer, aceitamos a possibilidade de dor.

Numa noite que disparava flechas em meio a estrondos de trovões, Marília e Sarah chegaram molhadas. Estavam úmidas, mas de paixão, dizendo que uma não podia viver sem a outra. Marília propôs que eu aceitasse Sarah e vivêssemos uma nova forma de amar. Dois estava sendo pouco, três seria bom; ou isso, ou eu seria um, companheiro da solidão. Não pude rejeitar.

Sarah e Marília tinham belezas diferentes, que – como tudo mais nelas – se completavam e se uniam como em um círculo. Minha presença fazia esse círculo se transformar em um triângulo, cujas pontas ameaçavam nos ferir. Com o rato, ainda oculto, formávamos um quadrilátero. Porém era o pentágono que, tal qual uma faca serrilhada, feria Paulo Henrique. Ele amava Sarah e tinha estado junto dela por muitos anos.

A inveja que me ferira na infância agora o fustigava. Ele escondia o sentimento para continuar se relacionando comigo, mantendo-se, assim, próximo a Sarah. Nesses momentos a serrilha o cortava. Sua dor podia ser percebida no rosto dilacerado. Eu não tinha uma maneira de aliviá-lo, assim como na infância ele nada pudera fazer por mim. Então, à tortura da alma uniu-se a dor do corpo. O médico lhe disse que uma imagem, que mais parecia um rato, se espalhava por seus pulmões.

Todas as noites eu olhava para o infinito. Queria entender a imprecisa distância que separa a pessoa que ama sozinha da outra que não corresponde. Talvez seja igual ao intervalo que separa os vivos dos mortos. Ainda jovem aprendi que amor pode ser o mesmo que preenchimento de uma falta. “Sendo essa falta repreenchida por outra pessoa, o amor original acabaria?”, perguntei-me sofrido. Chegou o dia em que Marília e Sarah se bastavam. Fui abandonado e feito em pedaços. Não mais existiu a trituradora de cinco pontas. Comigo, só restou o sofrimento.

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Minha dignidade está na coragem de enfrentar o próprio destino. Sou como aquela plantinha que nasce delicada e desprotegida, mas que vai se fortalecendo com os empurrões dos ventos. Assim, consegui atravessar a solidão e vencer um desejo devorador que nunca se sacia.

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Durante a doença de Paulo Henrique, eu sonhava com ele embaraçando-se em ratos. Cada um mais volumoso que o outro. Estavam agitados na corrida de quem luta para sobreviver. Certa vez, esse pesadelo me acordou no meio da noite. A culpa e a piedade tinham se unido para bater em mim. Nesse momento, fiquei imaginando que meu amigo sonhava com ratazanas, tentando vencê-las para se desapegar da vida.

Pela manhã, fui visitá-lo. Das diversas mulheres que passaram em sua vida depois de Sarah, só lhe restava a empregada. Ela abriu a porta e me encaminhou ao quarto, onde estava instalado o home care. Com a falta de ar e as dores o maltratando, pediu a ausência do cuidador para poder me fazer uma confissão. Falou-me com voz embargada: “A criação de um além metafísico é a ilusão necessária para suportar o sofrimento até a morte.” Eu lhe respondi: “Talvez a vida seja um deus que nos faz imaginar sua existência para brincar conosco.” Saudade, culpa, piedade e o rato passaram a formar comigo um pentágono que, como uma nova serrilha, me destroçava o corpo-espírito.

Para Paulo, o sofrimento passara a ter a mesma extensão de seu tempo ainda por vir. Ele me perguntou por que o homem não tem consigo mesmo a piedade que concede aos animais agonizantes. Concordei. Ele se pôs a refletir, em voz alta, sobre a falta de sentido de sua via crucis. Tinha que prosseguir só para seus médicos honrarem Hipócrates? “Isso é honesto?”, questionou indignado.

No dia seguinte, voltei a visitá-lo. Levei um sorvete do sabor que ele adorava. Paulo o tomou com muita felicidade e disse que eu era um bom e fiel amigo. Beijei sua mão em agradecimento e saí. O veneno para matar ratos cumpriu seu papel.

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Hoje fui condenado por homicídio. Meu advogado disse que posso recorrer em liberdade, mas lhe confessei que não faz diferença. Espero ser preso numa cela sem espaços vazios. Seremos apenas eu e o rato, que se tornou meu grande amigo. Sinto-me redimido.

Conto publicado na Revista Verlidelas. Clique aqui para acessar a edição de Setembro/2020

Carlos São Paulo –  É médico, analista junguiano, diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia (IJBA), além de atuar como professor nos cursos de pós-graduação da mesma instituição. Escreve para a coluna Literatura no Divã, da revista Psique (editora Escala), na qual analisa personagens e obras literárias sob o viés da psicologia de Carl Gustav Jung. Em 2010 lançou seu primeiro livro, “Luzes e Sombras do Cotidiano” (Eleva Cultural), uma coleção de contos que retratam a vida humana em todos os seus aspectos sob o “olhar clínico” de um psicoterapeuta. Em 2017 veio seu segundo livro, “Símbolos na Literatura” (Gato Preto), uma obra que provoca o encontro entre a psicologia junguiana e a literatura com o objetivo de tornar a psicologia analítica acessível ao público em geral. Participou da antologia “Histórias do Cotidiano” (Verlidelas), na qual publicou o conto “Quando Acabamos de Viver”.