Quando sou chamada

Um dia desses, fui chamada por uma senhora que padecia ao experimentar uma viagem que fazia pelo mundo por onde passou. Tinha fome e sede de abraços, palavras ou apenas presenças que percebessem sua existência e a olhassem com os olhos da gratidão. A dona velhinha me apertava, não me deixava um só instante. A morte queria me ajudar, mas era dispensada, pois eu sentia que a senhora desejava minha companhia como quem bebe a água cristalina de uma bica quando está com muita sede.

Assistíamos a uma série de recortes de sua vida. Memória, junto a mim, não fazia questão de fidelidade e falava da licença poética que os homens  têm para contar a história do que já viveram. O corpo de oitenta e seis anos ficou mais leve, encolheu cinco centímetros, mas somente a minha presença preenchia o vazio devorador que carregava.

No bairro em que ela morava, desaparecera tudo o que existia. A nova paisagem    é como um estranho que chega. Geralmente algumas de minhas irmãs, em certas ocasiões, acompanham-me. Elas se chamam Lembrança, Tristeza, Suspiro, Gemido, Lamento, Nostalgia, Recordação e há algumas outras que nem sempre reconheço. Nostalgia gosta de ficar abraçada comigo, mas, por vezes se une à Doença; não me agrada quando isso acontece, porque me confundem com ela e eu não sou Doença.

Um dia desses, fui buscar um amigo dessa senhora. Não se encontravam havia trinta anos. Ao ver a nova paisagem, ele tinha dúvidas se a dona velhinha ainda existia. Com alguma perspicácia, conseguiu chegar a ela. Ao se abraçarem, disseram que era para me matar. Nesse momento, fiquei entre eles de uma forma diferente. Não me mataram, pois logo o senhor foi embora e, provavelmente, nunca mais voltaria.

Em certa ocasião, apareci com as mãos ocupadas e não pude enternecer um jovem que sofria em um mundo que o isolava. Imaginações ora doces, ora amargas. Melancolia ocupou meu lugar. Depois que o trataram, ele passou a solicitar a minha presença para que pudesse fazer contato com sua mãe falecida. Doença foi afastada, e ele ouviu  suas músicas comigo.

Quando eu surjo abraçada com a morte, há muito choro. Eu gosto de fazer as pessoas minarem pelos olhos aquela água de sabor salgado, ao tempo que sentem o amargo da minha presença. Basta desejarem rever aquele que partiu e já me chamam para me interpor na distância.

Moro em espaços vazios e cheios, percorro caminhos tão infinitos quanto finitos, e, na ausência, fico presente. Transito por ruas repletas de sonhos e corações, procurando onde pousar. É um lugar abarrotado de imaginações, o terreno necessário para que eu possa sobreviver.

A dona velhinha, um ser humano senil e solitário, um dia me dispensou. Ela estava vivendo o que passou e reconhecia os mortos nos vivos ao seu redor. Memória e Esquecimento se uniram e me tiraram. Pedaços de sua história voltavam para existir no agora. Alguns conhecidos tentavam fazê-la compreender que aquelas pessoas que ela via já não existiam mais, sem respeitar o que era real para a senhora. Por isso, minha ausência fez doer de uma forma diferente.

A velhinha foi se tornando alguém que não tinha mais necessidade da minha presença. Aproximou-se de uma bica com a água cristalina, mas não fez mais questão dela. Já não havia lugar para mim, ela não sentia a pobreza e o isolamento. Foi assim que a deixei sozinha. Mas, surpreendentemente, ela disse:

“Adeus, Saudade.”

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Carlos São Paulo – Médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana. carlos@ijba.com.br

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