O homem e o animal

Por Carlos São Paulo

Maggie farejava a casa inteira. O cheiro do dono ainda existia em meio a outro odor até então desconhecido pela cadela. Era o cheiro de pólvora. A cachorra tentava encontrá-lo, mas o seu ambiente tinha se modificado. O animal urrava, não se sabe se de fome, sede, dor ou saudade. Parecia não existir ninguém para ouvir os grunhidos, cujo som era suplantado pelas bombas que estouravam.

Ao conseguir saltar para um outro lugar, também cheio de tijolos e pedaços de paredes amontoadas, sentiu-se presa. Cheirava o rosto da mulher que trabalhava na casa. O rosto não se mexia e estava como uma pedra de mármore embaixo de outras pedras que cobriam seu corpo.

A Maggie foi levantada por uma mão humana. Diante da impotência do seu pequeno porte e da força dos homens, foi levada sabe-se lá para onde. Nada era mais como antes. Não reconhecia o que cheirava, tampouco as mãos que a alisavam ou arrastavam.

Em algum lugar, os humanos demonstravam sua capacidade destrutiva e as ideias sobre heróis, compensando suas vidas frustradas que viveram e esquecendo-se da criança que foram um dia e abraçando o homem antigo que existe dentro de si. Os covardes não sabiam que eram covardes, mas justamente por isso não se amavam e precisavam contemplar os que achavam mais corajosos, ou os mais sagazes. Tinham heróis e anti-heróis. Os homens queriam exibir seu poder e ganhar mais território.

Assim também fazem os répteis.

Embaixo dos escombros, um corpo ainda com vida, gritava de forma apaixonada:

– Tomem conta da Maggie, minha única companhia.

“Quem vai cuidar dela?”, interrogava a si mesmo. E pensava: “morrer não é coisa que se faça com uma cadelinha”.

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Carlos São Paulo – Médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana. carlos@carlossaopaulo

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