Nossas imagens e pensamentos

Nossa espécie se diferencia pelo instinto da reflexão e o da criatividade. Diante do analista, fazemos uma narrativa para explicar as dificuldades que temos com a vida. Geralmente enxergamos, no mundo externo, as razões do nosso sofrimento e temos dificuldades para tomar uma atitude. Para o analista, tudo isso revela como imaginamos e pensamos sobre os acontecimentos. Daí sua escuta ficar atenta ao nosso modo de imaginar e pensar sobre os acontecimentos, daí sua escuta ficar a uma outra linguagem, a simbólica, para compreender outra história, que escorre junto àquela que o cliente conta.  O analista, inevitavelmente, funciona como a serpente, que nos arranca do estado de inocência e transporta para a responsabilidade. A responsabilidade por nossos atos, que, muitas vezes, seguimos na intenção de “ter razão”. Tentamos uma discussão regida pela guerra na qual um ganha e outro perde, enquanto o terapeuta converte em um diálogo regido pela dança.

Qual a importância da linguagem simbólica na análise? O símbolo é a maneira como o oculto se revela por meio da consciência. O ego traz uma consciência causal, mas os símbolos trazem a possibilidade de ampliar a consciência por meio de analogias, associações e semelhanças, sendo essencialmente imagéticos. O relacionamento entre consciente e inconsciente opera pelas imagens e pelo imaginar. Não nos referimos apenas às imagens óticas, mas a tudo o que envolve os nossos sentidos e nos detém como uma imagem sensorial.

Jung conceitua que a psique opera de duas formas diferentes, mas complementares. Pelo inconsciente, por meio de analogias, e pela consciência, por meio do raciocínio lógico, enquanto o pensamento analógico é a forma de o inconsciente operar. Essa forma é vista nos sonhos, nas fantasias e no pensamento mítico.

Lakoff & Johnson, nos anos 80, descobriram o caráter cognitivo-metafórico que permeia a linguagem ordinária ou cotidiana. Eles citam muitos exemplos em seu livro “Metáforas da vida cotidiana”, tais como: “a morte é uma viagem”, “quem te deu essa ideia”, “estou de saco-cheio”, “essas ideias não cabem em mim”. Observamos nos exemplos que a morte é colocada como um ato de viajar, a ideia como um objeto a ser dado, o indivíduo como contêiner em que as ideias não cabem e assim por diante. Entendemos com facilidade se alguém nos diz: “Isso aqui é carne de terceira. A senhora tá cheia de nervo. Isso, nem na máquina dá para encarar.”

Aqui chegamos à conclusão de que, em nossa narrativa, fazemos analogias e nos expressamos com metáforas. Assim, o aluno, nos cursos que promovemos, treina a escuta e aprende a ler os textos de forma simbólica, ou seja, não literal. Para isso, exercitamos leituras de mitos, contos de fadas e outros textos arcaicos. Carlos Drummond de Andrade diz: “Como decifrar pictogramas de há dez mil anos se nem sei decifrar minha escrita interior?”

Enquanto nossa consciência trabalha em direção a uma determinada visão, excluindo todas as outras questões que no inconsciente estão unidas, as antinomias, nos faz perceber o quanto as imagens dos sonhos vêm em nosso socorro para mostrar os outros aspectos envolvidos, quando não observados pela lógica do ego. Isso ocorre devido ao funcionamento normal da consciência em seguir uma única direção, fazendo-nos atuar de forma unilateral. A unilateralidade é a ilusão que faz as pessoas adoecerem ou ficarem insatisfeitas com suas vidas. Além disso, podem observar o que desprezaram em suas considerações.

As experiências pessoais do indivíduo formam seu inconsciente pessoal, que se encontra fluindo junto com as vivências coletivas da espécie. Como o inconsciente se expressa em imagens, o trabalho psicoterapêutico junguiano é fazer o paciente se relacionar com elas, ao tempo em que o profissional age como facilitador. Este último tem em mente o mapa da alma e, ao conhecer a trama mítica atuante na imaginação do seu paciente, leva-o a perceber outra direção, refletindo sobre seu caminho, se está indo na direção do ótimo vital.

Seguimos a vida nos adaptando à nossa civilização ou sociedade, que também adoece, não só pelo mundo invisível dos vírus, como também por seus valores. Por isso, às vezes lutamos contra o que sentimos, procurando nos adaptar ao mundo fora e esquecendo-nos do mundo interior, daquilo que se tornou necessário, uma vez que esse mundo pede para seguir o que lá fora é feio ou inadequado. O mundo da alma é como o autor junguiano Hillman chama a psique. Para ele, se a questão vivida dá espaço para algum complexo funcionar como um assassino interior, tentando convencer ao ego a desistir da vida, em lugar de nos preocuparmos com as prevenções, o melhor é conseguir saber o que a alma precisa e encontrar um caminho para ela continuar vivendo naquele corpo.

Como então a psicoterapia deve ser ensinada? Adotamos um eixo com objetivo acadêmico-informativo, em que estudamos a obra de C. G. Jung e o aluno vai se confrontar com suas ideias preconcebidas, que fazem parte do imaginário cultural. O segundo eixo tem o objetivo educativo-formativo, o que faz o aprendiz se envolver com o seu próprio caminho rumo à individuação, aprendendo a superar as crises e a instaurar uma nova ordem em sua vida. Recomendamos aprender a lidar com suas fantasias e deixar o imaginário atuar sem censura e sem procurar uma lógica. Se assim não fizer, tudo se desmancha e, em lugar do símbolo, teremos apenas um conceito, um signo. Trabalhamos na direção de convencer o aluno a se submeter a uma psicoterapia. O terceiro objetivo é demonstrar a aplicabilidade profissional. A teoria pode ser aplicada na prática clínica assim como em outras áreas da atuação profissional.


Carlos São Paulo – Médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana. carlos@ijba.com.br  / www.ijba.com.br

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