Complexos culturais, polarização e adoecimento dos brasileiros

A vivência em atendimento terapêutico nos anos recentes tem-nos colocado diante de um fenômeno recorrente nas sessões de terapia, a constelação de complexos culturais, não que isso não ocorresse antes. Contudo, nas análises, muitas vezes, o terapeuta volta sua atenção para os problemas pessoais e esquece de atentar-se para a importância da cultura do indivíduo na constelação de seus complexos, mas no Brasil, de hoje, é impossível não levar isso em consideração. Embora se possa afirmar que o mundo todo esteja passando por um momento crítico, também não é pertinente negar que cada cidadão, diante de sua cultura, está vivenciando este momento de forma distinta.

De acordo com SINGER & KAPLINSKY (2019, p. 55) a desconsideração dessa temática se deve,

“A inoportuna incursão de Jung em discussões sobre o caráter nacional e, em especial, sobre a psique alemã nos anos de 1930 (Jung 1936/1970) efetivamente barraram uma consideração mais detalhada entre grupos com base na raça, etnia e identidades tribais/nacionais por junguianos, que foram profundamente afetados e limitados pelas acusações de antissemitismo contra Jung e seus seguidores. Após a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto, poucos quiseram tratar do tema do “caráter nacional” ou de complexos culturais, com medo de serem manchados com acusações de discriminação ou, pior ainda, de contribuir para justificação do genocídio. Com isso, os junguianos aprenderam muito bem que pisar nas minas terrestres dos complexos culturais pode ser muito doloroso e destrutivo.”

Ou seja, entendeu-se que é preciso distanciar-se desses estudos já que podem ser confundidos com o reforço de estereótipos e preconceitos, contudo também é preciso atentar-se em não desprezar, no setting  terapêutico, a importância da consideração desse conteúdo. E, na fala acima já aparece um exemplo clássico da constelação de um complexo cultural, diante da palavra antissemitismo relacionada à Jung. Devido a constelação desse complexo evita-se estudar e falar sobre temáticas que relacionem Jung ao antissemitismo, enquanto o ideal seria lidar com essa sombra que libertaria os pós-junguianos das amarras que os bloqueiam. Jung, por ser o fundador da psicologia analítica, não se torna um ser isento de reproduzir preconceitos, é preciso enxergá-lo como um homem, de seu tempo, suscetível as armadilhas da constelação de complexos, especialmente os culturais. O que se torna relevante, portanto, é encarar e avaliar os fatos para não sucumbir a complexos que reforcem ainda mais os preconceitos de nossa sociedade. Veja que não se assinala aqui que ser antissemita é positivo, pelo contrário, mas antes que é necessário encarar de frente a sombra que ronda a psicologia analítica, até para que não se avolume.

Faz-se relevante, para facilitar a discussão, trazer o conceito de complexo cunhado pelo próprio Jung, (1936/1976, OC 18/1, §149) quando afirma que,

“O complexo apresenta uma espécie de corpo e uma determinada quantidade de fisiologia própria. Pode perturbar o coração, o estômago, a pele. Comporta-se, enfim, como uma personalidade própria. Quando se quer dizer ou fazer alguma coisa e, desgraçadamente, um complexo intervém na intenção inicial, acaba-se dizendo ou fazendo a coisa totalmente oposta ao que se queria de início. Há subitamente uma interrupção, e a melhor das intenções acaba sendo perturbada, como se tivéssemos sofrido a interferência de um ser humano ou de uma circunstância exterior.”

Um dos objetivos principais da psicologia analítica é tornar os complexos mais conscientes, já que assim a energia seria liberada, o que facilitaria o desenvolvimento psicológico. Isso não quer dizer que o indivíduo estará livre dos complexos, mas que seu ego vivenciará os outros “eus” sem se sentir ameaçado ou sucumbir a eles. Sendo assim, é muito relevante trazer à tona aquelas questões que consideramos mais escuras do nosso ser e isso deve ser feito tanto no individual, quanto no cultural.

No Brasil, durante muito tempo, vivemos o mito de que por sermos um povo mestiço não éramos preconceituosos, éramos um povo alegre, festivo, acolhedor e isso mascarou a nossa enorme sombra cultural e apenas fez com que ela se avolumasse. Um exemplo clássico é a política de cotas nas universidades, muito questionada já que perpetraria o que muitos chamaram de “preconceito inverso”, (como se isso fosse possível), quando na verdade, o que se estabeleceu foi a constelação de um complexo cultural, já que os projetos inclusivos além de necessários são possíveis, pois todo ato de aprendizagem está na cultura em si. Sendo assim, todos estão capacitados para aprender, apesar de suas diferenças, contudo nem todos têm as mesmas oportunidades. Mas, o termo cotas raciais constela, em boa parte da população brasileira, o complexo cultural que explicitou a nossa diferença, até então negada coletivamente. Embora seja sabido, a partir de dados concretos, que as diferenças de oportunidades entre pretos e brancos, no Brasil, existe e é imensa, para um país que se afirma mestiço e não preconceituoso, esta realidade não sendo assumida culturalmente, ou seja, não sendo trazida à base da consciência coletiva, propiciou a constelação.

Outros termos e palavras, no Brasil atual, constelam igualmente o nosso complexo cultural como, direitos humanos, feminismo, aborto, comunismo, gênero, transgênero, capitalismo, Bolsonaro, Lula, Lava-Jato, dentre outros. Como abordado acima, sobre Jung e o antissemitismo, quanto mais os negamos, mais os constelamos e o resultado disso é uma política que represente a opressão dessas discussões ou o estímulo à polarização. Não é possível descartar que, “Os complexos culturais no inconsciente do grupo contribuem fortemente para a pressão barométrica da vida cotidiana e podem ser pensados como parte do ambiente psíquico de todos os pacientes.” (SINGER & KAPLINKY 2019, p. 71)

Ou seja, não é possível descartar no setting terapêutico o quanto esses complexos influenciam a vida e as problemáticas dos indivíduos, portanto, caso o terapeuta não os leve em consideração, dificilmente contribuirá positivamente para o processo do analisando. Alguns terapeutas defendem a isenção política e cultural, como se isso fosse possível e viável dentro da psicologia analítica, já que o próprio Jung preconizava o contrário, quando defendia que a relação com o outro também é essencial para a realização do ser individual (JUNG, p. 121, 2012). A cultura, a política nacional como constituinte desta cultura, os diversos acontecimentos do país etc. estão presentes no setting terapêutico e influenciam analisando e analista. Então como seria possível descartar essa discussão e a constelação desses complexos, já que, muitas vezes, estes podem ser os eventos que mais estejam afetando o indivíduo?

É possível, portanto, que depressão, ansiedade, Burnout etc. sejam apenas nomes dados, no momento, para pessoas que estão vivenciando a dúvida, a incerteza e a constelação de complexos que efetivamente foram negados e empurrados por um “ego nacional” unilateralizado que não nos permitiu enxergar as circunstâncias reais de nossos conteúdos mais obscuros.  Importante ressaltar que não existe aqui a intenção de levantar bandeiras partidárias de direita ou esquerda. Pois, “(…) os complexos culturais nem sempre são “politicamente corretos”, embora o “politicamente correto”, possa ser ele próprio um complexo cultural” (SINGER & KAPLINKY 2019, p. 58)

Pode-se supor que a pandemia tenha agravado a constelação desses complexos, pois nos exige o olhar coletivo. Contudo, é sabido que a nossa polarização começa antes disso. Em 2015, por exemplo, a então presidente da República Dilma Roussef é exposta a eventos de explicita misoginia em adesivos de automóveis que sugerem o seu estupro, e esses são aceitos como manifestação política. Ao negar a nossa veia misógina, patriarcal, doentia, ela surge como constelação do que há de mais cruel e pernicioso contra as mulheres em uma sociedade, a banalização do estupro.

Hoje, em meio a pandemia, banalizamos a morte, mas como isso pode estar atrelado ao complexo cultural dos brasileiros? Fácil responder, vivemos em um país onde morrem um número expressivo de jovens negros e pobres anualmente, de mulheres vítimas de feminicídio e isso não causa espanto ou um movimento coletivo contra esses eventos, é porque já estamos adaptados a cultura da morte, especialmente quando esta atinge, em sua maioria, os pretos e pobres do país, os invisíveis. Em 2007 tivemos o fenômeno do filme Tropa de Elite (Dir. José Padilha) que, apesar de muitos terem considerado como um filme denúncia, na verdade, a sua mensagem mais forte era “bandido bom, é bandido morto” e “na guerra vale tudo, até mesmo a tortura”. Então, como não assumir que já estávamos constelados pela cultura da morte e não da vida, da recuperação?

Vale ressaltar novamente que os complexos constelam tanto à direita, quanto à esquerda e uma não é positiva e outra negativa, simplesmente se faz necessário trazer à base da consciência aquilo que pode interferir na nossa ação de forma que sejamos tomados por esse “outro eu”, ao invés de dialogar com ele. Sendo assim, é impossível ao analista não acolher esses assuntos no setting terapêutico, pois muitos clientes se sentem afetados pelas atuais condições políticas do país, especialmente por ter que reconhecer o lado obscuro da cultura de seu povo. Enxergar a si próprio como também possuidor dessa sombra e perpetuador de preconceitos é sempre muito doloroso e merece atenção. Por isso se torna relevante assumir que o inconsciente cultural influencia o indivíduo e é determinante na constelação de complexos, tanto de forma negativa, quanto positiva.

Para finalizar, vale trazer a fala de Jung (1936/1976, § 309), “Todos temos complexos; é um fato muito banal e desinteressante… O que interessa é saber o que as pessoas fazem com seus complexos; é a questão prática que conta.”  Portanto, cabe ao analista considerar a problemática trazida por seu analisando e não descartar a influência da cultura na constelação de complexos que estejam atrapalhando a vida plena do seu cliente.

 


 

Andrea Alencar

Membro analista em formação pelo IJEP – RJ

 

 

Referências:

JUNG, C. G. (2012) Ab- reação, análise dos sonhos e transferência. Petrópolis, RJ: Vozes

_________. (1936/1976) Fundamentos da psicologia analítica. [TavistockLectures]. OC 18/1

SINGER, C. & KAPLINSKY, C. (2019) Complexos culturais em análise. In: MURRAY, S. Psicanálise junguiana: Trabalhando no espírito de C. G. Jung ( p. 55 à75). Petrópolis, RJ: Vozes

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