Big Brother e as máquinas de linchamento coletivo

Por Paulo Nunes

O que você faria se, de repente, aparecesse na tela do seu celular uma enquete sobre se alguém deveria ser brutalmente assassinado? Para ser mais claro, antes de votar, você veria um vídeo mostrando como o réu do “tribunal da internet” ficou milionário vendendo pornografia infantil. Após ser denunciado e preso, acionou uma série de advogados, políticos e juízes que de alguma forma aceitaram suborno ou deviam-lhe favores e assim conseguiu da justiça uma pena leve, sendo libertado após apenas um ano na prisão. Para complicar ainda mais as coisas, ele debochou abertamente da polícia e da sociedade, mostrando como seus contatos poderosos sempre o protegeriam e como ele iria voltar a cometer os mesmos crimes assim que fosse posto em liberdade.

O enredo acima é de “O voto de morte” (The killing vote), série de TV coreana que retrata o desejo popular de vingança contra as injustiças do mundo, contra a desigualdade das balanças da justiça, que pesam mais e deslocam-se mais rápido sobre os pobres, pretos e infratores leves do que contra os grandes grileiros de terras; juízes, policiais e políticos corruptos, empresários milionários inescrupulosos, abusadores, assediadores e estupradores protegidos pela cultura patriarcal do estupro e depreciação da mulher. O desejo de que a justiça seja feita para todos aqueles que a mão do poder protege aparece tanto na série coreana da atualidade como na clássica animação japonesa Death Note, onde o protagonista ganha o poder de matar pessoas à distância apenas escrevendo seus nomes num caderno. Num dos mais eletrizantes episódios da série Black Mirror, “Odiados pela nação”, o tema é o mesmo: o voto online popular decide a execução do criminoso que escapou das mãos da justiça.

Em sua obra mais célebre, “A violência e o sagrado”1, o etnólogo franco-americano René Girard analisa o caso de algumas monarquias africanas onde o príncipe, antes de ser coroado, precisava passar por uma série de rituais que envolviam a transgressão de tabus como o incesto, a ingestão de alimentos proibidos e a infração de várias leis do seu país. Por fim, uma vaca que o representa/substitui era sacrificada por várias pessoas, que para isso usavam apenas as mãos. Para Girard, todo o processo propositalmente transformava o futuro rei num criminoso completo, hediondo e odiável. Por que razão se transformaria alguém que deveria ser amado, reverenciado, respeitado e obedecido, alguém destinado a liderar todo um povo, no seu exato oposto, a pessoa mais odiada?

O príncipe, após ter-se tornado um criminoso, é simbolicamente sacrificado através da morte animal que o substitui e isto aparentemente quita sua dívida pública, algo necessário para que assuma como monarca. Na prática, a coisa é mais profunda que isso. Caso o país entre em crise, a economia não prospere, os campos não produzam, o rei é considerado culpado pelo desfavor dos deuses, já que é transgressor, incestuoso, assassino e por isso deve ser sacrificado. O rei, nessas monarquias, é ao mesmo tempo o governante e o bode expiatório. Se ele não conseguir conduzir corretamente a nação em vida, ele a salva com sua morte, oferecida como sacrifício para aplacar a ira divina. Este é o último e mais importante papel do rei, o motivo por trás do ritual transgressor que antecede sua posse.

Girard acredita firmemente que toda a nossa cultura e suas instituições são filhas desta instituição original, o sacrifício de uma vida para aplacar a fúria divina. Todas as religiões começam com esta violência, é ela que cria o sagrado. O termo “sacrifício” deriva dos termos latinos “sacer” (sagrado) e “facere” (fazer) e originalmente denota nada mais que a morte ritual de uma vítima – humana ou animal – para aplacar a ira divina. Como explicar esta união entre aparentes opostos: a violência e o sagrado?

Apesar de enfatizar todo o tempo a originalidade e ineditismo de sua análise, dois conceitos fundamentais para a sustentação da tese de René Girard foram emprestados da Psicologia Analítica, criada pelo psiquiatra Suíço Carl Gustav Jung. O primeiro deles é a Projeção, que ocorre sempre que a consciência é incapaz de compreender ou aceitar um determinado conteúdo, de modo que o indivíduo enxerga como parte do outro aquilo que surgiu em sua própria psique2. O segundo é a noção de contágio e/ou epidemia psíquica: emoções intensas e instintos fundamentais, a depender da situação, têm o poder de contagiar toda uma comunidade através de um único indivíduo afetado e trazer para ela o caos destrutivo3. Girard apresenta evidências literárias de que o próprio conceito de contágio foi concebido primariamente como contaminação psíquica, afetiva, muito antes que a existência de microorganismos causadores do contágio biológico pudesse ser concebida. Os afetos “contagiosos”, incompreensíveis e incontroláveis pela consciência, eram projetados, isto é, percebidos como parte de uma personalidade exterior ao indivíduo. Assim surgiram deuses do amor (Eros), da guerra (Ares), da embriaguez, da desinibição e descontrole (Dioniso), entre muitos outros, que seriam os responsáveis por instilar nos homens tais desejos. Além disso, as sociedades antigas também personificavam e veneravam as forças potencialmente destrutivas da natureza: o raio e as tempestades (Zeus), o mar e os terremotos (Poseidon), o Sol (Hélio)…

Antes que a humanidade tivesse entrado em contato com a ideia destes deuses e seus domínios,  só podemos imaginar que nenhuma proibição existia, nenhuma lei imperava exceto a da força e a do instinto. Para Girard, a liberdade ampla e irrestrita, sendo incompatível com a existência em comunidade, culminou num estado caótico que fez da humanidade presa tanto da sua própria violência como da violência da natureza. Esta ameaça, como um enorme obstáculo diante da sobrevivência humana, exige uma reflexão, uma explicação e uma profilaxia: é este o motor da projeção que obriga o homem a enxergar na natureza deuses que o infectam com o ódio generalizado. Em um destes momentos, onde a existência comunitária esteve ameaçada por sua própria barbárie, um evento peculiar teria acontecido: por algum motivo, uma pessoa conseguiu atrair para si toda a fúria da comunidade e acabou sendo linchada.

Após este momento, duas operações psicológicas teriam ocorrido: (1) a sede de sangue da comunidade foi saciada pelo assassinato coletivo de uma só pessoa; (2) livres do afeto da fúria assassina, as pessoas enfim conseguem enxergar o que se passou e agora sentem unanimemente o enorme peso da culpa por sua violência. Ainda muito longe de desvendar a psicologia do contágio afetivo e da catarse obtida pelo linchamento, a humanidade antiga contenta-se com a única explicação que lhes era possível à época: o linchamento de um inocente aplacou a fúria divina responsável pela epidemia violenta, já que foi após isso que os ânimos se acalmaram. A partir daí, o assassinato unânime de um inocente tornou-se a importante instituição chamada Sacrifício, receita universalmente empregada para obter a misericórdia divina em tempos difíceis.

Ao perguntar-se sobre o que havia enfurecido os deuses de tal modo, as comunidades humanas antigas encontraram sempre a mesma resposta: o incesto, o assassinato, a vingança; a nudez e o sexo públicos, a vontade de poder e qualquer outro desejo desmedido estavam sempre na origem das crises de epidemia violenta. A conclusão a que chegaram é que todos estes movimentos da alma humana eram prerrogativas divinas, caberia aos homens evitar entregar-se a tais impulsos. Para Zeus, Poseidon, Cronos, Hades e até Javé, era permitido enfurecer-se, matar, vingar-se, cometer adultério, estupro, entre outros atos que tornaram-se proscritos para os seres humanos. Se o homem invade o território divino, o direito sagrado dos deuses, estes vingam-se através de pragas, dilúvios, terremotos, secas; instintos e afetos violentos e descontrolados infestam toda a humanidade, ameaçando-a de destruição.

A mensagem “Deus proíbe a nudez, o incesto e o assassinato e nos punirá caso desrespeitemos sua vontade”, traduzida pela ótica psicológica contemporânea, diria: “cuidado com o sangue, a ira vingativa, a ambição, a nudez, o sexo! Essas coisas podem facilmente contagiar a todos e trazer o caos que destruirá a comunidade.” Segundo Girard, a religião é a responsável por desumanizar a violência e a projetar sobre a cabeça de uma entidade divina ou demoníaca, a única que teria força suficiente para lidar com ela sem ser por ela dominado e destruído. Desse modo, renunciamos à violência, à justiça feita com as próprias mãos, à entrega completa aos instintos e emoções e abordamos tudo isto com grande reverência e cautela, como se deve ter com o desconhecido e incontrolável, mesmo que isso venha de dentro nós. É apenas após o surgimento desta forma de abordar os afetos e instintos que a cultura é possível.

Partindo dessa premissa, Girard procede para enxergar toda a nossa cultura sob a ótica do seu sistema interpretativo. Ele diz que o casamento é o sacrifício de uma sexualidade irrestrita, é a promessa de manter a sexualidade dentro dos limites que o matrimônio impõe. O carnaval teria surgido como encenação ritual da falta de limites anterior à cultura e seu fim deve trazer a “antifesta” (a quarta-feira de cinzas), onde devemos nos arrepender por toda a desmesura de sexo e violência e voltarmos à vida normal, isto é, sacrificial. A lei é a renúncia à vingança, é deixá-la nas mãos de Deus e, atualmente, do Estado e do Poder Judiciário. A política não é só representação popular e funções de governo, é uma instituição eminentemente sacrificial. Collor, Lula, Bolsonaro, Trump, Putin, Netanyahu, mesmo Ghandi e Jesus, todos estes políticos ou líderes religiosos que atuaram politicamente têm algo em comum: cada um, em determinado grau, foi admirado, seguido, adorado, encarado como herói e salvador de uma nação. Por fim, quando o seu poder de comandar a concordância unânime se esvai, foram (ou serão) assassinados, martirizados, presos, removidos do poder, considerados como párias e destruidores do país. Independentemente de serem justos ou injustos, honestos ou corruptos, bem ou mal-intencionados, o resultado é sempre o mesmo. Ao entrar para a vida pública, dificilmente alguém consegue deixar de sacrificar seus valores e escrúpulos, de precarizar sua vida pessoal e familiar, sua saúde física e mental: tudo em nome desse poder, o poder de comandar multidões, de deixar sua marca na história. É muito comum que, neste caminho, seja necessário roubar, mentir, assassinar (ou ao menos tornar-se cúmplice, silenciar diante do outro que suja as mãos em seu lugar); quantas vezes você já ouviu que é impossível permanecer honesto dentro da política? Por um tempo, os políticos acreditam que podem fazer tudo isso impunemente, que são diferentes, especiais, escolhidos por Deus – afinal, lutam por um bem coletivo maior, que em muito supera suas “pequenas” transgressões individuais. O político frequentemente ignora que, assim como acontecia com os reis africanos estudados por Girard, toda a leniência e devoção que de bom grado o povo oferece à sua personalidade em ascensão tem sempre em vista a mais implacável de todas as compensações: prepará-lo para assumir o papel da vítima sacrificial por excelência. Quando não mais puder servir ao povo como líder, o servirá como boneco da festa de Judas, a ser queimado publicamente para saciar toda a fúria reprimida de um povo insatisfeito. O velho roqueiro baiano, Raul Seixas, já sabia disso, ao cantar: “mamãe, não quero ser prefeito, pode ser que eu seja eleito e alguém pode querer me assassinar”4.

Por este mesmo motivo programas de TV que se estruturam em torno de um ritual de sacrifício são uma versão moderna do Bacanal (ou festa de Baco/Dioniso): o “Big Brother Brasil”, “No Limite”, “A Fazenda”, entre outros reality shows, estão entre os líderes de audiência há mais de duas décadas, se considerarmos apenas o Brasil. Numa época onde poucas religiões ainda executam sacrifícios reais de animais e as demais ocultam o sacrifício humano sob várias camadas de simbolismo, o voraz apetite humano pela vítima expiatória é saciado por produções de entretenimento onde a principal atração, ao contrário do que é anunciado pelos produtores, não é a competição por um prêmio, mas sim a garantia do “sacrifício” de um participante ao término de cada ciclo semanal. Em todas elas, um cenário é cuidadosamente construído para que intensas emoções corram soltas: apresenta-se em um ambiente fechado uma série de pessoas desejáveis usando trajes mínimos, dormindo no mesmo quarto, fazendo festas cheias de bebida e comida, livres para fazerem sexo com quem quiserem. A seleção de participantes traz uma calculada e explosiva mistura de personalidades exuberantes, impulsivas, polêmicas e ressentidas. Uma vez confinados, são submetidos a diversos tipos de privações, ordenados ou estimulados a segregar-se em times, competir por comida e itens básicos de sobrevivência e conforto, executar tarefas extenuantes e/ou vexatórias que os exponham propositalmente ao descontrole emocional. Através de tudo isso, são secretamente conduzidos à rivalidade, ao ódio mútuo, à desconfiança constante e generalizada, à conspiração e à sede de vingança – motivo pelo qual não é surpresa que ocasionalmente algum participante exceda os limites do pudor ou da violência e precise ser imediatamente removido do programa. Tudo isso para que, por fim, todos estes intensos afetos sejam purgados na eleição de uma vítima a ser “sacrificada”, o que não acontece sem um ritual de contornos funerários. Toda a nação é convidada a votar no seu “malvado favorito”, esquecendo por instantes da sua própria corrupção, violência e imoralidade.

A isso também servem os programas de fofoca, de casos de família e até os telejornais e redes sociais como o “X” (ex-Twitter), principalmente aqueles de teor mais popular e policial. Oferecem uma quantidade infinita de candidatos de todo o tipo para o linchamento simbólico ou “cancelamento”, do criminoso comum ao chefe do tráfico ou o criminoso de colarinho branco; a celebridade que traiu o marido ou aquele que agrediu a mulher, o médico que matou o paciente, a mãe que abandonou o filho no carro enquanto ia para uma balada… a lista nunca acaba. Assim como tudo o que é sagrado, a maior parte do entretenimento humano origina-se da violência e tem função sacrificial. Todos os dias, lutamos para esquecer da nossa própria animalidade, projetando-as nos eleitos para o paredão de fuzilamento social.

Paulo Nunes

Médico graduado na UFBA em 2005.

Psicoterapeuta Junguiano pós-graduado no IJBA.

Contato: (71) 98355-6564 (Telefone e Whatsapp).

Instagram.com/jungexplica

Bibliografia:

  1. GIRARD, R. A violência e o sagrado. 1 ed. São Paulo: Paz e Terra, 1990.
  2. JUNG, C. G. Símbolos da transformação: análise dos prelúdios de uma esquizofrenia. 7 ed. Petrópolis: Vozes, 2011.
  3. JUNG, C. G. Presente e futuro. Petrópolis: Vozes, 1991.
  4. SEIXAS, R. Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum! São Paulo: Estúdio independente São Paulo, 1987.
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