UMA LEITURA DA PERDA, DA SAUDADE E DA CRIAÇÃO À LUZ DA PSICOLOGIA ANALÍTICA
Por Ermelinda Ganem
Este artigo propõe uma reflexão teórico-vivencial sobre o luto a partir da Psicologia Analítica, articulando contribuições de C. G. Jung e James Hillman à experiência concreta da perda materna, à memória, à imagem e à criação. O texto é escrito durante o processo de luto, e não retrospectivamente, assumindo como questão metodológica a possibilidade de pensar a experiência enquanto ela ainda se encontra em curso. A canção “Pedaço de Mim”, de Chico Buarque, especialmente a imagem poética da saudade como “revés de um parto”, funciona como interlocutora para compreender a transformação do vínculo quando a presença corporal deixa de existir. São examinadas a emergência espontânea de lembranças, a permanência de objetos afetivos, uma experiência perceptiva ocorrida no momento da morte e a produção artística como formas pelas quais a psique responde à ausência. Sustenta-se que o luto não deve ser reduzido a um processo linear de superação, mas compreendido como transformação da relação com aquele que morreu. A perspectiva junguiana permite preservar a realidade psíquica das imagens sem convertê-las automaticamente em afirmações metafísicas ou diagnósticos psicopatológicos, enquanto Hillman contribui para uma atitude de permanência diante da tristeza e das imagens, sem a exigência prematura de cura.
Palavras-chave: luto; saudade; Psicologia Analítica; Jung; Hillman; imagem; criação.
Há textos que nascem depois da experiência, quando aquilo que aconteceu já pôde ser organizado pela memória e submetido a alguma distância reflexiva. Este não é um desses textos. Ele é escrito de dentro do luto, quando a morte ainda não se transformou inteiramente em passado e quando a linguagem precisa aproximar-se de uma experiência que permanece corporal, afetiva e imagética. Minha mãe morreu recentemente, em decorrência de insuficiência respiratória no contexto de um câncer de pâncreas. Escrever sobre a morte, neste momento, significa escrever enquanto a ausência ainda modifica a percepção cotidiana do mundo.
Essa posição exige um cuidado metodológico e ético. Não se pretende transformar uma experiência íntima em confissão, nem utilizar a teoria como defesa contra a dor. Tampouco se deseja produzir uma narrativa exemplar de elaboração ou superação. O que se propõe é observar, a partir da Psicologia Analítica, alguns movimentos espontâneos da psique diante da perda: a irrupção de lembranças, a persistência das imagens, a presença dos objetos, a produção artística, a saudade e a transformação do vínculo com aquele que morreu.
Jung compreendeu a psique como realidade que não se reduz à consciência do ego e cuja linguagem se manifesta frequentemente por imagens, sonhos, fantasias, afetos e símbolos (JUNG, 2013a). Hillman, ao radicalizar a perspectiva imaginal, propõe que a tarefa psicológica não consiste apenas em explicar ou eliminar as imagens, mas em permanecer com elas, escutando sua espessura e sua capacidade de produzir alma (HILLMAN, 2010). Essas duas perspectivas permitem abordar o luto sem reduzi-lo a uma sequência normativa de etapas.
A canção “Pedaço de Mim”, de Chico Buarque, participa deste texto não como objeto de análise literária exaustiva, mas como interlocutora poética. Entre suas imagens, uma se impõe pela precisão simbólica: “a saudade é o revés de um parto” (BUARQUE, 1978). A frase aproxima nascimento e perda por meio de uma inversão. No nascimento, um corpo que estava dentro passa para fora. No luto, alguém que estava fora, concretamente presente no mundo, precisa dolorosamente encontrar outra forma de existir dentro.
A morte produz uma ruptura objetiva incontornável. O corpo deixa de responder, a voz deixa de chegar, os gestos cessam. Há um limite diante do qual nenhuma elaboração simbólica deve ser utilizada para negar a materialidade da perda. Entretanto, a interrupção da presença corporal não determina o desaparecimento imediato da relação psíquica. Ao contrário, muitas vezes é precisamente após a morte que a relação se torna intensamente presente sob outras formas.
Nos dias que se seguiram à morte de minha mãe, a memória começou espontaneamente a apresentar cenas de nossa vida. Não se tratava de uma decisão consciente de recordar. As imagens simplesmente chegavam: momentos da infância, situações familiares, gestos, palavras, cenas aparentemente pequenas. A psique parecia percorrer uma biografia compartilhada. O fenômeno não elimina a ausência; ele mostra que a relação possui uma extensão psíquica que não coincide integralmente com a presença física.
Na perspectiva dos complexos, Jung descreve conteúdos afetivamente carregados que possuem relativa autonomia em relação ao ego (JUNG, 2013a). A morte de uma figura central pode constelar uma rede extensa de imagens, lembranças e afetos. A memória, então, não funciona apenas como arquivo voluntariamente consultado. Ela se comporta como acontecimento. Algo nos recorda.
Esse movimento convida a uma compreensão do luto menos centrada na ideia de desligamento e mais atenta à transformação da forma do vínculo. Não se trata de conservar a pessoa morta como se ainda estivesse concretamente presente, mas tampouco de exigir que a psique apague uma relação fundamental para adaptar-se à realidade. Entre presença e ausência surge uma terceira condição: a relação interiorizada, imaginal, lembrada e recriada.
A expressão “pedaço de mim” contém uma intuição psicológica decisiva. Certas relações participam tão profundamente da constituição da identidade que sua perda é experimentada não apenas como ausência de alguém, mas como alteração da própria geografia interna. O outro ocupava lugares concretos na rotina e, simultaneamente, lugares psíquicos na história, no corpo, na memória e na linguagem.
A saudade, nesse sentido, não é apenas lembrança. Ela possui dimensão corporal. Pode aparecer como aperto, vazio, peso, suspensão, procura automática. O corpo continua orientado para uma presença que já não pode encontrar. Há gestos que ainda esperam resposta. Há frases que surgem com o impulso de serem contadas a quem morreu. A realidade objetiva já mudou; determinadas camadas da psique, entretanto, ainda vivem segundo a antiga configuração relacional.
A Psicologia Analítica permite compreender essa defasagem sem classificá-la imediatamente como falha adaptativa. A psique possui seus próprios ritmos. Hillman (2010) insiste na necessidade de desacelerar a exigência de resolução e permitir que as imagens façam seu trabalho. Aplicada ao luto, essa atitude significa resistir à pressa cultural de converter tristeza em aprendizagem, crescimento ou fechamento.
Talvez a saudade seja o amor depois que o corpo já não pode recebê-lo. A frase não pretende definir a saudade, mas aproximar-se de sua experiência: permanece um movimento afetivo em direção ao outro, embora o destino corporal desse movimento tenha desaparecido.
A imagem criada por Chico Buarque – a saudade como “revés de um parto” – oferece uma formulação particularmente fértil para pensar o luto. O parto inaugura uma separação necessária: aquele que estava contido no corpo materno passa a existir fora dele. A morte realiza uma separação de natureza inteiramente diversa, mas a metáfora permite perceber um movimento inverso. Aquele que estava fora, disponível aos sentidos, precisa adquirir uma nova modalidade de presença no interior da psique.
Não se trata de dizer que o morto simplesmente passa a viver “dentro” do enlutado, como fórmula consoladora. A interiorização é dolorosa, descontínua e nunca substitui a presença concreta. Algo precisa nascer dentro porque morreu fora, mas esse nascimento psíquico não cancela a morte. Ele acontece justamente porque a perda é irreversível.
A metáfora do parto também introduz a temporalidade. Nenhum parto é instantaneamente assimilado; ele altera corpos, relações e identidades. O luto igualmente reorganiza o mundo. A pergunta deixa de ser apenas “como viver sem essa pessoa?” e pode tornar-se “que forma essa relação assumirá agora que o corpo não está mais aqui?”.
Nesse ponto, a saudade não aparece como doença a ser curada. Ela testemunha uma ligação. Seu sofrimento decorre precisamente do valor daquilo que existiu. A tarefa psíquica talvez não seja extingui-la, mas permitir que ela mude de textura ao longo do tempo.
Jung dedicou atenção persistente ao problema da morte e à atitude da psique diante da finitude. Em Memórias, Sonhos, Reflexões, aborda experiências e imagens relacionadas à morte sem reduzir o tema ao que poderia ser demonstrado empiricamente (JUNG, 2016). Sua posição é especialmente útil porque permite reconhecer os limites do conhecimento sem desqualificar aquilo que é vivido.
Durante os momentos finais da vida de minha mãe ocorreu uma experiência que permanece viva em minha memória. Ao entrar no quarto, tive por alguns segundos a percepção de minha mãe elevada acima do leito, com a boca aberta. Minha primeira reação foi concreta e quase absurda: pensei que de algum modo a tivessem colocado naquela posição para ajudá-la a respirar. Mais tarde, uma pessoa que permaneceu ao seu lado até a morte descreveu-a deitada no leito.
Não posso afirmar se aquela percepção correspondeu a uma alteração perceptiva produzida pelo choque, a uma imagem psíquica de enorme intensidade ou a uma experiência de natureza espiritual. Interessa-me, neste trabalho, sua realidade enquanto experiência psíquica. Ela aconteceu para mim e produziu uma imagem. Essa afirmação é diferente de transformá-la em prova objetiva sobre a separação entre alma e corpo.
A distinção é importante. Uma psicologia comprometida com a experiência não precisa escolher precipitadamente entre credulidade metafísica e patologização. Jung oferece uma terceira posição: levar a sério o fenômeno psíquico e, ao mesmo tempo, reconhecer o limite epistemológico da interpretação. A imagem pode ser verdadeira psicologicamente sem que possamos determinar sua ontologia.
Tal atitude é particularmente necessária no luto, período em que sonhos, sensações de presença, coincidências, lembranças vívidas e percepções incomuns podem adquirir grande intensidade. O analista não precisa empobrecê-las transformando-as imediatamente em sintomas, nem inflacioná-las convertendo-as em certezas metafísicas. Pode permanecer diante da imagem e perguntar: que experiência da relação e da morte se apresenta aqui?
Depois da morte, uma sequência de lembranças começou a surgir espontaneamente. Era como se a vida compartilhada estivesse sendo reapresentada em fragmentos. Algumas cenas eram importantes; outras, banais. A ausência parecia iluminar detalhes que, enquanto minha mãe vivia, permaneciam integrados ao cotidiano e por isso quase invisíveis.
A memória do luto não é necessariamente cronológica. Ela obedece a associações afetivas. Um objeto pode convocar uma época; um cheiro pode restituir uma casa; uma frase pode devolver uma voz. Essa forma de memória aproxima-se do funcionamento imaginal descrito pela Psicologia Analítica: os conteúdos se organizam por afinidade simbólica e afetiva, não apenas por causalidade linear.
Hillman (1979) propõe que as imagens possuem autonomia e devem ser encontradas em seu próprio terreno. No luto, talvez seja possível dizer que a memória também imagina. Ela não apenas recupera dados; recompõe cenas e permite que aspectos da relação sejam vistos novamente. A pessoa que morreu aparece sob diferentes idades, humores e circunstâncias. Não existe uma única mãe na memória, mas uma multiplicidade de imagens da mãe ao longo da vida.
Essas imagens não precisam ser organizadas imediatamente numa narrativa coerente. Talvez sua primeira função seja simplesmente aparecer. A pressa interpretativa pode interromper aquilo que a psique está tentando mostrar.
Entre os objetos que fazem parte da história entre mim e minha mãe existe uma pequena tartaruga que recebi dela quando tinha aproximadamente quinze anos. Quando minha mãe adoeceu, antes de sua morte, voltei a usá-la.
Esse dado modifica a própria temporalidade da imagem. A tartaruga não surgiu como resposta posterior à morte. Ela reapareceu durante a doença, quando a possibilidade da perda começava a aproximar-se de nossa relação. Não me recordo de ter realizado uma escolha deliberadamente simbólica. Simplesmente passei a trazê-la novamente junto ao corpo.
Ela acompanhou o adoecimento de minha mãe. Acompanhou minha esperança, meu medo e minha impotência diante daquilo que acontecia. E permanece comigo agora, depois de sua morte. O objeto atravessou, portanto, três tempos: a adolescência, o adoecimento e o luto.
A tartaruga admite amplificações simbólicas relacionadas à longevidade, proteção, interioridade, lentidão e à imagem de carregar a própria casa. Contudo, uma abordagem junguiana cuidadosa não deve impor ao objeto um significado universal. Seu sentido emerge também da biografia. O símbolo não é uma entrada de dicionário; é uma imagem viva em relação com uma história.
Aos quinze anos, idade aproximada em que recebi de minha mãe a pequena tartaruga, outra experiência marcava profundamente minha entrada no mundo adulto: descobria uma condição corporal que, anos depois, exigiria a retirada de meus ovários e impossibilitaria a maternidade biológica. Não pretendo estabelecer entre esses acontecimentos uma relação causal ou atribuir retrospectivamente ao presente recebido um significado que ele necessariamente possuísse naquele momento. Interessa-me, porém, observar a constelação de imagens que hoje se forma: mãe, filha, corpo feminino, perda, transmissão e uma pequena criatura carregada junto ao corpo atravessam o início e, agora, o final de um ciclo.
Se naquela adolescência eu começava a confrontar uma ferida relacionada à possibilidade de tornar-me mãe, décadas depois encontro-me diante da morte daquela que me fez filha. Antes de perder minha mãe, eu já conhecia, em meu próprio corpo, uma forma de luto pela maternidade. Não é necessário concluir que uma experiência explique a outra. Basta reconhecer que a biografia possui ecos e que certas imagens reaparecem em momentos de passagem.
A morte não criou o vínculo simbólico com a tartaruga. Tornou mais visível uma relação que já havia sido reativada diante da ameaça da perda. Entre as duas passagens, uma vida inteira. Nas duas extremidades, a mesma mãe, a mesma filha e a mesma pequena tartaruga.
Uma das contribuições mais importantes de Hillman para uma psicologia do luto é sua crítica à tendência de converter toda experiência dolorosa em problema a ser solucionado. A psicologia, quando excessivamente orientada pela adaptação, pode tornar-se incapaz de reconhecer o valor psíquico da descida, da tristeza e da permanência junto àquilo que fere (HILLMAN, 1979; 2010).
Isso não significa glorificar o sofrimento nem rejeitar cuidado, tratamento ou apoio. Significa apenas reconhecer que existem dores cuja presença é proporcional à importância do vínculo perdido. Curá-las depressa demais pode equivaler a pedir à alma que abandone prematuramente aquilo que ainda necessita ser vivido.
A tristeza do luto não é apenas um obstáculo entre o sujeito e sua vida anterior. A vida anterior já não existe da mesma maneira. O mundo foi modificado pela morte. Nesse sentido, a tristeza também é uma forma de conhecimento: ela informa a dimensão da perda e obriga a consciência a reconhecer uma realidade que o desejo não pode reverter.
A perspectiva hillmaniana convida a descer com a imagem em vez de arrancá-la rapidamente do submundo. O luto possui algo dessa descida. Certas lembranças doem justamente porque ainda carregam vitalidade. Permanecer com elas, sem exigir conclusão imediata, pode constituir uma forma de fidelidade à experiência.
Nos dias posteriores à morte de minha mãe comecei a produzir imagens. A atividade artística trouxe alívio. Seria tentador interpretar esse movimento imediatamente como elaboração criativa do luto ou função transcendente. Prefiro, neste momento, uma formulação mais modesta: a arte ofereceu um recipiente.
A função transcendente, em Jung, refere-se ao processo pelo qual a tensão entre posições conscientes e inconscientes pode produzir uma terceira configuração, não redutível aos polos iniciais (JUNG, 2013a). Entretanto, quando uma experiência ainda está em curso, nomear precocemente sua transformação pode ser uma forma sofisticada de antecipar um resultado que ainda não aconteceu.
A imagem artística permite outra operação. Ela dá forma sem exigir conclusão. Cor, matéria, gesto e composição podem conter algo que a linguagem discursiva ainda não consegue organizar. A arte não precisa explicar a dor para acolhê-la.
Hillman (2010) aproxima a atividade psíquica da atividade imaginal. Fazer uma imagem pode ser também permitir que a alma adquira uma superfície sensível. Nesse sentido, a criação não elimina a ausência. Ela cria um lugar onde a ausência pode aparecer.
A morte confronta a psicologia com uma tensão fundamental entre corpo e imagem. O corpo amado é insubstituível. Nenhuma lembrança, sonho ou obra artística devolve sua materialidade. Ao mesmo tempo, a imagem da pessoa continua ativa na psique.
Minha última imagem viva de minha mãe é particularmente importante para mim. No dia anterior à sua morte, ela ainda conversava comigo e me acariciava. Prefiro reconhecer nessa cena nossa despedida. Não porque ela apague o que aconteceu depois, mas porque preserva um gesto relacional que pertence à vida: voz, contato, reconhecimento e carinho.
Não ter permanecido diante do corpo morto nem acompanhado todas as etapas posteriores não torna menos real o vínculo ou o luto. Cada psique possui limites para aquilo que consegue testemunhar. A imagem final que se estabelece interiormente nem sempre coincide com o último acontecimento cronológico.
A Psicologia Analítica conhece a força organizadora das imagens. Elas não são cópias empobrecidas do real. Constituem uma modalidade própria de experiência psíquica. Por isso, a imagem da mãe viva, acariciando a filha, pode coexistir com o conhecimento objetivo de sua morte. Uma não anula a outra.
Compreender o luto como transformação do vínculo evita dois extremos. O primeiro seria negar a morte e manter a relação como se nada tivesse acontecido. O segundo seria considerar saudável apenas o desligamento progressivo do morto. Entre essas posições existe a possibilidade de uma relação transformada.
O vínculo deixa de depender da reciprocidade corporal imediata e passa a existir por lembranças, valores, gestos herdados, imagens, sonhos, objetos, maneiras de falar e formas de habitar o mundo. Talvez herdar uma mãe seja também descobrir, depois de sua morte, aquilo dela que já vivia em nós.
Essa herança não é necessariamente harmoniosa. Relações profundas contêm amor, ambivalência, conflito, identificação e diferença. A morte não purifica retrospectivamente uma biografia. O trabalho psíquico pode incluir justamente a possibilidade de sustentar uma imagem mais complexa daquele que morreu.
Jung (2014) compreende a individuação como processo de tornar-se aquilo que se é, processo que implica diferenciação e integração de conteúdos inconscientes. A morte de uma figura parental pode constelar questões de identidade e continuidade geracional. Quem sou quando aquela que me reconheceu desde o início de minha vida já não está fisicamente no mundo? A pergunta não possui resposta rápida.
A morte também devolve à psicologia um limite. Há perguntas que permanecem abertas: o que acontece à consciência? Há continuidade? O que significam experiências de presença ou imagens que parecem exceder a expectativa consciente? Uma psicologia que pretenda responder definitivamente a essas questões ultrapassa aquilo que seu método pode sustentar.
Jung, entretanto, recusou igualmente a atitude de considerar irrelevante tudo aquilo que não pudesse ser reduzido ao conhecimento racional. A psique produz imagens da morte, da continuidade e da transformação em todas as culturas. Essas imagens possuem importância psicológica independentemente de uma demonstração metafísica.
Manter o mistério aberto não é abandonar o pensamento crítico. É reconhecer a fronteira do conhecimento. Posso perguntar o que significou perceber minha mãe acima do leito sem concluir que vi sua alma. Posso também recusar a violência de reduzir automaticamente essa experiência a um erro sem significado. Entre certeza e negação existe uma atitude simbólica.
A linguagem cotidiana frequentemente trata a saudade como algo que o tempo deverá diminuir. Provavelmente sua intensidade muda. Contudo, existe uma dimensão da saudade que talvez não desejemos eliminar inteiramente, porque fazê-lo significaria imaginar uma vida em que a relação perdida já não nos toca.
Isso não implica permanecer imobilizado na dor. Implica reconhecer que algumas ausências tornam-se parte da arquitetura da vida. Aprende-se a viver com um lugar vazio sem precisar preenchê-lo com uma substituição.
A imagem do “pedaço de mim” retorna aqui com força. Quando alguém participou profundamente de nossa formação, algo de sua presença permanece incorporado à maneira como sentimos, pensamos e escolhemos. A saudade pode então tornar-se menos uma ferida permanentemente aberta e mais uma região sensível da identidade. Mas escrever isso agora exige cautela: ainda não sei que forma minha própria saudade assumirá.
A criação artística e a escrita surgiram cedo em meu processo de luto. Isso poderia ser lido como sinal de transformação. Entretanto, talvez seja mais fiel à experiência dizer que, neste momento, elas são formas de permanecer junto àquilo que aconteceu.
A cultura contemporânea frequentemente exige que o sofrimento produza rapidamente um sentido. A perda deveria ensinar, fortalecer, transformar. A Psicologia Analítica pode oferecer outra temporalidade. O símbolo verdadeiro não é fabricado pela vontade do ego; emerge quando uma situação contém uma tensão que não pode ser resolvida pelos meios habituais da consciência (JUNG, 2013a).
Se alguma transformação nascer deste luto, ela não precisa ser anunciada antes de existir. Por enquanto, escrever, pintar e recordar são movimentos suficientes. Não preciso transformar minha mãe em ensinamento para justificar sua morte. Não preciso transformar a dor em crescimento para que ela seja psicologicamente legítima.
A criação pode ser compreendida como companhia. Ela permite que algo da experiência seja colocado diante dos olhos, deslocado do corpo para uma superfície e novamente encontrado. Esse gesto talvez não resolva a ausência, mas cria uma relação com ela.
Este artigo foi escrito sem a distância que normalmente separa a experiência de sua análise. Por isso, suas conclusões precisam permanecer abertas. Não posso dizer ainda o que a morte de minha mãe fará de mim. Posso apenas observar o que minha psique faz enquanto atravessa sua ausência. Ela recorda. Produz imagens. Procura objetos. Volta à infância. Pinta. Escreve. E, sobretudo, sente saudade.
A saudade talvez seja o amor quando o corpo daquele que amamos já não pode recebê-lo.
Chico Buarque a chamou de “revés de um parto”. A imagem é precisa porque contém uma inversão dolorosa: no parto, aquilo que habitava dentro de nós ganha existência no mundo; na morte, aquele que existia no mundo precisa encontrar uma nova forma de habitar em nós. Não se trata de substituir a presença perdida. Nenhuma imagem substitui um corpo amado. Trata-se de descobrir, lentamente, que a relação não desaparece no mesmo instante em que desaparece o corpo.
Escrevo, portanto, sem saber ainda o desfecho deste processo. Escrevo de dentro do luto. A analista que procura compreender estas imagens é também a filha que perdeu a mãe. Talvez seja justamente essa impossibilidade de separar inteiramente conhecimento e experiência que dê sentido a estas páginas.
Minha mãe morreu. Há uma parte dessa frase que pertence ao mundo objetivo e é irremediável. Mas há outra história acontecendo na psique — feita de lembranças, imagens, sonhos, objetos, gestos e afetos cuja trajetória ainda desconheço.
Por enquanto, não preciso saber onde ela termina.
Carrego comigo uma pequena tartaruga que minha mãe me deu quando eu tinha aproximadamente quinze anos. Voltei a usá-la quando ela adoeceu. Ela esteve comigo enquanto minha mãe ainda estava aqui. Está comigo agora.
Entre aquela menina e a mulher que hoje escreve há uma vida inteira. Nas duas extremidades dessa vida, encontro a mesma mãe, a mesma filha e a mesma pequena tartaruga.
Talvez o luto comece justamente aí: quando compreendemos que aquilo que foi arrancado de nós continua, de alguma maneira, sendo um pedaço de nós.
Ermelinda Ganem Fernandes – Médica · Psicoterapeuta Junguiana · Doutora em Engenharia e Gestão do Conhecimento · Coordenadora do Curso de Pós-Graduação em Terapia Junguiana e Criatividade do IJBA
BUARQUE, Chico. Pedaço de mim. In: BUARQUE, Chico. Ópera do malandro. Rio de Janeiro: Philips, 1978.
HILLMAN, James. The dream and the underworld. New York: Harper & Row, 1979.
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HILLMAN, James. A blue fire: selected writings by James Hillman. New York: Harper Perennial, 1997.
HILLMAN, James; VENTURA, Michael. We’ve had a hundred years of psychotherapy — and the world’s getting worse. New York: HarperOne, 1993.
HILLMAN, James. Psicologia arquetípica: um breve relato. São Paulo: Cultrix, 2010.
JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013a. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 8/2).
JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 9/1).
JUNG, Carl Gustav. Memórias, sonhos, reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.
JUNG, Carl Gustav et al. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2016.