A Odisseia: do mito à tragédia

No início dos anos 2000, o avanço da computação gráfica possibilitou um intenso período de adaptações de histórias em quadrinhos e literatura de ficção para o cinema. As versões de “O Senhor dos Anéis” (Peter Jackson, 2001 a 2003) e “Harry Potter” (vários diretores, 2001 a 2011)  para o cinema ensinaram a Hollywood que filmar literatura de fantasia era lucro garantido. Mas a fórmula foi usada à exaustão e o que se seguiu foi uma febre de produções do chamado Universo Cinematográfico Marvel, que tomou conta da indústria e tornou cada vez mais difícil produzir – e encontrar nos cinemas – filmes que não seguissem a mesma cartilha da “saga do herói”, repetida ad nauseam.

Mas não é só de um Odisseu em terapia que vive o roteiro de Nolan. Um importante tema incorporado à trama é a noção moderna de que Homero cantava a história de uma civilização que havia deixado de existir há pelo menos 200 anos. A tese do fim da Idade do Bronze em associação com os temíveis “Povos do Mar” é explorada na obra do historiador estadunidense Eric Cline, que tudo indica ter sido uma importante referência para o roteiro do filme. Para Cline, a civilização próspera que florescia ao redor do Mediterrâneo oriental no século XII antes de Cristo, cheia de nações interconectadas por um rico comércio e uma língua franca à qual pertenciam Grécia e Tróia retratadas na obra de Homero, ruiu por conta de uma “tempestade perfeita” de fatores climáticos e antropológicos como terremotos, seca prolongada e uma epidemia de violência trazida pelos chamados “Povos do Mar”.5

Odisseu (Matt Damon) dentro de Tróia em chamas, estupefato pela destruição que causou (Universal Pictures).

A Odisseia de Christopher Nolan é trágica porque é contada sob a perspectiva de um protagonista que carrega sozinho a consciência da crise sacrificial. Nela, mesmo que a trama da vingança permaneça intacta e as transgressões de Odisseu sejam bastante atenuadas, não há heróis. Quando finalmente retorna para casa, o protagonista veste os farrapos de um pedinte, o que na obra clássica é uma ilusão criada pela deusa Athena para ocultá-lo dos seus adversários e mantê-lo anônimo enquanto testa a fidelidade de sua esposa. No cinema, vemos um rei cuja mendicância não é apenas um disfarce, mas sim o estado de espírito de um homem castigado pela culpa. Aparentemente sem ser reconhecido, Odisseu relata à esposa o sucesso da invasão grega com o cavalo de Tróia. Nesta memória, ele não marcha confiante nas ruas da cidade duramente conquistada ostentando a glória de um herói de guerra; ele cambaleia, desnorteado por uma epifania que esvazia sua vitória de qualquer sentimento de triunfo: não há mais como distinguir gregos de troianos, aliados de inimigos, bons de maus. São todos sócios de uma mesma empreitada violenta, tornados iguais pela guerra interminável que corrói toda a civilização, viola as leis divinas e que, sem exceção, os converte em monstros ébrios do sangue alheio, que não saciam-se até que a aniquilação tenha sido completa.

O próprio Odisseu anuncia as consequências últimas da crise sacrificial em sua derradeira conversa diante de Athena. O rumor do Povo do Mar, selvagens que traziam a devastação de reino em reino, era nada mais que a infâmia que ele próprio e seus soldados espalharam no caminho de volta a Ítaca. Para ele, a guerra de Tróia foi muito mais que uma disputa entre dois povos. Era agora contágio, epidemia de ódio que transborda o campo de batalha e causa fim de toda uma era:

1.HOMERO. Odisseia. Tradução de Trajano Vieira. São Paulo: Editora 34, 2011.

2. NOLAN, C. (Direção). A Odisseia. Estados Unidos: Universal Pictures / Syncopy, 2026. 1 f. (aprox. 180 min.). Tradução do autor.

3. JUNG, C. G. Símbolos da transformação: análise dos prelúdios de uma esquizofrenia. 7 ed. Petrópolis: Vozes, 2011.

4. JUNG, C. G. A vida simbólica, v.1. Petrópolis, Vozes, 2011.

5. CLINE, E. H. 1177 B.C.: The Year Civilization Collapsed. Revised and updated edition. Princeton: Princeton University Press, 2021.

6. GIRARD, R. A violência e o sagrado. 1 ed. São Paulo: Paz e Terra, 1990.

7. IDEM, p. 62 em diante.

8. IBIDEM, p. 20 em diante.

9. Op. cit. cf. nº 4. Tradução do autor.

10. RIVERS, M., YU, M., DETROW, S. e WEINREICH, Z. How Christopher Nolan filmed his adaptation of ‘The Odyssey’ ‘without compromise’. NPR Illinois, 2026. Disponivel em https://www.nprillinois.org/2026-07-16/how-christopher-nolan-filmed-his-adaptation-of-the-odyssey-without-compromise, último acesso em 31/08/2026.

11. J. ROBERT OPPENHEIMER (verbete). In: Wikipedia. Disponível em https://en.wikipedia.org/wiki/J._Robert_Oppenheimer, último acesso em 31/08/2026.