Por Márcio deAbreu
Como algo em nossa experiência se torna significativo?
Aquilo que conseguimos significar esgota necessariamente aquilo que produz sentido?
Embora semelhantes, as duas perguntas apontam para problemas distintos. A primeira dirige nossa atenção para os processos pelos quais acontecimentos, imagens, palavras, objetos ou relações adquirem significado e passam a orientar nossa experiência. A segunda introduz uma dificuldade adicional: pergunta se tudo aquilo que participa desses processos pode ser apreendido pelos significados que somos capazes de produzir. Entre uma questão e outra há, portanto, uma mudança importante de perspectiva. Já não se trata apenas de compreender como produzimos sentidos, mas também de considerar o que pode permanecer parcialmente indeterminado, embora continue participando dessa produção.
Essas duas questões encontram desenvolvimentos bastante diferentes em duas tradições da Psicologia que, à primeira vista, possuem pouco em comum. A Psicologia Cultural Semiótica (PCS) oferece um complexo aparato conceitual para compreender como os seres humanos constroem significados e regulam, por meio deles, sua relação com o mundo. A Psicologia Analítica, por sua vez, dedica especial atenção a experiências que não se deixam apreender inteiramente por significados já conhecidos ou formuláveis. Se a primeira nos fornece o signo e os processos de regulação afetivo-semiótica como ferramentas para investigar a construção do significado, a segunda encontra no símbolo formas de pensar aquilo que participa da produção de sentido sem se deixar reduzir inteiramente ao que dele conseguimos compreender.
A Psicologia Analítica certamente não ignora os processos de produção de sentido. Afirmar, por exemplo, que um complexo foi constelado pressupõe que aquilo que experimentamos diante de uma situação ou objeto não decorre simplesmente de um significado psicológico previamente dado. A afirmação, contudo, pouco nos diz sobre o processo que se interpõe entre aquilo que acontece e a maneira como o experimentamos. O mundo não chega até nós simplesmente como uma sucessão de fatos objetivos aos quais respondemos. Nós o encontramos por meio de significados construídos ao longo de nossa história e continuamente reconstruídos no presente. E, embora Jung soubesse disso, os processos pelos quais esses significados são construídos e passam a regular nossa experiência permanecem subteorizados. A Psicologia Analítica nos ensina que um complexo pode ser constelado, mas não necessariamente explica os processos pelos quais determinada experiência adquire a qualidade afetiva e significativa capaz de constelá-lo.
A PCS se ocupa precisamente desse nível do problema. O signo não é tomado apenas como veículo de comunicação ou representação de algo previamente existente, mas como mediador da relação entre a pessoa e o mundo. Signos mobilizam afetos, estabelecem relações entre passado, presente e futuro, organizam a experiência e participam da orientação da ação. A noção de regulação afetivo-semiótica permite pensar como determinados significados adquirem força reguladora, enquanto outros permanecem periféricos ou simplesmente desaparecem.
Vista dessa perspectiva, a linguagem junguiana dos complexos ganha uma pergunta adicional. Não se trata apenas de investigar quais conteúdos constituem determinado complexo ou em que circunstâncias ele é constelado, mas como se constitui a própria relação de significação por meio da qual algo presente adquire a capacidade de mobilizar uma organização afetiva que o ultrapassa. A PCS não substitui a explicação junguiana do complexo. Ela chama a atenção para um nível do processo que a Psicologia Analítica não parece ter tido particular interesse em teorizar de maneira sistemática.
O movimento inverso apresenta uma dificuldade de outra natureza.
Se a PCS dispõe de um aparato conceitual sofisticado para investigar como os significados emergem, se transformam e regulam a experiência, permanece a questão sobre os limites desse processo. Há experiências que parecem exceder aquilo que conseguimos delas apreender. Há afetos que antecedem sua própria formulação, imagens cujo poder não se esgota nas associações que produzem e momentos em que sabemos estar diante de algo significativo sem sermos capazes de determinar exatamente o que significa.
Se aquilo que procuramos conhecer só se torna acessível por meio de suas manifestações – seja na forma de uma imagem, um gesto ou um comportamento -, permanece aberta a questão sobre a relação entre essas manifestações e aquilo que nelas se manifesta. Podemos investigar suas transformações, acompanhar seus efeitos e reconstruir os processos pelos quais adquirem significado. Mais difícil é determinar se, ao fazê-lo, apreendemos integralmente aquilo que participa da produção desse sentido.
A Psicologia Analítica assume uma posição particularmente interessante diante desse limite. O símbolo, em Jung, não designa simplesmente algo cujo significado ainda desconhecemos, mas que poderíamos eventualmente decifrar. Seu caráter simbólico depende justamente de não poder ser inteiramente apreendido ou formulado. Quando aquilo que uma imagem expressa pode ser traduzido de maneira exaustiva em um significado conhecido, já não estamos, em sentido estritamente junguiano, diante de um símbolo.
O conceito de arquétipo torna esse limite ainda mais radical. O arquétipo em si não constitui um conteúdo diretamente acessível à consciência. Conhecemos suas manifestações, suas imagens e seus efeitos organizadores, mas aquilo que Jung denomina arquétipo em si permanece, por definição, inapreensível. A Psicologia Analítica introduz, assim, uma espécie de reserva epistemológica: reconhecer que algo participa da produção de sentido não implica supor que esse algo possa ser inteiramente convertido em significado.
Isso não transforma Jung numa resposta aos limites da PCS. Tampouco a PCS deve tornar-se uma fundamentação semiótica para conceitos junguianos. O interesse do diálogo reside justamente em evitar esse tipo de assimilação.
Há, naturalmente, diferenças importantes entre os dois projetos. A Psicologia Analítica desenvolveu-se em estreita relação com questões provenientes da prática clínica e com base em pressupostos teóricos e epistemológicos que atribuem ao inconsciente um lugar fundamental na estrutura e na dinâmica da psique, admitindo ainda a participação de fatores que não se reduzem à história pessoal ou ao contexto sociocultural do indivíduo.
A PCS, por sua vez, está particularmente interessada nos processos pelos quais os seres humanos constroem significados, regulam suas relações com o mundo e se transformam ao longo do tempo. Isso não significa que a Psicologia Analítica não se ocupe desses processos, tampouco que os conceitos da PCS sejam irrelevantes para a clínica. As duas perspectivas podem permanecer teoricamente distintas e, ainda assim, ampliar o campo de questões que cada uma delas nos permite formular. A PCS oferece instrumentos para investigar os processos pelos quais algo se torna significativo, sem que isso necessariamente implique supor que tudo aquilo que participa desses processos possa ser inteiramente apreendido. A Psicologia Analítica, por sua vez, preserva a possibilidade de que aquilo que participa da produção de sentido não se esgote nos significados que conseguimos construir a seu respeito.
O diálogo entre as duas perspectivas pode, então, ser condensado nas duas perguntas que inauguram estas reflexões. A PCS coloca diante da Psicologia Analítica uma pergunta fundamental: como algo em nossa experiência se torna significativo?
A Psicologia Analítica devolve outra: aquilo que conseguimos significar esgota necessariamente aquilo que produz sentido?
Para o analista junguiano, esse diálogo pode ampliar o olhar sobre aquilo que acontece antes de dizermos que um complexo foi constelado: os processos pelos quais uma situação adquire determinada qualidade afetiva, passa a remeter a outras experiências e se torna capaz de mobilizar formas particulares de sentir, pensar e agir. Para o pesquisador da PCS, o movimento é diferente. O encontro com a Psicologia Analítica convida a levar mais longe a pergunta sobre os limites da própria significação, preservando a possibilidade de que nem tudo aquilo que participa da produção de sentido possa ser inteiramente apreendido pelos significados que construímos.
Entre o signo e o símbolo, portanto, não proponho uma sobreposição teórica, mas um espaço de interlocução no qual cada perspectiva pode tornar mais visíveis tanto as possibilidades quanto os limites da outra.
Referências
De Abreu, M. N. (2025). Are there meanings without words? A critical dialogue with Jaan Valsiner on language, signification, and the nature of experience. VIII International Seminar on Cultural Psychology, Salvador, Bahia, Brasil.
Jacobi, J. (2016). Complexo, arquétipo e símbolo na psicologia de C. G. Jung. Petrópolis: Vozes.
Valsiner, J. (2025). Beyond words: cultural psychology in trouble. VIII Seminário Internacional de Psicologia Cultural: Cannibalizing Cultural Psychology, Salvador, Bahia, Brazil.
MÁRCIO N. DE ABREU – Analista junguiano com especialização em Processo Criativo e Facilitação de Grupos pelo Instituto Junguiano da Bahia (IJBA). Doutor em Psicologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Mestre em Teoria Crítica e Estudos Culturais pela The University of Nottingham e em Cultura e Sociedade pela UFBA. Bacharel em História com Habilitação em Patrimônio Cultural pela Universidade Católica do Salvador (UCSAL).