Do signo ao símbolo –  Entre a produção de sentido e os limites da significação

Por Márcio deAbreu

O conceito de arquétipo torna esse limite ainda mais radical. O arquétipo em si não constitui um conteúdo diretamente acessível à consciência. Conhecemos suas manifestações, suas imagens e seus efeitos organizadores, mas aquilo que Jung denomina arquétipo em si permanece, por definição, inapreensível. A Psicologia Analítica introduz, assim, uma espécie de reserva epistemológica: reconhecer que algo participa da produção de sentido não implica supor que esse algo possa ser inteiramente convertido em significado.

Há, naturalmente, diferenças importantes entre os dois projetos. A Psicologia Analítica desenvolveu-se em estreita relação com questões provenientes da prática clínica e com base em pressupostos teóricos e epistemológicos que atribuem ao inconsciente um lugar fundamental na estrutura e na dinâmica da psique, admitindo ainda a participação de fatores que não se reduzem à história pessoal ou ao contexto sociocultural do indivíduo.

Para o analista junguiano, esse diálogo pode ampliar o olhar sobre aquilo que acontece antes de dizermos que um complexo foi constelado: os processos pelos quais uma situação adquire determinada qualidade afetiva, passa a remeter a outras experiências e se torna capaz de mobilizar formas particulares de sentir, pensar e agir. Para o pesquisador da PCS, o movimento é diferente. O encontro com a Psicologia Analítica convida a levar mais longe a pergunta sobre os limites da própria significação, preservando a possibilidade de que nem tudo aquilo que participa da produção de sentido possa ser inteiramente apreendido pelos significados que construímos.