Por Ermelinda Ganem
Resumo: A água constitui uma das imagens recorrentes nos sonhos e nas representações simbólicas dos processos de transformação psíquica. Na tradição alquímica, a solutio corresponde à dissolução de uma substância em meio líquido, desfazendo uma forma anteriormente constituída e possibilitando novas combinações. Este artigo discute a solutio nos sonhos e nas transformações psíquicas a partir de C. G. Jung e James Hillman. Como imagem inaugural, apresenta-se um sonho em que uma sonhadora se encontra numa praia, observa uma mulher com uma criança e vê o mar tornar-se revolto até formar um redemoinho, diante do qual grita: “Cuidado com a criança!”. A imagem é tratada como campo imaginal a ser amplificado, e não como código a ser traduzido de modo definitivo. Discutem-se o mar, a praia, o redemoinho, a mulher e a criança, bem como diferentes manifestações oníricas da água. A experiência visionária de Jung em 1913, no período posterior ao rompimento com Freud, é utilizada como amplificação histórica de uma passagem marcada pela dissolução de referências anteriores e pela emergência progressiva de uma nova posição psicológica. Argumenta-se que a solutio não deve ser confundida com mera destruição ou regressão: ela pode designar um momento de perda de rigidez das formas psíquicas, desde que articulada à contenção, à discriminação consciente e à possibilidade posterior de nova configuração.
Palavras-chave: Solutio. Sonhos. Alquimia. Psicologia Analítica. Jung. Hillman. Transformação psíquica.
Um sonho começa à beira-mar. A sonhadora encontra-se em uma praia e observa uma mulher acompanhada de uma criança. A cena parece inicialmente organizada em torno de uma fronteira conhecida: de um lado, a terra firme; de outro, o mar. Subitamente, porém, a paisagem se modifica. O mar torna-se revolto e suas águas começam a formar um redemoinho. Diante da força crescente da água e da presença da criança próxima a ela, a sonhadora grita: “Cuidado com a criança!”.
A imagem poderia ser imediatamente submetida a inúmeras interpretações. Poder-se-ia perguntar quem é a mulher, o que representa a criança, por que o mar se torna revolto ou o que significa o redemoinho. Entretanto, uma abordagem imaginal exige que se resista, ao menos inicialmente, à tentação de converter a imagem em conceito. Antes de perguntar o que o sonho significa, é necessário permanecer diante daquilo que ele apresenta: uma praia, uma mulher, uma criança, um mar que se transforma, um redemoinho e uma voz que procura proteger aquilo que percebe como vulnerável.
Essa permanência diante da imagem encontra ressonância tanto na Psicologia Analítica de C. G. Jung quanto na psicologia arquetípica de James Hillman. Para Jung (2013), os sonhos constituem manifestações espontâneas da psique inconsciente e podem exercer função compensatória em relação à atitude consciente. Sua compreensão, portanto, não deveria resultar da aplicação mecânica de significados previamente estabelecidos. A amplificação aproxima a imagem individual de motivos mitológicos, religiosos, culturais e históricos sem eliminar sua singularidade.
Hillman (1979), radicalizando a importância da imagem, propõe que o sonho seja abordado a partir de sua própria realidade imaginal. Em vez de conduzir imediatamente suas figuras para fora do sonho, transformando-as em conceitos psicológicos, seria necessário permanecer com elas, observando qualidades, relações, movimentos e atmosferas. A imagem não seria mero revestimento de algo mais verdadeiro situado atrás dela; ela própria constitui uma modalidade de manifestação da psique.
Essa perspectiva torna-se particularmente fecunda diante das imagens da água. Rios, mares, chuvas, enchentes, lagos, fontes, banhos, lágrimas, afogamentos e redemoinhos atravessam sonhos, mitos e narrativas religiosas. A água pode nutrir e destruir, sustentar a vida e ameaçá-la, limpar e dissolver, conduzir à superfície ou arrastar para as profundezas. Sua ambivalência impede que seja reduzida a um significado único.
No simbolismo alquímico estudado por Jung, essa dimensão adquire particular importância por meio da operação alquímica denominada solutio. Materialmente, a solutio consiste na dissolução de uma substância em um líquido. Aquilo que possuía forma, delimitação e consistência é submetido a um meio capaz de alterar sua organização anterior. Psicologicamente, a imagem pode representar situações nas quais formas cristalizadas da personalidade, identificações do ego ou atitudes conscientes perdem rigidez, permitindo novas relações entre conteúdos antes separados.
Dissolver, entretanto, não significa simplesmente destruir. A alquimia oferece uma perspectiva paradoxal: determinadas formas precisam perder sua organização anterior para que outra configuração se torne possível. A dissolução participa, assim, de um processo transformativo mais amplo. Há momentos da existência nos quais convicções deixam de sustentar, papéis tornam-se insuficientes, relações se modificam e imagens de identidade já não correspondem à experiência interior. A forma através da qual o sujeito se reconhecia já não consegue conter completamente aquilo que está vivendo.
No sonho inaugural, a transformação não começa em alto-mar, mas diante de uma praia. A praia é uma região de passagem submetida continuamente ao movimento das águas. A maré avança e recua, redesenhando seus limites. Como imagem psíquica, pode ser compreendida como espaço liminar entre diferentes modos de organização da experiência. Não se trata de afirmar simplesmente que terra significa consciência e mar significa inconsciente, mas de observar a dinâmica apresentada: uma margem relativamente estável diante de uma massa líquida em movimento.
Precisamente nesse limite encontram-se uma mulher e uma criança. Quando o mar se transforma em redemoinho, a reação imediata do sonhador não é fugir nem controlar as águas. É proteger: “Cuidado com a criança!”. A frase introduz uma questão central: o que, numa grande transformação psíquica, precisa ser dissolvido e o que precisa ser preservado para não ser arrastado pela dissolução? A criança pode ressoar com o motivo arquetípico estudado por Jung, relacionado simultaneamente à vulnerabilidade e às possibilidades futuras de desenvolvimento, sem que seja necessário identificá-la de modo definitivo com um conceito (JUNG, 2014).
A aproximação entre alquimia e psicologia constitui um dos movimentos mais singulares da obra madura de Jung. Ao estudar textos e imagens alquímicas, ele percebeu paralelos entre operações descritas pelos alquimistas e processos observados nos sonhos e fantasias de seus pacientes. A alquimia ofereceu-lhe uma linguagem histórica e simbólica capaz de ampliar fenômenos que a psicologia moderna encontrava dificuldade para descrever (JUNG, 2012).
As imagens alquímicas não deveriam ser compreendidas somente como tentativas primitivas de produzir transformações químicas. O trabalho realizado no laboratório era acompanhado por projeções inconscientes; enquanto o alquimista manipulava substâncias, metais, fogo, água e recipientes, conteúdos psíquicos participavam imaginativamente da experiência. O opus podia tornar-se também palco de um drama psíquico.
Nesse contexto, operações como calcinatio, solutio, coagulatio, sublimatio, mortificatio, separatio e coniunctio adquirem valor para a compreensão simbólica das transformações da personalidade. A solutio ocupa lugar particular porque confronta a forma com aquilo que pode dissolvê-la: o sólido encontra o líquido; a delimitação encontra a continuidade; aquilo que podia ser segurado perde consistência.
Psicologicamente, a imagem aponta para experiências nas quais o ego encontra forças capazes de relativizar suas formas habituais de organização. Isso não significa necessariamente sua destruição. Significa que ele deixa, ao menos temporariamente, de ocupar a posição de senhor absoluto da experiência. A água recorda à consciência que existe uma psique maior do que aquilo que ela consegue iluminar.
A consciência tende a buscar continuidade. O ego organiza a experiência construindo narrativas relativamente estáveis sobre identidade, relações e projetos. Essa estabilidade é necessária, mas o processo de individuação não corresponde ao aperfeiçoamento linear da identidade já existente. Em determinados momentos, a própria identidade consciente precisa ser relativizada para que aspectos anteriormente excluídos adquiram expressão. Por isso, desenvolvimento pode ser vivido subjetivamente como perda: perda de certezas, identificações, controle e referências.
É indispensável, contudo, uma distinção clínica: nem toda desorganização deve ser romantizada como transformação, e nem toda experiência de sofrimento constitui individuação. A perspectiva simbólica não substitui avaliação clínica, psicopatológica ou médica quando necessária. O símbolo permite formular, paralelamente, outra pergunta: que transformação procura acontecer através dessa experiência?
A alquimia oferece ainda a imagem do vaso. A matéria precisa de um recipiente capaz de sustentar as transformações do opus. Se a solutio implica dissolução, o processo necessita simultaneamente de contenção; caso contrário, aquilo que deveria ser transformado simplesmente se dispersa. Na situação analítica, o enquadre e a relação terapêutica podem exercer função semelhante. Também a escrita, a arte, o corpo, um vínculo ou o próprio sonho podem tornar-se recipientes para experiências que, sem imagem, seriam vividas apenas como afeto difuso.
O sonho oferece uma forma: há praia, mulher, criança, mar e redemoinho. A angústia recebe uma paisagem. Aquilo que não possuía forma passa a ter imagem, e quando o afeto encontra uma imagem torna-se possível estabelecer uma relação com ele.
A contribuição de Hillman é particularmente relevante porque impede que a linguagem alquímica seja transformada em novo dicionário psicológico. Em The Dream and the Underworld, Hillman (1979) critica abordagens que retiram rapidamente as imagens do sonho de seu ambiente próprio para traduzi-las em acontecimentos da vida diurna. Quando uma figura onírica é imediatamente convertida em pessoa concreta, diagnóstico ou explicação causal, corre-se o risco de perder precisamente aquilo que o sonho apresentou.
Diante de um redemoinho, seria possível dizer rapidamente que ele representa um complexo, o inconsciente ou uma crise. Tais interpretações podem eventualmente ter valor, mas empobrecem a imagem se a substituem. O redemoinho gira, cria um centro móvel, atrai aquilo que está próximo, altera a superfície do mar, pode sugar e submergir. A linguagem imaginal devolve à experiência sua densidade.
Em Alchemical Psychology, Hillman (2010) retorna à alquimia justamente porque ela permite pensar psicologicamente através de imagens materiais: fogo, água, sal, enxofre, mercúrio, pedra, putrefação, evaporação e dissolução. A linguagem alquímica não explica a psique de fora; imagina seus movimentos. A solutio pode então ser vista: algo endurecido amolece, algo delimitado perde fronteiras, algo seco recebe água, algo fixado volta a circular.
A pergunta “o que significa esta água?” pode ser inicialmente substituída por “como essa água se apresenta?”. Uma piscina não é um oceano; uma fonte não é uma enchente; uma lágrima não é um tsunami; um banho não é um afogamento. Todos pertencem ao universo líquido, mas configuram experiências psíquicas distintas. Essa fidelidade à imagem não elimina a interpretação: torna-a mais precisa e menos redutiva.
Se a solutio for compreendida exclusivamente a partir de imagens de inundação, afogamento ou redemoinho, corre-se o risco de associá-la apenas a crise e desorganização. Entretanto, a água dissolve, mas também lava, amolece, mistura, refresca, fecunda, transporta, penetra e sustenta a vida. A maneira como aparece em cada sonho é decisiva.
Existem sonhos nos quais a aproximação da água não produz terror. O sonhador encontra um lago, caminha à margem de um rio ou entra voluntariamente no mar. Pode nadar, flutuar ou permanecer dentro da água. Nessas imagens, a dissolução pode ser consentida. Entrar voluntariamente na água implica relação diferente com a transformação daquela em que uma onda arrasta o sonhador contra sua vontade. Em ambas existe água, mas a relação ego-imagem é profundamente diferente.
A chuva introduz outra configuração. Diferentemente do oceano, estendido horizontalmente, a chuva cai e encontra a terra. Pode fecundar uma paisagem ressecada, interromper um percurso, limpar, inundar ou impedir a visão. Em uma perspectiva alquímica, o encontro entre água e terra é particularmente significativo: aquilo que estava seco recebe umidade e aquilo que endureceu pode tornar-se permeável. A solutio aparece então não apenas como perda de forma, mas como recuperação da capacidade de sentir e ser afetado.
As lágrimas talvez constituam uma das formas mais humanas da água. Tornam visível no corpo aquilo que não consegue permanecer exclusivamente no campo das palavras. Há momentos clínicos em que uma história dolorosa pode ser narrada de maneira seca até que uma palavra, lembrança, imagem ou silêncio permita o surgimento das lágrimas. Chorar não resolve necessariamente o conflito, mas pode modificar a relação com aquilo que estava congelado: a matéria psíquica volta a circular.
O rio acrescenta movimento e direção. O sonhador pode observá-lo, nadar contra a corrente, deixar-se conduzir, atravessá-lo ou encontrar uma ponte. Atravessar rios é motivo recorrente em mitologias e narrativas religiosas associado a passagens entre estados ou mundos, mas a amplificação não deve substituir a imagem individual. Sua função é ampliar ressonâncias.
A qualidade da água também merece atenção. Ela pode ser transparente, escura, barrenta ou opaca. Seria precipitado afirmar que água limpa é positiva e água turva negativa. A possibilidade ou impossibilidade de enxergar através dela introduz outra pergunta: até que ponto a consciência consegue perceber aquilo em que está entrando? Existem transformações nas quais alguma compreensão já é possível; em outras, não se vê o fundo. A solutio pode exigir tolerar certo grau de não saber.
Entre as imagens aquáticas, o oceano confronta intensamente o ser humano com a desproporção. O horizonte ultrapassa o campo visual, a profundidade não pode ser diretamente percebida e a superfície encobre um mundo abaixo dela. Sem estabelecer equivalência rígida entre oceano e inconsciente coletivo, a imagem oferece uma analogia para a relação entre ego e totalidade psíquica: o ego constitui o centro do campo da consciência, mas não equivale à totalidade da personalidade. O encontro com a água pode relativizar sua pretensão de representar o todo.
Nenhuma operação alquímica pode ser compreendida isoladamente. Se tudo permanecesse indefinidamente dissolvido, nenhuma nova forma poderia emergir. A solutio necessita encontrar, em algum momento, uma coagulatio. Dissolver sem jamais coagular pode resultar em dispersão; coagular sem jamais dissolver pode resultar em petrificação. A transformação psíquica acontece na tensão e no movimento entre essas condições.
Essa dinâmica aproxima a solutio do conceito junguiano de função transcendente. Para Jung, a transformação psicológica não acontece necessariamente quando um polo elimina o outro. Consciência e inconsciente podem apresentar posições inicialmente inconciliáveis; sustentar sua tensão pode favorecer a emergência de uma terceira configuração que não estava previamente disponível (JUNG, 2013). “Transcendente”, nesse contexto, refere-se à passagem para uma nova atitude, e não necessariamente a uma experiência metafísica.
A solutio pode operar nesse intervalo. Posições endurecidas perdem rigidez, aquilo que parecia absolutamente incompatível pode adquirir mobilidade e novas combinações tornam-se possíveis. Por isso, determinados períodos de transformação são acompanhados por incerteza: a identidade anterior perdeu evidência e a nova ainda não existe.
Essa perspectiva distingue transformação de simples restauração. Diante de uma crise profunda, existe frequentemente o desejo de voltar a ser como antes. Mas depois de determinadas experiências a questão pode tornar-se outra: que forma pode agora emergir daquilo que foi vivido? A cura psicológica nem sempre significa retorno; pode significar transformação.
Toda transformação necessita, contudo, adquirir corpo. Uma compreensão precisa tornar-se escolha, uma imagem precisa encontrar expressão e uma mudança interior precisa produzir alguma relação com a existência concreta. Aqui a solutio encontra a coagulatio: a água retorna à terra, e aquilo que se tornou móvel procura novamente uma forma, não necessariamente a forma antiga.
A experiência vivida por Jung entre 1913 e os anos subsequentes oferece uma amplificação expressiva dessa dinâmica. Após o rompimento com Freud e em meio a uma profunda transformação de sua posição intelectual, Jung começou a experimentar sonhos, fantasias e visões de grande intensidade. Em Memórias, sonhos, reflexões, relata a visão de uma inundação que cobria extensas regiões da Europa, destruía cidades e carregava corpos; em seguida, as águas adquiriam a aparência de sangue (JUNG, 2006).
Inicialmente, Jung não possuía uma explicação segura para a experiência e temeu que estivesse diante de uma grave desorganização pessoal. Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em agosto de 1914, passou a considerar que aquelas imagens também continham uma dimensão coletiva. Essa leitura retrospectiva não exige transformar a experiência em profecia. O ponto psicologicamente relevante é que uma imagem de inundação surgiu simultaneamente a uma ruptura pessoal e intelectual e, posteriormente, pôde ser relacionada por Jung a acontecimentos coletivos devastadores.
As águas podem ser consideradas, portanto, em suas dimensões pessoal e coletiva sem que uma anule a outra. Uma organização anterior de sua identidade intelectual encontrava-se em transformação, ao mesmo tempo em que a Europa caminhava para a guerra. A imagem da solutio oferece uma amplificação possível dessa passagem: antigas referências perdem estabilidade antes que uma nova configuração possa adquirir forma.
É importante evitar uma causalidade simplificadora segundo a qual a visão teria “produzido” a Psicologia Analítica. A nova psicologia de Jung foi construída progressivamente por meio de trabalho clínico, elaboração conceitual, confronto com imagens, estudo comparativo e escrita. O episódio interessa porque mostra que, durante uma transformação, a forma futura não está previamente garantida. Conhecemos retrospectivamente a obra que Jung construiria; o Jung de 1913 não a conhecia.
A solutio, nesse sentido, não entrega antecipadamente a nova forma. Ela dissolve. A posterior transformação não elimina a angústia da passagem. Essa característica aproxima a experiência biográfica de Jung da estrutura de muitos sonhos de água: o sujeito encontra uma força maior do que seu planejamento consciente e precisa estabelecer alguma relação com ela sem saber ainda qual será o resultado.
Depois desse percurso, é possível retornar ao sonho inaugural sem pretender fornecer uma interpretação definitiva. Quanto mais profundamente uma imagem simbólica é considerada, menos adequada parece a tentativa de encerrá-la numa única explicação. Se o sonho fosse reduzido a uma equação – mar igual a inconsciente, redemoinho igual a crise, mulher igual a anima, criança igual a Si-mesmo – obter-se-ia uma interpretação organizada, mas a vitalidade da imagem seria empobrecida.
Um detalhe merece atenção: o sonho não apresenta inicialmente o sonhador sendo tragado pelas águas. Ele observa. Existe uma posição a partir da qual a transformação pode ser percebida. A consciência onírica reconhece que algo está acontecendo, percebe o perigo e fala. “Cuidado com a criança!” demonstra que, diante da força das águas, permanece uma função discriminativa.
Talvez essa seja uma imagem precisa do lugar possível do ego em determinados processos de transformação. O ego não governa o mar, não ordena às águas que parem e não desfaz o redemoinho. Mas pode observar, reconhecer, responder e cuidar. Entre controlar o processo e ser inteiramente arrastado por ele existe uma terceira possibilidade: relacionar-se conscientemente com aquilo que acontece.
A mulher presente no sonho também deve permanecer, inicialmente, como mulher. Ela pode ser mãe da criança, mas o relato apenas a apresenta acompanhada de uma criança; acrescentar uma relação que a imagem não forneceu significaria introduzir informação externa. Do mesmo modo, seria precipitado identificá-la automaticamente com a anima. Antes de ser categoria psicológica, ela é uma mulher diante de um mar que se transforma.
A criança, por sua vez, encontra importante ressonância na Psicologia Analítica. Jung (2014) destaca o caráter paradoxal desse motivo: a criança pode aparecer pequena, ameaçada e vulnerável e, simultaneamente, relacionada a possibilidades futuras de desenvolvimento. Ela é frágil porque ainda não adquiriu força, mas pode carregar aquilo que ainda virá. Isso não autoriza concluir que a criança do sonho “é” o Si-mesmo; a amplificação deve abrir a imagem, não substituí-la.
A frase “Cuidado com a criança!” adquire então outra profundidade. A solutio dissolve formas, mas uma transformação psíquica não exige a dissolução indiscriminada de tudo. Há estruturas que precisam amolecer, identificações que precisam perder rigidez e formas de controle que podem ter esgotado sua função. Simultaneamente, pode haver algo novo que ainda não possui força suficiente para enfrentar sozinho as águas.
A imagem da criança impede uma romantização da dissolução e introduz uma ética do cuidado no interior da transformação. Não basta perguntar o que precisa morrer; é necessário perguntar também o que precisa viver. Não basta perguntar o que deve ser dissolvido; é preciso perguntar o que ainda não pode ser entregue às águas.
O redemoinho acrescenta um último paradoxo: embora represente turbulência, não é completamente caótico. A água gira ao redor de um centro, mas esse centro é uma abertura. Essa imagem pode amplificar momentos nos quais o antigo centro da identidade deixa de organizar a existência e um novo centro ainda não adquiriu forma reconhecível. A primeira experiência pode ser de vazio, embora exista movimento e organização.
Talvez uma das tarefas psicológicas mais difíceis diante da solutio seja suportar a margem: não fugir imediatamente para a segurança da terra nem mergulhar indiscriminadamente no mar. Permanecer durante algum tempo no território intermediário, observar, sonhar, imaginar, discriminar e esperar. A praia é uma fronteira móvel; a água chega à terra e recua, redesenhando continuamente a margem.
A solutio oferece à Psicologia Analítica uma imagem fecunda para compreender determinados processos de transformação psíquica. Sua força reside em sua materialidade simbólica: algo sólido encontra a água, a forma perde rigidez, fronteiras tornam-se permeáveis, elementos antes separados podem misturar-se e aquilo que estava fixado volta a circular.
A solutio, contudo, não deve ser reduzida a uma fórmula segundo a qual toda dissolução seria transformadora. A água pode fecundar e inundar, limpar e destruir, sustentar e afogar. Por isso, a leitura das imagens aquáticas nos sonhos exige atenção à singularidade de sua apresentação: que água aparece, como se movimenta, qual é a posição do sonhador e o que acontece com as demais figuras da cena.
Jung permite compreender essas imagens no contexto da relação entre consciência e inconsciente e do processo de individuação. A alquimia ofereceu-lhe um repertório no qual transformações psíquicas puderam ser imaginadas como operações da matéria. Hillman, por sua vez, ajuda a impedir que essa riqueza seja novamente aprisionada em conceitos rígidos. A água precisa continuar molhada; o fogo precisa continuar queimando; o redemoinho precisa continuar girando; a criança precisa continuar criança.
A experiência visionária de Jung em 1913 constitui uma amplificação histórica significativa. As águas devastadoras emergiram num período de ruptura intelectual e intensa confrontação com o inconsciente e foram posteriormente relacionadas por ele à dimensão coletiva da Primeira Guerra Mundial. O episódio mostra que somente retrospectivamente determinadas experiências revelam com maior clareza sua posição numa trajetória de transformação. Durante a passagem, não se conhece o resultado.
O sonho que abriu este artigo condensa essa problemática. O sonhador encontra-se na praia; há uma mulher e uma criança; o mar torna-se revolto; forma-se um redemoinho; uma voz grita: “Cuidado com a criança!”. Depois de todo o percurso teórico, talvez a pergunta mais importante não seja determinar definitivamente o significado de cada elemento, mas sustentar algumas questões: o que precisa perder sua forma para que a vida continue transformando-se? Que identificações precisam ser dissolvidas? O que não deve ser arrastado pelas águas? Que possibilidade futura permanece pequena enquanto antigas formas se desfazem?
A solutio ensina que transformação não significa simplesmente destruir aquilo que existia. Significa permitir que determinadas formas se dissolvam suficientemente para que novas relações se tornem possíveis. O sonho acrescenta uma dimensão ética: em toda grande transformação pode existir alguma coisa ainda nascente que não precisa ser dissolvida, mas protegida. Enquanto o redemoinho gira, a consciência não precisa dominar o mar. Talvez sua tarefa seja reconhecer a força das águas, permanecer em relação com o que acontece e não perder de vista a criança.
HILLMAN, James. Alchemical psychology. Putnam, CT: Spring Publications, 2010.
HILLMAN, James. The dream and the underworld. New York: Harper & Row, 1979.
JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. Petrópolis: Vozes, 2013. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 8/2).
JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2014. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 9/1).
JUNG, Carl Gustav. Psicologia e alquimia. Petrópolis: Vozes, 2012. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 12).
JUNG, Carl Gustav. Estudos alquímicos. Petrópolis: Vozes, 2013. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 13).
JUNG, Carl Gustav. Mysterium coniunctionis: pesquisas sobre a separação e a composição dos opostos psíquicos na alquimia. Petrópolis: Vozes, 2011. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 14).
JUNG, Carl Gustav. A prática da psicoterapia. Petrópolis: Vozes, 2013. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 16/1).
JUNG, Carl Gustav. Memórias, sonhos, reflexões. Organização e edição de Aniela Jaffé. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.