O altar invisível

Por Carlos São Paulo

Em cada casa existe um altar que ninguém vê. Não há velas. Não há flores. Há o primeiro riso de uma criança – esse riso que sobe de algum lugar fundo, como se o mundo, apesar de tudo, ainda estivesse começando. Há o primeiro medo, pequeno e exato, que ela deposita na mão do adulto como quem confia um pássaro vivo a mãos maiores. E há a confiança: essa coisa sem peso e sem nome, a única matéria de que se faz o futuro.

Quando esse altar é profanado, não se quebra apenas uma vida. Vai ao chão, com ela, a possibilidade inteira de um mundo mais humano – e o estrondo é silencioso, como tudo o que importa de verdade.

Uma criança foi esmagada. E junto com ela, a humanidade de um mundo que aprendeu a escrever algoritmos e desaprendeu de olhar para os próprios filhos.

Apesar de tudo, uma mãe comemora.

Absolvida, ergue as mãos e desenha um coração no ar – o mesmo coração que dias antes pintara num salão de beleza, cuidando dos cabelos enquanto o filho morria. Os cabelos crescem. As unhas crescem. Como gostaríamos que as ideias também pudessem ser tratadas assim: com escova, com calor, com paciência. Como gostaríamos que existisse, em algum lugar, um salão onde a gente pudesse sentar-se, fechar os olhos, e pedir que tirassem dali tudo o que envenenou a alma.

Os corações desenhados no ar imaginam o sorriso da criança.

E nós, que sentimos demais para conseguir o silêncio, ficamos com este nó na garganta — e ele não é feito só de tristeza. É feito de vergonha. A vergonha antiga de pertencer a uma espécie que, às vezes, não merece as crianças que gera.

O que nos resta?

Chorar. E uma vontade desesperada, quase física, de abraçar todas as crianças que sofrem em silêncio — as que ainda não têm nome nos jornais, as que ainda são anônimas demais para importar, e que um dia, se ninguém as alcançar a tempo, serão lembradas com o mesmo epitáfio amargo. Isabela. Bernardo. Henry. Nomes que viraram símbolo porque não os deixaram virar gente.

Henry sorriu para o pai.

Aquele sorriso que uma criança só oferece enquanto ainda acredita. Enquanto ainda supõe que o adulto vai compreender. Enquanto ainda espera que a verdade, sozinha, baste.

O pai não soube. E esse não saber vai morar nele para sempre — um quarto vazio dentro do peito, uma porta que ele abre toda manhã e fecha toda noite sem nunca encontrar o filho do outro lado. Há lutos que terminam. Esse não: esse apenas muda de cômodo.

Ele é como Abraão subindo o monte. Mas nenhuma voz desceu do céu. Nenhuma mão segurou o seu braço no último instante. Nenhuma voz disse: basta – já provaste demais.

E ele entregou.

Sem saber. Que é a forma mais cruel de entregar, porque nem ao menos lhe coube a dor de escolher.

Restamos nós – os que leram, os que sentiram, os que não seguraram as lágrimas e nem sabem dizer ao certo por quê.

Talvez porque, no fundo de cada um, exista também um altar invisível. E porque cada um sabe, sem que ninguém precise dizer, o som exato que ele faz quando se parte.

Carlos São Paulo – Médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana. carlos@ijba.com.br