Por Márcio N. de Abreu
O ano é 1959. Em sua casa, em Zurique, Carl Gustav Jung concede uma entrevista ao jornalista John Freeman para o programa Face to Face. Ao longo da conversa, Jung relembra a infância como filho de um pastor protestante, as idas à igreja aos domingos e a crença em Deus quando criança. Em determinado momento, Freeman faz a pergunta que marcaria a entrevista: “você acredita em Deus agora?”. Jung pausa, reflete por alguns segundos e diz: “É difícil de responder. Eu sei. Eu não preciso acreditar – eu sei”.
A resposta de Jung não é apenas provocativa. Ela é, antes de tudo, estranha. Estranha porque não vem de forma direta. Antes de afirmar que “sabe”, Jung hesita. E essa hesitação talvez diga mais do que a própria resposta.
Se ele sabe, por que é difícil responder?
A dificuldade, nesse caso, não parece ser a de quem duvida, mas a de quem reconhece que a pergunta não pode ser respondida nos termos em que foi feita. Ao perguntar se Jung acredita em Deus “agora”, John Freeman parece supor uma continuidade entre a crença do menino e a posição do adulto. Mas essa continuidade é problemática. Talvez por isso, Jung reposiciona o problema: ele não precisa acreditar – ele sabe. E falar em saber não é o mesmo que falar em crença.
Mas o que poderia significar “saber” nesse contexto?
Uma primeira possibilidade seria tomar essa afirmação em sentido forte: como se Jung estivesse reivindicando um tipo de conhecimento sobre Deus – não uma crença, mas uma certeza. Nesse caso, sua resposta soaria como uma afirmação de ordem metafísica, ainda que formulada de maneira pouco convencional.
Mas essa leitura rapidamente encontra dificuldades. Que tipo de conhecimento seria esse? Não parece tratar-se de um saber empírico, verificável diretamente. Tampouco se apresenta como adesão a uma doutrina religiosa específica. O “saber” de Jung parece escapar às formas mais familiares de conhecimento.
Um caminho possível seria recorrer às grandes tradições espirituais e filosóficas da humanidade – como o Vedanta, o Budismo e o Cristianismo, entre outras. Apesar de suas diferenças culturais e linguísticas, muitas delas convergem na ideia de que o ser humano participa de uma dimensão que o transcende, como se estivesse situado entre o mundo material e uma ordem mais ampla de sentido. Essa convergência poderia ser tomada como um indício de que a experiência humana aponta para algo além de si mesma – algo que poderíamos chamar de “Deus”.
No entanto, embora Jung dialogue diretamente com essas tradições, há razões para supor que o seu “saber” não se apoia nesse tipo de argumento.
Talvez, então, seja preciso deslocar o problema. Em vez de perguntar se Jung conhece Deus, poderíamos perguntar como algo como Deus se apresenta à experiência. Nesse caso, o “saber” não designaria uma verdade demonstrável nem o resultado de um raciocínio a partir da convergência entre tradições, mas um tipo de evidência vivida — algo que não se prova, mas que, ainda assim, se impõe como experiência.
Mas essa alternativa também não resolve completamente a questão. Pois, se aquilo que se impõe é uma experiência, em que sentido isso autoriza a falar em “Deus”? Estaríamos diante de uma realidade que transcende o sujeito ou de uma forma recorrente de organização da psique humana? A resposta de Jung parece oscilar precisamente nesse ponto. E talvez seja essa oscilação – entre uma afirmação que soa metafísica e uma descrição que pode ser lida como psicológica – que torna sua resposta tão difícil de situar e, ao mesmo tempo, tão fértil.
Talvez seja nesse ponto que a posição de Jung revele toda a sua singularidade. Talvez, para Jung, o que está em jogo não é primeiramente saber se Deus existe como realidade metafísica ou como algo diretamente verificável, mas reconhecer que a experiência de Deus – a despeito dos significados a ela atribuídos – exerce uma função estruturante na vida psíquica.
Nesse sentido, a questão de Deus não desaparece quando é negada. Ela se transforma. A recusa da transcendência não elimina a demanda por sentido, unidade e orientação; antes, a reinscreve em outros registros. Aquilo que, em um contexto religioso, se expressa como relação com o divino, pode, em outro, assumir a forma de compromisso com a verdade científica, de fidelidade a um ideal ético ou mesmo de confronto lúcido com o absurdo da existência. Dito de outra maneira, a crença ou descrença em Deus pode ser compreendida como resposta a uma mesma exigência psíquica: a de organizar nossa experiência existencial em torno de um eixo de sentido.
Pode-se dizer, então, que a força da resposta de Jung — “eu não preciso acreditar, eu sei” — não reside em oferecer uma solução para o problema de Deus, mas em deslocá-lo de tal modo que a própria oposição entre crença e descrença se torne insuficiente. O que está em jogo não é apenas o que pensamos sobre Deus, mas a maneira como a própria ideia de Deus participa da organização do sentido da existência. Sendo assim, afirmado, negado ou transformado, Deus continua a existir como um princípio organizador da experiência humana.
Referências
Márcio N. de Abreu – Analista junguiano com especialização em Processo Criativo e Facilitação de Grupos pelo Instituto Junguiano da Bahia (IJBA). Doutor em Psicologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Mestre em Teoria Crítica e Estudos Culturais pela The University of Nottingham e em Cultura e Sociedade pela UFBA. Bacharel em História com Habilitação em Patrimônio Cultural pela Universidade Católica do Salvador (UCSAL).