Criatividade como ferida fecunda, símbolo e gesto de amor pela vida
Por Ermelinda Ganem
1.Introdução – A ferida como berço do novo
Rubem Alves escreveu:
“Ostra feliz não faz pérola. Pérolas são dores transformadas.” (ALVES, 2008, p. 15).
Essa frase contém uma sabedoria arcaica: a de que o belo nasce do ferido, o novo nasce do incômodo, e a criação nasce onde algo não se encaixa.
A ostra não deseja o grão de areia. Ele invade, fere, irrita. Mas, incapaz de expulsá-lo, a ostra o envolve com nácar. Camada após camada, ela transforma o intruso em joia.
Assim também a alma humana. A criatividade não nasce do conforto, mas daquilo que nos atravessa, desorganiza, interrompe e fere. Criamos porque algo dói demais para ser apenas suportado – e precisa ser simbolizado.
2. Jung – O símbolo como resposta à ferida
Para Jung, o símbolo surge quando a psique tenta dar forma ao que ainda não pode ser plenamente compreendido:
“O símbolo é a melhor expressão possível de algo que ainda é desconhecido.” (JUNG, 2011, p. 36).
A criação simbólica é, portanto, uma resposta da consciência à irrupção do inconsciente. Quando um conteúdo inconsciente invade a vida psíquica — como o grão de areia invade a ostra — a psique não pode simplesmente rejeitá-lo. Ela precisa elaborá-lo.
Jung afirma: “A confrontação com o inconsciente é sempre uma ferida narcísica.” (JUNG, 2013, p. 45).
Toda verdadeira criação nasce dessa ferida: a ferida do eu que descobre que não é senhor de sua própria casa.
O símbolo é a pérola. Ele não elimina o conflito; ele o torna habitável.
3. Neumann – Criar como gesto evolutivo da consciência
Neumann compreende o desenvolvimento da consciência como um processo doloroso de separação da unidade original com o inconsciente:
“O desenvolvimento da consciência é sempre acompanhado de angústia.” (NEUMANN, 1995, p. 79).
Cada avanço implica perda: perda de fusão, de proteção, de sentido antigo. A criatividade surge como tentativa de recompor simbolicamente aquilo que foi perdido existencialmente. Podemos fazer uma analogia com a serpente que é nos tenta a transgredir para sairmos das zonas de conforto dos paraísos e com isso comeremos a maça da arvore do conhecimento do bem e do mal.
Neumann escreve: “A obra criativa é uma tentativa da psique de reconstruir a totalidade perdida em uma nova forma.” (NEUMANN, 1999, p. 112).
A criação é, assim, uma nostalgia transformada em forma.
4. Hillman – A alma não quer felicidade, quer profundidade
Hillman critica frontalmente a ideia moderna de que a psique busca apenas bem-estar: “A alma não quer ser curada. Ela quer ser aprofundada.” (HILLMAN, 2010, p. 83).
O sofrimento não é um erro a ser corrigido, mas uma linguagem a ser escutada. A depressão, a crise, o vazio – tudo isso são lugares de incubação do símbolo.
Hillman afirma: “A patologia não é algo a ser removido, mas algo a ser lido.” (HILLMAN, 2012, p. 41).
A cultura que busca eliminar toda dor corre o risco de eliminar também a possibilidade da pérola.
5 . Criatividade reflexiva
A descida ao vale é chamada de depressão criativa.
Sustentar-se nas depressões, dialogar com elas, receber sua mensagem. O nível instintivo profundo da psique está relacionada ao Hades. Nasce uma criatividade reflexiva (não impulsiva e acelerada, associada a lentidão e espera). O principal ensinamento é a submissão aos poderes do inconsciente, Nesses encontros, precisamos aprender a lidar com o tempo e a imobilidade. A ansiedade e angústia dessa fase podem se tornar as perturbações que vão formar a pérola criativa dentro de nós.
O processo criativo é um processo psicológico profundo, subterrâneo, de descida ao mundo dos mortos e necessita de instruções precisas. A descida precisa ser guiada por um analista que conheça bem o caminho e lhes indique os passos que vão dando, para que não fiquem com medo e saiam conturbados da sua aventura. O Hermes interior é o instrutor apropriado para a descida ao mundo dos mortos (e ele é projetado no psicoterapeuta).
A criatividade reflexiva é o momento da lagarta, onde se faz necessário ficarmos no deserto. Aparentemente nada acontece, mas virá a borboleta. São os momentos de incubação (processos de cura em si mesmo), onde nós e as obras estão em fermentação. Precisamos ter paciência e respeitar o tempo da natureza. A quietude, a calma e a serenidade podem aparecer nessa fase.
6. Criatividade como ética da escuta da ferida
A metáfora da ostra ensina que a criatividade exige três movimentos:
A criatividade não é técnica; é ética da escuta.
Criar é um ato de amor pela própria ferida — não porque ela seja boa, mas porque ela é fértil.
7. Considerações finais – Amar o que nos fere
Criar é o gesto pelo qual a alma diz “sim” ao que dói. A pérola não nega o grão de areia – ela o envolve. A obra não nega o sofrimento – ela o transforma. E talvez seja isso que Rubem Alves nos ensinou com sua frase simples e luminosa: que a felicidade pode ser repouso, mas a criação é travessia.
Prof. Dra Ermelinda Ganem Fernandes – Médica, psicoterapeuta junguiana, especialista em ergodesign, mestra e doutora em Engenharia e Gestao do Conhecimento (UFSC) e coordenadora da pos-graduação lato sensu em Terapia junguiana e criatividade (IJBA-Instituto Junguiano da Bahia).
Referências
ALVES, Rubem. Ostra feliz não faz pérola. Campinas: Papirus, 2008.
HILLMAN, James. O código do ser. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.
HILLMAN, James. Re-vendo a psicologia. Petrópolis: Vozes, 2012.
JUNG, C. G. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.
JUNG, C. G. Aion. Petrópolis: Vozes, 2013.
NEUMANN, Erich. A origem e a história da consciência. São Paulo: Cultrix, 1995.
NEUMANN, Erich. A criança. São Paulo: Cultrix, 1999.