Por Ermelinda Ganem Fernandes Silveira
Resumo
Este artigo propõe uma reflexão teórica sobre a nigredo alquímica como imagem arquetípica de períodos de ruptura, perda de referências, precariedade, medo e transformação da existência. A partir da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung e da Psicologia Arquetípica de James Hillman, discute-se a possibilidade de compreender determinadas crises não apenas como acontecimentos que devem ser rapidamente superados, mas como experiências de dissolução das formas anteriormente utilizadas pelo ego para organizar a vida. Na alquimia, a nigredo relaciona-se ao enegrecimento, à decomposição, à mortificatio, à putrefactio e à solutio. Psicologicamente, essas imagens podem representar momentos nos quais antigas identificações, personas, projetos e formas de adaptação deixam de oferecer sustentação suficiente, enquanto novas configurações ainda não se constituíram. Discute-se também a importância do vaso alquímico como imagem de continência, da coagulatio como retorno à matéria e ao cotidiano, e da sustentação dos opostos como condição para a transformação. Em diálogo com Hillman, problematiza-se a tendência contemporânea de transformar todo sofrimento em narrativa de superação, propondo-se, em seu lugar, uma atitude de permanência diante das imagens produzidas pela experiência. Conclui-se que atravessar a nigredo não significa necessariamente sair rapidamente da escuridão, mas desenvolver a capacidade de permanecer psiquicamente presente enquanto antigas formas se dissolvem e outras, ainda desconhecidas, começam lentamente a adquirir corpo.
Palavras-chave: Nigredo. Alquimia. Psicologia Analítica. Jung. Hillman. Individuação. Coagulatio.
1 INTRODUÇÃO
Existem períodos da existência em que não é apenas um aspecto da vida que entra em crise. Diferentes estruturas que até então sustentavam a identidade parecem perder simultaneamente sua consistência.
A segurança material pode desaparecer. O trabalho pode deixar de oferecer a estabilidade conhecida. Uma identidade profissional construída durante anos pode já não parecer suficiente, enquanto antigas competências precisam ser retomadas em circunstâncias inteiramente novas. O futuro torna-se incerto e o corpo pode responder com medo, ansiedade e sensação de desorientação.
Nessas circunstâncias, falar simplesmente em “superação” pode ser insuficiente. Há experiências que não podem ser superadas sem antes serem atravessadas.
A antiga alquimia oferece uma imagem particularmente fecunda para a compreensão desses períodos: a nigredo, o enegrecimento da matéria.
Na tradição alquímica, a transformação não começa necessariamente com o surgimento de algo novo. Muitas vezes começa pela decomposição daquilo que existia anteriormente. A matéria escurece, dissolve-se, separa-se e perde sua forma conhecida. Jung reconheceu nesse processo uma poderosa representação simbólica de determinadas experiências de transformação psíquica (JUNG, 2012).
A nigredo pode, assim, ser compreendida psicologicamente como um momento no qual as formas anteriores de organização da consciência já não conseguem sustentar a existência, enquanto as novas formas ainda não se constituíram.
É justamente essa posição intermediária que torna a experiência tão angustiante.
O antigo mundo perde sua forma. O novo ainda não nasceu. Entre ambos encontra-se o sujeito.
A experiência pode manifestar-se de muitas maneiras: na perda da segurança material; na ruptura de uma trajetória profissional; na necessidade de retornar a atividades anteriormente abandonadas; na percepção do envelhecimento; na perda de lugares sociais anteriormente ocupados; na dissolução de vínculos ou projetos; ou simplesmente na constatação dolorosa de que a vida já não poderá continuar da maneira como vinha sendo vivida.
Essas experiências apresentam um denominador comum: o ego perde temporariamente o mapa.
É nesse território que a linguagem alquímica de C. G. Jung e a perspectiva imaginal de James Hillman podem oferecer uma contribuição particularmente importante.
A questão que orienta este artigo não é, portanto, “como eliminar a nigredo?”, mas algo diferente: como atravessar a escuridão sem violentá-la com uma luminosidade prematura?
Como reconhecer a precariedade sem reduzi-la apenas às suas circunstâncias externas? Como continuar agindo quando o corpo sente medo? Como reconstruir uma vida quando ainda não se sabe exatamente qual vida poderá emergir dos escombros da anterior?
E, finalmente, como distinguir uma verdadeira transformação psíquica da fantasia heroica de que todo sofrimento precisa rapidamente converter-se em crescimento?
A partir da Psicologia Analítica de C. G. Jung e da Psicologia Arquetípica de James Hillman, propõe-se compreender a nigredo não como um erro do percurso, mas como uma imagem radical da experiência humana diante da perda, da precariedade, da incerteza e da transformação.
Atravessá-la talvez não signifique encontrar imediatamente uma saída. Talvez signifique aprender, durante algum tempo, a enxergar no escuro.
2 NIGREDO: QUANDO A MATÉRIA PERDE A FORMA
A alquimia ocidental desenvolveu uma complexa linguagem de operações, substâncias, cores, recipientes e transformações. Embora os alquimistas trabalhassem concretamente com a matéria, Jung percebeu que os textos alquímicos apresentavam paralelos extraordinários com processos encontrados na experiência psicológica.
Para Jung (2012), os alquimistas projetavam sobre a matéria aspectos inconscientes da psique. Como desconheciam grande parte dos processos físico-químicos que observavam, o laboratório transformava-se também em uma espécie de cenário no qual conteúdos inconscientes podiam adquirir imagens.
A alquimia tornou-se, assim, para Jung, uma espécie de ponte histórica entre o gnosticismo e a moderna Psicologia do Inconsciente.
Entre as imagens mais importantes do processo alquímico encontra-se a nigredo. A palavra latina significa literalmente “negrura” ou “enegrecimento”. Trata-se de um estado associado à decomposição da matéria, à putrefactio, à mortificatio, à dissolução e à separação.
Psicologicamente, o simbolismo é poderoso. Alguma coisa precisa perder sua forma anterior para que outra configuração se torne possível.
Essa afirmação, entretanto, precisa ser compreendida cuidadosamente. Não significa que todo sofrimento produza transformação. Tampouco significa que crises devam ser procuradas ou romantizadas.
A alquimia apresenta uma ideia mais sutil: quando uma transformação profunda efetivamente acontece, a conservação integral da forma anterior pode tornar-se impossível.
É essa impossibilidade que o ego experimenta como crise. A consciência procura preservar continuidade. Necessita reconhecer-se através do tempo e, para isso, constrói narrativas relativamente estáveis: “Eu sou isto.” “Minha vida é assim.” “Este é o meu lugar.” “É desta maneira que consigo sobreviver.” “Estas são as minhas capacidades.”
Enquanto essas formulações correspondem suficientemente à realidade, oferecem orientação. A nigredo começa quando deixam de corresponder.
A vida mudou, mas a imagem que o sujeito possui de si ainda pertence ao mundo anterior. Instala-se então uma experiência peculiar de desencontro: aquilo que se era já não é inteiramente possível; aquilo que se será ainda não pode ser imaginado. A matéria psíquica escurece.
3 MORTIFICATIO: A MORTE DAS IDENTIFICAÇÕES
Uma das operações associadas à nigredo é a mortificatio. A imagem é deliberadamente desconfortável. Algo precisa morrer. Mas, psicologicamente, é fundamental perguntar: o que morre?
Em muitos processos de transformação não é o sujeito que precisa desaparecer, mas determinada identificação através da qual o ego acreditava saber definitivamente quem era.
A persona constitui um exemplo importante. Jung compreende a persona como uma estrutura necessária à adaptação social. Ela permite desempenhar papéis, ocupar posições profissionais e estabelecer relações com o mundo coletivo. O problema surge quando ocorre identificação excessiva entre ego e persona.
O indivíduo deixa então de dizer “exerço determinada função” e, psicologicamente, passa a dizer: “eu sou esta função”.
Uma ruptura profissional, econômica ou social pode produzir, por isso, efeitos muito maiores do que os acontecimentos externos aparentemente justificariam. Não se perde apenas um emprego. Pode-se perder uma imagem de si. Não se perde apenas determinado padrão econômico. Pode-se perder uma fantasia de autonomia, segurança ou invulnerabilidade. Não se perde apenas uma função. Pode-se perder o lugar através do qual o sujeito se reconhecia no mundo.
A mortificatio expõe essa identificação. E é precisamente por isso que dói.
A consciência inicialmente interpreta a decomposição como fracasso, porque ainda utiliza como critério de avaliação os valores da personalidade que está sendo transformada.
A pergunta “por que não consigo voltar a ser quem eu era?” torna-se então inevitável.
Do ponto de vista alquímico, entretanto, talvez a pergunta precise ser modificada: e se o objetivo não for voltar a ser quem se era?
A nigredo introduz a possibilidade perturbadora de que determinadas crises não estejam exigindo restauração, mas transformação.
4 PUTREFACTIO: O QUE FAZER COM AQUILO QUE APODRECE?
A putrefactio acrescenta outra dimensão à experiência. Aquilo que morre não desaparece imediatamente. Decompõe-se.
Essa imagem possui enorme valor psicológico porque impede uma compreensão excessivamente limpa da transformação.
Há resíduos. Há contradições. Há ressentimentos. Há medo. Há vergonha. Há tentativas de recuperar o que já se perdeu. Há momentos de esperança seguidos por momentos de desânimo. Há progressos e regressões.
A consciência heroica gostaria de organizar esse percurso numa linha ascendente: crise, compreensão, superação, crescimento. Mas a alma raramente se movimenta de maneira tão organizada.
Hillman (2010) questiona justamente uma psicologia excessivamente orientada por desenvolvimento, adaptação e fortalecimento egoico. A perspectiva arquetípica desloca a pergunta do “como melhorar?” para “que imagem está se apresentando?”.
Essa mudança é decisiva para a compreensão da nigredo.
Em vez de perguntar imediatamente como eliminar a experiência, torna-se possível perguntar: que imagem possui este sofrimento? É um deserto? Uma floresta? Um quarto escuro? Uma casa desmoronando? Um mar sem margens? Uma terra queimada? Um vaso fechado?
A imagem não é um ornamento poético colocado sobre o sofrimento. Para Hillman, ela constitui uma das formas fundamentais através das quais a psique se apresenta.
Permanecer junto à imagem permite que a experiência adquira profundidade.
5 HILLMAN E A NECESSIDADE DE DESCER
Grande parte da cultura psicológica contemporânea é orientada verticalmente para cima. Deseja-se crescer. Evoluir. Superar. Elevar a autoestima. Aumentar a produtividade. Encontrar propósito. Transformar adversidade em oportunidade.
A Psicologia Arquetípica introduz uma direção diferente: descer.
A descida não significa desejar sofrimento. Significa reconhecer que determinadas experiências psíquicas possuem movimento próprio em direção às profundezas.
A tristeza desacelera. A perda retira energia dos objetos anteriormente investidos. O medo contrai. A incerteza interrompe a fantasia de domínio. A depressividade pode reduzir a velocidade heroica da consciência.
Hillman chama atenção para o fato de que a alma não se expressa exclusivamente através daquilo que a cultura considera positivo. Ela aparece também na patologia, na fantasia, no sintoma, na repetição e nas imagens sombrias.
Nesse sentido, tentar retirar imediatamente uma pessoa da nigredo pode significar retirar a psique do lugar em que alguma coisa importante está acontecendo.
Isso não implica abandonar tratamento, cuidado ou intervenção quando necessários. Significa apenas que cuidar não é sinônimo de eliminar imediatamente toda experiência desagradável.
Existe uma diferença entre sofrer inutilmente e escutar psicologicamente o sofrimento que já existe. A Psicologia Arquetípica interessa-se especialmente pela segunda possibilidade.
6 O VASO ALQUÍMICO: A NECESSIDADE DE CONTINÊNCIA
Uma transformação alquímica exige recipiente. A matéria submetida ao fogo precisa permanecer em algum lugar. Sem vaso, não há transformação: há dispersão.
A imagem do vas hermeticum torna-se, assim, extraordinariamente importante para pensar psicologicamente períodos de nigredo.
Quando diferentes estruturas da existência se desorganizam simultaneamente, uma das tarefas fundamentais não consiste necessariamente em encontrar uma solução definitiva, mas em construir continência suficiente para atravessar o processo.
O vaso psicológico pode assumir formas simples e concretas. Uma rotina pode ser vaso. O trabalho pode ser vaso. A psicoterapia pode ser vaso. A escrita pode ser vaso. Uma prática artística pode ser vaso. Os vínculos podem ser vaso. O estudo pode ser vaso. O corpo pode ser vaso. Determinados rituais cotidianos podem funcionar como pequenas paredes simbólicas que impedem a dispersão completa da experiência.
Essa concepção modifica profundamente a ideia de força. Ser forte não significa permanecer intacto.
O vaso alquímico também é submetido ao fogo. Sua função não é evitar a transformação, mas oferecer limites para que ela possa acontecer.
Em situações de crise, a pergunta deixa então de ser apenas “como resolver minha vida?” e pode tornar-se: “Que vasos preciso construir para conseguir permanecer dentro da minha vida enquanto ela se transforma?”
Essa pergunta é mais modesta. E talvez, justamente por isso, mais realizável.
7 COAGULATIO: QUANDO A ALMA PRECISA DE CHÃO
Se a solutio dissolve, a coagulatio oferece corpo. A alquimia não é apenas uma psicologia da dissolução. É também uma psicologia da matéria.
Essa dimensão torna-se particularmente importante quando a crise envolve segurança material, trabalho e sobrevivência.
Existe uma tendência, especialmente em determinadas leituras espiritualizadas da psicologia, a considerar preocupações materiais como inferiores diante de questões supostamente mais elevadas da alma.
A alquimia contradiz essa separação. O opus acontece na matéria. A alma precisa de corpo. Precisa de casa. Precisa de alimento. Precisa de dinheiro. Precisa de trabalho. Precisa de repetição. Precisa de horários. Precisa de limites.
Hillman, em sua leitura da alquimia, chama atenção para a necessidade de permanecermos próximos das qualidades concretas das operações alquímicas. A matéria possui peso, resistência, densidade, temperatura e textura (HILLMAN, 2011).
Psicologicamente, coagular significa permitir que aquilo que se encontra excessivamente disperso, abstrato ou volatilizado adquira forma.
Há momentos em que a transformação psíquica não exige mais interpretação. Exige ação.
Levantar. Vestir-se. Sair. Trabalhar. Organizar contas. Reaprender uma tarefa. Cumprir horários. Receber remuneração. Dormir. Alimentar-se. Repetir no dia seguinte.
Essas ações aparentemente banais podem constituir operações profundamente psicológicas.
A coagulatio recorda que o processo de individuação não acontece fora da vida concreta. O Si-mesmo não é uma abstração espiritual. A transformação precisa, em algum momento, ganhar corpo.
8 O MEDO E A FANTASIA DE QUE PRIMEIRO É PRECISO ESTAR PRONTO
Entre a dissolução e a reconstrução surge frequentemente o medo.
Quando antigas competências precisam ser retomadas, quando novos espaços profissionais precisam ser ocupados ou quando a existência exige ações para as quais o sujeito não se sente preparado, pode aparecer uma fantasia paralisante: “Primeiro preciso deixar de sentir medo. Depois poderei agir.”
Mas talvez a ordem seja inversa. A confiança pode não anteceder a experiência. Pode nascer dela.
Há um tipo de segurança que só se constitui depois que o corpo atravessa repetidamente aquilo que temia. Nesse sentido, esperar o desaparecimento completo do medo antes de agir pode prolongar indefinidamente a imobilidade.
A perspectiva alquímica oferece outra possibilidade: colocar também o medo dentro do vaso. Não expulsá-lo. Não obedecê-lo cegamente. Trabalhá-lo.
A coragem deixa então de ser compreendida como ausência de medo. Passa a ser a capacidade de realizar determinados movimentos na presença do medo.
Essa distinção possui importância particular na nigredo, porque o ego tende a interpretar sua própria insegurança como evidência de incompetência.
Mas sentir-se inseguro diante de uma passagem não significa necessariamente ser incapaz de realizá-la.
O medo pode simplesmente anunciar: há uma passagem aqui.
9 SUSTENTAR OS OPOSTOS
A alquimia é profundamente marcada pelo problema dos opostos: Sol e Lua, Rei e Rainha, enxofre e Mercúrio, masculino e feminino, espírito e matéria, vida e morte.
Jung dedicou grande parte de Mysterium Coniunctionis à investigação dessas polaridades e à imagem da coniunctio, a união dos opostos (JUNG, 2011).
Psicologicamente, o problema torna-se fundamental porque a consciência tende a procurar soluções através da exclusão: ou isto ou aquilo; ou segurança ou risco; ou medo ou coragem; ou estabilidade ou transformação; ou matéria ou espírito.
Entretanto, determinadas passagens da vida exigem outra lógica.
É possível sentir medo e agir. É possível experimentar perda e construir. É possível estar desorientado e trabalhar. É possível não conhecer o futuro e realizar aquilo que o presente exige.
Essa pequena palavra — e — possui enorme potência psicológica. Ela cria um terceiro espaço.
A função transcendente, conforme Jung, emerge precisamente da possibilidade de sustentar a tensão entre posições opostas sem resolver prematuramente o conflito através da identificação unilateral com um dos polos.
O novo não é produzido voluntariamente pelo ego. Ele emerge da relação.
Por isso, a pergunta fundamental da nigredo talvez não seja “qual dos lados devo escolher?”, mas: “Consigo permanecer tempo suficiente entre esses opostos para que uma terceira possibilidade possa aparecer?”
10 O PERIGO DA ALBEDO PREMATURA
Talvez um dos maiores riscos de uma leitura psicológica da alquimia seja transformar suas etapas numa fórmula de autoajuda: nigredo, sofrimento; albedo, compreensão; rubedo, felicidade.
Essa simplificação destrói justamente a complexidade do símbolo alquímico. Não existe garantia de linearidade. Os processos podem repetir-se. A matéria pode escurecer novamente. Uma aparente clarificação pode revelar-se provisória.
Por isso, existe algo que poderíamos denominar albedo prematura: a necessidade do ego de encontrar rapidamente luz, significado e crescimento para não permanecer diante da escuridão.
Ela aparece em formulações conhecidas: “Tudo acontece por alguma razão.” “Essa crise veio para ensinar.” “Você sairá mais forte.” “Foi necessário perder para encontrar seu verdadeiro caminho.”
Essas frases podem eventualmente adquirir sentido para determinada pessoa. O problema está em utilizá-las antes que a própria experiência tenha produzido esse significado.
Quando isso acontece, a luz não ilumina a escuridão. Ela a encobre.
Hillman ajuda a resistir a essa tentação ao insistir na necessidade de permanecer com a imagem, aprofundando-a em vez de rapidamente convertê-la em explicação.
Talvez a tarefa não seja encontrar imediatamente o sentido da nigredo. Talvez seja permitir que ela permaneça sem sentido suficiente durante algum tempo.
Essa capacidade exige grande tolerância à incerteza.
11 ATRAVESSAR A NIGREDO
Chega-se, finalmente, à questão proposta pelo título deste artigo. Como atravessar a nigredo?
A própria pergunta contém uma armadilha. “Atravessar” pode sugerir que existe um método para chegar rapidamente ao outro lado. Mas a alquimia ensina justamente o contrário.
A matéria possui seu tempo. O fogo não pode ser arbitrariamente acelerado sem destruir aquilo que está sendo trabalhado.
Atravessar a nigredo talvez signifique, antes de tudo, abandonar a exigência de sair imediatamente dela.
Significa construir vasos. Reconhecer perdas. Permitir que determinadas identificações morram. Aceitar a desorientação sem transformá-la automaticamente em fracasso. Cuidar da matéria. Retornar ao corpo. Trabalhar. Reconstruir gradualmente sustentação. Reconhecer o medo e continuar realizando pequenos movimentos. Sustentar os opostos. E não exigir luminosidade antes que os olhos tenham aprendido a enxergar no escuro.
Existe uma diferença profunda entre passividade e espera. A passividade abandona o processo. A espera alquímica trabalha enquanto espera.
O alquimista mantém o fogo. Observa a matéria. Regula a temperatura. Protege o vaso. Intervém quando necessário. E aguarda.
Psicologicamente, talvez seja essa a atitude necessária.
Não permanecer imóvel diante da crise, mas também não violentar seu tempo.
Trabalhar sobre aquilo que pode ser trabalhado e suportar aquilo que ainda não pode ser resolvido.
12 CONSIDERAÇÕES FINAIS: APRENDER A ENXERGAR NO ESCURO
A nigredo apresenta à consciência uma experiência particularmente difícil: a perda da forma antes do aparecimento de uma nova configuração.
Aquilo que oferecia identidade pode deixar de funcionar. As garantias podem desaparecer. Antigas competências podem precisar ser retomadas sob novas condições. O corpo pode responder com medo. O futuro pode tornar-se opaco.
A reação natural do ego é desejar sair rapidamente desse estado. Jung e Hillman, entretanto, permitem formular outra possibilidade.
Talvez a primeira tarefa não seja sair. Talvez seja permanecer psiquicamente presente.
Permanecer não significa resignar-se. Significa não abandonar a experiência enquanto se trabalha concretamente sobre aquilo que ainda pode ser transformado.
Nesse sentido, a nigredo não ensina uma psicologia da desistência. Ensina uma psicologia da profundidade.
A mortificatio recorda que determinadas identificações precisam morrer. A putrefactio mostra que a transformação possui resíduos e não acontece de maneira limpa. O vaso ensina a necessidade de continência. A coagulatio devolve a alma à matéria. A tensão dos opostos impede soluções unilaterais. E a recusa de uma albedo prematura protege a experiência contra explicações luminosas produzidas cedo demais.
Talvez seja possível, então, responder à pergunta inicial. Como atravessar a nigredo?
Não existe fórmula. Mas existem atitudes.
Construir um vaso. Cuidar da matéria. Aceitar pequenas ações. Não confundir medo com incapacidade. Não exigir da consciência respostas que ainda não existem. Não transformar sofrimento em fracasso. Não romantizá-lo. Não espiritualizá-lo prematuramente. E, sobretudo, não abandonar a própria alma justamente quando ela se apresenta sob sua face mais escura.
Há momentos da existência em que não é possível ver a saída. Mas ainda é possível dar o próximo passo.
Talvez esse seja um dos ensinamentos mais profundos da imagem alquímica.
A escuridão não exige necessariamente que se encontre imediatamente a luz. Primeiro, ela pode exigir outra capacidade: aprender a enxergar no escuro.
E talvez seja justamente quando os olhos começam a distinguir formas dentro dessa obscuridade que algo muito discreto acontece.
Não uma grande revelação. Não uma redenção. Não ainda a rubedo. Apenas uma pequena mudança na matéria.
Algo começa a coagular. Uma rotina se estabelece. Uma competência retorna. Uma decisão torna-se possível. Um pequeno pedaço de chão reaparece.
E aquilo que parecia apenas decomposição começa, lentamente, a revelar outra possibilidade.
Não se trata de voltar à forma anterior. A alquimia não trabalha para restaurar a prima materia ao estado em que se encontrava antes do início do opus. Trabalha para transformá-la.
Talvez seja essa a diferença fundamental entre recuperação e individuação.
Recuperar-se pode significar desejar voltar a ser quem se era. Individuar-se implica aceitar a possibilidade de tornar-se alguém que ainda não se conhece.
É por isso que a nigredo é tão assustadora. E é também por isso que ela pode ser profundamente transformadora.
Entre aquilo que morreu e aquilo que ainda não nasceu existe um intervalo.
A Psicologia Analítica oferece uma palavra para a possibilidade de sustentar esse intervalo: transformação. A alquimia oferece uma imagem: o vaso. E Hillman oferece uma atitude: permanecer junto à alma e às suas imagens.
Talvez atravessar a nigredo seja, finalmente, isso: manter o vaso, sustentar o fogo e não abandonar a matéria antes que ela tenha terminado de dizer no que poderá se transformar.
REFERÊNCIAS
HILLMAN, James. Re-vendo a psicologia. Petrópolis: Vozes, 2010.
HILLMAN, James. Psicologia alquímica. Petrópolis: Vozes, 2011.
JUNG, Carl Gustav. Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2013. Obras Completas de C. G. Jung, v. IX/2.
JUNG, Carl Gustav. Mysterium Coniunctionis: pesquisas sobre a separação e a composição dos opostos psíquicos na alquimia. Petrópolis: Vozes, 2011. Obras Completas de C. G. Jung, v. XIV.
JUNG, Carl Gustav. Psicologia e alquimia. Petrópolis: Vozes, 2012. Obras Completas de C. G. Jung, v. XII.
JUNG, Carl Gustav. A prática da psicoterapia. Petrópolis: Vozes. Obras Completas de C. G. Jung, v. XVI/1.
JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2014. Obras Completas de C. G. Jung, v. IX/1.
Ermelinda Ganem Fernandes Silveira – Médica, psicoterapeuta junguiana, doutora em engenharia e gestão do conhecimento, coordenadora da pós-graduação em Terapia Junguiana e Criatividade do IJBA