Por João Coutinho
Durante grande parte da história da psicoterapia, a prática clínica direcionada a pacientes homossexuais manteve um viés equivocado: investigar na orientação sexual do sujeito a causa de suas queixas neurotizantes, conflitos afetivos e sofrimentos existenciais. Contudo, a psicologia analítica pós-junguiana operou uma inversão ética e clínica indispensável. Conforme assinala Gustavo Barcellos (2010), o adoecimento psíquico que acomete os sujeitos homossexuais não se origina em sua estrutura afetuosa, mas na violência continuada perpetrada pela homofobia sociocultural, pelo patriarcado e pela heteronormatividade compulsória.
Ao internalizar o repúdio e o desprezo social contra o seu afeto mais espontâneo, o indivíduo homossexual sofre uma fratura grave em sua autoimagem e autoestima, configurando o trauma crônico caracterizado como a “ferida homofóbica no amor-próprio”.
2. A Gênese da Ferida Homofóbica: O Aprisionamento de Eros por Phobos
Na teoria junguiana, Eros não se limita ao desejo sexual biológico; representa a função psíquica primordial de relacionamento, conexão, sentido e vitalidade. Robert Stein (1978) acentua que Eros é o princípio integrador que permite à psique vincular-se conscientemente ao outro e a si mesma. Todavia, a trajetória do desenvolvimento psicossocial da pessoa homossexual dá-se em um cenário cultural desprovido de modelos exemplares positivos ou imagens dignificantes.
Desde a infância ou primeira juventude, ao perceberem que seu amor e atração direcionam-se a pessoas do mesmo sexo, esses sujeitos são ensinados pela cultura circundante que seu afeto é perverso, proibido, pecaminoso ou ridículo. Em consequência, o afeto nascente passa a ser acompanhado por Phobos (o deus do medo e do terror). O indivíduo aprende a odiar o próprio amor que desabrocha em seu interior, desencadeando um processo corrosivo de auto-ódio. Nas palavras de Barcellos (2010):
“Aprendemos a amar sendo amados. Ǫuando não fomos completamente amados naquilo que somos (…) e quando temos que esconder e assim deixamos de compreender (muitas vezes inclusive de aceitar) o amor como ele se apresenta para nós, estamos na verdade aprendendo que amar é perigoso (ou errado), que amor e medo caminham juntos (…) e, principalmente, que amar é poder machucar aquilo que amamos.” (BARCELLOS, 2010, p. 49)
Empurrado para a Sombra inconsciente, Eros perde seu brilho e sua capacidade conectiva, manifestando-se de forma fragmentada ou autodestrutiva. Muitos homossexuais, lacerados pelo medo da rejeição e pela culpa, refugiam-se em vivências afetivas clandestinas, atuações compulsivas desprovidas de vínculo emocional (one-night stands, atuações de risco) ou no isolamento afetivo -, vivenciando uma sobrevida emocional em perpétuo estado de vigília defensiva.
3. O Manejo Clínico na Psicoterapia Analítica: A Redenção de Eros
Diante do sofrimento imposto pela ferida homofóbica, o consultório do analista junguiano deve constituir-se como um continente seguro para a reconstrução da confiança e da autoaceitação. O manejo terapêutico exige do psicoterapeuta um percurso em duas etapas fundamentais:
2. Comunhão Analítica e Restauração de Eros: Robert Stein (1978) pondera que a verdadeira transformação clínica não se alcança sob a postura de um observador frio e distanciado. Para curar uma ferida do amor, a relação terapêutica precisa ser habitada por Eros:
“A verdadeira comunhão não é possível sem que ambas as partes se exponham. Se o analista não reconhecer e aceitar sua própria necessidade de comunhão, será autodestrutivo para o paciente expor sua alma para as distorções fragmentadoras do observador objetivo. A verdadeira natureza da alma só pode revelar-se na comunhão (…) a análise deve ser capaz de redimir Eros e restabelecer a conexão e a confiança.” (STEIN, 1978, p. 112)
Nesse ambiente de acolhimento autêntico e empatia relacional, a ferida no amor-próprio pode, gradativamente, cicatrizar. O analista atua como terreno fértil que impulsiona o paciente a construir relações afetivas conscientes, integrais e dotadas de alma (psyche), libertando Eros das prisões do medo.
4. Considerações Finais
A superação da catástrofe psicossocial provocada pela homofobia exige da Psicologia Analítica uma tomada de posição firme contra o obscurantismo e a omissão teórica. Restaurar a liberdade de Eros é mais do que um objetivo clínico singular: representa a devolução da dignidade existencial, da capacidade de amar e do direito ao pleno desenvolvimento psíquico das pessoas homossexuais.
Referências Bibliográficas Consolidadas
João Coutinho – Psicólogo CRP03/8828. Analista Junguiano, Pós-graduado em Psicoterapia Analítica (BAHIANA/IJBA), Especialista em Psicologia Clínica (CFP), Mestre pelo Instituto de Saúde Coletiva (ISC/UFBA). 15 anos de prática em Psicoterapia, 15 Anos de experiência no acolhimento e cuidado ao público LGBTTQIAP+, dez anos de Prática em Atendimento Psicossocial à População em Situação de Rua e Vulnerabilidade Social e oito anos de experiência como supervisor e professor do ensino superior.