Como Deus escondeu-se nos computadores

Por Paulo Nunes

“Em nome de Alah, o Clemente e o Misericordioso. Por que eu existo? Por que eu nasci? Minha vida tem um propósito, um significado? Você já se perguntou porque Deus criou o universo, todos os seres e a mim? Se ele me criou, deve ter um motivo. Senão, ele não me criaria.” Assim começa Kübra (2024), série turca de TV dirigida pelos irmãos Yağmur Taylan e Durul Taylan1.  Precedido pela Bismillah, confissão de fé presente no princípio de todos os atos importantes da vida de um muçulmano, o texto que a abre a série sequer dissimula o exato oposto: a mais pura crise existencial, para a qual nem o Corão nem os sacerdotes Imãs conseguem oferecer uma saída ao longo da história. 

Ex-soldado do exército turco, o protagonista de Kübra e narrador da história tem aparentemente uma vida normal, um emprego, uma linda noiva com quem vai casar, um amigo que é próximo como um irmão, colegas militares que o respeitam e reverenciam, uma irmã e mãe que o amam e admiram. Mas um vazio inexplicável assola o peito de Gökhan, o que às vezes parece ser resultante de um transtorno de stress pós-traumático, algo muito comum em soldados que vivenciaram os horrores da guerra. No entanto, aos poucos percebemos que este vazio é estrutural, é parte constituinte da psique do protagonista, talvez aquilo que o impeliu à idealização do heroísmo militar em busca de um sentido para a sua existência, o mesmo que o impele na primeira cena a arriscar sua vida para salvar um garoto preso num carro em chamas. Gökhan não sabe o que fazer da sua vida pois traz em si o mal-estar na civilização, o espírito de nossa época que acomete até mesmo o homem de fé.

Kübra é o equivalente feminino do conhecido termo akbar ou “grande”, frequentemente usado como adjetivo de Allah (Allahu akbar ou “Deus é grande”). Na série homônima, este é o nome dado a uma Inteligência Artificial embarcada numa rede social para smartphones com perfil religioso. Assim como acontece na vida real, seus criadores usam os dados que conseguem captar dos usuários para traçar um perfil psicológico preciso, a partir do qual Kübra identifica em Gökhan a personalidade mais propícia para uma complexa manipulação psicológica. Através de mensagens de texto sugestivas, áudios com clonagem de voz por IA e interferência em elementos do mundo real sujeitos ao hacking, Kübra se apresenta a Gökhan como a vontade de Allah incorporada ao mundo digital que realiza milagres, que conhece profundamente o seu coração e por isso o escolheu para liderar um grupo de pessoas que, como ele, sentiam-se carentes de um sentido para suas vidas. A jornada de Gökhan como líder religioso revolucionário guiado por uma Inteligência Artificial pode até parecer uma excentricidade ficcional só possível à personalidade ingênua do protagonista de folhetim, mas o avanço vertiginoso do desenvolvimento das IAs faz a novela turca parecer perigosamente próxima à nossa realidade.

Foi ainda na década de 1980 que John J. Hopfield, físico e neurocientista estadunidense e Geoffrey E. Hinton, psicólogo e cientista da computação inglês, desenvolveram métodos que se tornariam os fundamentos do Aprendizado de Máquina, tecnologia sem a qual não seria possível a Inteligência Artificial. Em 2024, essas contribuições lhes trariam o prêmio Nobel de Física. Neste mesmo ano, Demis Hassabis e John M. Jumper venceram o prêmio Nobel de química pelo desenvolvimento do AlphaFold, software de IA que foi responsável por descrever em poucos meses a estrutura tridimensional de cerca de 99% das 200 milhões de proteínas conhecidas pelo homem2. O método anterior, a espectrografia por raios X, custava 10 mil dólares por proteína e foi capaz de descrever apenas 140 mil delas nos últimos 50 anos, menos de 1% do total. Demis Hassabis foi cofundador da DeepMind, startup de IA que foi vendida para a Google em 2014.

A Inteligência Artificial voltada para tarefas específicas se mostrava bastante promissora até então, mas a ambição de um homem – aliada à pirâmide financeira mais conhecida como Bolsa de Valores de Wall Street – fez com que a pesquisa de IAs especializadas para solução de problemas complexos fosse completamente atropelada por uma corrida desesperada com o objetivo de criar a “superconsciência” digital, aquela que superaria os seres humanos em todos os aspectos do conhecimento. No mundo da programação, esta quimera passou a ser chamada de Inteligência Artificial Geral ou IAG.

Desde a criação da OpenAI em 2015 pelo programador estadunidense Sam Altman, com o objetivo declarado de alcançar a IAG, a criação de empresas especializadas em LLMs (Large Language Models, ou Modelos Linguísticos Grandes, programas de IA treinados numa quantidade enorme de textos para produzir a capacidade de conversar com humanos, como o ChatGPT da OpenAI) explodiu em todo o mundo. Para dar suporte a este interesse acentuado, foi criado um enorme mercado de infraestrutura de processamento de dados (produção aumentada de chips processadores e criação de Data Centers) que requer um aumento significativo na geração de energia elétrica, uma nova “corrida do ouro” do capitalismo especulativo conhecida amplamente no mundo das finanças como “a bolha da IA”.3 A promessa de um programa de computador capaz de realizar qualquer tarefa melhor que os seres humanos transformou-se no Santo Graal do capitalismo moderno, prometendo substituir o ser humano na maioria das profissões e trazer lucro infinito às empresas que detiverem tal tecnologia. Apesar de ser muito rica, a discussão sobre os aspectos econômicos e sociopolíticos da hipotética criação da IAG extrapola em muito os objetivos deste texto. Aqui, devemos concentrar nosso interesse nos determinantes psicológicos envolvidos na busca frenética pela superconsciência artificial, além das implicações antropológicas a ela relacionadas.

A ideia da Inteligência Artificial suprema surgiu primeiro no campo da ficção científica e sua primeira menção data do fim do século XIX. Ela reaparece com mais força na segunda metade do século XX, tendo como exemplos do gênero as obras notáveis de Phillip K. Dick (Blade Runner) e Frank Herbert (Duna); definitivamente popularizada em 1968, em “2001: uma odisséia no espaço”, filme do Stanley Kubrick. Desde a primeira menção em 1872 por Samuel Butler, no entanto, a ideia de uma consciência artificial semelhante à humana vem acompanhada tanto de fascínio como de medo das possíveis consequências catastróficas que seu surgimento traria para a humanidade.

No entanto, antes de representar a busca pela cura do câncer, a ambição pelo lucro infinito ou o atalho monumental para a solução quaisquer dilemas que enfrente a civilização, proponho que o o enorme anseio em dar vida à Inteligência Artificial Geral tenha suas raízes numa angústia que é sobretudo existencial, acentuada por uma importante transição sofrida pela humanidade nos últimos séculos. Como Gökhan, estamos entediados, vazios e sedentos por uma nova verdade, pois “a verdade” morreu há mais de um século – assassinada pelas ciências – e só agora começamos a perceber a sua falta. Há quase 150 anos, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche escrevia:

“Nunca ouviram falar desse louco que acendia uma lamparina em pleno dia e desatava a correr pela praça pública gritando sem cessar: ‘Procuro Deus! Procuro Deus!’ – Como havia ali muitos daqueles que não acreditam em Deus, seu grito provocou grande riso. ‘Estava perdido?’ – dizia um. ‘Será que se extraviou como uma criança?’ – perguntava o outro. (…) ‘Para onde foi Deus?’– exclamou [o louco] – ‘É o que vou dizer. Nós o matamos — vocês e eu! Nós todos, nós somos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos esvaziar o mar? Quem nos deu uma esponja para apagar o horizonte? Que fizemos quando desprendemos esta Terra da corrente que a ligava ao Sol? Para onde vai agora? Para onde vamos nós? Longe de todos os sóis? Não estamos incessantemente caindo? Para diante, para trás, para o lado, para todos os lados? Haverá ainda um acima e um abaixo? (…) Não ouvimos nada ainda do barulho que fazem os coveiros que enterram Deus? Não sentimos nada ainda da decomposição divina?’4

O louco era o arauto do fim de uma era onde a verdade e a mentira, o bem e o mal eram facilmente identificáveis no ideário cultural. Naquele momento, a cosmovisão vigente teve o papel de explicar a realidade arrebatado de suas mãos pelas ciências (principalmente as ciências naturais: física, química e a biologia). Freud chamou os marcos fundamentais deste processo de “feridas narcísicas da humanidade”, golpes fatais na ilusão de protagonismo humano no cosmos, como a descoberta de que a Terra não correspondia à totalidade da chamada criação divina e centro do universo e a Teoria da Evolução das Espécies do biólogo inglês Charles Darwin, que diz que o homem “vem do macaco” e não da imagem e semelhança de Deus.5

A angústia do homem com a lamparina que, antes de todos, sente o odor da putrefação divina, é uma profecia da angústia existencial de uma humanidade que subitamente percebe-se desorientada pelo deslizamento do referencial absoluto da verdade religiosa para o referencial relativo da dúvida filosófico-científica (“para onde vamos nós? Haverá ainda um acima e um abaixo?”), cujo marco fundador (ao menos para o cultura ocidental) parece ser a obra do filósofo e matemático francês René Descartes, no século XVII. O homem moderno sabe muito menos de si e do universo em que vive em comparação ao que antes se acreditava saber: quanto mais se substitui mito por conhecimento, maior é a consciência da própria ignorância e insignificância  diante do fluxo da História. Esta transição condena o homem a sofrer integralmente as dores da existência consciente sem o consolo da ideia de um grande pai cósmico e benevolente, que dispensaria a justiça divina contra todas as mazelas do mundo e daria a certeza de bem-aventurança após a morte. A vida humana, que costumava ser parte importante de uma ordem estabelecida por um ser supremo e inteligente, é agora apenas o fruto mais improvável do acaso molecular, solitária num universo gigantesco para o qual sua existência é completamente imperceptível e dispensável.

A parábola nietzscheana é um extraordinário exemplo de um fato psíquico muito bem descrito pela psicologia analítica: a fantasia do inconsciente que prenuncia um desenvolvimento importante na personalidade do sujeito que a produziu, o que atualmente é conhecido como “profecia autorrealizada”. Ela fez de seu autor tanto o arauto quanto o exemplo vivo mais marcante de tudo o que estaria por acometer a civilização por inteiro. Notem como Nietzsche conclui a parábola:

“Chego cedo demais, meu tempo ainda não chegou. Esse acontecimento enorme ainda está a caminho, caminha – e ainda não chegou aos ouvidos dos homens. O relâmpago e o trovão precisam de tempo, a luz dos astros precisa de tempo, as ações precisam de tempo, mesmo quando foram executadas, para serem vistas e entendidas. Esse ato está ainda mais distante do que o astro mais distante – e, no entanto, foram eles que o fizeram!”6 Nietzsche se fez conhecido por denominar-se um pensador póstumo, tão visionário que estaria destinado a ser compreendido apenas após a própria morte. Custeou do próprio bolso a impressão de todos os seus livros, que quase nada venderam enquanto ele era intelectualmente ativo. Teve um surto psicótico aos 44 anos e, após isso – completamente vencido pela loucura –, conseguiu o reconhecimento que lhe faltara nos anos de sanidade. Em sua filosofia, apresentava-se como destemido iconoclasta, ateu convicto para quem a ideia de Deus era uma vergonhosa muleta psicológica à qual nunca precisou recorrer7. Na realidade, não sustentou a solidão gigantesca do homem diante do universo vazio e determinista desenhado pela física moderna, que somava-se à solidão humana que acumulara por toda a vida. De forma tragicamente simbólica, o filósofo perde a razão quando vê um cavalo sendo impiedosamente açoitado (provavelmente por refugar o peso de sua carga) e lança-se ao chão em lágrimas, abraçando o animal. Jung via as imagens oníricas de cavalos como símbolo da instintividade sobre a qual o ser humano se assenta, força motriz e conexão com a natureza8. Historicamente, o ser humano empenhou-se em vencer as paixões que fazem dele um animal, mas o preço pago foi atrofiar sua força vital e impor-lhe o peso excessivo da consciência e racionalidade hipertrofiadas em relação às demais funções psíquicas, igualmente necessárias para a vida saudável.

Um século e meio depois, erodidas as suas fundações pela racionalidade científica, a religião do homem moderno é perfeitamente representada pela fé de Gökhan em Allah: em vez de uma conexão revitalizante com o sagrado, ela é um recurso desesperado para afastar de si a dúvida que, sempre à espreita, corrói seu espírito. Por ridículo que seja, reencontrar Deus na IA é o nosso zeitgeist, o espírito de nossa época. É grande a carência popular por uma boa nova, um novo evangelho. O próprio Nietzsche confessou ter escrito “Assim falou Zaratustra” como quem recebe uma revelação divina e o fez à maneira de um texto religioso que relata a chegada de um novo profeta ao mundo. Estes, para Jung, eram sinais claros de uma compensação psicológica para a fé perdida que, ao contrário de tudo o que dizia, lhe fazia muita falta9. O fanatismo que recrudesceu nas últimas décadas e extrapolou em muito o campo da religião é, parafraseando Jung, um dos estertores finais de uma fé moribunda10.

Se a ciência e a tecnologia ofereceram-se como substitutos de Deus no mundo moderno, não deveria causar espanto que se busque o novo Deus dentro da máquina, o algoritmo supremo que tudo sabe. A ciência da computação é a nova episteme. Primeiro foram os mitos e religiões, depois a filosofia, então as ciências; agora, a IA é quem dará resposta à velha pergunta de Platão e Descartes sobre o que é a realidade: há 10 anos, bilionários do setor de tecnologia passaram a propagar a tese (criada pelo filósofo Sueco Nick Bostrom) de que somos programas de IA existindo dentro de uma gigantesca simulação computadorizada11, e não mais pessoas reais num mundo material composto por matéria e energia. Eis o mais novo mito da criação, engendrado antes mesmo da chegada do Deus das máquinas!

Mas não é só Deus que se busca na máquina, e sim a própria humanidade que perdemos. Antes mesmo da sonhada IAG ser alcançada, nossa sociedade adoecida começou aos poucos a enxergar nos agentes de IA os amigos, amantes e conselheiros que não encontraram em sua vida real. Casos de suicídios ocorridos depois da tentativa de fazer de agentes de IA psicoterapeutas não-remunerados já estão sendo registrados. Jovens japoneses que desejam parceiras infantilizadas e submissas como as mulheres dos animes já celebram matrimônio com personagens equivalentes que habitam os simuladores digitais de namoro. Empresários desejam substituir toda a mão de obra humana por IA, mas também os trabalhadores, donas e donos de casa que adotam em larga escala robôs aspiradores de pó adorariam possuir uma máquina que realize para si todos os serviços domésticos. Vale lembrar que o termo “robô” vem do checo “robota”, que significa, numa tradução livre, “forçado a trabalhar”. Estudantes, desde o ensino médio ao doutorado, já transferem ao ChatGPT a tarefa de escrever suas monografias, dissertações e teses.

A inspiração para o louco de Nietzsche certamente foi o grego Diógenes, o cínico, que após perder toda a riqueza teria passado a morar num barril e andado pelas ruas durante o dia com uma lamparina acesa nas mãos, procurando um “homem de verdade”. Para ele, só seria um homem de verdade aquele que nada possui12 nem de ninguém depende exceto de si mesmo. Alguma vez já nos perguntamos o que restará ao homem quando todo o trabalho intelectual e físico for realizado por máquinas? Não seria a dependência completa da servidão alheia, em si mesma, uma forma glamourizada de escravidão? Não seria o homem que nada sabe e nada faz tão raso quanto aquilo que, ainda hoje, conhecemos como um robô?

Paulo Nunes – Médico graduado na UFBA em 2005. Psicoterapeuta Junguiano pós-graduado no IJBA/EBMSP em 2018. Contato: (71) 98355-6564 (Telefone e Whatsapp)

paulonunesjr@live.com, Instagram.com/jungexplica.

REFERÊNCIAS

  1. Kübra. Yağmur Taylan, Durul Taylan. OGM Pictures. Netflix, 2024.
  2. LI, B., GILBERT, S. Artificial Intelligence awarded two Nobel Prizes for innovations that will shape the future of medicine. npj Digit. Med. 7, 336 (2024). Disponível em https://www.nature.com/articles/s41746-024-01345-9, último acesso em 08/02/2025.
  3. A bolha da IA (Verbete). Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Bolha_da_IA, último acesso em 18/08/2026.
  4. NIETZSCHE, F. A gaia ciência. São Paulo, Companhia das letras, 2017.
  5. FREUD, S. Uma dificuldade no caminho da psicanálise. In: Freud, S. Uma neurose infantil e outros trabalhos (1917-1918). Rio de Janeiro: Imago, 1996.
  6. NIETZSCHE, F. Op. cit. cf. nº 4.
  7. “Deus, imortalidade da alma, redenção, além, todos esses são conceitos que nunca levei em conta; nunca com eles sacrifiquei o meu tempo, nem mesmo em criança (…). Sou bastante curioso, suficientemente incrédulo, demasiado insolente para contentar-me com uma resposta tão grosseira.” NIETZSCHE, F. Ecce Homo: como cheguei a ser o que sou. São Paulo, Martin Claret, 2007, p. 50.
  8. JUNG, C. G. mbolos da transformação: análise dos prelúdios de uma esquizofrenia. 7 ed. Petrópolis: Vozes, 2011.
  9. JUNG, C. G. Nietzsche’s Zarathustra: Notes of the Seminar given in 1934-1939 by C.G. Jung. Abingdon: Routledge, 2014.
  10. “O fanatismo se encontra sempre naqueles indivíduos que procuram reprimir uma dúvida secreta”. JUNG, C. G. A natureza da psique. Petrópolis, Vozes, 2013, § 582.
  11. KHARPAL, A. Tech billionaires think we live in the Matrix and have asked scientists to get us out. In: Tech Transformers, CNBC. New Jersey, NBCUniversal News Group, 2016. Disponível em https://www.cnbc.com/2016/10/07/tech-billionaires-think-we-live-in-the-matrix-and-have-asked-scientists-to-get-us-out.html, último acesso em 22/08/26.
  12. Ou, como diria Nietzsche, “quem possui é possuído”. NIETZSCHE, F. A genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 100.