TARÔ, SINCRONICIDADE E PSICOLOGIA ANALÍTICA

“O símbolo é o melhor possível para aquilo que ainda não pode ser pensado.” C. G. Jung, A Natureza da Psique (CW 8)

Resumo

O presente artigo investiga o Tarô como dispositivo simbólico e epistêmico na Psicologia Analítica, propondo sua leitura como ferramenta de pensamento imaginal e método de conhecimento simbólico.

Articulam-se os conceitos de sincronicidade, inconsciente coletivo e arquétipo, em diálogo com a epistemologia complexa de Morin (2005) e com a hermenêutica educativa de Inna Semetsky (2011), que reconhece no Tarô um campo de autoconhecimento e formação cognitiva.

A partir de Jung, Hillman, Von Franz e Byington, o Tarô é interpretado como linguagem simbólica que atualiza o diálogo entre inconsciente e consciência, revelando padrões arquetípicos através de correlações acausais significativas.

O texto propõe compreender o Tarô não como instrumento de adivinhação, mas como arte de leitura simbólica da alma, um mapa projetivo do Self em processo de individuação.

Palavras-chave: Psicologia Analítica; Tarô; Sincronicidade; Inconsciente coletivo; Epistemologia simbólica.

1. Introdução

A redescoberta contemporânea do Tarô no contexto junguiano ultrapassa o uso oracular.

Mais do que prever, o Tarô revela — ele se inscreve no campo da epistemologia simbólica, onde o conhecimento se produz não por causalidade linear, mas por ressonância arquetípica.

Para Jung (CW 8), os símbolos são mediadores entre inconsciente e consciência, expressando o que ainda não pôde ser elaborado racionalmente.

Assim, o Tarô, ao conjugar imagem e número, narrativa e mito, constitui um sistema simbólico autorreferente: um espelho da psique.

A noção de sincronicidade, formulada por Jung (1952), fornece o fundamento epistemológico para compreender esse fenômeno. A sincronicidade é a “coincidência significativa entre um estado psíquico interno e um acontecimento externo objetivo que não possui relação causal entre si”.

O Tarô, nesse sentido, é o espaço ritual onde essa correspondência se manifesta.

Cada carta retirada no acaso expressa, simbolicamente, o estado interior do sujeito — não como previsão, mas como metáfora viva da psique em movimento.

Autores como Inna Semetsky (2011) aprofundaram essa perspectiva, integrando o Tarô à pedagogia hermenêutica e à filosofia da educação simbólica.

Para ela, “o Tarô é um sistema de pensamento simbólico que ensina pela via da experiência imaginal”.

Ler o Tarô, portanto, é participar de um processo cognitivo e ético, no qual o sujeito se confronta com as imagens do inconsciente e aprende a significá-las.

2. O símbolo como forma de pensamento

Na obra junguiana, o símbolo não é um signo fixo, mas um organismo vivo de significados.Ele se forma quando a consciência tenta expressar algo que ainda não possui linguagem.

Jung (CW 9i) escreve que “o símbolo é uma tentativa natural de a psique representar o que não pode ser apreendido intelectualmente”.

Assim, todo símbolo aponta para além de si mesmo: ele é uma ponte entre mundos.

Hillman (1975) denominou essa forma de pensamento de imaginação do coração: o modo pelo qual a alma pensa em imagens. Esse pensamento simbólico não visa controlar o real, mas dialogar com ele.

Byington (2010) complementa afirmando que “o símbolo é o mediador por excelência do processo de individuação, pois une afetos, imagens e significados”.

No Tarô, essa mediação é visível nas sequências arquetípicas dos Arcanos Maiores, que narram a jornada do herói — metáfora do próprio processo de individuação.

3. Sincronicidade e acausalidade significativa

A teoria da sincronicidade constitui o alicerce para compreender o Tarô dentro da Psicologia Analítica.

Quando Jung colaborou com o físico Wolfgang Pauli, buscava justamente demonstrar que o universo possui ordem significativa não reduzida à causalidade mecânica.

A psique e a matéria, em certos momentos, refletem o mesmo padrão organizador — o Unus Mundus.

O Tarô é um instrumento que torna perceptível essa ordem: a disposição das cartas corresponde ao estado simbólico da alma.

Von Franz (1980) recorda que, nos fenômenos sincrônicos, “o inconsciente se revela através de coincidências que ampliam a consciência”.

Cada tiragem torna-se, assim, um evento de revelação: o acaso organizado pelo sentido.

A leitura não depende do leitor, mas do campo simbólico que se forma entre leitor, consulente e imagens.

O Tarô é, portanto, um espelho sincrônico — e cada carta é uma metáfora do diálogo entre destino e liberdade.

Inna Semetsky, filósofa junguiana e educadora, foi uma das primeiras a propor o Tarô como método cognitivo e formativo.

Em Re-Reading Dewey through Tarot: Towards a Self-Reflective Society (2011), ela argumenta que o Tarô é um dispositivo pedagógico simbólico: um sistema de arquétipos que promove o autoconhecimento e o pensamento reflexivo.

Para a autora, “ler o Tarô é participar de uma hermenêutica de si mesmo” – processo em que o sujeito aprende a interpretar suas imagens internas.

Semetsky aproxima Jung de John Dewey, afirmando que ambos compreendem o conhecimento como experiência.

Enquanto Dewey fala em “educação pela reflexão”, Jung fala em individuação – a educação da alma por meio de símbolos.

Assim, o Tarô se torna um laboratório imaginal, onde o sujeito experimenta a relação entre inconsciente e consciência e aprende a traduzir o tácito em linguagem simbólica.

Essa concepção amplia o papel do Tarô: de ferramenta esotérica para dispositivo de formação simbólica e ética.

Em um contexto acadêmico, isso significa reconhecer o Tarô como campo legítimo de pesquisa qualitativa e epistemologia complexa – algo que a própria Semetsky defende ao propor uma “educação hermenêutica do Self”.

4. O Tarô como campo imaginal e pedagógico (Inna Semetsky)

Em Re-Reading Dewey through Tarot: Towards a Self-Reflective Society (2011), Semetsky argumenta que o Tarô é um dispositivo pedagógico simbólico: um sistema de arquétipos que promove o autoconhecimento e o pensamento reflexivo.

Para a autora, “ler o Tarô é participar de uma hermenêutica de si mesmo” – processo em que o sujeito aprende a interpretar suas imagens internas.

Semetsky aproxima Jung de John Dewey, afirmando que ambos compreendem o conhecimento como experiência.

Enquanto Dewey fala em “educação pela reflexão”, Jung fala em individuação – a educação da alma por meio de símbolos.

Assim, o Tarô se torna um laboratório imaginal, onde o sujeito experimenta a relação entre inconsciente e consciência e aprende a traduzir o tácito em linguagem simbólica.

Essa concepção amplia o papel do Tarô: de ferramenta esotérica para dispositivo de formação simbólica e ética.

Em um contexto acadêmico, isso significa reconhecer o Tarô como campo legítimo de pesquisa qualitativa e epistemologia complexa – algo que a própria Semetsky defende ao propor uma “educação hermenêutica do Self”.

5. O Tarô como espelho do Self: imagem e individuação

Para Jung, o Self é o centro regulador da psique e o arquétipo da totalidade.

Os Arcanos Maiores representam, em sequência, o caminho simbólico dessa totalização.

O Louco inicia a jornada, imagem da potencialidade pura; o Mundo encerra o ciclo, símbolo da integração.

Entre ambos, as figuras dos Grandes Arcanos – Mago, Sacerdotisa, Torre, Estrela e outros – descrevem estágios da consciência, equivalentes às fases da individuação.

O Tarô é, assim, uma mandala móvel: um mapa de processos psíquicos que reflete o movimento do Self.

Cada leitura é um ato de imaginação ativa, onde o consulente projeta, reconhece e reinterpreta aspectos do inconsciente.

A sincronicidade (quando o consulente encontra sentido na imagem retirada do baralho de forma aleatória) garante que as cartas sorteadas coincidam com o momento anímico da consulta, e o símbolo traduz essa coincidência em linguagem poética.

Nesse sentido, o Tarô é também um rito de conhecimento, um método simbólico de reflexão psíquica.

6. Considerações finais – O símbolo como método de conhecimento

Compreender o Tarô pela Psicologia Analítica implica aceitar uma epistemologia não linear, complexa e simbólica.

O Tarô é a linguagem do inconsciente em movimento; a sincronicidade, o seu princípio ordenador.

Ambos constituem expressões do mesmo processo de individuação: a busca de unidade entre sentido interno e acontecimento externo.

Morin (2005) lembra que “o conhecimento só é verdadeiro se reconhece sua incompletude”.

O Tarô é a celebração dessa incompletude: um espelho que não revela respostas, mas desperta consciência.

Semetsky (2011) acrescenta que a leitura do Tarô “educa o sujeito para o diálogo com o mistério”.

Trata-se, portanto, de uma pedagogia da alma, na qual conhecer é também transformar-se.

O Tarô, enquanto arte simbólica e método de reflexão, devolve à Psicologia Analítica a dimensão estética e poética do saber.

Ele nos ensina que todo conhecimento profundo é imaginal, e que a verdade se revela não apenas nas palavras, mas nos símbolos que nos escolhem.

Profa.Dra. Ermelinda Ganem Fernandes – Médica, Analista Junguiana, Doutora em Engenharia e Gestão do Conhecimento, Especialista em Ergodesign,,  Coordenadora da Pós-Graduação lato sensu em Processo Criativo e Facilitação de Grupos do Instituto Junguiano da Bahia.

Referências

BYINGTON, Carlos Amadeu. Psicologia simbólica junguiana: a via do símbolo e da individuação. São Paulo: Paulus, 2010.


CORBIN, Henry. Corps spirituel et terre céleste. Paris: Buchet-Chastel, 1979.


HILLMAN, James. Re-visioning Psychology. New York: Harper & Row, 1975.


JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. Obras Completas, v. 8/2. Petrópolis: Vozes, 2012.


JUNG, Carl Gustav. Sincronicidade: um princípio de conexões acausais. Obras Completas, v. 8/3. Petrópolis: Vozes, 2012.


MORIN, Edgar. O método 1: a natureza da natureza. Porto Alegre: Sulina, 2005.


SEMETSKY, Inna. Re-Reading Dewey through Tarot: Towards a Self-Reflective Society. Rotterdam: Sense Publishers, 2011.


VON FRANZ, Marie-Louise. Padrões de experiência nos contos de fadas. São Paulo: Paulus, 1990.