Tal como uma chama brilhando na escuridão da noite, ele sentiu, com uma clareza dolorosa, a cisão entre o amor — essa essência que dá vida a tudo — e os dogmas que o tempo petrificou. Compreendeu que é impossível amar verdadeiramente enquanto se erguem barreiras sagradas contra os que padecem. Com mãos abertas e um coração acostumado ao silêncio das lágrimas, ele acolheu os esquecidos deste mundo. Não lhes ofereceu apenas palavras, mas sua presença — como alguém que devolve um nome há muito perdido.

Sua humildade não se via, sentia-se. Era raiz, era chão. Nada nele buscava destaque. E talvez por isso, sua grandeza se impunha — não como altura, mas como profundidade. Era pastor porque estava junto. Sabia escutar, e por isso guiava.

Em cada gesto, uma faísca nos convidava a acordar: amar com mais intensidade, viver com intenção, caminhar com confiança. E sua fé não era uma crença, mas uma certeza interior — uma lealdade silenciosa ao intangível.

Inicialmente, quando decidiu não encontrar o vice-presidente de um império, sua negativa foi eloquente. Não era motivada pelo ódio, mas pelo luto: o luto por uma política que ignora a humanidade. Porém, ao se aproximar da morte, decidiu recebê-lo. Não por concessão, mas por um amor ainda mais profundo — aquele que persiste no diálogo mesmo quando a alma está retraída. Pois algumas pontes precisam ser construídas em meio às ruínas. Porque a verdadeira fé não se fecha: ela escuta, mesmo quando está ferida.

Ele não morreu. Deixou sua eternidade entre nós, vivendo sua fé em lugar do simples acreditar, pois quem acredita será sempre atormentado pela dúvida — e assim cumpriu seu papel.
Carlos São Paulo