Em 1969 Jorge Amado publicou Tenda dos Milagres, obra traduzida para mais de 10 línguas estrangeiras e adaptada para o cinema e a TV. Nela, o escritor baiano recria uma Salvador do início do século passado e põe em cena uma série de personagens inspiradas em pessoas reais, como o rábula João Romão, inspirado em Cosme de Farias, célebre por atuar em defesa dos pobres e o delegado Pedrito Gordo, cujo correspondente histórico foi o chefe de polícia Pedrito Gordilho, conhecido por sua perseguição truculenta ao Candomblé e a capoeiristas na década de 1920.1
O fio condutor da obra é o conflito entre Pedro Archanjo, um preto sem educação universitária formal, mas autodidata de grande saber e o médico Nilo Argolo, catedrático da faculdade de medicina de grande prestígio na sociedade soteropolitana da época. Archanjo, revoltado com as ideias racistas de Argollo, decide publicar a sua própria obra antropológica, legitimando sua superioridade intelectual de forma pública e vergonhosa para o seu adversário. O antagonista Nilo Argollo teria sido inspirado no médico maranhense que atuou na Bahia no fim do século 19 e início do 20, Raimundo “Nina” Rodrigues. Além da carreira de destaque na Medicina Legal, Nina Rodrigues produziu uma obra antropológica assentada na frenologia, uma perversão das ciências naturais destinada a legitimar a ideologia de que o preto e o índio eram biologicamente inferiores ao homem branco e, por isso, inferiores também eram suas expressões religiosas, em particular o Candomblé.2 Archanjo, por sua vez, teve inspiração em Manuel Querino3, preto nascido livre em 1851, em Santo Amaro da Purificação. Foi escritor, jornalista, pintor, desenhista, historiador; além de militante abolicionista, um dos alunos fundadores da Academia e Escola de Belas Artes da Bahia e membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.4 Nas páginas de Jorge Amado, Pedro Archanjo representava o discurso científico sobre o povo preto que, enunciado por um homem preto, vencia o discurso de uma antropologia branca e racista. Esse embate literário fantasiava uma reparação histórica para o fato de que Nina Rodrigues ainda hoje é considerado um dos pais da antropologia brasileira, ao passo que a obra de Manuel Querino foi aos poucos sendo desvalorizada até o esquecimento.
Em seu estudo mais conhecido, “O animismo fetichista dos negros baianos”, Nina Rodrigues critica a pretensão do Catolicismo de sua época à supremacia completa da fé cristã na população baiana, considerando isto uma ilusão que esbarrava na “incapacidade física das raças inferiores para as elevadas abstrações do monoteísmo.”5 Para Rodrigues, o monoteísmo católico era superior ao politeísmo das religiões de matriz africana porque o primeiro se baseava em princípios intelectuais abstratos (a Trindade, o Verbo, a fé, a salvação etc.), sendo o segundo relegado à categoria pejorativa de “fetichismo”, isto é, uma espiritualidade que tem lastro na matéria, no poder mágico (o axé) conferido a objetos e existente nos elementos físicos da natureza, como o fogo, a água, os rios, pedras, plantas e animais. A oposição enunciada por Rodrigues entre ideia e matéria é apenas mais uma iteração de um clássico embate conceitual para o qual Psicologia Analítica tem muito a contribuir.
Em primeiro lugar, devo analisar o discurso que se propõe a hierarquizar arbitrariamente o valor das religiões com base numa presunção de superioridade dada a este ou àquele elemento em particular, como se fosse possível atribuir um valor absoluto a cada um deles ou até isolá-los como exclusivos de uma determinada fé religiosa. Lembremos que o Judaísmo pré-cristão e o Islamismo, duas das três maiores religiões monoteístas do mundo, também são religiões onde o sacrifício de animais é um elemento central de culto.6 Apesar de não haver sacrifícios animais no Cristianismo, o culto cristão gira em torno do sacrifício humano de Jesus, evocando-se a todo instante o poder mágico de seu sangue e rememorando-se periodicamente o caráter sacrificial de sua morte, tanto na Eucaristia católica como na Santa Ceia Protestante. Desde o célebre Concílio de Trento no século XVI é dogma católico a tese de que a hóstia e o vinho transformam-se fisicamente na carne e no sangue de Cristo (a “transubstanciação”) durante a Eucaristia, momento em que os fiéis estariam literalmente comendo e bebendo Jesus! Além disso, vários elementos centrais do Cristianismo assim como o culto dos Santos católicos foram diretamente herdados da antiguidade politeísta grego-romana.7 As inúmeras “versões” ou “qualidades” de Maria e de Jesus, cada uma com sua imagem e culto regionais específicos dificilmente se diferenciam dos politeísmos pagãos que os precederam ou do culto afrobrasileiro dos orixás. Não seriam também a cruz, o rosário e o terço, o Santíssimo Sacramento, a hóstia, o cálice sagrado e as esculturas dos santos católicos a prova viva do fetichismo da Europa branca?
Assim como a herança politeísta segue bastante viva na Igreja Católica, é também possível encontrar monoteísmo no Candomblé. Segundo o antropólogo Edison Carneiro, nos cultos de matriz africana,
“sempre se admitiu a existência de um ser que os nagôs chamavam Ôlôrún (palavra que significa Senhor ou Dono do Céu) e que os negros de língua banto chamavam Zambi ou Zambiampungo (que veio a dar, no Brasil, Zania-pombo). Todas as qualidades dos deuses das religiões universais, como o cristianismo e o maometismo são atribuídas à suprema divindade, que não tem altares, nem culto organizado, nem se pode representar materialmente. Tendo criado o céu e a terra, porém, Ôlôrún ou Zania-pombo jamais voltou a intervir nas coisas da Criação.”8
Algo semelhante afirma o fotógrafo e pioneiro nas pesquisas da religião afrobrasileira, Pierre Verger:
“Acima dos orixás reina um deus supremo, Olódùmarè […]. É um deus distante, inacessível e indiferente às preces e ao destino dos homens. Está fora do alcance da compreensão humana. Ele paira acima de todas as contingências de justiça e de moral. Nenhum culto lhe é destinado. Ele criou os orixás para governarem e supervisionarem o mundo.”9
Por último, mas não menos importante, gostaria de discutir o preconceito que favorece os aspectos verbais-abstratos da espiritualidade em detrimento dos aspectos estético-materiais que marcam as religiões afrobrasileiras, usando para isso um conceito fundamental da obra do psiquiatra Carl Gustav Jung: o de Tipo Psicológico.
Na obra publicada em 1921, Tipos Psicológicos, Jung postula a existência na consciência humana de dois pares de funções psíquicas: as funções racionais-julgadoras Pensamento e Sentimento e as funções irracionais-perceptivas Sensação e Intuição. As funções de cada par representam modos opostos e complementares de se perceber e julgar o mundo. A função Sensação é aquela responsável por fazer o indivíduo perceber que algo existe, orientada para o momento presente; a esta se opõe a função Intuição, que aponta o sentido das coisas (“para quê?”), orientado para o futuro. A função Pensamento, por sua vez, dá ao indivíduo uma descrição do que aquela coisa é, isto é, representa a capacidade de criar conceitos explicativos para a realidade. Em oposição a esta, a função Sentimento é a função racional que atribui valor às coisas.10
Além das funções psíquicas, Jung descreveu uma terceira dimensão que atravessa as duas anteriores, que chamou de atitude da energia psíquica: o indivíduo que investe sua energia preferencialmente no mundo material e nas pessoas é chamado de extrovertido; aquele que prefere investir sua energia no seu próprio desenvolvimento interior, nas ideias e criações diversas de sua psique, é chamado de introvertido. Dessa forma, cada função psíquica pode ter uma “tonalidade” introvertida ou extrovertida, o que muda consideravelmente suas características e gera novas oposições.11 Mas – você deve estar se perguntando – o que tudo isso implica para o tema em questão?
Segundo a tese de Jung, o desenvolvimento das funções psíquicas não se dá igualmente para todos. Para ele, cada pessoa possui uma aptidão natural para uma ou duas das quatro funções e uma das atitudes. Desse modo, ao ser socialmente validada por exibir habilidade espontânea num tipo de julgamento ou de percepção (e também para uma atitude determinada, extrovertida ou introvertida), uma criança investe cada vez mais energia psíquica naquela forma de perceber, julgar e viver que lhe é mais natural. Porém, o desenvolvimento preferencial de uma função só pode se dar às custas da função oposta, já que não há tempo ou energia suficientes para que sejamos bem desenvolvidos em todas as funções e atitudes concomitantemente. Isso acaba criando tipos de personalidade marcados pelo uso desta ou daquela função como sua preferencial, e com falhas ou pontos-fracos associados às suas funções menos desenvolvidas, conhecidas como “funções inferiores”.
Em Tipos Psicológicos, Jung dedica boa parte da obra à demonstração de como a existência de funções psicológicas que se organizam em pares de opostos seria a razão por trás de ferrenhas cismas teóricas nas ciências, filosofia e religião ao longo da história. Uma delas é exatamente a controvérsia criada no seio do Catolicismo do século IX, quando o abade Pascásio Radberto publica, num escrito sobre a ceia cristã, a tese da transubstanciação da hóstia e do vinho na carne e no sangue de Cristo. A ele se opôs firmemente Scoto Erígena, filósofo da Idade Média que dizia que a Eucaristia era apenas uma rememoração da ceia de Jesus com os apóstolos e que o paralelo entre hóstia, vinho, carne e sangue era de natureza simbólica, abstrata, não material. Para Jung, Pascásio representava uma corrente extrovertida do pensamento católico medieval, para a qual a relação com o sagrado passava necessariamente pela materialidade do objeto de adoração. Já Erígena, introvertido, dava muito mais valor ao simbólico e abstrato do que ao material. Controvérsias aparentemente inconciliáveis como esta, para Jung, são características da oposição entre funções e atitudes do mesmo par, sendo que cada tipo apresenta contra o seu oposto preconceitos nascidos de uma visão que representa apenas a metade da questão, estando a outra metade contida na função oposta.12 Assim, o introvertido tende a ser considerado pelo extrovertido como alguém que vive com a cabeça nas nuvens, desconectado da realidade, abstrato demais, até mesmo antissocial. O extrovertido, por sua vez, costuma ser visto pelo introvertido como uma pessoa superficial, apegada à matéria e facilmente influenciável pelas pessoas e acontecimentos do mundo.
Também as religiões e povos inteiros demonstram preferências tipológicas que lhe dão um tom peculiar. O filósofo Friedrich Nietzsche, em sua obra inaugural “A origem da tragédia”, via entre os cultos gregos dos deuses Apolo e Dioniso uma oposição entre dois tipos psicológicos distintos, oposição esta que tem um paralelo estreito com aquela invocada por Nina Rodrigues: Apolo seria o deus do sonho, da poesia, da contemplação, abstração, filosofia e individuação; Dioniso seria o deus da embriaguez, da música, da dança, do êxtase e da despersonalização (também transe, possessão…), um estado de conexão profunda com o mundo, a natureza. Eis como descreve este último estado o filósofo alemão:
“Cantando e dançando se externa o homem como membro de uma comunidade elevada. Ele esqueceu o andar e o falar e está em caminho de, dançando, elevar-se nos ares. Seus movimentos manifestam encantamento. Assim como agora falam os animais e a terra produz leite e mel, também dele soa algo de sobrenatural. Ele se sente um deus, vagueia ele mesmo agora tão extasiado e excelso como, em seus sonhos, via vagar os deuses. O homem não é mais artista, é obra de arte; a potência artística da natureza inteira, para a máxima satisfação do Uno Primitivo, aqui se externa sob os estremecimentos da embriaguez.”13
Ora, se “as elevadas abstrações do monoteísmo” às quais refere-se Nina Rodrigues cabem muito bem na descrição nietzscheana do que é o apolíneo, sua descrição do dionisíaco exprime sem qualquer prejuízo as vivências do Candomblé. Jung enxerga na oposição traçada por Nietzsche aquela que se dá entre as funções perceptivas Intuição e Sensação: enquanto a primeira privilegia a meta, o futuro, a segunda está inteiramente presente no momento.14 Eu acrescentaria: enquanto a metafísica apolínea se refugia na supremacia do individual e abstrato, a imanência dionisíaca se embriaga na matéria, na energia e na coletividade, e daí extrai o seu sagrado. Introversão e extroversão.
No Candomblé o sentido é, mais do que uma direção, um atributo daquilo que se pode sentir. Eu ousaria acrescentar que, para esta religião, nenhum sagrado é possível sem o afeto. Se todas as religiões têm seus mitos e metafísica, algumas prescindem do sentir, da imanência, do agora, construindo sistemas de crença que, segundo Nietzsche, negam a vida em nome de um “além”. Se algumas – principalmente os protestantismos, depauperados dos símbolos e fetiches do Catolicismo – privilegiam o pensamento, o verbo, outras afirmam sem medo que, sem o sentimento, o sagrado está incompleto. Uma das principais contribuições de Nietzsche para o pensamento moderno foi justamente a ideia de que a forma, a estética, é tão importante quanto o conteúdo, a ideia. O Cristianismo, principalmente o protestante, prega uma fé que pode ser professada individualmente num encontro solitário com a divindade. O Candomblé não existe sem o fora, sem a coletividade, sem a música, a dança, a comida, o corpo, a cor, o incenso, as folhas, as pedras, o barro, ferro e água, o sangue e a carne.
O sociólogo francês Roger Bastide vai de encontro à psicologia junguiana quando diz, acerca do Candomblé: “cânticos, todavia, não são apenas cantados, são também ‘dançados’, pois constituem a evocação de certos episódios da história dos deuses, são fragmentos de mitos, e o mito deve ser representado ao mesmo tempo que falado para adquirir todo o poder evocador.”15 Em “Arquétipos e o inconsciente coletivo”, Jung também nos conta como as mandalas, os círculos sagrados da mitologia Hinduísta ou Tibetana, deveriam não apenas ser desenhadas, mas também dançadas.16 O xirê (“roda”, em iorubá) do Candomblé é também uma mandala dançada, um círculo que se move em sentido anti-horário e que envolve saudações para os quatro pontos cardeais.
Neste encontro literário entre tantos discursos sobre a religião que aqui proponho, imagino que Jung poderia ter dito ao Nina Rodrigues:
“Tem-se a impressão de se poder fazer qualquer tipo de ciência apenas com o intelecto; mas isto não ocorre com a Psicologia, cujo objeto exorbita os dois aspectos que nos são transmitidos através da percepção sensorial e do Pensamento. A função de valor, ou seja, o Sentimento, constitui parte integrante da orientação da consciência; por isso, não pode faltar em um julgamento psicológico mais ou menos completo, pois de outra forma o modelo do processo real a ser produzido seria incompleto. É inerente a todo processo psíquico a qualidade de valor, isto é, a tonalidade afetiva. Esta tonalidade indica-nos em que medida o sujeito foi afetado pelo processo, ou melhor, o que este processo significa para ele na medida em que o processo alcança a consciência. É mediante o ‘afeto’ que o sujeito é envolvido e passa, consequentemente, a sentir todo o peso da realidade. […] Psicologicamente, não se possui o que não se experimentou na realidade. Uma percepção meramente intelectual pouco significa, pois o que se conhece são meras palavras e não a substância a partir de dentro.”17
Seria possível fazer antropologia apenas com o intelecto? Segundo a Doutora em Psicologia Clínica Eloísa Penna, “Jung critica a exigência de objetividade que exclui a subjetividade nos métodos científicos, declarando que conhecimento e autoconhecimento são indissociáveis e condicionados pela psique do pesquisador.”18 O desejo de saber está tão próximo do desejo, da paixão, quanto está do saber. De modo que só posso pensar que o discurso “científico” de Nina Rodrigues, tendo arregimentado para si um batalhão de preconceitos contra o povo preto da Bahia e sua cosmovisão religiosa, nada mais fazia que proteger-lhe da sedutora tentação de entregar-se àquele modo tão novo e fascinante de viver a vida e o sagrado. O que mais poderia tê-lo feito passar anos de sua vida frequentando diversos terreiros de Candomblé de Salvador, sob o frágil disfarce de uma etnografia desapaixonada e a pretexto de provar o que ele já dizia saber na teoria, o fato de que os pretos da Bahia não eram católicos? O que o fez tomar para si, como objeto de estudo, a cultura de uma etnia que ele classificava de forma tão desfavorável senão o fascínio, o feitiço com o qual a espiritualidade afrodescendente lhe afetava? O que motivou, seguindo a sua trilha, Arthur Ramos, Edison Carneiro, Roger Bastide, Pierre Verger e muitos outros a continuar vindo, de extratos diversos da sociedade brasileira e européia para mergulhar no Candomblé? Ali, penso, eles encontraram o que jamais encontrariam numa vida devotada à um intelectualismo estéril, da mesma forma que Nietzsche, cansado da intelectualidade de seu tempo, aspirava por um retorno aos valores dionisíacos da música, da dança, da arte e afirmação da vida. Pobre de Nietzsche, que não conheceu o Candomblé! Se o houvesse conhecido, teria enfim encontrado o lugar onde os deuses sabem dançar.19
Paulo Nunes – Médico graduado na UFBA em 2005. Psicoterapeuta Junguiano pós-graduado no IJBA em 2018. Contato: (71) 98355-6564 (Telefone e Whatsapp). Instagram.com/jungexplica
REFERÊNCIAS E NOTAS