Por Carlos São Paulo
Guimarães Rosa, em 1962, publicou em seu livro “Primeiras Estórias” o conto “A Terceira Margem do Rio”. É narrado por um filho que vê seu pai como um homem ordeiro, cumpridor de seus deveres e quieto; enquanto sua mãe era quem regia e ralhava. Entre essas atitudes opostas, ele vê o pai construir uma canoa e abandonar a família. Dentro dessa canoa, o pai, como um solitário remador, sai de uma margem do rio sem chegar à outra e nela passa o resto dos seus dias. A vida solitária na canoa, ou o sepulcro em sua mudez a fluir pelo rio da morte social se mostra nesse conto que nos ensina as consequências da experiência de um viver com a rigidez de ser apenas o certo e não o justo consigo mesmo.
Do berçário ao sepulcro, experimentamos a vida. Um homem mergulhado no sofrimento da alma, com medo em existir no lugar da paixão, ao constatar que sua vida não seguiu o curso natural, se colocou numa canoa e fluiu no rio sereno para sair da vida atormentada. O rio grande, fundo, calado como os mistérios da vida, não lhe permitiu revelar o sentido de sua existência, e ele se põe ao rio sem saber qual caminho seguir. É a experiência do não dito e não pleiteado, que de uma vez só aparece naquele que se adaptou ao que os outros queriam e irrompe de vez assustando a todos. O significado daquela vida destoa de um padrão e é tão difícil de imaginar como o é a terceira margem de um rio.
“Nosso pai”, como era chamado pelo filho, seguia o papel que a sociedade lhe prescrevera e se enquadrava no rigor do correto ideal social. O filho reafirma essa posição de lisura do pai de acordo com as normas do “Pai Nosso”. O rio era largo por não poder ver a outra beira. Essa outra margem, como o filho pródigo que se lança a viver uma vida fora dos padrões que lhe foi ensinado, é a que ele não podia chegar e a reprimiu. Esse posicionamento de um homem, com tamanha rigidez de atitude, entrou em contato com o destino que carregava e simbolizou-o numa canoa forte e arqueada em rijo. E tomou o rumo de se colocar fora de qualquer padrão de expectativa do outro social. O processo criativo então lhe cria o espantoso, o diferente, que é um estado difícil de imaginar e aceitar.
A canoa limitava-se a caber apenas o remador. Assim é como cada um de nós seguimos o nosso caminho solitário pela vida. Existimos com uma consciência influenciada pelos conteúdos mais profundos que não nos damos conta e o chamamos de inconsciente. É como se só pudéssemos enxergar uma margem de cada vez; e o que enxergamos sofre a influência da outra beira ignorada sem que saibamos. A cada momento voltamos a nossa consciência a uma única direção, mas se esta traduzir uma posição rigidamente unilateral não perceberemos o seu contrário, e este irromperá na consciência como o produto negado e lhe chamaremos de destino.
Por outro lado, à medida que vamos aos tornando conscientes dessas duas “beiras”, passamos a conviver com os nossos paradoxos. É um lugar que não conseguimos imaginar antes, como é a metáfora que o título dessa história traduz. É daí que cada um pode encontrar o sentido de sua própria vida, apontado por um símbolo resultante da transcendência das “beiras”.
Símbolo é o termo, que para Jung, melhor traduz um fato complexo e ainda não apreendido pela consciência. Quando tomamos o símbolo como algo conhecido, sem respeitar suas dimensões desconhecidas e suas leis não lógicas, perdemos a mensagem que a sabedoria na natureza pretendia nos passar. Na mitologia grega é a canoa de Caronte que, mediante pagamento, transporta as almas por meio do rio das dores até às profundezas das trevas. Nesse conto, a canoa, como símbolo, é aquilo que vai além da margem do bem e do mal, da vida e da morte. As duas margens de um rio situam-se, firmes no espaço e tempo; a terceira passa para uma dimensão desconhecida. Assim é como devemos perceber o que resulta das duas margens opostas: vida e morte. A sua transcendência é a terceira margem do rio, – a dimensão incógnita.
Numa história escrita por Jorge Amado, A morte e a morte de Quincas Berro D’água, Quincas depois de cumprir seus deveres como homem correto e sem a liberdade de ser, afastou-se da família e chegou à outra margem da sociedade, onde permaneceu com a sua morte social para transcender com a morte biológica e chegar na terceira margem que foi a sua morte mítica. Isso revela a experiência humana de quando se entra na “envelhescência”. Nesse momento de admissão ao envelhecer, o mundo concreto tenciona o mundo simbólico, cujas realizações parecem estranhas às objetividades da consciência e nos dificulta aplicar nossa lógica.
A vida civilizada nos tem distanciado do inconsciente, e este se revela por meio de símbolos. Na meia-idade, a vida simbólica se impõe. O símbolo é a face conhecida do desconhecido que desafia a coerência do que chamamos realidade objetiva. Sua linguagem é poética. Por isso necessitamos verificar e respeitar as nossas histórias que aconteceram no ano que passou. Até um dia podermos dizer como o filho de “Nosso pai”: “Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro – o rio”, como a resumir toda a existência.
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Carlos São Paulo – Médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana. . carlos@ijba.com.br