Por Ermelinda Ganem Fernandes
1. Introdução
Jung compreendeu a metanoia como uma transformação profunda da atitude psíquica, marcada por uma inversão progressiva da orientação da vida interior: aquilo que antes se organizava predominantemente em direção ao mundo externo passa a se reorganizar em direção à interioridade (JUNG, 2011). Não se trata apenas de mudar de rumo, mas de mudar de eixo: do mundo para a alma, do fazer para o ser, do desempenho para o sentido.
Entretanto, a experiência clínica e existencial contemporânea sugere que esse não é o único limiar transformativo da vida psíquica. Na maturidade avançada, emerge frequentemente uma outra forma de crise – mais silenciosa, menos dramática, mas não menos radical – que não se organiza em torno da revisão das escolhas, e sim em torno da dissolução das formas que sustentaram a identidade. É a essa experiência que se propõe chamar Segunda Metanoia, que para Connie Zweig ocorre geralmente por volta ou após os 60 anos de idade.
Erikson (1998) descreveu o último grande conflito psíquico como a tensão entre integridade e desespero. Hillman (1999), por sua vez, recusou a ideia de que a vida psíquica se organize apenas em termos de crescimento e adaptação, propondo compreender a velhice como uma estação própria da alma, marcada por aprofundamento, retração e deslocamento do centro da vida do fazer para o ser.
2. A Primeira Metanoia: reorganização do eu e queda da persona
A primeira metanoia corresponde à crise da meia-idade descrita por Jung e por autores como Levinson (1978) e Hollis (2006). Nesse momento, os ideais do ego entram em conflito com a realidade vivida, produzindo desilusão, questionamento e, muitas vezes, sofrimento.
O trabalho psíquico consiste então na relativização da persona, na integração de aspectos da sombra e na tentativa de construir uma forma de vida mais condizente com as exigências do arquétipo do Si-mesmo. Ainda se trata, porém, de um movimento centrado no ego: busca-se uma nova identidade, mais verdadeira, mas ainda identidade.
Se a primeira metanoia pode ser compreendida como uma crise de reorganização identitária, a segunda apresenta uma natureza distinta. Não se trata mais de reformular o eu, mas de confrontar seus limites. O que entra em colapso não é apenas uma identidade específica, mas a própria necessidade psíquica de sustentar uma identidade como eixo central da existência.
3. A Segunda Metanoia: o esvaziamento do mito pessoal
Na maturidade tardia, algo diferente acontece. Já não se trata de reorganizar a identidade, mas de atravessar sua dissolução. A libido se retira progressivamente dos investimentos externos e retorna ao interior (JUNG, 2011). Os papéis sociais perdem centralidade, o corpo impõe seus limites, e a finitude deixa de ser uma abstração para tornar-se uma presença psíquica concreta.
Nesse contexto, aquilo que se desfaz não é apenas um papel social ou uma função, mas o próprio mito pessoal – a narrativa que organizou o sentido da vida até então. Hillman (1999) descreveu esse movimento como uma descida da alma: não uma queda patológica, mas um aprofundamento que desloca o eixo da vida do desempenho para a interioridade, da adaptação para a verdade imaginal.
4. A Segunda Metanoia segundo Connie Zweig
O relato de Connie Zweig oferece uma imagem particularmente precisa desse processo. Ao aproximar-se dos 68 anos, ela sonha que uma mulher de seu passado lhe rouba a bolsa contendo seus documentos de identidade, confrontando-a simbolicamente com a perda dos suportes externos do eu (ZWEIG, 2021).
O sonho dramatiza uma crise que já não se organiza em torno do que foi realizado, mas em torno da pergunta sobre quem se é quando as formas habituais de identidade deixam de operar. A bolsa representa os marcadores sociais e psíquicos do eu; seu roubo simboliza a dissolução dessas referências.
A ladra – uma colega do ensino médio – encarna aspectos do passado que foram rejeitados na construção do eu e que retornam não para serem revividos, mas reconhecidos. O passado aparece como uma estrutura viva que continua a operar silenciosamente no presente.
A casa vazia e desorganizada para onde o sonho conduz simboliza o estado de esvaziamento psíquico que acompanha o colapso dos antigos mitos pessoais.
A devolução da bolsa vazia indica que a identidade não reside nos conteúdos, papéis ou narrativas, mas no processo relacional que se estabelece quando essas construções perdem centralidade. A Segunda Metanoia, nesse sentido, não conduz a uma nova forma de identidade, mas a uma relação menos rigidamente identificada com qualquer forma específica de ser.
5. Implicações clínicas
A principal implicação clínica é a necessidade de não patologizar esse estado. A Segunda Metanoia pode ser acompanhada de sofrimento, mas não se reduz a um transtorno. Trata-se de um luto pela identidade e, ao mesmo tempo, de uma reorganização silenciosa da relação com o Self.
Intervenções excessivamente orientadas à restauração da produtividade ou do bem-estar podem interromper esse processo. A escuta clínica precisa ser capaz de sustentar o vazio, o não-saber e a retração temporária do investimento no mundo.
6. Considerações finais
A Segunda Metanoia não representa uma falha adaptativa, mas uma reorganização profunda da economia psíquica. Ela não conduz à expansão do eu, mas à sua relativização. Esse movimento pode ser compreendido como uma condição necessária para a integração tardia da experiência de vida e para uma relação menos defensiva e mais abrangente com o Self.
Ermelinda Ganem Fernandes – Médica, psicoterapeuta junguiana, doutora em engenharia e gestão do conhecimento, coordenadora da pós graduação lato sensu em terapia junguiana e criatividade do IJBA.
Referências
ERIKSON, E. H. O ciclo de vida completo. Porto Alegre: Artmed, 1998.
HILLMAN, J. The Soul’s Code: In Search of Character and Calling. New York: Random House, 1999.
HOLLIS, J. The Middle Passage: From Misery to Meaning in Midlife. Toronto: Inner City Books, 2006.
JUNG, C. G. Aion: Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Obras Completas, v. 9/2. Petrópolis: Vozes, 2011.
LEVINSON, D. J. The Seasons of a Man’s Life. New York: Knopf, 1978.
ZWEIG, C. Meeting the Shadow on the Spiritual Path. New York: TarcherPerigee, 2021.