Candomblé: o corpo e a alma do sagrado

Em seu estudo mais conhecido, “O animismo fetichista dos negros baianos”, Nina Rodrigues critica a pretensão do Catolicismo de sua época à supremacia completa da fé cristã na população baiana, considerando isto uma ilusão que esbarrava na “incapacidade física das raças inferiores para as elevadas abstrações do monoteísmo.”5 Para Rodrigues, o monoteísmo católico era superior ao politeísmo das religiões de matriz africana porque o primeiro se baseava em princípios intelectuais abstratos (a Trindade, o Verbo, a fé, a salvação etc.), sendo o segundo relegado à categoria pejorativa de “fetichismo”, isto é, uma espiritualidade que tem lastro na matéria, no poder mágico (o axé) conferido a objetos e existente nos elementos físicos da natureza, como o fogo, a água, os rios, pedras, plantas e animais. A oposição enunciada por Rodrigues entre ideia e matéria é apenas mais uma iteração de um clássico embate conceitual para o qual Psicologia Analítica tem muito a contribuir.