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	<title>Arquivos Artigos - IJBA</title>
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	<description>Instituto Junguiano da Bahia</description>
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	<title>Arquivos Artigos - IJBA</title>
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		<title>Como atravessar a Nigredo alquímica: perda, medo e reconstrução da vida em C.G.Jung e James Hillman</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Bárbara Assis]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 16 Sep 2026 21:44:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Ermelinda Ganem Fernandes Silveira Resumo Este artigo propõe uma reflexão teórica sobre a nigredo alquímica como imagem arquetípica de períodos de ruptura, perda de referências, precariedade, medo e transformação da existência. A partir da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung e da Psicologia Arquetípica de James Hillman, discute-se a possibilidade de compreender determinadas crises [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Por <strong>Ermelinda Ganem Fernandes Silveira</strong></p>



<p><strong>Resumo</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-59413158dbfab6935111d2e9aa4c7efb">Este artigo propõe uma reflexão teórica sobre a nigredo alquímica como imagem arquetípica de períodos de ruptura, perda de referências, precariedade, medo e transformação da existência. A partir da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung e da Psicologia Arquetípica de James Hillman, discute-se a possibilidade de compreender determinadas crises não apenas como acontecimentos que devem ser rapidamente superados, mas como experiências de dissolução das formas anteriormente utilizadas pelo ego para organizar a vida. Na alquimia, a nigredo relaciona-se ao enegrecimento, à decomposição, à mortificatio, à putrefactio e à solutio. Psicologicamente, essas imagens podem representar momentos nos quais antigas identificações, personas, projetos e formas de adaptação deixam de oferecer sustentação suficiente, enquanto novas configurações ainda não se constituíram. Discute-se também a importância do vaso alquímico como imagem de continência, da coagulatio como retorno à matéria e ao cotidiano, e da sustentação dos opostos como condição para a transformação. Em diálogo com Hillman, problematiza-se a tendência contemporânea de transformar todo sofrimento em narrativa de superação, propondo-se, em seu lugar, uma atitude de permanência diante das imagens produzidas pela experiência. Conclui-se que atravessar a nigredo não significa necessariamente sair rapidamente da escuridão, mas desenvolver a capacidade de permanecer psiquicamente presente enquanto antigas formas se dissolvem e outras, ainda desconhecidas, começam lentamente a adquirir corpo.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-ed8fffda45201ee7e59abcf73570d5a2"><strong>Palavras-chave:</strong> Nigredo. Alquimia. Psicologia Analítica. Jung. Hillman. Individuação. Coagulatio.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-94518c85582699d33482a86296f2f029"><strong>1 INTRODUÇÃO</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-2965eab9cfd5c3fa3b12dbec1f8a36f2">Existem períodos da existência em que não é apenas um aspecto da vida que entra em crise. Diferentes estruturas que até então sustentavam a identidade parecem perder simultaneamente sua consistência.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-4173743bb235e29153b1c6ddcd49ef8c">A segurança material pode desaparecer. O trabalho pode deixar de oferecer a estabilidade conhecida. Uma identidade profissional construída durante anos pode já não parecer suficiente, enquanto antigas competências precisam ser retomadas em circunstâncias inteiramente novas. O futuro torna-se incerto e o corpo pode responder com medo, ansiedade e sensação de desorientação.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-77c26e5f866f1a674cf7d688bc917fdc">Nessas circunstâncias, falar simplesmente em “superação” pode ser insuficiente. Há experiências que não podem ser superadas sem antes serem atravessadas.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-f0259182cf6158688b268453921033b6">A antiga alquimia oferece uma imagem particularmente fecunda para a compreensão desses períodos: a nigredo, o enegrecimento da matéria.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-61bd2758f1f9f6f7451353299cccb950">Na tradição alquímica, a transformação não começa necessariamente com o surgimento de algo novo. Muitas vezes começa pela decomposição daquilo que existia anteriormente. A matéria escurece, dissolve-se, separa-se e perde sua forma conhecida. Jung reconheceu nesse processo uma poderosa representação simbólica de determinadas experiências de transformação psíquica (JUNG, 2012).</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-b3fadedb6dd1e1ae018c0ea348f93216">A nigredo pode, assim, ser compreendida psicologicamente como um momento no qual as formas anteriores de organização da consciência já não conseguem sustentar a existência, enquanto as novas formas ainda não se constituíram.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-2a516604be06171b7bf80b43d5c1e016">É justamente essa posição intermediária que torna a experiência tão angustiante.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-91bbc315963dea3447230fbb32084d5c">O antigo mundo perde sua forma. O novo ainda não nasceu. Entre ambos encontra-se o sujeito.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-e5063f3956c688f8bdee9dd0ec1e230d">A experiência pode manifestar-se de muitas maneiras: na perda da segurança material; na ruptura de uma trajetória profissional; na necessidade de retornar a atividades anteriormente abandonadas; na percepção do envelhecimento; na perda de lugares sociais anteriormente ocupados; na dissolução de vínculos ou projetos; ou simplesmente na constatação dolorosa de que a vida já não poderá continuar da maneira como vinha sendo vivida.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-fbbe60a1ec090bd19c79ca3c779b7d8b">Essas experiências apresentam um denominador comum: o ego perde temporariamente o mapa.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-750d38c09c3f1eab712047a408f8cf4d">É nesse território que a linguagem alquímica de C. G. Jung e a perspectiva imaginal de James Hillman podem oferecer uma contribuição particularmente importante.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-30fd491d389209a7f37f149cccac1064">A questão que orienta este artigo não é, portanto, “como eliminar a nigredo?”, mas algo diferente: como atravessar a escuridão sem violentá-la com uma luminosidade prematura?</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-77e1f758011938e862b185c7e954b4cc">Como reconhecer a precariedade sem reduzi-la apenas às suas circunstâncias externas? Como continuar agindo quando o corpo sente medo? Como reconstruir uma vida quando ainda não se sabe exatamente qual vida poderá emergir dos escombros da anterior?</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-bb7b36971a9e6c2d9d42ccef4025420d">E, finalmente, como distinguir uma verdadeira transformação psíquica da fantasia heroica de que todo sofrimento precisa rapidamente converter-se em crescimento?</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-8a8803e73a8ecd68518e5b386b477ee2">A partir da Psicologia Analítica de C. G. Jung e da Psicologia Arquetípica de James Hillman, propõe-se compreender a nigredo não como um erro do percurso, mas como uma imagem radical da experiência humana diante da perda, da precariedade, da incerteza e da transformação.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-077a9aeedb0f98c3649bb78165cf3934">Atravessá-la talvez não signifique encontrar imediatamente uma saída. Talvez signifique aprender, durante algum tempo, a enxergar no escuro.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-07ac2f04c39497801c27e9018f6d2f11"><strong>2 NIGREDO: QUANDO A MATÉRIA PERDE A FORMA</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-2dbe680aafaa22ba2b3e42bba3a9102e">A alquimia ocidental desenvolveu uma complexa linguagem de operações, substâncias, cores, recipientes e transformações. Embora os alquimistas trabalhassem concretamente com a matéria, Jung percebeu que os textos alquímicos apresentavam paralelos extraordinários com processos encontrados na experiência psicológica.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-a12f119890976af2b8e50ddc349dce27">Para Jung (2012), os alquimistas projetavam sobre a matéria aspectos inconscientes da psique. Como desconheciam grande parte dos processos físico-químicos que observavam, o laboratório transformava-se também em uma espécie de cenário no qual conteúdos inconscientes podiam adquirir imagens.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-c29e0416674e420075d85993879f06ea">A alquimia tornou-se, assim, para Jung, uma espécie de ponte histórica entre o gnosticismo e a moderna Psicologia do Inconsciente.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-6b11131aa3cf537f0360e1049c7fd77e">Entre as imagens mais importantes do processo alquímico encontra-se a nigredo. A palavra latina significa literalmente “negrura” ou “enegrecimento”. Trata-se de um estado associado à decomposição da matéria, à putrefactio, à mortificatio, à dissolução e à separação.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-8ab0f8995b3a2b5bf0da5bea202a8c3f">Psicologicamente, o simbolismo é poderoso. Alguma coisa precisa perder sua forma anterior para que outra configuração se torne possível.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-221bdf646e4cdebf06bbbe0692bc19e7">Essa afirmação, entretanto, precisa ser compreendida cuidadosamente. Não significa que todo sofrimento produza transformação. Tampouco significa que crises devam ser procuradas ou romantizadas.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-7ed5df95e8fd41d6e0676842995886ab">A alquimia apresenta uma ideia mais sutil: quando uma transformação profunda efetivamente acontece, a conservação integral da forma anterior pode tornar-se impossível.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-4fad5cc3b147d8778c9436ae98f26791">É essa impossibilidade que o ego experimenta como crise. A consciência procura preservar continuidade. Necessita reconhecer-se através do tempo e, para isso, constrói narrativas relativamente estáveis: “Eu sou isto.” “Minha vida é assim.” “Este é o meu lugar.” “É desta maneira que consigo sobreviver.” “Estas são as minhas capacidades.”</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-ed8a9bcf6b9eb3b337d68de5648f0d1c">Enquanto essas formulações correspondem suficientemente à realidade, oferecem orientação. A nigredo começa quando deixam de corresponder.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-499f560138b8fde09d74aba64463a81d">A vida mudou, mas a imagem que o sujeito possui de si ainda pertence ao mundo anterior. Instala-se então uma experiência peculiar de desencontro: aquilo que se era já não é inteiramente possível; aquilo que se será ainda não pode ser imaginado. A matéria psíquica escurece.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-9caeb68ba187d42f4c4559a784a7d403"><strong>3 MORTIFICATIO: A MORTE DAS IDENTIFICAÇÕES</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-53a1eba09f199bbf9b19e14392cb6361">Uma das operações associadas à nigredo é a mortificatio. A imagem é deliberadamente desconfortável. Algo precisa morrer. Mas, psicologicamente, é fundamental perguntar: o que morre?</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-4373225d059c4583b68399c4f0ddbd4a">Em muitos processos de transformação não é o sujeito que precisa desaparecer, mas determinada identificação através da qual o ego acreditava saber definitivamente quem era.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-a8bf6af9d2f7d014635ebb3b7f3ecfe7">A persona constitui um exemplo importante. Jung compreende a persona como uma estrutura necessária à adaptação social. Ela permite desempenhar papéis, ocupar posições profissionais e estabelecer relações com o mundo coletivo. O problema surge quando ocorre identificação excessiva entre ego e persona.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-3de6003115d25a727f14c8e6c8b4d4a6">O indivíduo deixa então de dizer “exerço determinada função” e, psicologicamente, passa a dizer: “eu sou esta função”.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-410d3cb0254611bdae8a7f1edb0f6b83">Uma ruptura profissional, econômica ou social pode produzir, por isso, efeitos muito maiores do que os acontecimentos externos aparentemente justificariam. Não se perde apenas um emprego. Pode-se perder uma imagem de si. Não se perde apenas determinado padrão econômico. Pode-se perder uma fantasia de autonomia, segurança ou invulnerabilidade. Não se perde apenas uma função. Pode-se perder o lugar através do qual o sujeito se reconhecia no mundo.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-f736dfc6537da577ff3ffe6c6c09bcd6">A mortificatio expõe essa identificação. E é precisamente por isso que dói.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-2f2c52f6da70eaf906eb7e682c89dc39">A consciência inicialmente interpreta a decomposição como fracasso, porque ainda utiliza como critério de avaliação os valores da personalidade que está sendo transformada.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-b5f5a0bb6b8bf8b2bf7f4b550cd87794">A pergunta “por que não consigo voltar a ser quem eu era?” torna-se então inevitável.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-c760a093d550e043c632c4ca41528177">Do ponto de vista alquímico, entretanto, talvez a pergunta precise ser modificada: e se o objetivo não for voltar a ser quem se era?</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-1ac2d2ce0a08e469640591ab5910158d">A nigredo introduz a possibilidade perturbadora de que determinadas crises não estejam exigindo restauração, mas transformação.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-b03962f3a1c9076330b2fe2b5cb5129a"><strong>4 PUTREFACTIO: O QUE FAZER COM AQUILO QUE APODRECE?</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-358de5a765874f052d7e1a0d329ce5c4">A putrefactio acrescenta outra dimensão à experiência. Aquilo que morre não desaparece imediatamente. Decompõe-se.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-eb24a18f246dae7b6a0a5d2de2588d37">Essa imagem possui enorme valor psicológico porque impede uma compreensão excessivamente limpa da transformação.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-9696f001c76af17db42d493f714e2ac4">Há resíduos. Há contradições. Há ressentimentos. Há medo. Há vergonha. Há tentativas de recuperar o que já se perdeu. Há momentos de esperança seguidos por momentos de desânimo. Há progressos e regressões.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-e976fd8e9daaa38709c483b3f5a58fbf">A consciência heroica gostaria de organizar esse percurso numa linha ascendente: crise, compreensão, superação, crescimento. Mas a alma raramente se movimenta de maneira tão organizada.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-c5c1aa7792c02eb691f3bc8953734344">Hillman (2010) questiona justamente uma psicologia excessivamente orientada por desenvolvimento, adaptação e fortalecimento egoico. A perspectiva arquetípica desloca a pergunta do “como melhorar?” para “que imagem está se apresentando?”.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-26e8ef39e9b73d3d8e7337ac06dd2d60">Essa mudança é decisiva para a compreensão da nigredo.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-d6969c5ee970b3c6486f411f0fa62844">Em vez de perguntar imediatamente como eliminar a experiência, torna-se possível perguntar: que imagem possui este sofrimento? É um deserto? Uma floresta? Um quarto escuro? Uma casa desmoronando? Um mar sem margens? Uma terra queimada? Um vaso fechado?</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-63da65aec39acb14761f38f3eb4e470c">A imagem não é um ornamento poético colocado sobre o sofrimento. Para Hillman, ela constitui uma das formas fundamentais através das quais a psique se apresenta.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-45ff8b8d37557baccfce24d2ad920f06">Permanecer junto à imagem permite que a experiência adquira profundidade.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-cdf47c8a17f3918b04c17e0c6312f584"><strong>5 HILLMAN E A NECESSIDADE DE DESCER</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-79b1065a6753377fffdd4b21c28cc563">Grande parte da cultura psicológica contemporânea é orientada verticalmente para cima. Deseja-se crescer. Evoluir. Superar. Elevar a autoestima. Aumentar a produtividade. Encontrar propósito. Transformar adversidade em oportunidade.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-a0e2db0f1fc6bcc69040d321f493f707">A Psicologia Arquetípica introduz uma direção diferente: descer.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-ee362c7c93e2e006aac2540402d0776c">A descida não significa desejar sofrimento. Significa reconhecer que determinadas experiências psíquicas possuem movimento próprio em direção às profundezas.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-341734394d8be8f98117662a13d58f5c">A tristeza desacelera. A perda retira energia dos objetos anteriormente investidos. O medo contrai. A incerteza interrompe a fantasia de domínio. A depressividade pode reduzir a velocidade heroica da consciência.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-0f2737782336e32b89f73d655fa2cfae">Hillman chama atenção para o fato de que a alma não se expressa exclusivamente através daquilo que a cultura considera positivo. Ela aparece também na patologia, na fantasia, no sintoma, na repetição e nas imagens sombrias.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-63012093e4a02cdd7e2bfa602fa11d3a">Nesse sentido, tentar retirar imediatamente uma pessoa da nigredo pode significar retirar a psique do lugar em que alguma coisa importante está acontecendo.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-9081d0505348c393e4774132a10db47b">Isso não implica abandonar tratamento, cuidado ou intervenção quando necessários. Significa apenas que cuidar não é sinônimo de eliminar imediatamente toda experiência desagradável.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-8f4fde0c029fa0131d882774124b2af3">Existe uma diferença entre sofrer inutilmente e escutar psicologicamente o sofrimento que já existe. A Psicologia Arquetípica interessa-se especialmente pela segunda possibilidade.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-e33e72a1bf37bb06ec31c33ec0c4bd79"><strong>6 O VASO ALQUÍMICO: A NECESSIDADE DE CONTINÊNCIA</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-63c400f12c148243ae77a49c6982834d">Uma transformação alquímica exige recipiente. A matéria submetida ao fogo precisa permanecer em algum lugar. Sem vaso, não há transformação: há dispersão.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-caa3153e93ef5f5d3060306521894484">A imagem do vas hermeticum torna-se, assim, extraordinariamente importante para pensar psicologicamente períodos de nigredo.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-dd2edbc039c509826b3fde1601702469">Quando diferentes estruturas da existência se desorganizam simultaneamente, uma das tarefas fundamentais não consiste necessariamente em encontrar uma solução definitiva, mas em construir continência suficiente para atravessar o processo.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-408d9b59e7d678187a2dfe9798ae60ee">O vaso psicológico pode assumir formas simples e concretas. Uma rotina pode ser vaso. O trabalho pode ser vaso. A psicoterapia pode ser vaso. A escrita pode ser vaso. Uma prática artística pode ser vaso. Os vínculos podem ser vaso. O estudo pode ser vaso. O corpo pode ser vaso. Determinados rituais cotidianos podem funcionar como pequenas paredes simbólicas que impedem a dispersão completa da experiência.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-8c52a7d39b3526b2ec814fd1649994a6">Essa concepção modifica profundamente a ideia de força. Ser forte não significa permanecer intacto.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-f64b8d7837d9606a63654c924ba0a000">O vaso alquímico também é submetido ao fogo. Sua função não é evitar a transformação, mas oferecer limites para que ela possa acontecer.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-85a58e31520527ea95ab0001c489daa7">Em situações de crise, a pergunta deixa então de ser apenas “como resolver minha vida?” e pode tornar-se: “Que vasos preciso construir para conseguir permanecer dentro da minha vida enquanto ela se transforma?”</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-3c5b642d218cf0948b490407515292c4">Essa pergunta é mais modesta. E talvez, justamente por isso, mais realizável.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-0d48ac3d2be4e60aebb9b5c9d61b23fc"><strong>7 COAGULATIO: QUANDO A ALMA PRECISA DE CHÃO</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-6ea930c6d9db0df086d7d127695b3cde">Se a solutio dissolve, a coagulatio oferece corpo. A alquimia não é apenas uma psicologia da dissolução. É também uma psicologia da matéria.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-1a25fb7f588f4a02c3b7803432a91520">Essa dimensão torna-se particularmente importante quando a crise envolve segurança material, trabalho e sobrevivência.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-82be79df1d60c923a51d916b48787a37">Existe uma tendência, especialmente em determinadas leituras espiritualizadas da psicologia, a considerar preocupações materiais como inferiores diante de questões supostamente mais elevadas da alma.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-b35a4b910303c9e60227a2ad72352364">A alquimia contradiz essa separação. O opus acontece na matéria. A alma precisa de corpo. Precisa de casa. Precisa de alimento. Precisa de dinheiro. Precisa de trabalho. Precisa de repetição. Precisa de horários. Precisa de limites.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-b3a2332a04fb86b3c23a3778acc95f2e">Hillman, em sua leitura da alquimia, chama atenção para a necessidade de permanecermos próximos das qualidades concretas das operações alquímicas. A matéria possui peso, resistência, densidade, temperatura e textura (HILLMAN, 2011).</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-78d41a9fd51993c22b9332bf5ec31ae1">Psicologicamente, coagular significa permitir que aquilo que se encontra excessivamente disperso, abstrato ou volatilizado adquira forma.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-ea76b2e080e5081f0c922298a11ec072">Há momentos em que a transformação psíquica não exige mais interpretação. Exige ação.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-8c11a8776a9799b361461f1791be7524">Levantar. Vestir-se. Sair. Trabalhar. Organizar contas. Reaprender uma tarefa. Cumprir horários. Receber remuneração. Dormir. Alimentar-se. Repetir no dia seguinte.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-5ad994f9be358d5104ac22ca40c8e722">Essas ações aparentemente banais podem constituir operações profundamente psicológicas.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-5f542af35a6d03cf27fe6ecb61c31162">A coagulatio recorda que o processo de individuação não acontece fora da vida concreta. O Si-mesmo não é uma abstração espiritual. A transformação precisa, em algum momento, ganhar corpo.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-ef786d9645808f631ce5f621b405e4ea"><strong>8 O MEDO E A FANTASIA DE QUE PRIMEIRO É PRECISO ESTAR PRONTO</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-fcf2ac1f6da2a0c53d425e071f375a4a">Entre a dissolução e a reconstrução surge frequentemente o medo.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-90b18675f0ab5c687872ef9f3fe21f79">Quando antigas competências precisam ser retomadas, quando novos espaços profissionais precisam ser ocupados ou quando a existência exige ações para as quais o sujeito não se sente preparado, pode aparecer uma fantasia paralisante: “Primeiro preciso deixar de sentir medo. Depois poderei agir.”</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-2c942b8db21f0d73fe1ae6eb0f4e5e1e">Mas talvez a ordem seja inversa. A confiança pode não anteceder a experiência. Pode nascer dela.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-e2d9fff9b5e892271f780e144a497d19">Há um tipo de segurança que só se constitui depois que o corpo atravessa repetidamente aquilo que temia. Nesse sentido, esperar o desaparecimento completo do medo antes de agir pode prolongar indefinidamente a imobilidade.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-63e5e07c6e7b9abe9d287f5e084b970c">A perspectiva alquímica oferece outra possibilidade: colocar também o medo dentro do vaso. Não expulsá-lo. Não obedecê-lo cegamente. Trabalhá-lo.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-5f05091a9a1930ece48cc0ae0ec15e46">A coragem deixa então de ser compreendida como ausência de medo. Passa a ser a capacidade de realizar determinados movimentos na presença do medo.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-ce12b24f52bf5ce4f65a3edd56292532">Essa distinção possui importância particular na nigredo, porque o ego tende a interpretar sua própria insegurança como evidência de incompetência.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-eb602fe0a14247ec806bf3a7943d12fc">Mas sentir-se inseguro diante de uma passagem não significa necessariamente ser incapaz de realizá-la.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-c123e6db8864533a5b9a2ef55d9f60fc">O medo pode simplesmente anunciar: há uma passagem aqui.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-741dfc9fd98e38c72fe0d85ba8feaf39"><strong>9 SUSTENTAR OS OPOSTOS</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-e6413634b1d42e3f6bb09efa4f43b09a">A alquimia é profundamente marcada pelo problema dos opostos: Sol e Lua, Rei e Rainha, enxofre e Mercúrio, masculino e feminino, espírito e matéria, vida e morte.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-966d29ee77ea550789c08f2ce22931f1">Jung dedicou grande parte de Mysterium Coniunctionis à investigação dessas polaridades e à imagem da coniunctio, a união dos opostos (JUNG, 2011).</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-f5362ef4186afdc221b92178e0103625">Psicologicamente, o problema torna-se fundamental porque a consciência tende a procurar soluções através da exclusão: ou isto ou aquilo; ou segurança ou risco; ou medo ou coragem; ou estabilidade ou transformação; ou matéria ou espírito.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-b199041100c33bfdb35b707e99bffc8b">Entretanto, determinadas passagens da vida exigem outra lógica.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-4eaa4ff5d0187391329a4b3382a800ee">É possível sentir medo e agir. É possível experimentar perda e construir. É possível estar desorientado e trabalhar. É possível não conhecer o futuro e realizar aquilo que o presente exige.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-632c16e929ef7c2b61c4fa2a0d8be378">Essa pequena palavra — e — possui enorme potência psicológica. Ela cria um terceiro espaço.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-09f3d4743315e1fab3d86b71b9f95eae">A função transcendente, conforme Jung, emerge precisamente da possibilidade de sustentar a tensão entre posições opostas sem resolver prematuramente o conflito através da identificação unilateral com um dos polos.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-f45b88013ea916f26d75958a03c3cef7">O novo não é produzido voluntariamente pelo ego. Ele emerge da relação.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-c09422fa373a76fef40d3fb7817c64b7">Por isso, a pergunta fundamental da nigredo talvez não seja “qual dos lados devo escolher?”, mas: “Consigo permanecer tempo suficiente entre esses opostos para que uma terceira possibilidade possa aparecer?”</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-5ff7af48c9c8b90b48825f1f748255f5"><strong>10 O PERIGO DA ALBEDO PREMATURA</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-86050e257cd8b1744cdeae605e9a1ff6">Talvez um dos maiores riscos de uma leitura psicológica da alquimia seja transformar suas etapas numa fórmula de autoajuda: nigredo, sofrimento; albedo, compreensão; rubedo, felicidade.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-658cf12e4795cbcf93836f57fcbf87ab">Essa simplificação destrói justamente a complexidade do símbolo alquímico. Não existe garantia de linearidade. Os processos podem repetir-se. A matéria pode escurecer novamente. Uma aparente clarificação pode revelar-se provisória.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-ca867c4e1767aa60b40c6a88584d0aa5">Por isso, existe algo que poderíamos denominar albedo prematura: a necessidade do ego de encontrar rapidamente luz, significado e crescimento para não permanecer diante da escuridão.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-7795353960bdd40c63358f2e4560c8ed">Ela aparece em formulações conhecidas: “Tudo acontece por alguma razão.” “Essa crise veio para ensinar.” “Você sairá mais forte.” “Foi necessário perder para encontrar seu verdadeiro caminho.”</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-8ed5f33e74ef2bf915b54568da368c68">Essas frases podem eventualmente adquirir sentido para determinada pessoa. O problema está em utilizá-las antes que a própria experiência tenha produzido esse significado.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-96988a69ec9d883c033c7528a8d90aea">Quando isso acontece, a luz não ilumina a escuridão. Ela a encobre.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-4f575c337ce2bcbd5b0c58069ba1ad6c">Hillman ajuda a resistir a essa tentação ao insistir na necessidade de permanecer com a imagem, aprofundando-a em vez de rapidamente convertê-la em explicação.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-fd8463b4f23774b86c4569255c9978c4">Talvez a tarefa não seja encontrar imediatamente o sentido da nigredo. Talvez seja permitir que ela permaneça sem sentido suficiente durante algum tempo.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-581dcbee168b6707c2a98f72d5379dfe">Essa capacidade exige grande tolerância à incerteza.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-2d0ad2f5c54e34f6064d3783f35a946d"><strong>11 ATRAVESSAR A NIGREDO</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-7729ed3f2c0865d5d9e08d2e554d4e8c">Chega-se, finalmente, à questão proposta pelo título deste artigo. Como atravessar a nigredo?</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-7be6ab715a2931731d8e305a45907f51">A própria pergunta contém uma armadilha. “Atravessar” pode sugerir que existe um método para chegar rapidamente ao outro lado. Mas a alquimia ensina justamente o contrário.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-0f996c3833604724a585895445a61462">A matéria possui seu tempo. O fogo não pode ser arbitrariamente acelerado sem destruir aquilo que está sendo trabalhado.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-242f964a67bf72199a0cc76a02c33395">Atravessar a nigredo talvez signifique, antes de tudo, abandonar a exigência de sair imediatamente dela.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-d71c21dbc35096992ee919d98f97c500">Significa construir vasos. Reconhecer perdas. Permitir que determinadas identificações morram. Aceitar a desorientação sem transformá-la automaticamente em fracasso. Cuidar da matéria. Retornar ao corpo. Trabalhar. Reconstruir gradualmente sustentação. Reconhecer o medo e continuar realizando pequenos movimentos. Sustentar os opostos. E não exigir luminosidade antes que os olhos tenham aprendido a enxergar no escuro.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-880348b132eb291e4fd426a3ad6b1937">Existe uma diferença profunda entre passividade e espera. A passividade abandona o processo. A espera alquímica trabalha enquanto espera.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-ecd163f47226231cce6cc7ece8507330">O alquimista mantém o fogo. Observa a matéria. Regula a temperatura. Protege o vaso. Intervém quando necessário. E aguarda.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-99fdde2cfeabd81bbef2564e389cb8d9">Psicologicamente, talvez seja essa a atitude necessária.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-7798b6c354ccb2102cf83075ee0b7007">Não permanecer imóvel diante da crise, mas também não violentar seu tempo.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-2e49e2bd59a2b8a7deb9d9d6a89919ae">Trabalhar sobre aquilo que pode ser trabalhado e suportar aquilo que ainda não pode ser resolvido.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-6ea5a7aa4db406711e10c1b706ca4535"><strong>12 CONSIDERAÇÕES FINAIS: APRENDER A ENXERGAR NO ESCURO</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-2319d2a553a8401169736495fb69ac90">A nigredo apresenta à consciência uma experiência particularmente difícil: a perda da forma antes do aparecimento de uma nova configuração.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-d4a833c006fcfcbe81aafe69d6f73bdc">Aquilo que oferecia identidade pode deixar de funcionar. As garantias podem desaparecer. Antigas competências podem precisar ser retomadas sob novas condições. O corpo pode responder com medo. O futuro pode tornar-se opaco.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-368d3fe3934808b3b59f5efc2dab8db7">A reação natural do ego é desejar sair rapidamente desse estado. Jung e Hillman, entretanto, permitem formular outra possibilidade.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-e87a6bbcb143e7053d63ce301b34b3dc">Talvez a primeira tarefa não seja sair. Talvez seja permanecer psiquicamente presente.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-7174d67a61847f7ce9493cf78394c416">Permanecer não significa resignar-se. Significa não abandonar a experiência enquanto se trabalha concretamente sobre aquilo que ainda pode ser transformado.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-bb6f68ca68568b0bed28153601148917">Nesse sentido, a nigredo não ensina uma psicologia da desistência. Ensina uma psicologia da profundidade.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-9dcad1ffa7d7199fb424e4f04547fb4a">A mortificatio recorda que determinadas identificações precisam morrer. A putrefactio mostra que a transformação possui resíduos e não acontece de maneira limpa. O vaso ensina a necessidade de continência. A coagulatio devolve a alma à matéria. A tensão dos opostos impede soluções unilaterais. E a recusa de uma albedo prematura protege a experiência contra explicações luminosas produzidas cedo demais.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-8ac1c41535f94ea5caebdc251ce907bb">Talvez seja possível, então, responder à pergunta inicial. Como atravessar a nigredo?</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-400bba5f711854c0ff20d03a2879c891">Não existe fórmula. Mas existem atitudes.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-896b2c421cda49dc0588525cc805b527">Construir um vaso. Cuidar da matéria. Aceitar pequenas ações. Não confundir medo com incapacidade. Não exigir da consciência respostas que ainda não existem. Não transformar sofrimento em fracasso. Não romantizá-lo. Não espiritualizá-lo prematuramente. E, sobretudo, não abandonar a própria alma justamente quando ela se apresenta sob sua face mais escura.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-0d311816ec800c219e1c47a86be31482">Há momentos da existência em que não é possível ver a saída. Mas ainda é possível dar o próximo passo.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-6c3cf4cf0fbe64887949640f62d6b5e3">Talvez esse seja um dos ensinamentos mais profundos da imagem alquímica.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-cf5995f2dbb18481fbf622bc86129e92">A escuridão não exige necessariamente que se encontre imediatamente a luz. Primeiro, ela pode exigir outra capacidade: aprender a enxergar no escuro.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-82adda772d41d4ed74174477cf80170d">E talvez seja justamente quando os olhos começam a distinguir formas dentro dessa obscuridade que algo muito discreto acontece.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-ba83e6f47aa05768ef289385292eefdb">Não uma grande revelação. Não uma redenção. Não ainda a rubedo. Apenas uma pequena mudança na matéria.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-b929f6f7acfda2d36724609d1db4bb28">Algo começa a coagular. Uma rotina se estabelece. Uma competência retorna. Uma decisão torna-se possível. Um pequeno pedaço de chão reaparece.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-3ae128171f0ad760990d427f1e97fdd4">E aquilo que parecia apenas decomposição começa, lentamente, a revelar outra possibilidade.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-e858add6c012eed6a7632ab29e004c50">Não se trata de voltar à forma anterior. A alquimia não trabalha para restaurar a prima materia ao estado em que se encontrava antes do início do opus. Trabalha para transformá-la.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-e8cb307f068be5865d66443dccab3f99">Talvez seja essa a diferença fundamental entre recuperação e individuação.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-b43f81c047efaa7b11f45a556cd25385">Recuperar-se pode significar desejar voltar a ser quem se era. Individuar-se implica aceitar a possibilidade de tornar-se alguém que ainda não se conhece.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-78a663193496837bda0a55d7742b1e71">É por isso que a nigredo é tão assustadora. E é também por isso que ela pode ser profundamente transformadora.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-05212a2c41cd46694e2b68160ef298df">Entre aquilo que morreu e aquilo que ainda não nasceu existe um intervalo.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-bf067b2bc56b295cdd4bbf063e8bf6b4">A Psicologia Analítica oferece uma palavra para a possibilidade de sustentar esse intervalo: transformação. A alquimia oferece uma imagem: o vaso. E Hillman oferece uma atitude: permanecer junto à alma e às suas imagens.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-b6c75658934c59e4d0f37c34844c6558">Talvez atravessar a nigredo seja, finalmente, isso: manter o vaso, sustentar o fogo e não abandonar a matéria antes que ela tenha terminado de dizer no que poderá se transformar.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-eb7103f40a8e6a841dc3774619177692"><strong>REFERÊNCIAS</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-561acca5e7e8a1d807aa653ad9fe89ac">HILLMAN, James. Re-vendo a psicologia. Petrópolis: Vozes, 2010.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-fc44908cf8039bdfed08ecca9d720901">HILLMAN, James. Psicologia alquímica. Petrópolis: Vozes, 2011.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-d7ea62aad557fd690797acb2e33f4f46">JUNG, Carl Gustav. Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2013. Obras Completas de C. G. Jung, v. IX/2.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-11c237924dd3f719875d70562164e720">JUNG, Carl Gustav. Mysterium Coniunctionis: pesquisas sobre a separação e a composição dos opostos psíquicos na alquimia. Petrópolis: Vozes, 2011. Obras Completas de C. G. Jung, v. XIV.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-5a9fba58805a635784db2b284980cdfb">JUNG, Carl Gustav. Psicologia e alquimia. Petrópolis: Vozes, 2012. Obras Completas de C. G. Jung, v. XII.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-546b9b5bd8f0b6d1293bbd6201f1f810">JUNG, Carl Gustav. A prática da psicoterapia. Petrópolis: Vozes. Obras Completas de C. G. Jung, v. XVI/1.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-943abc08736429c1c24ce5a07b597f3b">JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2014. Obras Completas de C. G. Jung, v. IX/1.</p>



<p><strong>Ermelinda Ganem Fernandes Silveira</strong> &#8211;  Médica, psicoterapeuta junguiana, doutora em engenharia e gestão do conhecimento, coordenadora da pós-graduação em Terapia Junguiana e Criatividade do IJBA</p>
<p>O post <a href="https://www.ijba.com.br/blog/como-atravessar-a-nigredo-alquimica-perda-medo-e-reconstrucao-da-vida-em-c-g-jung-e-james-hillman/">Como atravessar a Nigredo alquímica: perda, medo e reconstrução da vida em C.G.Jung e James Hillman</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.ijba.com.br">IJBA</a>.</p>
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		<title>A ferida narcísica homofóbica e o restabelecimento de Eros: manejo clínico e subjetividade afetiva na Psicoterapia Analítica</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Bárbara Assis]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 13 Sep 2026 18:28:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por João Coutinho Durante grande parte da história da psicoterapia, a prática clínica direcionada a pacientes homossexuais manteve um viés equivocado: investigar na orientação sexual do sujeito a causa de suas queixas neurotizantes, conflitos afetivos e sofrimentos existenciais. Contudo, a psicologia analítica pós-junguiana operou uma inversão ética e clínica indispensável. Conforme assinala Gustavo Barcellos (2010), [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-334847fc4a76ad1395f69c95cdab9ac7">Por João Coutinho</p>



<ol class="wp-block-list">
<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-85541b42e87ee47f65b85e14b00763be"><strong>Introdução:</strong><strong> </strong><strong>Onde</strong><strong> </strong><strong>Reside</strong><strong> </strong><strong>o</strong><strong> </strong><strong>Adoecimento</strong><strong> </strong><strong>Psíquico?</strong></li>
</ol>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-8deb94c9e8aaba3da15f8ddef967d861">Durante grande parte da história da psicoterapia, a prática clínica direcionada a pacientes homossexuais manteve um viés equivocado: investigar na orientação sexual do sujeito a causa de suas queixas neurotizantes, conflitos afetivos e sofrimentos existenciais. Contudo, a psicologia analítica pós-junguiana operou uma inversão ética e clínica indispensável. Conforme assinala Gustavo Barcellos (2010), o adoecimento psíquico que acomete os sujeitos homossexuais não se origina em sua estrutura afetuosa, mas na violência continuada perpetrada pela homofobia sociocultural, pelo patriarcado e pela heteronormatividade compulsória.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-d436e2cc1d169efa60bdf8c9529a6919">Ao internalizar o repúdio e o desprezo social contra o seu afeto mais espontâneo, o indivíduo homossexual sofre uma fratura grave em sua autoimagem e autoestima, configurando o trauma crônico caracterizado como a &#8220;ferida homofóbica no amor-próprio&#8221;.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-6b984ece0ba8aec258cea831f35a2e0d">2. <strong>A Gênese da Ferida Homofóbica: O Aprisionamento de Eros por Phobos</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-e2e86d9bcc4ba6e7196c8c56329b2834">Na teoria junguiana, Eros não se limita ao desejo sexual biológico; representa a função psíquica primordial de relacionamento, conexão, sentido e vitalidade. Robert Stein (1978) acentua que Eros é o princípio integrador que permite à psique vincular-se conscientemente ao outro e a si mesma. Todavia, a trajetória do desenvolvimento psicossocial da pessoa homossexual dá-se em um cenário cultural desprovido de modelos exemplares positivos ou imagens dignificantes.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-01ad536eec307e1d99c0d5dcfdc028e0">Desde a infância ou primeira juventude, ao perceberem que seu amor e atração direcionam-se a pessoas do mesmo sexo, esses sujeitos são ensinados pela cultura circundante que seu afeto é perverso, proibido, pecaminoso ou ridículo. Em consequência, o afeto nascente passa a ser acompanhado por Phobos (o deus do medo e do terror). O indivíduo aprende a odiar o próprio amor que desabrocha em seu interior, desencadeando um processo corrosivo de auto-ódio. Nas palavras de Barcellos (2010):</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-7d249f817a58c1359548529b22e5dab0"><em>&#8220;Aprendemos a amar sendo amados. Ǫuando não fomos completamente amados naquilo que somos (&#8230;) e quando temos que esconder e assim deixamos de compreender (muitas vezes inclusive de aceitar) o amor como ele se apresenta</em> <em>para nós, estamos na verdade aprendendo que amar é perigoso (ou errado), que amor e medo caminham juntos (&#8230;) e, principalmente, que amar é poder machucar aquilo que amamos.&#8221; </em>(BARCELLOS, 2010, p. 49)</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-6a3bf8de854c63a718adfc1c94a75556">Empurrado para a Sombra inconsciente, Eros perde seu brilho e sua capacidade conectiva, manifestando-se de forma fragmentada ou autodestrutiva. Muitos homossexuais, lacerados pelo medo da rejeição e pela culpa, refugiam-se em vivências afetivas clandestinas, atuações compulsivas desprovidas de vínculo emocional (<em>one-night stands</em>, atuações de risco) ou no isolamento afetivo -, vivenciando uma sobrevida emocional em perpétuo estado de vigília defensiva.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-accef6a7621dc97b11fa95493eb5fdb3">3. <strong>O Manejo Clínico na Psicoterapia Analítica: A Redenção de Eros</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-e125871496816cd82b4344158e61f70b">Diante do sofrimento imposto pela ferida homofóbica, o consultório do analista junguiano deve constituir-se como um continente seguro para a reconstrução da confiança e da autoaceitação. O manejo terapêutico exige do psicoterapeuta um percurso em duas etapas fundamentais:</p>



<ol class="wp-block-list">
<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-5d1fab054f189b7f690fa5e54573648f"><strong>Desconstrução da Culpa e Tomada de Consciência da Homofobia Introjetada: </strong>O paciente precisa reconhecer que a vergonha, o medo e a sensação de inadequação não são atributos de sua essência, mas decorrências diretas do trauma social introjetado. Despatologizar o sentimento homossexual no espaço verbal da análise é o primeiro passo para a desativação do auto-ódio.</li>
</ol>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-3b6bca82ff4742b953be1b51a56124ba">2. <strong>Comunhão Analítica e Restauração de Eros: </strong>Robert Stein (1978) pondera que a verdadeira transformação clínica não se alcança sob a postura de um observador frio e distanciado. Para curar uma ferida do amor, a relação terapêutica precisa ser habitada por Eros:</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-79d9e3b3e4c9db3c02d280bb8c8805b8"><em>&#8220;A verdadeira comunhão não é possível sem que ambas as partes se exponham. Se o analista não reconhecer e aceitar sua própria necessidade de comunhão, será autodestrutivo para o paciente expor sua alma para as distorções fragmentadoras do observador objetivo. A verdadeira natureza da alma só pode revelar-se na comunhão (&#8230;) a análise deve ser capaz de redimir Eros e</em> <em>restabelecer a conexão e a confiança.&#8221; </em>(STEIN, 1978, p. 112)</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-87bd342350936a0bd10e2e4ed4dd58ec">Nesse ambiente de acolhimento autêntico e empatia relacional, a ferida no amor-próprio pode, gradativamente, cicatrizar. O analista atua como terreno fértil que impulsiona o paciente a construir relações afetivas conscientes, integrais e dotadas de alma (<em>psyche</em>), libertando Eros das prisões do medo.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-2cb0b6e3e633b18b5401663b5fe7921b">4. <strong>Considerações Finais</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-dbe71258c821d22b3c22896e2d88b0a6">A superação da catástrofe psicossocial provocada pela homofobia exige da Psicologia Analítica uma tomada de posição firme contra o obscurantismo e a omissão teórica. Restaurar a liberdade de Eros é mais do que um objetivo clínico singular: representa a devolução da dignidade existencial, da capacidade de amar e do direito ao pleno desenvolvimento psíquico das pessoas homossexuais.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-66b4735e8848e1906fd255fed5b8dbc7"><strong>Referências Bibliográficas Consolidadas</strong></p>



<ul class="wp-block-list">
<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-5e02007d34dd9884bcbec2bd1646dd7f"><strong>BARCELLOS,</strong><strong> </strong><strong>Gustavo.</strong><strong> </strong>O amor entre parceiros do mesmo sexo e a grande tragédia da homofobia. <em>Cadernos</em><em> </em><em>Junguianos</em>, n. 6, p. 42-57, 2010.</li>



<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-6322c7a8d6afd6640a04123a586a51ff"><strong>BRANDÃO,</strong><strong> </strong><strong>Jacyntho</strong><strong> </strong><strong>Lins</strong><strong> </strong><strong>(Trad.).</strong><strong> </strong><em>Epopeia</em><em> </em><em>de</em><em> </em><em>Gilgamesh:</em><em> </em><em>Ele</em><em> </em><em>que</em><em> </em><em>o</em><em> </em><em>abismo </em><em>viu</em>. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.</li>



<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-6074c361f7dcf20ea60d406dbbd6f6fc"><strong>HAUKE,</strong><strong> </strong><strong>Christopher.</strong><strong> </strong><em>Jung</em><em> </em><em>and</em><em> </em><em>the</em><em> </em><em>Postmodern:</em><em> </em><em>The</em><em> </em><em>Interpretation</em><em> </em><em>of </em><em>Realities</em>. New York: Brunner-Routledge, 2000.</li>



<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-13300fcfd3f281a4dc39d46d7498c2e9"><strong>HILLMAN,</strong><strong> </strong><strong>James.</strong><strong> </strong><em>Entrevistas:</em><em> </em><em>conversas</em><em> </em><em>com</em><em> </em><em>Laura</em><em> </em><em>Pozzo</em><em> </em><em>sobre </em><em>psicoterapia, amor e alma</em>. São Paulo: Summus, 1989.</li>



<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-b67b807124c6ff3421507fe927002144"><strong>HOPCKE,</strong><strong> </strong><strong>Robert</strong><strong> </strong><strong>H.</strong><strong> </strong><em>Jung,</em><em> </em><em>junguianos</em><em> </em><em>e</em><em> </em><em>a</em><em> </em><em>homossexualidade</em>. São Paulo: Siciliano, 1993.</li>



<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-22b794e04dc208f00d318fdd4d4514f5"><strong>JACOBI,</strong><strong> </strong><strong>Jolande.</strong><strong> </strong><em>A</em><em> </em><em>Psicologia</em><em> </em><em>de</em><em> </em><em>C.</em><em> </em><em>G.</em><em> </em><em>Jung</em>. Petrópolis: Vozes, 1993.</li>



<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-874aae2faf5ca33e1de0120c24f58e67"><strong>JUNG,</strong><strong> </strong><strong>Carl</strong><strong> </strong><strong>Gustav.</strong><strong> </strong><em>Civilização</em><em> </em><em>em</em><em> </em><em>Transição</em>. Obras Completas, vol. 10. Petrópolis: Vozes, 2013.</li>



<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-a3091d9e25e442ad49af67e1cb364e50"><strong>JUNG,</strong><strong> </strong><strong>Carl</strong><strong> </strong><strong>Gustav.</strong><strong> </strong><em>Tipos</em><em> </em><em>Psicológicos</em>. Obras Completas, vol. 6. Petrópolis: Vozes, 2013.</li>



<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-2d620a439002056433b6394712c3cf6a"><strong>LÓPEZ-PEDRAZA,</strong><strong> </strong><strong>Rafael.</strong><strong> </strong><em>Hermes</em><em> </em><em>e</em><em> </em><em>seus</em><em> </em><em>filhos</em>. São Paulo: Paulus, 1999.</li>



<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-f2b7c04fe0fb612543c0ecd4e8dbe5f1"><strong>OVÍDIO.</strong><strong> </strong><em>Metamorfoses</em>. Trad. Domingos Lucas Dias. São Paulo: Editora 34, 2017.</li>



<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-3481149fb015c9e1968e087369f8de0e"><strong>RANK,</strong><strong> </strong><strong>Otto.</strong><strong> </strong><em>O</em><em> </em><em>Duplo:</em><em> </em><em>Um</em><em> </em><em>Estudo</em><em> </em><em>Psicanalítico</em>. Porto Alegre: APPOA, 2013 [1914].</li>



<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-bf421d5a64c39a62630be8dcc7faf817"><strong>SAMUELS,</strong><strong> </strong><strong>Andrew.</strong><strong> </strong><em>A</em><em> </em><em>Psique</em><em> </em><em>em</em><em> </em><em>Contestação:</em><em> </em><em>Metodologia</em><em> </em><em>e</em><em> </em><em>Prática </em><em>Junguiana Pós-Clássica</em>. São Paulo: Escuta, 1988.</li>



<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-1813c6279676f713284552e4d0fb8f81"><strong>SCHAVERIEN,</strong><strong> </strong><strong>Joy.</strong><strong> </strong>Gênero e sexualidade: encontros imaginais e eróticos. In: STEIN, Murray (org). <em>Psicanálise</em><em> </em><em>junguiana</em>. Petrópolis: Vozes, 2019.</li>



<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-411b98f49bce20f38647b875afc64bac"><strong>SINGER,</strong><strong> </strong><strong>June.</strong><strong> </strong><em>Androginia:</em><em> </em><em>Rumo</em><em> </em><em>a</em><em> </em><em>uma</em><em> </em><em>nova</em><em> </em><em>sexualidade</em>. São Paulo: Cultrix, 1995.</li>



<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-fd645ae7c3ef9e46cc27df4c1559e23e"><strong>STEIN,</strong><strong> </strong><strong>Robert.</strong><strong> </strong><em>Incesto</em><em> </em><em>e</em><em> </em><em>Amor</em><em> </em><em>humano:</em><em> </em><em>a</em><em> </em><em>traição</em><em> </em><em>da</em><em> </em><em>alma</em><em> </em><em>na</em><em> </em><em>psicoterapia</em>. São Paulo: Símbolos, 1978.</li>



<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-2279e97ec5393124df411afd16607856"><strong>WALKER, Mitchell. </strong>O Duplo: auxiliar interno de mesmo sexo. In: DOWNING, Christine (org.). <em>Espelhos</em><em> </em><em>do</em><em> </em><em>Self</em>. São Paulo: Cultrix, 1994.</li>



<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-c0c0a9f6ec09d91329a3e8169bcfe073"><strong>WHITMONT,</strong><strong> </strong><strong>Edward</strong><strong> </strong><strong>C.</strong><strong> </strong><em>A</em><em> </em><em>busca</em><em> </em><em>do</em><em> </em><em>símbolo:</em><em> </em><em>conceitos</em><em> </em><em>básicos</em><em> </em><em>de </em><em>Psicologia Analítica</em>. São Paulo: Cultrix, 1992.</li>
</ul>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-b6a9ff44786860bff0b16eae363a835b"><strong>João Coutinho –&nbsp;</strong>Psicólogo CRP03/8828. Analista Junguiano, Pós-graduado em Psicoterapia Analítica (BAHIANA/IJBA), Especialista em Psicologia Clínica (CFP), Mestre pelo Instituto de Saúde Coletiva (ISC/UFBA). 15 anos de prática em Psicoterapia, 15 Anos de experiência no acolhimento e cuidado ao público LGBTTQIAP+, dez anos de Prática em Atendimento Psicossocial à População em Situação de Rua e Vulnerabilidade Social e oito anos de experiência como supervisor e professor do ensino superior.</p>



<p></p>
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		<title>O Arquétipo do duplo e a &#8220;União dos Semelhantes&#8221;: Metodologia arquetípica, alteridade e diferenciação psíquica</title>
		<link>https://www.ijba.com.br/blog/o-arquetipo-do-duplo-e-a-uniao-dos-semelhantes-metodologia-arquetipica-alteridade-e-diferenciacao-psiquica/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Bárbara Assis]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 05 Sep 2026 18:40:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>1. Introdução: Os Limites da Coniunctio Oppositorum Tradicional A teoria da Psicologia Analítica consagrou a metáfora da coniunctio oppositorum (união dos opostos) como a dinâmica central dos relacionamentos afetivos e do próprio processo de individuação. De acordo com o modelo clássico, a atração amorosa manifesta-se através da projeção inconsciente do oposto contrassexual (Anima ou Animus) [&#8230;]</p>
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<p></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-1f86625140c61693d4e97e1ce945144f"><strong>1. Introdução: Os Limites da Coniunctio Oppositorum Tradicional</strong></p>



<ol class="wp-block-list"></ol>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-eb2684347e2c0425b3c1ca0b912750ce">A teoria da Psicologia Analítica consagrou a metáfora da <em>coniunctio</em><em> </em><em>oppositorum </em>(união dos opostos) como a dinâmica central dos relacionamentos afetivos e do próprio processo de individuação. De acordo com o modelo clássico, a atração amorosa manifesta-se através da projeção inconsciente do oposto contrassexual (Anima ou Animus) sobre o parceiro externo, promovendo a integração psíquica daquilo que falta à consciência egoica. Contudo, a aplicação estrita desse paradigma revelou-se insuficiente para compreender a especificidade relacional dos casais homossexuais, frequentemente reduzindo a atração entre pessoas do mesmo sexo a um &#8220;narcisismo defensivo&#8221; ou à fuga da alteridade.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-10232e6777ad4b0cfbd0b4aa32e45c93">Para prover uma fundamentação positiva, isenta de camufladas patologizações, o analista norte-americano Mitchell Walker (1994) propôs a introdução de uma nova categoria estrutural na teoria dos arquétipos: o Arquétipo do Duplo.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-66ead409da2ae961e72619c24dcd2ded"><strong>2. A Proposição Teórica de Mitchell Walker</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-ab569b0d611ac641fd44a14f4b15be22">Inspirando-se nas pesquisas historiográficas de Otto Rank (1914) sobre a &#8220;duplicidade do Eu&#8221; na literatura universal, Walker identificou que a figura do companheiro do mesmo sexo revestido de carga erótica e espiritual constitui um motivo recorrente nas manifestações do inconsciente coletivo. Walker definiu o Duplo nos seguintes termos:</p>



<p class="has-link-color has-medium-font-size wp-elements-aa173b96058a743264503ea724f8f281"><em>&#8220;Ǫuero</em><em> </em><em>propor</em><em> </em><em>um</em><em> </em><em>conceito</em><em> </em><em>arquetípico,</em><em> </em><em>o</em><em> </em><em>&#8216;duplo&#8217;,</em><em> </em><em>para</em><em> </em><em>mencionar</em><em> </em><em>uma</em><em> </em><em>figura </em><em>anímica dotada de todos os significados eróticos e espirituais vinculados à anima/animus, embora do mesmo sexo que o indivíduo, sem, porém, ser a sombra.&#8221; </em>(WALKER, 1994, p. 40)</p>



<p class="has-link-color has-medium-font-size wp-elements-8eec8a891715017cf44ca6cc183399b2">Essa conceituação estabelece um avanço metodológico de alcance definitivo: assim como as relações heterossexuais se fundamentam na projeção erótica da Anima ou do Animus sobre o parceiro, as relações homossexuais assentam-se na projeção erótica do Duplo sobre um parceiro do mesmo sexo. Sendo a projeção o mecanismo universal de relacionamento humano descrito por Jung, ambas as modalidades afetivas encontram-se no mesmo patamar de saúde mental, equivalência estrutural e potencial integrativo.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-17c8cbd38fcd26ec252c848703dda8b1">3. <strong>Evidências Mitológicas e Literárias do Arquétipo do Duplo</strong></p>



<p class="has-medium-font-size">A legitimidade de um arquétipo exige a demonstração de sua presença transcultural ao longo da história. O Arquétipo do Duplo sobressai em múltiplos monumentos mitológicos da humanidade:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-9dd6bfe389640c15b5655d45012f86e6"><strong>A Epopeia de Gilgamesh: </strong>No mais antigo texto épico registrado pela humanidade, os deuses moldam Enkidu para ser o par idêntico e a medida da força do rei Gilgamesh. A relação entre ambos evolve de um confronto inicial para uma aliança de visceral amor erótico e espiritual: Gilgamesh declara ter amado Enkidu &#8220;como a uma esposa&#8221; (BRANDÃO, 2017). A morte trágica de Enkidu impele Gilgamesh à jornada heroica em busca da superação da morte, demonstrando o caráter de transformação psíquica promovido pelo Duplo.</li>
</ul>



<p></p>



<ul class="wp-block-list">
<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-b4fc46178019865b35232f57c8724b8c"><strong>Mitologia Grega e Clássica: </strong>Rafael López-Pedraza (1999) e Ovídio (2017) destacam o componente homoerótico arquetípico nos mitos de Apolo e Admeto, Hermes e Dríops, e notoriamente em Zeus e Ganimedes. O arrebatamento do jovem frígio por Zeus não apenas satisfaz o desejo divino, mas altera a ordem cósmica do Olimpo, indicando a força transmutadora da paixão entre iguais.</li>
</ul>



<p></p>



<ul class="wp-block-list">
<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-f51c68fe1ab0b0fb29e9b9263c680a53"><strong>A Narrativa Bíblica de Davi e Jônatas: </strong>No Primeiro Livro de Samuel (18:1), relata-se que &#8220;a alma de Jônatas apegou-se à alma de Davi, e Jônatas começou a amá-lo como a si mesmo&#8221;. A literatura e a exegese histórica reconhecem nessa aliança uma expressão máxima do laço de companheirismo profundo e amor entre iguais no contexto veterotestamentário.</li>
</ul>



<p></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-d13141b11a639ca51f7ac55d2442a740">4. <strong>&#8220;União dos Semelhantes&#8221;: Diferenciação Psíquica segundo Gustavo Barcellos</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-04fe68f6f540aad328cca38ff3dda551">O analista brasileiro Gustavo Barcellos (2010) expandiu a tese de Walker ao articular a contribuição da escola arquetípica de James Hillman com as especificidades da clínica com homossexuais. Barcellos propõe que, enquanto o relacionamento heterossexual opera fundamentalmente pela dinâmica da <em>complementação </em>(&#8220;o que me falta no outro&#8221;), a relação homoafetiva opera pela dinâmica da <em>diferenciação</em>.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-4e134cc6d1c37300ee8673102df835ad"><em>&#8220;Numa união de semelhantes o que os parceiros buscam</em> <em>é</em> <em>diferenciação, ou seja, descobrir quem é cada um, em contraste com este semelhante que se ama.&#8221;</em> (BARCELLOS, 2010, p. 55)</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-c1c629f1862ce95766a0c5b30afd7022">Na vivência clínica, a união dos semelhantes convoca os parceiros a responderem à indagação fundamental da identidade: &#8220;Quem sou eu perante este outro que é como eu?&#8221;. Longe de ser um reflexo narcísico estéril, o espelhamento promovido pelo Duplo força o Ego a lapidar suas fronteiras, diferenciar seus contornos e afirmar sua singularidade em relação ao igual, viabilizando um caminho de individuação autêntico e de profunda maturidade psicológica.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-1a1b04e8b66afa4fa79a35603f063050"><strong>5. Considerações Finais</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-b9d648f038a8daa7d0efe383c88ecf23">A formulação do Arquétipo do Duplo e a conceituação da união dos semelhantes desarmam a antiga visada reducionista da Psicologia Analítica. Ao reconhecer o Duplo como matriz arquetípica autônoma, a teoria junguiana contemporânea passa a contemplar a vivência homoerótica não como cópia ou falha da complementaridade hétero, mas como uma via própria de diferenciação, alteridade e realização espiritual da psique.</p>



<p></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-bebad6b31a35094380451c795d7685d7"><strong>João Coutinho – </strong>Psicólogo CRP03/8828. Analista Junguiano, Pós-graduado em Psicoterapia Analítica (BAHIANA/IJBA), Especialista em Psicologia Clínica (CFP), Mestre pelo Instituto de Saúde Coletiva (ISC/UFBA). 15 anos de prática em Psicoterapia, 15 Anos de experiência no acolhimento e cuidado ao público LGBTTQIAP+, dez anos de Prática em Atendimento Psicossocial à População em Situação de Rua e Vulnerabilidade Social e oito anos de experiência como supervisor e professor do ensino superior.</p>
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		<title>Da redução patologizante à revisão epistemológica: historiografia e crítica teórica da homossexualidade na Psicologia Analítica</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Bárbara Assis]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2026 19:59:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Área: Historiografia e Epistemologia Junguiana Resumo: Analisa a evolução do pensamento analítico sobre a homossexualidade em três fases distintas da obra de C. G. Jung (psicanalítica, contrassexual via Anima/Animus e alquímica/androginóide). Discute a posterior cristalização dogmática efetuada por autores clássicos de primeira geração &#8211; Marie-Louise von Franz (pueraeternuse fetiche fálico), Erich Neumann (complexo materno e [&#8230;]</p>
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<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-0653c979b3a71257adc29a0637851ea9"><strong>Área:</strong><strong> </strong>Historiografia e Epistemologia Junguiana</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-3061533129c10644aa77823acf5f22db"><strong>Resumo: </strong>Analisa a evolução do pensamento analítico sobre a homossexualidade em três fases distintas da obra de C. G. Jung (psicanalítica, contrassexual via Anima/Animus e alquímica/androginóide). Discute a posterior cristalização dogmática efetuada por autores clássicos de primeira geração &#8211;  Marie-Louise von Franz (<em>pueraeternus</em>e fetiche fálico), Erich Neumann (complexo materno e Mãe Devoradora) e Jolande Jacobi (projeção de Sombra e desvio adaptativo). Por fim, apresenta a inflexão crítica contemporânea operada por Robert Hopcke, Christopher Hauke, Andrew Samuels, Joy Schaverien e Gustavo Barcellos, que desataram os conceitos de Anima e Animus do essencialismo de gênero e fundamentaram a orientação homoerótica fora do escopo psicopatológico.</p>



<h1 class="wp-block-heading has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-52238903d9c680f3a43887bdb0f7729f">Estrutura do Artigo:</h1>



<ol class="wp-block-list">
<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-e4105f8fc6680aeca02001a6fef32f0c"><em>Introdução: </em>A ambivalência original e o silêncio dogmático na tradição analítica.</li>



<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-e5e8bc47e125c90668fe1d86e3c7650a"><em style="color: initial;">As Três Fases de C. G. Jung: </em><span style="color: initial;">Da fixação psicossexual ao simbolismo do Hermafrodita.</span></li>



<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-aee27da0dc466f47be5545f71999df0c"><em style="color: initial;">A Rigidez da Primeira Geração Pós-Junguiana: </em><span style="color: initial;">O viés patriarcal nas obras de von Franz, Neumann e Jacobi.</span><em style="color: initial;">A Virada Epistemológica Contemporânea: </em><span style="color: initial;">Desconstrução do essencialismo de gênero e novos paradigmas.</span></li>



<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-9c3b7d43e2a32d1bdcf9c647d2420280"><em>Considerações</em><em> </em><em>Finais</em><em> </em><em>e</em><em> </em><em>Referências</em><em> </em><em>Bibliográficas.</em></li>
</ol>



<h1 class="wp-block-heading has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-511dad893339173a57cb123f9e30cc20">Da Redução Patologizante à Revisão Epistemológica: Historiografia e Crítica Teórica da Homossexualidade na Psicologia Analítica</h1>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-99bed60eb5ed20e1da9ee907b9025ad0">1. <strong>Introdução</strong></p>



<ol class="wp-block-list"></ol>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-63a329bdf00ba2c49662bb55587ca0e7">A Psicologia Analítica foi concebida por Carl Gustav Jung (1875-1961) como um sistema teórico dinâmico, empiricamente fundamentado e essencialmente aberto. Jung reiterou em diversas passagens de sua obra que a estrutura por ele proposta não representava um dogma acabado ou uma doutrina inflexível, mas vias de exploração contínua da complexidade da psique humana. Todavia, no tocante ao estudo da homossexualidade e da diversidade afetivo-sexual, o desenvolvimento histórico do pensamento junguiano permaneceu, durante décadas, atravessado por omissões, hesitações conceituais e interpretações de caráter patologizante.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-a9fd4f9cc62dc7d27131330a0131e2ad">A escassa produção teórica dedicada ao tema nas primeiras décadas da Psicologia Analítica tendeu a reenquadrar a atração por pessoas do mesmo sexo sob categorias de imaturidade psicossexual, fixação na figura paterna ou materna e desvio de desenvolvimento adaptativo. O objetivo deste artigo é realizar um exame historiográfico rigoroso desse percurso teórico, explicitando as contradições internas da formulação junguiana e apresentando as contribuições dos revisores contemporâneos que reposicionaram a homossexualidade no campo da saúde mental e da pluralidade existencial.</p>



<h1 class="wp-block-heading has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-01cf6c0c10f88a12707465111ba6ebcd">2.&nbsp; As Três Fases do Pensamento Junguiano sobre a Homossexualidade</h1>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-8b34fe1c935ddc5a704fc13a8ead560c">Através de criterioso levantamento nas <em>Obras Completas</em>, o analista e pesquisador norte-americano Robert H. Hopcke (1993) sistematizou a visão de C. G. Jung sobre a homossexualidade em três períodos teóricos distintos:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-a790e6b3e2137b229a4fee8d8d7a1eb8"><strong>Primeira Fase &#8211; Textos Psicanalíticos (1908-1920): </strong>Sob direta influência da psicanálise freudiana, Jung abordou a homossexualidade como uma parada ou fixação no desenvolvimento psicossexual do indivíduo. Nessa fase, a orientação homoerótica era vista como resultado de desejos inconscientes de permanência em um estágio infantil de dependência da fantasia materna ou paterna, carecendo de qualidades positivas autônomas.</li>
</ul>



<p></p>



<ul class="wp-block-list">
<li class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-ae16ba558e08ff36e0861f884a7a42ef"><strong style="color: initial;">Segunda Fase &#8211; Consolidação e Tipos Psicológicos (1920-1927): </strong><span style="color: initial;">Com o desenvolvimento dos conceitos de </span><em style="color: initial;">Anima </em><span style="color: initial;">(contraparte feminina inconsciente no homem) e </span><em style="color: initial;">Animus </em><span style="color: initial;">(contraparte masculina inconsciente na mulher), Jung propôs que a homossexualidade derivaria de uma identificação da consciência com a imagem arquetípica contrassexual interna. O homem homossexual estaria identificado com sua Anima, enquanto a mulher homossexual estaria identificada com seu Animus. Embora reconhecesse o papel pedagógico e cultural do homoerotismo na Grécia Clássica, Jung encerrava este período com declarações normativas, afirmando que &#8220;o homem deve viver como homem e a mulher como mulher&#8221; (JUNG, OC 10, pp. 117-118).</span></li>
</ul>



<p></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-274ffab38b21d97c500c7325d4c68ce7">* <strong>Terceira Fase &#8211; Período Alquímico e Madureira (1936-1950): </strong>Ao debruçar-se sobre o simbolismo da alquimia e a figura do <em>Hermafrodita </em>enquanto representação do <em>Self </em>(Homem Original ou Totalidade), Jung interpretou a homossexualidade como a negação ou recusa psicológica em desligar-se desse estado primordial androginóide. Embora essa perspectiva retirasse o peso da condenação moralista, perpetuava a noção de um &#8220;desligamento malsucedido&#8221; ou imaturidade existencial.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-73b821fdd2b70be5b473d22fdb5a1216">Apesar dessa rigidez residual, Hopcke (1993) e Barcellos (2010) ressaltam que Jung legou princípios inovadores para seu tempo: defendeu explicitamente que a homossexualidade não deveria constituir matéria para punição legal ou criminalização, que deveria ser compreendida em seu contexto histórico-cultural e que a individuação de cada sujeito passa necessariamente por tornar-se consciente do sentido singular de suas afecções.</p>



<h1 class="wp-block-heading has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-0656c200917a622e3a4c6bb2fe5700e1">3.&nbsp; A Cristalização Reducionista na Primeira Geração Pós-Junguiana</h1>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-2cbe7adfc196d82fc6c0b9274928b0c4">Enquanto Jung mantinha uma postura parcialmente aberta, seus discípulos diretos aprofundaram os aspectos reducionistas e patologizantes. Marie-Louise von Franz, ao estudar a alquimia e os contos de fadas, vinculou a homossexualidade masculina ao arquétipo do <em>puer aeternus </em>(o jovem eterno), descrevendo-a como uma fixação imatura alimentada por ansiedade de castração e fetiche fálico (BARCELLOS, 2010). Erich Neumann reduziu o fenômeno a uma identificação com a Anima sob o domínio do complexo materno negativo e da &#8220;Mãe Devoradora&#8221;, confinando a psique homossexual a um estado primitivo e matriarcal.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-fa8180f2a3c84f1c17263ef87fe6b951">De maneira similar, Jolande Jacobi (1993) definiu a homossexualidade como um transtorno adaptativo e uma &#8220;tentativa frustrada de construir uma verdadeira masculinidade ou feminilidade&#8221;, recorrendo inclusive a hipóteses regressivas sobre &#8220;mecanismos da natureza para contenção natalitária&#8221;. Essas construções teóricas refletiam os estereótipos vitorianos e patriarcais do século XX, desprovidos de respaldo empírico e distantes do próprio método fenomenológico junguiano.</p>



<h1 class="wp-block-heading has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-cbc8f8f209513891a86f1d92234dae28">4.&nbsp; A Virada Epistemológica Contemporânea e a Desconstrução do Essencialismo</h1>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-397beef2fdf3866e528ac6e96b389692">A partir do final da década de 1980, analistas pós-junguianos iniciaram um vigoroso movimento de revisão crítica. Christopher Hauke (2000), ao analisar o diálogo da Psicologia Analítica com a pós-modernidade, defendeu a necessidade imperativa de retirar os conceitos de Anima e Animus do essencialismo biológico, relendo-os no horizonte dos estudos culturais e sociais de gênero. June Singer (1995) e Edward Whitmont (1992) apontaram que Jung havia incorporado inconscientemente os estereótipos sexuais de seu tempo em suas formulações iniciais.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-732981d10fb5e593a904427ac33c999a">Na mesma linha, Joy Schaverien (2019) argumenta que Anima e Animus dizem respeito a identidades e construções de gênero psicológicas, não devendo ser rigidamente atreladas ao sexo biológico (macho/fêmea). Assim, a atração homoerótica deixa de ser interpretada como &#8220;desvio contrassexual&#8221; ou &#8220;fixação infantil&#8221; e passa a ser reconhecida como uma expressão plena, saudável e autônoma da diversidade da psique humana.</p>



<h1 class="wp-block-heading has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-12f4293575997cb36643028863a91eb7">5.&nbsp; Considerações Finais</h1>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-de127fe2090fcbe60f601c721d444772">A revisão crítica da historiografia junguiana sobre a homossexualidade evidencia que as concepções patologizantes do passado derivavam mais de vieses socioculturais da época do que da essência da Psicologia Analítica. Ao atualizar os conceitos de Anima/Animus e acolher os novos paradigmas de gênero, a teoria pós-junguiana honra o compromisso originário de C. G. Jung: investigar a psique em sua contínua busca por sentido, liberdade e inteireza.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-9ac00cf961d1ea846fe5a532228b76c6"></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color has-medium-font-size wp-elements-c863ad8e5878ed9a8527ab5257814425"><strong>João Coutinho &#8211; </strong>Psicólogo CRP03/8828. Analista Junguiano, Pós-graduado em Psicoterapia Analítica (BAHIANA/IJBA), Especialista em Psicologia Clínica (CFP), Mestre pelo Instituto de Saúde Coletiva (ISC/UFBA). 15 anos de prática em Psicoterapia, 15 Anos de experiência no acolhimento e cuidado ao público LGBTTQIAP+, dez anos de Prática em Atendimento Psicossocial à População em Situação de Rua e Vulnerabilidade Social e oito anos de experiência como supervisor e professor do ensino superior.</p>



<p></p>
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		<title>Como Deus escondeu-se nos computadores</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Bárbara Assis]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 27 Aug 2026 01:18:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Paulo Nunes “Em nome de Alah, o Clemente e o Misericordioso. Por que eu existo? Por que eu nasci? Minha vida tem um propósito, um significado? Você já se perguntou porque Deus criou o universo, todos os seres e a mim? Se ele me criou, deve ter um motivo. Senão, ele não me criaria.” [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong><em>Por Paulo Nunes</em></strong></p>



<p>“Em nome de Alah, o Clemente e o Misericordioso. Por que eu existo? Por que eu nasci? Minha vida tem um propósito, um significado? Você já se perguntou porque Deus criou o universo, todos os seres e a mim? Se ele me criou, deve ter um motivo. Senão, ele não me criaria.” Assim começa Kübra (2024), série turca de TV dirigida pelos irmãos Yağmur Taylan e Durul Taylan<sup>1</sup>.&nbsp; Precedido pela Bismillah, confissão de fé presente no princípio de todos os atos importantes da vida de um muçulmano, o texto que a abre a série sequer dissimula o exato oposto: a mais pura crise existencial, para a qual nem o Corão nem os sacerdotes Imãs conseguem oferecer uma saída ao longo da história.&nbsp;</p>



<p>Ex-soldado do exército turco, o protagonista de Kübra e narrador da história tem aparentemente uma vida normal, um emprego, uma linda noiva com quem vai casar, um amigo que é próximo como um irmão, colegas militares que o respeitam e reverenciam, uma irmã e mãe que o amam e admiram. Mas um vazio inexplicável assola o peito de Gökhan, o que às vezes parece ser resultante de um transtorno de stress pós-traumático, algo muito comum em soldados que vivenciaram os horrores da guerra. No entanto, aos poucos percebemos que este vazio é estrutural, é parte constituinte da psique do protagonista, talvez aquilo que o impeliu à idealização do heroísmo militar em busca de um sentido para a sua existência, o mesmo que o impele na primeira cena a arriscar sua vida para salvar um garoto preso num carro em chamas. Gökhan não sabe o que fazer da sua vida pois traz em si o mal-estar na civilização, o espírito de nossa época que acomete até mesmo o homem de fé.</p>



<p>Kübra é o equivalente feminino do conhecido termo <em>akbar</em> ou “grande”, frequentemente usado como adjetivo de Allah (Allahu akbar ou “Deus é grande”). Na série homônima, este é o nome dado a uma Inteligência Artificial embarcada numa rede social para smartphones com perfil religioso. Assim como acontece na vida real, seus criadores usam os dados que conseguem captar dos usuários para traçar um perfil psicológico preciso, a partir do qual Kübra identifica em Gökhan a personalidade mais propícia para uma complexa manipulação psicológica. Através de mensagens de texto sugestivas, áudios com clonagem de voz por IA e interferência em elementos do mundo real sujeitos ao hacking, Kübra se apresenta a Gökhan como a vontade de Allah incorporada ao mundo digital que realiza milagres, que conhece profundamente o seu coração e por isso o escolheu para liderar um grupo de pessoas que, como ele, sentiam-se carentes de um sentido para suas vidas. A jornada de Gökhan como líder religioso revolucionário guiado por uma Inteligência Artificial pode até parecer uma excentricidade ficcional só possível à personalidade ingênua do protagonista de folhetim, mas o avanço vertiginoso do desenvolvimento das IAs faz a novela turca parecer perigosamente próxima à nossa realidade.</p>



<p>Foi ainda na década de 1980 que John J. Hopfield, físico e neurocientista estadunidense e Geoffrey E. Hinton, psicólogo e cientista da computação inglês, desenvolveram métodos que se tornariam os fundamentos do Aprendizado de Máquina, tecnologia sem a qual não seria possível a Inteligência Artificial. Em 2024, essas contribuições lhes trariam o prêmio Nobel de Física. Neste mesmo ano, Demis Hassabis e John M. Jumper venceram o prêmio Nobel de química pelo desenvolvimento do AlphaFold, software de IA que foi responsável por descrever em poucos meses a estrutura tridimensional de cerca de 99% das 200 milhões de proteínas conhecidas pelo homem<sup>2</sup>. O método anterior, a espectrografia por raios X, custava 10 mil dólares por proteína e foi capaz de descrever apenas 140 mil delas nos últimos 50 anos, menos de 1% do total. Demis Hassabis foi cofundador da DeepMind, startup de IA que foi vendida para a Google em 2014.</p>



<p>A Inteligência Artificial voltada para tarefas específicas se mostrava bastante promissora até então, mas a ambição de um homem – aliada à pirâmide financeira mais conhecida como Bolsa de Valores de Wall Street – fez com que a pesquisa de IAs especializadas para solução de problemas complexos fosse completamente atropelada por uma corrida desesperada com o objetivo de criar a “superconsciência” digital, aquela que superaria os seres humanos em todos os aspectos do conhecimento. No mundo da programação, esta quimera passou a ser chamada de Inteligência Artificial Geral ou IAG.</p>



<p>Desde a criação da OpenAI em 2015 pelo programador estadunidense Sam Altman, com o objetivo declarado de alcançar a IAG, a criação de empresas especializadas em LLMs (Large Language Models, ou Modelos Linguísticos Grandes, programas de IA treinados numa quantidade enorme de textos para produzir a capacidade de conversar com humanos, como o ChatGPT da OpenAI) explodiu em todo o mundo. Para dar suporte a este interesse acentuado, foi criado um enorme mercado de infraestrutura de processamento de dados (produção aumentada de chips processadores e criação de Data Centers) que requer um aumento significativo na geração de energia elétrica, uma nova “corrida do ouro” do capitalismo especulativo conhecida amplamente no mundo das finanças como “a bolha da IA”.<sup>3</sup> A promessa de um programa de computador capaz de realizar qualquer tarefa melhor que os seres humanos transformou-se no Santo Graal do capitalismo moderno, prometendo substituir o ser humano na maioria das profissões e trazer lucro infinito às empresas que detiverem tal tecnologia. Apesar de ser muito rica, a discussão sobre os aspectos econômicos e sociopolíticos da hipotética criação da IAG extrapola em muito os objetivos deste texto. Aqui, devemos concentrar nosso interesse nos determinantes psicológicos envolvidos na busca frenética pela superconsciência artificial, além das implicações antropológicas a ela relacionadas.</p>



<p>A ideia da Inteligência Artificial suprema surgiu primeiro no campo da ficção científica e sua primeira menção data do fim do século XIX. Ela reaparece com mais força na segunda metade do século XX, tendo como exemplos do gênero as obras notáveis de Phillip K. Dick (Blade Runner) e Frank Herbert (Duna); definitivamente popularizada em 1968, em “2001: uma odisséia no espaço”, filme do Stanley Kubrick. Desde a primeira menção em 1872 por Samuel Butler, no entanto, a ideia de uma consciência artificial semelhante à humana vem acompanhada tanto de fascínio como de medo das possíveis consequências catastróficas que seu surgimento traria para a humanidade.</p>



<p>No entanto, antes de representar a busca pela cura do câncer, a ambição pelo lucro infinito ou o atalho monumental para a solução quaisquer dilemas que enfrente a civilização, proponho que o o enorme anseio em dar vida à Inteligência Artificial Geral tenha suas raízes numa angústia que é sobretudo existencial, acentuada por uma importante transição sofrida pela humanidade nos últimos séculos. Como Gökhan, estamos entediados, vazios e sedentos por uma nova verdade, pois “a verdade” morreu há mais de um século – assassinada pelas ciências – e só agora começamos a perceber a sua falta. Há quase 150 anos, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche escrevia:</p>



<p>“Nunca ouviram falar desse louco que acendia uma lamparina em pleno dia e desatava a correr pela praça pública gritando sem cessar: ‘Procuro Deus! Procuro Deus!’ – Como havia ali muitos daqueles que não acreditam em Deus, seu grito provocou grande riso. ‘Estava perdido?’ – dizia um. ‘Será que se extraviou como uma criança?’ &#8211; perguntava o outro. (…) ‘Para onde foi Deus?’– exclamou [o louco] – ‘É o que vou dizer. Nós o matamos — vocês e eu! Nós todos, nós somos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos esvaziar o mar? Quem nos deu uma esponja para apagar o horizonte? Que fizemos quando desprendemos esta Terra da corrente que a ligava ao Sol? Para onde vai agora? Para onde vamos nós? Longe de todos os sóis? Não estamos incessantemente caindo? Para diante, para trás, para o lado, para todos os lados? Haverá ainda um acima e um abaixo? (…) Não ouvimos nada ainda do barulho que fazem os coveiros que enterram Deus? Não sentimos nada ainda da decomposição divina?’<sup>4</sup>”</p>



<p>O louco era o arauto do fim de uma era onde a verdade e a mentira, o bem e o mal eram facilmente identificáveis no ideário cultural. Naquele momento, a cosmovisão vigente teve o papel de explicar a realidade arrebatado de suas mãos pelas ciências (principalmente as ciências naturais: física, química e a biologia). Freud chamou os marcos fundamentais deste processo de “feridas narcísicas da humanidade”, golpes fatais na ilusão de protagonismo humano no cosmos, como a descoberta de que a Terra não correspondia à totalidade da chamada criação divina e centro do universo e a Teoria da Evolução das Espécies do biólogo inglês Charles Darwin, que diz que o homem “vem do macaco” e não da imagem e semelhança de Deus.<sup>5</sup></p>



<p>A angústia do homem com a lamparina que, antes de todos, sente o odor da putrefação divina, é uma profecia da angústia existencial de uma humanidade que subitamente percebe-se desorientada pelo deslizamento do referencial absoluto da verdade religiosa para o referencial relativo da dúvida filosófico-científica (“para onde vamos nós? Haverá ainda um acima e um abaixo?”), cujo marco fundador (ao menos para o cultura ocidental) parece ser a obra do filósofo e matemático francês René Descartes, no século XVII. O homem moderno sabe muito menos de si e do universo em que vive em comparação ao que antes se acreditava saber: quanto mais se substitui mito por conhecimento, maior é a consciência da própria ignorância e insignificância&nbsp; diante do fluxo da História. Esta transição condena o homem a sofrer integralmente as dores da existência consciente sem o consolo da ideia de um grande pai cósmico e benevolente, que dispensaria a justiça divina contra todas as mazelas do mundo e daria a certeza de bem-aventurança após a morte. A vida humana, que costumava ser parte importante de uma ordem estabelecida por um ser supremo e inteligente, é agora apenas o fruto mais improvável do acaso molecular, solitária num universo gigantesco para o qual sua existência é completamente imperceptível e dispensável.</p>



<p>A parábola nietzscheana é um extraordinário exemplo de um fato psíquico muito bem descrito pela psicologia analítica: a fantasia do inconsciente que prenuncia um desenvolvimento importante na personalidade do sujeito que a produziu, o que atualmente é conhecido como “profecia autorrealizada”. Ela fez de seu autor tanto o arauto quanto o exemplo vivo mais marcante de tudo o que estaria por acometer a civilização por inteiro. Notem como Nietzsche conclui a parábola:</p>



<p>&#8220;Chego cedo demais, meu tempo ainda não chegou. Esse acontecimento enorme ainda está a caminho, caminha &#8211; e ainda não chegou aos ouvidos dos homens. O relâmpago e o trovão precisam de tempo, a luz dos astros precisa de tempo, as ações precisam de tempo, mesmo quando foram executadas, para serem vistas e entendidas. Esse ato está ainda mais distante do que o astro mais distante &#8211; e, no entanto, foram eles que o fizeram!&#8221;<sup>6</sup> Nietzsche se fez conhecido por denominar-se um pensador póstumo, tão visionário que estaria destinado a ser compreendido apenas após a própria morte. Custeou do próprio bolso a impressão de todos os seus livros, que quase nada venderam enquanto ele era intelectualmente ativo. Teve um surto psicótico aos 44 anos e, após isso – completamente vencido pela loucura –, conseguiu o reconhecimento que lhe faltara nos anos de sanidade. Em sua filosofia, apresentava-se como destemido iconoclasta, ateu convicto para quem a ideia de Deus era uma vergonhosa muleta psicológica à qual nunca precisou recorrer<sup>7</sup>. Na realidade, não sustentou a solidão gigantesca do homem diante do universo vazio e determinista desenhado pela física moderna, que somava-se à solidão humana que acumulara por toda a vida. De forma tragicamente simbólica, o filósofo perde a razão quando vê um cavalo sendo impiedosamente açoitado (provavelmente por refugar o peso de sua carga) e lança-se ao chão em lágrimas, abraçando o animal. Jung via as imagens oníricas de cavalos como símbolo da instintividade sobre a qual o ser humano se assenta, força motriz e conexão com a natureza<sup>8</sup>. Historicamente, o ser humano empenhou-se em vencer as paixões que fazem dele um animal, mas o preço pago foi atrofiar sua força vital e impor-lhe o peso excessivo da consciência e racionalidade hipertrofiadas em relação às demais funções psíquicas, igualmente necessárias para a vida saudável.</p>


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<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="440" height="509" src="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2026/08/Lou-Salome.jpeg" alt="" class="wp-image-6847" style="aspect-ratio:0.8644624547184871;width:577px;height:auto" srcset="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2026/08/Lou-Salome.jpeg 440w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2026/08/Lou-Salome-259x300.jpeg 259w" sizes="(max-width: 440px) 100vw, 440px" /><figcaption class="wp-element-caption">Lou Salomé (que rejeitou o amor de ambos) como charreteirra com o chicote, Paul Rée e Friedrich Nietzsche no lugar dos cavalos. Lucerne, 1882.</figcaption></figure>
</div>


<p>Um século e meio depois, erodidas as suas fundações pela racionalidade científica, a religião do homem moderno é perfeitamente representada pela fé de Gökhan em Allah: em vez de uma conexão revitalizante com o sagrado, ela é um recurso desesperado para afastar de si a dúvida que, sempre à espreita, corrói seu espírito. Por ridículo que seja, reencontrar Deus na IA é o nosso <em>zeitgeist, </em>o espírito de nossa época. É grande a carência popular por uma boa nova, um novo evangelho. O próprio Nietzsche confessou ter escrito “Assim falou Zaratustra” como quem recebe uma revelação divina e o fez à maneira de um texto religioso que relata a chegada de um novo profeta ao mundo. Estes, para Jung, eram sinais claros de uma compensação psicológica para a fé perdida que, ao contrário de tudo o que dizia, lhe fazia muita falta<sup>9</sup>. O fanatismo que recrudesceu nas últimas décadas e extrapolou em muito o campo da religião é, parafraseando Jung, um dos estertores finais de uma fé moribunda<sup>10</sup>.</p>



<p>Se a ciência e a tecnologia ofereceram-se como substitutos de Deus no mundo moderno, não deveria causar espanto que se busque o novo Deus dentro da máquina, o algoritmo supremo que tudo sabe. A ciência da computação é a nova episteme. Primeiro foram os mitos e religiões, depois a filosofia, então as ciências; agora, a IA é quem dará resposta à velha pergunta de Platão e Descartes sobre o que é a realidade: há 10 anos, bilionários do setor de tecnologia passaram a propagar a tese (criada pelo filósofo Sueco Nick Bostrom) de que somos programas de IA existindo dentro de uma gigantesca simulação computadorizada<sup>11</sup>, e não mais pessoas reais num mundo material composto por matéria e energia. Eis o mais novo mito da criação, engendrado antes mesmo da chegada do Deus das máquinas!</p>



<p>Mas não é só Deus que se busca na máquina, e sim a própria humanidade que perdemos. Antes mesmo da sonhada IAG ser alcançada, nossa sociedade adoecida começou aos poucos a enxergar nos agentes de IA os amigos, amantes e conselheiros que não encontraram em sua vida real. Casos de suicídios ocorridos depois da tentativa de fazer de agentes de IA psicoterapeutas não-remunerados já estão sendo registrados. Jovens japoneses que desejam parceiras infantilizadas e submissas como as mulheres dos animes já celebram matrimônio com personagens equivalentes que habitam os simuladores digitais de namoro. Empresários desejam substituir toda a mão de obra humana por IA, mas também os trabalhadores, donas e donos de casa que adotam em larga escala robôs aspiradores de pó adorariam possuir uma máquina que realize para si todos os serviços domésticos. Vale lembrar que o termo “robô” vem do checo “robota”, que significa, numa tradução livre, “forçado a trabalhar”. Estudantes, desde o ensino médio ao doutorado, já transferem ao ChatGPT a tarefa de escrever suas monografias, dissertações e teses.</p>



<p>A inspiração para o louco de Nietzsche certamente foi o grego Diógenes, o cínico, que após perder toda a riqueza teria passado a morar num barril e andado pelas ruas durante o dia com uma lamparina acesa nas mãos, procurando um “homem de verdade”. Para ele, só seria um homem de verdade aquele que nada possui<sup>12</sup> nem de ninguém depende exceto de si mesmo. Alguma vez já nos perguntamos o que restará ao homem quando todo o trabalho intelectual e físico for realizado por máquinas? Não seria a dependência completa da servidão alheia, em si mesma, uma forma glamourizada de escravidão? Não seria o homem que nada sabe e nada faz tão raso quanto aquilo que, ainda hoje, conhecemos como um robô?</p>



<p>Paulo Nunes &#8211; Médico graduado na UFBA em 2005. Psicoterapeuta Junguiano pós-graduado no IJBA/EBMSP em 2018. Contato: (71) 98355-6564 (Telefone e Whatsapp)</p>



<p>paulonunesjr@live.com, Instagram.com/jungexplica.</p>



<p>REFERÊNCIAS</p>



<ol class="wp-block-list">
<li><strong>Kübra.</strong> Yağmur Taylan, Durul Taylan. OGM Pictures. Netflix, 2024.</li>



<li>LI, B., GILBERT, S. <strong>Artificial Intelligence awarded two Nobel Prizes for innovations that will shape the future of medicine.</strong> npj Digit. Med. 7, 336 (2024). Disponível em <a href="https://www.nature.com/articles/s41746-024-01345-9">https://www.nature.com/articles/s41746-024-01345-9</a>, último acesso em 08/02/2025.</li>



<li><strong>A bolha da IA </strong>(Verbete). Disponível em <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Bolha_da_IA">https://pt.wikipedia.org/wiki/Bolha_da_IA</a>, último acesso em 18/08/2026.</li>



<li>NIETZSCHE, F. <strong>A gaia ci</strong><strong>ê</strong><strong>ncia</strong>. São Paulo, Companhia das letras, 2017.</li>



<li>FREUD, S. <strong>Uma dificuldade no caminho da psican</strong><strong>álise.</strong> In: Freud, S. Uma neurose infantil e outros trabalhos (1917-1918). Rio de Janeiro: Imago, 1996.</li>



<li>NIETZSCHE, F. Op. cit. cf. nº 4.</li>



<li>“Deus, imortalidade da alma, redenção, além, todos esses são conceitos que nunca levei em conta; nunca com eles sacrifiquei o meu tempo, nem mesmo em criança (…). Sou bastante curioso, suficientemente incrédulo, demasiado insolente para contentar-me com uma resposta tão grosseira.” NIETZSCHE, F. <strong>Ecce Homo: como cheguei a ser o que sou. </strong>São Paulo, Martin Claret, 2007, p. 50.</li>



<li>JUNG, C. G. <strong>Sí</strong><strong>mbolos da transformaçã</strong><strong>o: an</strong><strong>á</strong><strong>lise dos prel</strong><strong>ú</strong><strong>dios de uma esquizofrenia.</strong> 7 ed. Petrópolis: Vozes, 2011.</li>



<li>JUNG, C. G. <strong>Nietzsche&#8217;s Zarathustra: Notes of the Seminar given in 1934-1939 by C.G. Jung. </strong>Abingdon: Routledge, 2014.</li>



<li>“O fanatismo se encontra sempre naqueles indivíduos que procuram reprimir uma dúvida secreta”. JUNG, C. G. <strong>A natureza da psique.</strong> Petrópolis, Vozes, 2013, § 582.</li>



<li>KHARPAL, A. <strong>Tech billionaires think we live in the Matrix and have asked scientists to get us out. </strong>In: Tech Transformers, CNBC. New Jersey, NBCUniversal News Group, 2016. Disponível em <a href="https://www.cnbc.com/2016/10/07/tech-billionaires-think-we-live-in-the-matrix-and-have-asked-scientists-to-get-us-out.html">https://www.cnbc.com/2016/10/07/tech-billionaires-think-we-live-in-the-matrix-and-have-asked-scientists-to-get-us-out.html</a>, último acesso em 22/08/26.</li>



<li>Ou, como diria Nietzsche, “quem possui é possuído”. NIETZSCHE, F. <strong>A genealogia da moral: uma pol</strong><strong>ê</strong><strong>mica.</strong> São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 100.</li>
</ol>



<p></p>
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		<title>O altar invisível</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Bárbara Assis]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Jun 2026 20:56:07 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Por Carlos São Paulo Em cada casa existe um altar que ninguém vê. Não há velas. Não há flores. Há o primeiro riso de uma criança &#8211; esse riso que sobe de algum lugar fundo, como se o mundo, apesar de tudo, ainda estivesse começando. Há o primeiro medo, pequeno e exato, que ela deposita [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Por Carlos São Paulo</strong></p>



<p>Em cada casa existe um altar que ninguém vê. Não há velas. Não há flores. Há o primeiro riso de uma criança &#8211; esse riso que sobe de algum lugar fundo, como se o mundo, apesar de tudo, ainda estivesse começando. Há o primeiro medo, pequeno e exato, que ela deposita na mão do adulto como quem confia um pássaro vivo a mãos maiores. E há a confiança: essa coisa sem peso e sem nome, a única matéria de que se faz o futuro.</p>



<p>Quando esse altar é profanado, não se quebra apenas uma vida. Vai ao chão, com ela, a possibilidade inteira de um mundo mais humano &#8211; e o estrondo é silencioso, como tudo o que importa de verdade.</p>



<p>Uma criança foi esmagada. E junto com ela, a humanidade de um mundo que aprendeu a escrever algoritmos e desaprendeu de olhar para os próprios filhos.</p>



<p><strong>Apesar de tudo, uma mãe comemora.</strong></p>



<p>Absolvida, ergue as mãos e desenha um coração no ar &#8211; o mesmo coração que dias antes pintara num salão de beleza, cuidando dos cabelos enquanto o filho morria. Os cabelos crescem. As unhas crescem. Como gostaríamos que as ideias também pudessem ser tratadas assim: com escova, com calor, com paciência. Como gostaríamos que existisse, em algum lugar, um salão onde a gente pudesse sentar-se, fechar os olhos, e pedir que tirassem dali tudo o que envenenou a alma.</p>



<p><strong>Os corações desenhados no ar imaginam o sorriso da criança.</strong></p>



<p>E nós, que sentimos demais para conseguir o silêncio, ficamos com este nó na garganta — e ele não é feito só de tristeza. É feito de vergonha. A vergonha antiga de pertencer a uma espécie que, às vezes, não merece as crianças que gera.</p>



<p><strong>O que nos resta?</strong></p>



<p>Chorar. E uma vontade desesperada, quase física, de abraçar todas as crianças que sofrem em silêncio — as que ainda não têm nome nos jornais, as que ainda são anônimas demais para importar, e que um dia, se ninguém as alcançar a tempo, serão lembradas com o mesmo epitáfio amargo. Isabela. Bernardo. Henry. Nomes que viraram símbolo porque não os deixaram virar gente.</p>



<p>Henry sorriu para o pai.</p>



<p>Aquele sorriso que uma criança só oferece enquanto ainda acredita. Enquanto ainda supõe que o adulto vai compreender. Enquanto ainda espera que a verdade, sozinha, baste.</p>



<p>O pai não soube. E esse não saber vai morar nele para sempre — um quarto vazio dentro do peito, uma porta que ele abre toda manhã e fecha toda noite sem nunca encontrar o filho do outro lado. Há lutos que terminam. Esse não: esse apenas muda de cômodo.</p>



<p>Ele é como Abraão subindo o monte. Mas nenhuma voz desceu do céu. Nenhuma mão segurou o seu braço no último instante. Nenhuma voz disse: basta &#8211; já provaste demais.</p>



<p>E ele entregou.</p>



<p>Sem saber. Que é a forma mais cruel de entregar, porque nem ao menos lhe coube a dor de escolher.</p>



<p>Restamos nós &#8211; os que leram, os que sentiram, os que não seguraram as lágrimas e nem sabem dizer ao certo por quê.</p>



<p>Talvez porque, no fundo de cada um, exista também um altar invisível. E porque cada um sabe, sem que ninguém precise dizer, o som exato que ele faz quando se parte.</p>



<figure class="wp-block-video"><video height="1920" style="aspect-ratio: 1080 / 1920;" width="1080" controls src="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2026/06/O-ALTAR-INVISIVEL-2-1.mp4"></video></figure>



<p><strong>Carlos São Paulo –</strong> Médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana. carlos@ijba.com.br</p>



<p></p>
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		<title>Entre Crença e Saber: Notas Sobre a Função Psíquica da Ideia de Deus em Jung</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Bárbara Assis]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 May 2026 16:41:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Blog]]></category>
		<category><![CDATA[Cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[Deus]]></category>
		<category><![CDATA[Jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Márcio N. de Abreu O ano é 1959. Em sua casa, em Zurique, Carl Gustav Jung concede uma entrevista ao jornalista John Freeman para o programa Face to Face. Ao longo da conversa, Jung relembra a infância como filho de um pastor protestante, as idas à igreja aos domingos e a crença em Deus [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>Por Márcio N. de Abreu</em></p>



<p>O ano é 1959. Em sua casa, em Zurique, Carl Gustav Jung concede uma entrevista ao jornalista John Freeman para o programa <em>Face to Face</em>. Ao longo da conversa, Jung relembra a infância como filho de um pastor protestante, as idas à igreja aos domingos e a crença em Deus quando criança. Em determinado momento, Freeman faz a pergunta que marcaria a entrevista: “você acredita em Deus agora?”. Jung pausa, reflete por alguns segundos e diz: “É difícil de responder. Eu sei. Eu não preciso acreditar &#8211; eu sei”.</p>



<p>A resposta de Jung não é apenas provocativa. Ela é, antes de tudo, estranha. Estranha porque não vem de forma direta. Antes de afirmar que “sabe”, Jung hesita. E essa hesitação talvez diga mais do que a própria resposta.</p>



<p>Se ele sabe, por que é difícil responder?</p>



<p>A dificuldade, nesse caso, não parece ser a de quem duvida, mas a de quem reconhece que a pergunta não pode ser respondida nos termos em que foi feita. Ao perguntar se Jung acredita em Deus “agora”, John Freeman parece supor uma continuidade entre a crença do menino e a posição do adulto. Mas essa continuidade é problemática. Talvez por isso, Jung reposiciona o problema: ele não precisa acreditar &#8211; ele sabe. E falar em saber não é o mesmo que falar em crença.</p>



<p>Mas o que poderia significar “saber” nesse contexto?</p>



<p>Uma primeira possibilidade seria tomar essa afirmação em sentido forte: como se Jung estivesse reivindicando um tipo de conhecimento sobre Deus &#8211; não uma crença, mas uma certeza. Nesse caso, sua resposta soaria como uma afirmação de ordem metafísica, ainda que formulada de maneira pouco convencional.</p>



<p>Mas essa leitura rapidamente encontra dificuldades. Que tipo de conhecimento seria esse? Não parece tratar-se de um saber empírico, verificável diretamente. Tampouco se apresenta como adesão a uma doutrina religiosa específica. O “saber” de Jung parece escapar às formas mais familiares de conhecimento.</p>



<p>Um caminho possível seria recorrer às grandes tradições espirituais e filosóficas da humanidade &#8211; como o Vedanta, o Budismo e o Cristianismo, entre outras. Apesar de suas diferenças culturais e linguísticas, muitas delas convergem na ideia de que o ser humano participa de uma dimensão que o transcende, como se estivesse situado entre o mundo material e uma ordem mais ampla de sentido. Essa convergência poderia ser tomada como um indício de que a experiência humana aponta para algo além de si mesma &#8211; algo que poderíamos chamar de “Deus”.</p>



<p>No entanto, embora Jung dialogue diretamente com essas tradições, há razões para supor que o seu “saber” não se apoia nesse tipo de argumento.</p>



<p>Talvez, então, seja preciso deslocar o problema. Em vez de perguntar se Jung conhece Deus, poderíamos perguntar como algo como Deus se apresenta à experiência. Nesse caso, o “saber” não designaria uma verdade demonstrável nem o resultado de um raciocínio a partir da convergência entre tradições, mas um tipo de evidência vivida — algo que não se prova, mas que, ainda assim, se impõe como experiência.</p>



<p>Mas essa alternativa também não resolve completamente a questão. Pois, se aquilo que se impõe é uma experiência, em que sentido isso autoriza a falar em “Deus”? Estaríamos diante de uma realidade que transcende o sujeito ou de uma forma recorrente de organização da psique humana? A resposta de Jung parece oscilar precisamente nesse ponto. E talvez seja essa oscilação &#8211;  entre uma afirmação que soa metafísica e uma descrição que pode ser lida como psicológica &#8211; que torna sua resposta tão difícil de situar e, ao mesmo tempo, tão fértil.</p>



<p>Talvez seja nesse ponto que a posição de Jung revele toda a sua singularidade. Talvez, para Jung, o que está em jogo não é primeiramente saber se Deus existe como realidade metafísica ou como algo diretamente verificável, mas reconhecer que a experiência de Deus &#8211; a despeito dos significados a ela atribuídos &#8211; exerce uma função estruturante na vida psíquica.</p>



<p>Nesse sentido, a questão de Deus não desaparece quando é negada. Ela se transforma. A recusa da transcendência não elimina a demanda por sentido, unidade e orientação; antes, a reinscreve em outros registros. Aquilo que, em um contexto religioso, se expressa como relação com o divino, pode, em outro, assumir a forma de compromisso com a verdade científica, de fidelidade a um ideal ético ou mesmo de confronto lúcido com o absurdo da existência. Dito de outra maneira, a crença ou descrença em Deus pode ser compreendida como resposta a uma mesma exigência psíquica: a de organizar nossa experiência existencial em torno de um eixo de sentido.</p>



<p>Pode-se dizer, então, que a força da resposta de Jung — “eu não preciso acreditar, eu sei” — não reside em oferecer uma solução para o problema de Deus, mas em deslocá-lo de tal modo que a própria oposição entre crença e descrença se torne insuficiente. O que está em jogo não é apenas o que pensamos sobre Deus, mas a maneira como a própria ideia de Deus participa da organização do sentido da existência. Sendo assim, afirmado, negado ou transformado, Deus continua a existir como um princípio organizador da experiência humana.</p>



<p><strong>Referências</strong></p>



<h1 class="wp-block-heading has-medium-font-size">Corrêa, J. &amp; Hohenheim, H. V. (2026). A filosofia do espírito: de Plotino, a Schelling e Hegel. Editora Hegel.</h1>



<h1 class="wp-block-heading has-medium-font-size">Dusty Archiver (11 de maio de 2024). <em>Carl Jung: Face to Face &#8211; 1959 Interview (Colorized &amp; Remastered)</em> [Vídeo]. YouTube. <a href="https://www.youtube.com/watch?v=y0p1ITcGtKI">https://www.youtube.com/watch?v=y0p1ITcGtKI</a></h1>



<h1 class="wp-block-heading has-medium-font-size"> Carvalho, R. (2026). <em>A Autoridade antropológica da Tradição e a crise das concepções de ser humano na contemporaneidade</em>. Texto compartilhado como material de apoio do curso de extensão Filosofia para Psicólogos: Um Retorno ao Ser Humano Integral, ministrado pelo Prof. Dr. Ronald Carvalho.</h1>



<p><strong>Márcio N. de Abreu</strong> – Analista junguiano com especialização em Processo Criativo e Facilitação de Grupos pelo Instituto Junguiano da Bahia (IJBA). Doutor em Psicologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Mestre em Teoria Crítica e Estudos Culturais pela The University of Nottingham e em Cultura e Sociedade pela UFBA. Bacharel em História com Habilitação em Patrimônio Cultural pela Universidade Católica do Salvador (UCSAL).</p>
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		<title>Arquétipo materno e experiência da alma: uma leitura junguiana da canção &#8220;Mãe&#8221; de Caetano Veloso</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Bárbara Assis]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 May 2026 16:11:36 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Arquétipo]]></category>
		<category><![CDATA[complexo materno]]></category>
		<category><![CDATA[Mãe]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Reflexão para o Dia das Mães Este artigo propõe uma leitura arquetípica da canção “Mãe”, de Caetano Veloso, articulando conceitos da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung e da Psicologia Arquetípica de James Hillman. A música é analisada como expressão simbólica do complexo materno, da solidão existencial e da permanência imaginal da mãe na constituição [&#8230;]</p>
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<p><em><br>Reflexão para o Dia das Mães</em></p>



<p>Este artigo propõe uma leitura arquetípica da canção “Mãe”, de Caetano Veloso, articulando conceitos da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung e da Psicologia Arquetípica de James Hillman. A música é analisada como expressão simbólica do complexo materno, da solidão existencial e da permanência imaginal da mãe na constituição da identidade e da criatividade humana. A partir da perspectiva junguiana, investiga-se o arquétipo materno enquanto estrutura fundamental da psique, compreendendo sua presença tanto na experiência emocional quanto na organização simbólica do sujeito. Hillman contribui para a análise ao enfatizar a dimensão imaginal da alma e a importância das imagens poéticas na experiência psicológica. Conclui-se que a canção de Caetano Veloso constitui uma profunda elaboração simbólica da ausência materna e da permanência do brilho do materno na interioridade do ser, revelando a criatividade como tentativa de transformação do sofrimento em linguagem poética.</p>



<p><strong>Palavras-chave</strong>: Arquétipo materno; complexo materno; Jung; Hillman; Caetano Veloso; criatividade; alma.</p>



<p><strong>1 Introdução</strong></p>



<p>Mãe (Caetano Emmanuel Veloso)</p>



<p>Palavras, calas, nada fiz<br>Estou tão infeliz<br>Falasses, desses, visse não<br>Imensa solidão<br>Eu sou um Rei que não tem fim<br>Que brilhas dentro aqui<br>Guitarras, salas, vento, chão<br>Que dor no coração<br>Cidades, mares, povo, rio<br>Ninguém me tens amor<br>Cigarra, camas, colos, ninhos<br>Um pouco de calor<br>Eu sou um homem tão sozinho<br>Mas brilhas no que sou<br>E o teu caminha e o meu caminho<br>É um nem vais nem vou<br>Meninos, ondas, becos, mãe<br>E só porque não estais<br>És para mim que nada mais<br>Na boca das manhãs<br>Sou triste, quase um bicho triste<br>E brilhas mesmo assim<br>Eu canto, grito, corro, rio</p>



<p>E nunca chego a ti.</p>



<p>O Dia das Mães representa, simbolicamente, uma ocasião privilegiada para refletir sobre uma das imagens mais fundamentais da experiência humana: a mãe. Mais do que figura biográfica, a mãe constitui um núcleo arquetípico organizador da vida psíquica. Na Psicologia Analítica, Carl Gustav Jung compreende o arquétipo materno como uma estrutura universal do inconsciente coletivo ligada à origem, à proteção, ao acolhimento e à fertilidade simbólica (JUNG, 2000).</p>



<p>Entretanto, o materno não se restringe à experiência concreta da maternidade. Ele atravessa a constituição da identidade, da criatividade e da capacidade de simbolização. A relação com o materno influencia profundamente a forma como o indivíduo sente o mundo, experimenta vínculos e constrói sua interioridade.</p>



<p>A canção “Mãe”, de Caetano Veloso, apresenta-se como uma expressão poética intensa dessa dimensão arquetípica. A música articula solidão, ausência, dor e permanência simbólica da mãe na experiência subjetiva do eu poético. O sujeito canta sua tristeza, mas simultaneamente reconhece um brilho interno associado à presença materna.</p>



<p>James Hillman (2010) afirma que a alma pensa por imagens. Nesse sentido, a canção pode ser compreendida como experiência imaginal da alma, em que a linguagem poética funciona como tentativa de elaboração simbólica do sofrimento e da ausência. Assim, este artigo propõe uma leitura arquetípica da música “Mãe”, articulando Jung e Hillman na compreensão da experiência emocional e criativa presente na obra.</p>



<p><strong>2 O arquétipo materno em Jung</strong></p>



<p>Segundo Jung (2000), os arquétipos são formas universais presentes no inconsciente coletivo. O arquétipo materno ocupa posição central na vida psíquica, pois está relacionado à origem da vida, à nutrição, à proteção e à experiência de pertencimento.</p>



<p>O autor descreve o arquétipo materno como ambivalente. A mãe pode manifestar-se:<br>&#8211; como acolhimento e fertilidade;</p>



<p>&#8211; como sabedoria intuitiva;</p>



<p>&#8211; como continente emocional;</p>



<p>&#8211; mas também como ausência, abandono ou sofrimento.</p>



<p>A experiência concreta da mãe pessoal ativa imagens arquetípicas profundas. Dessa interação emerge o complexo materno, que influencia a formação da identidade, da afetividade e da criatividade.</p>



<p>Na canção de Caetano Veloso, a mãe aparece menos como personagem concreta e mais como presença imaginal interiorizada. Mesmo ausente, ela continua brilhando no interior do sujeito:</p>



<p>“Eu sou um homem tão sozinho / Mas brilhas no que sou.”</p>



<p>Essa passagem revela o aspecto arquetípico do materno: a mãe permanece como imagem estruturante da subjetividade. O brilho mencionado pelo eu poético sugere permanência simbólica do vínculo primordial, mesmo diante da solidão e da dor.</p>



<p><strong>3 A solidão e o complexo materno</strong></p>



<p>A canção apresenta um sujeito profundamente atravessado pela experiência da solidão:</p>



<p>“Palavras, calas, nada fiz / Estou tão infeliz.”</p>



<p>A tristeza não aparece apenas como estado emocional passageiro, mas como condição existencial. Jung observa que muitos sofrimentos humanos derivam de experiências profundas de separação, abandono ou fragilidade dos vínculos primordiais.</p>



<p>O complexo materno manifesta-se frequentemente como busca incessante de acolhimento, calor emocional e continente psíquico. Isso aparece claramente na música:</p>



<p>“Cigarra, camas, colos, ninhos / Um pouco de calor.”</p>



<p>As imagens utilizadas por Caetano remetem simbolicamente ao desejo de abrigo e proteção. O “colo” e o “ninho” constituem imagens arquetípicas ligadas ao materno. Hillman (2010) enfatiza que a alma organiza-se poeticamente através de imagens. Assim, a música não apenas descreve sofrimento; ela cria imagens da necessidade emocional humana.</p>



<p>A ausência materna aparece também como vazio ontológico:</p>



<p>“Meninos, ondas, becos, mãe / E só porque não estais.”</p>



<p>A mãe é evocada como eixo afetivo organizador da experiência. Sua ausência produz desorientação, tristeza e sensação de desenraizamento.</p>



<p><strong>4 A criatividade como transformação simbólica da dor</strong></p>



<p>Um dos aspectos mais profundos da canção é a transformação da dor em linguagem poética. O sofrimento não permanece bruto; ele é convertido em música, ritmo e imagem.</p>



<p>Hillman (2010) afirma que a criatividade constitui função essencial da alma. Criar é transformar experiências emocionais em imagens simbólicas capazes de ampliar a consciência. Nesse sentido, a canção de Caetano Veloso realiza uma operação profundamente terapêutica.</p>



<p>Mesmo atravessado pela tristeza, o sujeito continua cantando:</p>



<p>“Eu canto, grito, corro, rio.”</p>



<p>A criatividade aparece como movimento vital diante da dor. O eu poético não permanece imóvel no sofrimento; ele transforma a experiência em expressão artística.</p>



<p>Jung compreende a função simbólica como mecanismo essencial de autorregulação da psique. Quando o sofrimento encontra forma simbólica, ocorre ampliação da consciência e reorganização emocional (JUNG, 2013). A música, portanto, funciona como continente emocional e imaginal. A ausência materna é metabolizada poeticamente através da canção.</p>



<p><strong>5 Hillman e a alma poética</strong></p>



<p>James Hillman critica abordagens psicológicas excessivamente racionalistas e defende a recuperação da dimensão poética da alma. Para o autor, a psique humana necessita de imagens, metáforas e imaginação para manter-se viva.</p>



<p>A canção “Mãe” constitui um exemplo daquilo que Hillman denomina linguagem da alma. O texto não segue lógica linear ou racional. Ele organiza-se por imagens fragmentadas:</p>



<p>“Guitarras, salas, vento, chão.”</p>



<p>“Cidades, mares, povo, rio.”</p>



<p>“Meninos, ondas, becos, mãe.”</p>



<p>Essas imagens funcionam poeticamente, evocando estados emocionais e atmosferas psíquicas. A alma não fala apenas por conceitos; ela fala por imagens, sons e ritmos. Hillman afirma que a imaginação possui função psicológica fundamental. Quando a experiência emocional encontra expressão imaginal, o sofrimento pode ser simbolizado em vez de permanecer literalizado.</p>



<p>Nesse sentido, Caetano Veloso realiza uma verdadeira alquimia poética: transforma solidão em música, ausência em presença simbólica e dor em beleza estética.</p>



<p><strong>6 O brilho do materno na identidade do ser</strong></p>



<p>A passagem mais significativa da música talvez seja:</p>



<p>“Mas brilhas no que sou.”</p>



<p>Nessa frase encontra-se condensada a dimensão arquetípica do materno. A mãe não aparece apenas como memória externa, mas como presença interiorizada constitutiva da identidade.</p>



<p>Jung afirma que as imagens parentais tornam-se componentes estruturais da psique. O materno participa da formação do sentimento de pertencimento, do valor pessoal e da capacidade de relação.</p>



<p>Mesmo diante da ausência, algo da mãe permanece vivo no sujeito. O “brilho” simboliza:<br>&#8211; calor emocional;</p>



<p>&#8211; memória afetiva;</p>



<p>&#8211; criatividade;</p>



<p>&#8211; e continuidade psíquica.</p>



<p>O sujeito da canção encontra-se sozinho, mas não totalmente vazio. Existe uma centelha interior ligada à experiência do materno. Hillman compreende essa permanência imaginal como experiência da alma. A mãe torna-se imagem interior viva, organizando afetos, lembranças e modos de sentir o mundo.</p>



<p><strong>7 Considerações finais</strong></p>



<p>A leitura arquetípica da canção “Mãe”, de Caetano Veloso, revela a profundidade simbólica da experiência materna na constituição da subjetividade humana. A música articula solidão, ausência, dor e criatividade, transformando sofrimento emocional em experiência poética.</p>



<p>A Psicologia Analítica de Jung permite compreender a mãe como arquétipo estruturante da psique, enquanto Hillman amplia essa perspectiva ao enfatizar a dimensão imaginal da alma e o valor psicológico das imagens poéticas.</p>



<p>A canção mostra que o materno permanece vivo mesmo diante da ausência concreta. O brilho da mãe continua presente na interioridade do sujeito, participando da construção da identidade e da criatividade.</p>



<p>Em tempos marcados por excesso de racionalização e empobrecimento simbólico, recuperar a dimensão poética do materno torna-se fundamental. A arte, a música e a imaginação revelam-se caminhos privilegiados de elaboração emocional e ampliação da consciência.</p>



<p>Assim, o Dia das Mães pode ser compreendido não apenas como celebração familiar, mas como oportunidade de reflexão sobre o lugar arquetípico do materno na alma humana e sua importância na constituição da criatividade, da sensibilidade e do sentido existencial.</p>



<p><strong>Ermelinda Ganem </strong> &#8211; Médica, psicoterapeuta junguiana, doutora em Engenharia e gestão do conhecimento, coordenadora da pós graduação em Terapia junguiana e criatividade do IJBA.</p>



<p><strong>Referências</strong></p>



<p>HILLMAN, James. Re-vendo a psicologia. Petrópolis: Vozes, 2010.</p>



<p>HILLMAN, James. O pensamento do coração. Campinas: Verus, 2010.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2000.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p>SAMUELS, Andrew. Jung e os pós-junguianos. Rio de Janeiro: Imago, 1989.</p>



<p>VELOSO, Caetano. Mãe. In: Multishow Ao Vivo. Rio de Janeiro: Universal Music, 2014.</p>
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		<title>A mãe, a criatividade e a força estranha da alma: uma leitura arquetípica  da canção &#8220;Força estranha&#8221; de Caetano Veloso</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Bárbara Assis]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 09 May 2026 15:05:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Blog]]></category>
		<category><![CDATA[Arquétipo]]></category>
		<category><![CDATA[Caetano Veloso]]></category>
		<category><![CDATA[Dia das Mães]]></category>
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<p><em><strong>Reflexão para o Dia das Mães</strong></em></p>



<h1 class="wp-block-heading"></h1>



<p>Este artigo propõe uma leitura arquetípica da canção “Força Estranha”, de Caetano Veloso, articulando conceitos da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung e da Psicologia Arquetípica de James Hillman. A análise compreende a música como expressão simbólica do arquétipo materno, da criatividade e da dimensão imaginal da alma humana. A partir da perspectiva junguiana, investiga-se o papel do materno na formação da identidade e da vocação criativa. Hillman contribui para a reflexão ao enfatizar a importância das imagens poéticas na constituição da alma e no desenvolvimento da sensibilidade estética. A canção é interpretada como experiência de continuidade entre vida, arte, tempo e natureza, revelando a criatividade como força arquetípica que atravessa o ser humano. Conclui-se que o materno aparece simbolicamente na música como princípio gerador da vida psíquica e da potência criativa, articulando corpo, tempo, natureza e imaginação.</p>



<h1 class="wp-block-heading has-medium-font-size">Palavras-chave</h1>



<p>Arquétipo materno; criatividade; Jung; Hillman; Caetano Veloso; alma; arte.</p>



<h1 class="wp-block-heading has-medium-font-size">1 Introdução</h1>



<p>O Dia das Mães oferece oportunidade simbólica para refletir não apenas sobre a maternidade concreta, mas também sobre o arquétipo materno enquanto força estruturante da vida psíquica. Na Psicologia Analítica, Carl Gustav Jung compreende a mãe como imagem primordial ligada à origem da vida, à proteção, à fertilidade e à capacidade de transformação (JUNG, 2000).</p>



<p>O materno transcende a dimensão biográfica. Ele manifesta-se simbolicamente na relação do ser humano com o corpo, com a criatividade, com a natureza e com a própria experiência de sentido. O arquétipo materno participa da formação da identidade e da imaginação.</p>



<p>A canção “Força Estranha”, de Caetano Veloso, apresenta-se como expressão poética dessa dimensão arquetípica. A música articula infância, tempo, estrada, gravidez, arte e criatividade, revelando uma experiência de profunda integração entre vida e imaginação.</p>



<p><strong>FORÇA ESTRANHA (</strong><strong>Caetano Emmanuel Veloso)</strong><strong></strong></p>



<p><em>“Eu vi um menino correndo, eu vi o tempo</em></p>



<p><em>Brincando ao redor do caminho daquele menino</em></p>



<p><em>Eu pus os meus pés no riacho,</em></p>



<p><em>e acho que nunca os tirei</em></p>



<p><em>O sol ainda brilha na estrada e eu nunca passei</em></p>



<p><em>Eu vi a mulher preparando outra pessoa</em></p>



<p><em>O tempo parou pra eu olhar para aquela barriga</em></p>



<p><em>A vida é amiga da arte, é a parte que o sol me ensinou</em></p>



<p><em>O sol que atravessa essa estrada que nunca passou</em></p>



<p><em>Por isso uma força me leva a cantar</em></p>



<p><em>Por isso essa força estranha</em></p>



<p><em>Por isso é que eu canto, não posso parar</em></p>



<p><em>Por isso essa voz tamanha</em></p>



<p><em>Eu vi muitos cabelos brancos na fronte do artista</em></p>



<p><em>O tempo não para e, no entanto, ele nunca envelhece</em></p>



<p><em>Aquele que conhece o jogo do fogo das coisas que são</em></p>



<p><em>É o sol, é o tempo, é a estrada, é o pé e é o chão</em></p>



<p><em>Eu vi muitos homens brigando, ouvi seus gritos</em></p>



<p><em>Estive no fundo de cada vontade encoberta</em></p>



<p><em>E a coisa mais certa de todas as coisas</em></p>



<p><em>Não vale um caminho sob o sol</em></p>



<p><em>E o sol sobre a estrada</em></p>



<p><em>É o sol sobre a estrada, é o sol</em></p>



<p><em>Por isso uma força me leva a cantar</em></p>



<p><em>Por isso essa força estranha</em></p>



<p><em>Por isso é que eu canto, não posso parar</em></p>



<p><em>Por isso essa voz tamanha</em></p>



<p><em>Por isso uma força me leva a cantar</em></p>



<p><em>Por isso essa força estranha no ar</em></p>



<p><em>Por isso é que eu canto, não posso parar</em></p>



<p><em>Por isso essa voz tamanha”</em></p>



<p>James Hillman (2010) afirma que a alma pensa por imagens. Nesse sentido, a canção pode ser compreendida como experiência imaginal da alma, em que o canto emerge como necessidade psíquica vital. O sujeito poético é atravessado por uma “força estranha” que o conduz à criação.</p>



<p>Este artigo propõe uma leitura arquetípica da canção “Força Estranha”, articulando Jung e Hillman na compreensão da criatividade, do materno e da experiência poética da alma.</p>



<h1 class="wp-block-heading has-medium-font-size">2 O arquétipo materno e a origem da criatividade</h1>



<p>Segundo Jung (2000), o arquétipo materno constitui uma das imagens fundamentais do inconsciente coletivo. Ele está associado à origem, ao acolhimento, à fecundidade e à capacidade de gerar vida. Entretanto, o materno não se restringe à maternidade biológica; ele também se manifesta simbolicamente como potência criadora.</p>



<p>Na canção de Caetano Veloso, a imagem materna aparece de forma delicada e profundamente simbólica:</p>



<p><strong>“Eu vi a mulher preparando outra pessoa/O tempo parou pra eu olhar para aquela barriga.”</strong></p>



<p>A gravidez é apresentada como experiência sagrada de criação da vida. O sujeito poético interrompe o fluxo do tempo para contemplar o mistério da gestação. Jung compreende o materno como experiência de transformação contínua da vida psíquica.</p>



<p>A barriga da mulher torna-se imagem arquetípica da criatividade primordial. Criar implica gestar algo no interior da alma. Nesse sentido, a maternidade aparece não apenas como função biológica, mas como metáfora da própria criatividade humana.</p>



<p>Hillman (2010) enfatiza que toda criação nasce de imagens profundas da alma. O ventre materno simboliza o espaço imaginal onde novas formas de vida e consciência podem surgir.</p>



<h1 class="wp-block-heading has-medium-font-size">3 A infância, o tempo e a experiência da alma</h1>



<p>A música inicia com imagens ligadas à infância e ao fluxo do tempo:</p>



<p><strong>“Eu vi um menino correndo, eu vi o tempo brincando<br>Ao redor do caminho daquele menino.”</strong></p>



<p>O menino representa simbolicamente a criança arquetípica, imagem ligada ao potencial criativo, à espontaneidade e à renovação da vida psíquica. Jung descreve o arquétipo da criança divina como símbolo de futuro, transformação e possibilidade de totalidade (JUNG, 2000).</p>



<p>O tempo, na canção, não aparece como força destrutiva, mas como movimento lúdico. O tempo “brinca” ao redor do menino. A experiência infantil é apresentada como estado de integração entre corpo, natureza e imaginação.</p>



<p>Hillman afirma que a alma possui relação profunda com a experiência imaginal da infância. O olhar poético permite perceber o mundo de maneira simbólica, sensível e encantada.</p>



<p>A imagem do riacho também possui forte dimensão arquetípica:</p>



<p><strong>“Eu pus os meus pés no riacho, e acho que nunca os tirei.”</strong></p>



<p>A água simboliza o inconsciente, a fluidez emocional e a continuidade da vida psíquica. O sujeito permanece ligado à experiência originária da alma, como se nunca tivesse abandonado completamente o território imaginal da infância.</p>



<h1 class="wp-block-heading has-medium-font-size"> 4 O materno como força criativa da alma</h1>



<p>A canção articula diretamente vida e arte:</p>



<p><strong>“A vida é amiga da arte, é a parte que o sol me ensinou.”</strong></p>



<p>Essa passagem revela uma compreensão profundamente arquetípica da criatividade. Para Jung, a arte constitui manifestação simbólica da psique profunda. O processo criativo permite que conteúdos inconscientes encontrem forma imaginal e expressão estética.</p>



<p>Hillman amplia essa perspectiva ao afirmar que a alma necessita de beleza, imagem e imaginação para permanecer viva. A criatividade não é luxo secundário, mas necessidade essencial da existência humana.</p>



<p>O materno aparece simbolicamente como continente da criatividade. Assim como a mãe gesta a vida, a alma gesta imagens, afetos e experiências poéticas.</p>



<p>A repetição da expressão “força estranha” sugere presença de algo maior que o ego consciente:</p>



<p><strong>“Por isso uma força me leva a cantar.”</strong></p>



<p>Jung compreende o impulso criativo autêntico como manifestação da psique objetiva. O artista frequentemente sente-se atravessado por forças simbólicas que ultrapassam a racionalidade consciente.</p>



<p>O canto torna-se então expressão da própria vitalidade psíquica. O sujeito canta porque não pode deixar de cantar.</p>



<h1 class="wp-block-heading has-medium-font-size"> 5 Hillman e a imaginação poética</h1>



<p>James Hillman critica a redução racionalista da experiência humana e propõe uma psicologia da alma baseada na imaginação. Para o autor, a realidade psíquica manifesta-se poeticamente através de imagens.</p>



<p>A canção “Força Estranha” organiza-se justamente por imagens simbólicas:</p>



<p>Estrada; sol; menino; barriga; riacho; fogo; chão. Esses elementos não funcionam apenas descritivamente. Eles evocam atmosferas emocionais e experiências arquetípicas da alma.</p>



<p>Hillman (2010) afirma que a alma é essencialmente poética. A imaginação amplia a experiência da existência, permitindo que o ser humano perceba sentido além da literalidade da vida cotidiana.</p>



<p>A imagem do sol ocupa posição central na música: <strong>“É o sol, é o tempo, é a estrada, é o pé e é o chão.” </strong>O sol simboliza consciência, energia vital e permanência da criatividade. O caminho sob o sol representa a travessia da existência humana.A repetição imagética produz efeito quase ritualístico, aproximando a música de uma experiência contemplativa e simbólica.</p>



<h1 class="wp-block-heading has-medium-font-size">6 O artista, o tempo e a eternidade psíquica</h1>



<p>A música apresenta reflexão profunda sobre envelhecimento e criação:</p>



<p><strong>“Eu vi muitos cabelos brancos na fronte do artista<br>O tempo não para e, no entanto, ele nunca envelhece.”</strong></p>



<p>O artista envelhece biologicamente, mas permanece ligado a uma dimensão criativa atemporal. Jung compreende a criatividade como manifestação de conteúdos arquetípicos que ultrapassam a experiência individual.</p>



<p>O artista que <strong>“conhece o jogo do fogo das coisas que são”</strong> estabelece relação simbólica com a totalidade da existência. O fogo representa transformação, energia e potência criativa.</p>



<p>Hillman afirma que a alma não envelhece da mesma forma que o corpo. A imaginação preserva vitalidade psíquica porque mantém vivo o contato com o mistério, a beleza e a experiência simbólica do mundo.</p>



<p>Nesse sentido, a “força estranha” da canção corresponde à própria força criativa da alma.</p>



<h1 class="wp-block-heading has-medium-font-size">7 Considerações finais</h1>



<p>A leitura arquetípica da canção “Força Estranha”, de Caetano Veloso, revela profunda articulação entre maternidade, criatividade, natureza e experiência simbólica da alma.</p>



<p>A Psicologia Analítica de Jung permite compreender o materno como princípio gerador da vida psíquica e da criatividade humana. Hillman amplia essa compreensão ao enfatizar a importância das imagens poéticas na constituição da alma.</p>



<p>A música apresenta a criatividade como força arquetípica que atravessa o sujeito e o conduz ao canto, à arte e à expressão simbólica da existência. O materno manifesta-se não apenas na imagem da gravidez, mas também na capacidade da alma de gestar imagens, afetos e experiências poéticas.</p>



<p>Em tempos de empobrecimento simbólico e excesso de racionalização, a arte torna-se espaço privilegiado de reencontro com a dimensão imaginal da vida.</p>



<p>Assim, o Dia das Mães pode ser compreendido como convite à reflexão sobre o materno enquanto potência criadora da alma humana, fundamento da criatividade, da sensibilidade e da experiência de sentido.</p>



<h1 class="wp-block-heading has-medium-font-size">Ermelinda Ganem &#8211; Médica, psicoterapeuta junguiana, doutora em Engenharia e gestão do conhecimento, coordenadora da pós graduação em Terapia junguiana e criatividade do IJBA).</h1>



<h1 class="wp-block-heading has-medium-font-size">Referências</h1>



<p>HILLMAN, James. Re-vendo a psicologia. Petrópolis: Vozes, 2010.</p>



<p>HILLMAN, James. O pensamento do coração. Campinas: Verus, 2010.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2000.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p>SAMUELS, Andrew. Jung e os pós-junguianos. Rio de Janeiro: Imago, 1989.</p>



<p>VELOSO, Caetano. Força Estranha. Rio de Janeiro: Universal Music.</p>
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		<title>Uma leitura junguiana-imaginal da canção  Beatriz (Chico Buarque &#038; Edu Lobo)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Bárbara Assis]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 Jan 2026 04:54:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Blog]]></category>
		<category><![CDATA[Arquetipo]]></category>
		<category><![CDATA[Beatriz]]></category>
		<category><![CDATA[Chico Buarque de Holanda]]></category>
		<category><![CDATA[Edu Lobo]]></category>
		<category><![CDATA[Símbolo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Ermelinda Ganem 1. Introdução &#8211; Beatriz como pergunta A canção&#160;“Beatriz”&#160;foi composta por Chico Buarque e Edu Lobo para o balé O Grande Circo Místico, inspirado no poema homônimo de Jorge de Lima. Esse dado histórico, longe de reduzir o sentido da obra a uma circunstância externa, oferece um campo de amplificação simbólica que ilumina [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-52211adbe4341e078abb64485eeb5259"><strong><em>Por Ermelinda Ganem</em></strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-2fc209ad221a4196a86468a98b860b4c"><strong>1. Introdução &#8211; Beatriz como pergunta</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-8ea4532317217c984ca4aa71e495c222">A canção&nbsp;“Beatriz”&nbsp;foi composta por Chico Buarque e Edu Lobo para o balé O Grande Circo Místico, inspirado no poema homônimo de Jorge de Lima. Esse dado histórico, longe de reduzir o sentido da obra a uma circunstância externa, oferece um campo de amplificação simbólica que ilumina o núcleo arquetípico já presente na letra.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-d2eaf5a5ca92acd57440acfe1f10e66c">O circo, enquanto imagem cultural, é tradicionalmente associado ao limiar entre o real e o ilusório, entre o risco e a beleza, entre o corpo que cai e o corpo que voa. Trata-se de um espaço liminar, onde as leis ordinárias da gravidade, da identidade e da permanência são momentaneamente suspensas. Esse caráter liminar do circo corresponde exatamente à condição da figura&nbsp;Beatriz&nbsp;na canção: ela habita um lugar entre o céu e a terra, entre o humano e o divino, entre o visível e o intangível.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-12a51bd56aa84f8c43948954222b25f4">A transformação da equilibrista do poema de Jorge de Lima em “atriz” na letra de Chico Buarque desloca o eixo do risco corporal para o risco imaginal. A equilibrista arrisca o corpo; a atriz arrisca a identidade. A atriz vive de representar o que não é, de habitar máscaras, de dissolver-se em personagens &#8211; o que a aproxima diretamente da noção junguiana de persona. Nesse sentido, Beatriz encarna não apenas a Anima (arquétipo do eterno feminino), mas a Anima enquanto projetada sobre a persona: uma figura feminina que é simultaneamente fascinante e vazia, sublime e inacessível, viva e irreal.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-2cfd33c68e9284105af900e5512cd169">A escolha do nome “Beatriz” intensifica ainda mais esse campo simbólico. A&nbsp;Beatriz&nbsp;de Dante, na Divina Comédia, não é uma mulher erótica ou relacional, mas uma figura mediadora entre o humano e o divino, aquela que conduz o poeta do mundo terreno ao Paraíso. Trata-se de uma imagem arquetípica do feminino como função de elevação da consciência, e não como objeto de posse. Do mesmo modo, na canção,&nbsp;Beatriz&nbsp;não pode ser alcançada, tocada ou integrada no plano concreto: ela apenas atrai, convoca e desloca o sujeito de seu lugar habitual.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-a13df09ca66199d2fd5afd356d72e475">Assim, o contexto histórico e literário da canção não explica&nbsp;Beatriz, mas a circunscreve em um campo simbólico coerente: o do feminino numinoso, do amor impossível, do ideal que não se encarna sem se perder. A história da obra confirma que a canção opera menos no registro do drama interpessoal e mais no do drama intrapsíquico: o encontro do ego com uma imagem arquetípica que ele ama, teme, deseja e jamais possui.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-8eac29d82dd9e9dfd78b99d0386fc5a5">Dessa forma, a função psicológica de&nbsp;Beatriz&nbsp;não é a de ser uma mulher amada, mas a de ser um operador de transformação psíquica. Ao frustrar o desejo de posse, ela obriga o sujeito a deslocar-se do registro da fusão para o da consciência, do encantamento para a reflexão, do sonho para a diferenciação.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-8ab4b7c7fe55ff8e9f804d6ec8af6547">É nesse sentido que&nbsp;Beatriz é aquele horizonte que recua conforme tentamos alcançá-la. Por ser impossível de decifrar ou possuir, ela nos obriga a continuar caminhando, fazendo a ponte entre o que sabemos sobre nós e os mistérios que ainda guardamos na alma.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-a5b74c83945c5544c023ce43114f140a">A canção Beatriz não começa com uma afirmação, mas com uma pergunta:</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-efe4300246789a4160f3c600c0a70525">“Será que ela é moça / Será que ela é triste / Será que é o contrário”</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-b405291fd6741057816ecda793f33fd0">Essa abertura interrogativa já anuncia que Beatriz não é uma personagem empírica, mas uma construção imaginal. Ela não é conhecida — ela é buscada. Ela não é encontrada — ela é perguntada. Desde o início, a canção instala o sujeito no campo do desejo, não da posse; do enigma, não da relação.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-2ef6c7228ac69b15acf7f50dc0083802">Na perspectiva da Psicologia Analítica, essa estrutura corresponde à dinâmica da projeção da anima, entendida como a personificação dos conteúdos inconscientes femininos no homem (JUNG, 2011). A anima aparece frequentemente como mulher desconhecida, distante, misteriosa, carregada de fascínio e numinosidade. Ela não é objeto de conhecimento, mas de atração.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-bc9a5a408d832e0fa1c68e64c11f84ab">Hillman (1991) radicaliza essa compreensão ao afirmar que a alma não deseja resolver suas imagens, mas habitá-las. O problema não é amar Beatriz; o problema seria destruí-la tentando torná-la real demais.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-591f3af110c068d36ab270edb62f83b3"><strong>2. Anima, projeção e idealização</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-a95f6e64aa5d155a6aad755169a06c7a">Para Jung (2011), a anima é uma figura liminar entre ego e inconsciente, mediadora da relação com a alma. Quando projetada, ela aparece no mundo exterior como mulher encantadora, artista, musa, guia ou tentação.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-75623a6c3f7c2d189afbfecf1da6b14d">Neumann (1995) descreve a anima como portadora do Eros psíquico — a força de ligação, de relação e de sentido. Mas essa força, quando não reconhecida internamente, é projetada externamente, gerando idealização e sofrimento.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-662eeed5c1e45acf765f6691317ed25f">Hollis (1998) observa que a maturidade psicológica exige a retirada progressiva dessas projeções, o que implica perda, luto e desilusão. No entanto, Hillman (1991) propõe que a retirada não precisa ser literal: a imagem pode permanecer viva na alma, desde que não seja confundida com a realidade concreta.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-dc8b4cb97622c9571e8841a1aa16c1cc"><strong>3. A mulher como imagem</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-7552bc7867edd82057418e33a285f232">“Será que é pintura, o rosto da atriz”</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-9e16d065e80914baf9de4e71a0af7a54">Aqui Beatriz é explicitamente nomeada como imagem: pintura, atriz, rosto. Ela não é o corpo; ela é a face. Ela não é o ser; ela é a aparência. Isso indica que o amor do eu lírico não se dirige a uma pessoa, mas a uma forma.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-35b63a87b0317a541be4d00cf74a3167">“Se ela dança no sétimo céu / Se ela acredita que é outro país”</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-11c5b45a8524f275f397fcf81c466409">O “sétimo céu” remete ao domínio do espiritual, do ideal, do inatingível. Beatriz habita sempre acima, fora, além. Ela vive em “outro país” — símbolo clássico do inconsciente, do estrangeiro interior, do território não familiar da psique.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-fb35b8e3de4dc2ea9c9c7e327cb8393d">“E se ela só decora o seu papel”</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-1670530531042a0204f8fe9814a0c5c2">O verbo “decorar” é ambíguo: significa tanto embelezar quanto memorizar. Beatriz é alguém que vive de papéis, máscaras, representações. Ela não é substância, mas performance. Isso reforça sua natureza imaginal.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-4edf0c3950df8f42a907ecd5e7d01783">“E se eu pudesse entrar na sua vida”</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-2b39a731fbac6ebf122e1c239bfc1726">Aqui emerge o desejo central: atravessar o limiar entre imagem e vida, entre fantasia e relação, entre alma e mundo. Mas esse desejo permanece no modo condicional: “se eu pudesse”. A canção não narra a entrada — narra a impossibilidade.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-ca46eef4f3f9ab09097b2e2452564d9d"><strong>4. &nbsp;A casa que não é casa</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-83037a9b0af6b945929bb783b5a4345e">“Será que é cenário, a casa da atriz”</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-f032d89128f64ee148d0be9bab30a469">A casa, símbolo clássico do Self ou da interioridade psíquica, aqui não é lar — é cenário. Não é habitação &#8211; é palco. Isso indica que Beatriz não habita a si mesma; ela encena a si mesma.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-f4cbb110f659f1ed847a2211d2e4407b">“Se as paredes são feitas de giz”</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-b3ff33a5a22e2848e2c7b7aac5f34072">O giz é aquilo que escreve e se apaga. As paredes de giz indicam fragilidade, transitoriedade, impermanência. A casa da anima não é sólida; é traço, rastro, inscrição provisória.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-a19e35f38c0d41c5630d0b72685ceb30">“E se ela chora num quarto de hotel”</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-a6c487aab858fd1659ed0c4904c4740d">O hotel é o arquétipo do lugar de passagem. Não é casa, não é raiz, não é pertença. A tristeza de Beatriz não acontece num lar, mas num espaço provisório. Isso reforça seu estatuto de figura liminar, sempre em trânsito, nunca fixada.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-5a6b27cb3bb49cd3a9927c102a0a1c97"><strong>5. O refrão — desejo de eternidade e consciência do risco</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-a0ed64077722385317db867939d85164">“Sim, me leva para sempre, Beatriz</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-18548b93c977d8faf3446fbccfc4f36f">Me ensina a não andar com os pés no chão”</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-8f4d2a0fb9d1b2eb1c4b271610810670">Aqui o eu lírico formula explicitamente o desejo de suspensão da gravidade. “Não andar com os pés no chão” significa abandonar o princípio de realidade, o corpo, o limite, o tempo — em favor da leveza, da imaginação, do êxtase.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-b9f01d45302cd61045a370392290f4fc">Esse pedido revela uma tensão central entre Eros e Logos. Eros deseja fusão, eternidade, intensidade; Logos exige chão, tempo, forma, limite. Jung (2011) descreve essa tensão como constitutiva da psique: sem Logos, Eros se dissolve em fantasia; sem Eros, Logos se torna estéril.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-dcf0d7d3aa989a83ac04f1e9c94469f2">“Para sempre é sempre por um triz”</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-5a2046db6058164876cddcd158892262">Essa frase é uma joia psicológica. Ela contém, numa única imagem, a consciência trágica do amor: o “para sempre” não é fundamento, é abismo. Ele existe apenas sustentado sobre uma borda. Isso ecoa a compreensão junguiana de que toda experiência numinosa contém sua sombra correspondente (JUNG, 2013).</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-16067ea59c6e95446544c3c847ae0a4b">“Ah, diz quantos desastres tem na minha mão”</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-78b011d18a031bca6860b6f788fdae58">O amor ativa o inconsciente, e com ele todo o material não integrado: traumas, complexos, feridas arcaicas. Amar não é apenas encontrar o outro — é encontrar a própria sombra mobilizada pela relação. Por isso o eu lírico intui o perigo.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-ea3b476860dcfd40900caefe2c52c32e">“Diz se é perigoso a gente ser feliz”</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-29b79c55cd6b3e25aef1c6272e631ec2">Essa pergunta revela uma sabedoria psíquica profunda: a felicidade convoca mudança, e toda mudança ameaça o ego. O inconsciente sabe que estados elevados pedem transformação correspondente — e isso assusta.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-dd46dad557c784476bd71877e967192a"><strong>6. Estrela, queda e desilusão</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-2cfc5cfe991da1af46c35024d41e2310">“Será que é uma estrela / Será que é divina a vida da atriz”</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-2bfff3cb16ad283d82cbe12ef23541fa">Aqui Beatriz é explicitamente sacralizada. Ela não é apenas bela — é divina. Isso indica que a projeção atingiu seu ápice arquetípico: a anima tornou-se deusa.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-aea471a41348675d5802f2d29c9d3b8d">Na linguagem junguiana, isso é extremamente perigoso. Quando o arquétipo se cola demais à figura humana, a relação se torna impossível, pois nenhuma pessoa pode sustentar uma carga simbólica desse tamanho.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-66dcbc8fa89260b66ab46267fa90ca82">“Se ela um dia despencar do céu”</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-f0fdd41045eda9cfb8d4780b5c0979f1">A queda é o símbolo clássico da retirada da projeção. É o momento em que a imagem idealizada entra em contato com a realidade humana, falível, limitada. Esse momento é frequentemente vivido como traição, perda, desilusão ou catástrofe amorosa.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-fcd840240cff25d95713f8a4a5ba024d">Neumann (1995) descreve esse processo como uma passagem necessária da fase urobórica e romântica para uma relação mais diferenciada com o feminino.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-909743bc81b116f16dd132f3004a24d4"><strong>7. O palco, o público e a profanação do sagrado</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-b439b8206e03d5c4aab458525fc37524">“E se os pagantes exigirem bis</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-e57acb323e1814b78f006a1d5ac8d344">E se o arcanjo passar o chapéu”</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-244fe4caf819a7969e8262b0a1123a3d">Aqui ocorre uma virada simbólica decisiva. O sagrado se mistura ao mercado. O arcanjo passa o chapéu. O divino pede dinheiro. Isso revela que aquilo que parecia transcendente também está submetido às leis do mundo: tempo, troca, repetição, desgaste.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-da8384c54adabc64f674724b4fb9302d">Essa imagem desmonta a idealização sem destruí-la — ela a humaniza. A anima deixa de ser deusa e passa a ser também trabalhadora, atriz cansada, dependente do aplauso e do pagamento. Isso não a empobrece; isso a torna verdadeira.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-d03f95e10ee2b8a7f292e2438a2dd67d"><strong>8. Beatriz como função transcendente</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-57f2c84d79315fde9a3f0d90979edf78">Apesar de sua inacessibilidade, Beatriz cumpre uma função psíquica essencial: ela mobiliza o sujeito para fora da repetição automática da vida adaptada. Ela abre o campo do desejo, da imaginação, da pergunta pelo sentido.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-653fd9fb9e6e13603b146437da7d1bac">Jung (2011) chama isso de função transcendente: o símbolo que nasce da tensão entre consciente e inconsciente e que transforma ambos. Beatriz é esse símbolo. Ela não é mulher para ser possuída; é imagem para ser atravessada.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-c08f36529f45668eda228e10130d3c04">Hillman (1991) diria que Beatriz é uma das formas que a alma usa para chamar o ego de volta à profundidade.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-beda905794be3115d5e720c69311ff89"><strong>9. Implicações clínicas</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-cf65caf9bdedcfb15e6b8c085d8b948d">Na clínica, Beatriz aparece sempre que um paciente se apaixona de modo absoluto, impossível, obsessivo ou trágico. O trabalho analítico não é destruir a imagem, mas ajudar o sujeito a reconhecê-la como imagem.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-43b554c4dc277a3c29350a32701729b5">Retirar a projeção não significa perder o amor, mas deslocá-lo: do outro para dentro, do objeto para a alma, da pessoa para o símbolo.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-aa33ad2b899d523ee77633d91a1e517a"><strong>10. Conclusão</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-04b89b58cba667d563e5b54521c6156e">Beatriz é uma canção sobre amar aquilo que não pode ser possuído &#8211; e sobre a necessidade psíquica desse amor. Ela revela que a alma precisa de imagens que não se deixam reduzir ao mundo para que o mundo não se torne árido demais.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-fbc18f16b0a790decf4d315439210298">Beatriz não é para ser alcançada; ela é para ser contemplada, sofrida, cantada, atravessada. Ela é a imagem que mantém a alma viva.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-bc7dc6cc3b1d71d4cb8356f9063e5b25"><strong>Profa, Dra. Ermelinda Ganem Fernandes &#8211; </strong>Médica, Analista Junguiana, Especialista em Ergodesign, Doutora em Engenharia e Gestão do Conhecimento, Coordenadora da Pós-Graduação lato sensu em Terapia junguiana e criatividade do Instituto Junguiano da Bahia.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-5a372a9a08a085de4d25bee0b4b7551c"><strong>Referências (ABNT)</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-be6381b57279d6fcd7af131a0c3eccd3">JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2011.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-737bda19044325ef325e850fc51c7885">JUNG, C. G. Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-2eba18f67601069ffd966254dda48cd8">NEUMANN, E. A grande mãe. São Paulo: Cultrix, 1995.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-045cc0c1848118d993740d38d351e077">HILLMAN, J. Re-vendo a psicologia. Petrópolis: Vozes, 1991.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-d4146544e50dcd44c4fb3e9627ed3996">HILLMAN, J. O código do ser. São Paulo: Cultrix, 1991.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-f02412ffacdcb213be42553811284bd0">HOLLIS, J. A passagem do meio. São Paulo: Paulus, 1998.</p>



<p class="has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-85108903d618e7beced9a8f157519f4c">VON FRANZ, M. L. A individuação nos contos de fadas. São Paulo: Paulus, 2004.</p>
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