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	<title>Arquivos Psicologia - IJBA</title>
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	<title>Arquivos Psicologia - IJBA</title>
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		<title>Bebê Reborn: Vínculo emocional, simbolismo psicológico e realidade social</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Bárbara Assis]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 18 May 2025 02:06:12 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Por Carlos São Paulo O fenômeno dos bebês reborn, que são bonecas extremamente realistas projetadas para parecerem recém-nascidos, foi além do simples colecionismo ou do hobby artístico. Esse fenômeno agora toca aspectos emocionais, terapêuticos e até legais, com situações em que casais se envolvem em disputas judiciais pela &#8220;guarda&#8221; dessas bonecas. Por trás dessa situação [&#8230;]</p>
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<p><strong>Por Carlos São Paulo</strong></p>



<p>O fenômeno dos bebês reborn, que são bonecas extremamente realistas projetadas para parecerem recém-nascidos, foi além do simples colecionismo ou do hobby artístico. Esse fenômeno agora toca aspectos emocionais, terapêuticos e até legais, com situações em que casais se envolvem em disputas judiciais pela &#8220;guarda&#8221; dessas bonecas. Por trás dessa situação peculiar, existem mecanismos psicológicos profundos que podem ser compreendidos através da psicologia junguiana e da teoria do apego de John Bowlby.</p>



<p><strong>Jung: A Criança Interior e o Self</strong></p>



<p>Na psicologia analítica de Carl Gustav Jung, a imagem da criança vai além de ser apenas frágil e inocente. Ela é um arquétipo central, simbolizando renovação e potencial para transformação interna. O bebê reborn pode ser uma manifestação desse arquétipo. Para muitos adultos, ele simboliza esperança, pureza e a possibilidade de curar feridas emocionais, especialmente aquelas relacionadas à maternidade ou paternidade que não foram experimentadas.</p>



<p>Outro conceito junguiano importante é o da projeção da anima e do animus, que são os aspectos femininos e masculinos da psique que muitas vezes permanecem não integrados. Cuidar de uma boneca reborn pode ser uma maneira inconsciente de expressar e exercitar esses aspectos, criando um cenário simbólico onde emoções reprimidas podem se manifestar. Além disso, a conexão com a boneca pode estar ligada ao processo de individuação, que é o caminho para o autoconhecimento e a integração do Self. Através da interação com a boneca reborn, a pessoa pode vivenciar um papel que talvez nunca tenha desempenhado na vida real, preenchendo lacunas existenciais e promovendo um senso de identidade mais unificado.</p>



<p><strong>Bowlby: Apego, Perda e Substituição</strong></p>



<p>A teoria do apego, desenvolvida por John Bowlby, examina os laços emocionais com base na necessidade humana de segurança e conexão. Nesse cenário, o bebê reborn pode servir como um &#8220;objeto transicional&#8221; – um substituto emocional em situações de perda, solidão ou traumas. Adultos que enfrentaram lutos gestacionais, infertilidade ou abandono emocional podem atribuir à boneca o papel de uma figura de apego. Essa ligação é tão forte que, em certos casos, resulta em disputas legais pela &#8220;custódia&#8221; do reborn, como se fosse um filho de verdade. Isso evidencia o quanto a boneca se integra ao modelo interno de relacionamento e família.</p>



<p>Além disso, há um componente biológico em jogo. O cuidado ritualístico com a boneca – como trocar suas roupas, alimentá-la e dar banho – ativa comportamentos relacionados ao apego e pode até estimular a liberação de ocitocina, um hormônio associado ao bem-estar e à conexão emocional. Essa prática, mesmo que simbólica, pode servir como uma base segura para aqueles que carecem de vínculos afetivos estáveis.</p>



<p>Por outro lado, pessoas com um histórico de apego inseguro (seja evitativo, ambivalente ou desorganizado) tendem a repetir padrões disfuncionais em seus relacionamentos. A boneca reborn pode se tornar um cenário para essas repetições inconscientes. A relutância em se separar da boneca ou em compartilhá-la com um parceiro pode indicar feridas antigas não resolvidas.</p>



<p><strong>Entre o Terapêutico e o Patológico</strong></p>



<p>A junção entre os simbolismos junguianos e os mecanismos de apego de Bowlby mostra que o vínculo com o bebê reborn vai além do excêntrico ou estético. Pode representar uma tentativa genuína de reparar feridas emocionais, lidar com perdas ou preencher lacunas afetivas. Em certos casos, é uma ferramenta terapêutica eficaz, reconhecida por profissionais de saúde mental.</p>



<p>Contudo, o fenômeno levanta questões delicadas. Quando adultos tratam a boneca como um bebê real em locais públicos &#8211; levando-a a consultas médicas, festas de aniversário ou solicitando benefícios destinados a crianças reais &#8211; a reação social tende a ser negativa. Há críticas relacionadas à maturidade emocional dessas pessoas, e surgem debates sobre até onde essa prática é inofensiva.</p>



<p>A cobertura pela mídia intensifica a polarização: de um lado, pessoas que veem o reborn como arte, passatempo ou apoio emocional; de outro, críticos que questionam os limites entre fantasia e realidade, chegando a propor leis para restringir o uso da boneca em contextos públicos ou burocráticos.</p>



<p><strong>Origem e Significado do “Renascimento”</strong></p>



<p>O termo &#8220;reborn&#8221; é derivado do inglês e significa &#8220;renascido&#8221;. Sua origem remete à época da Segunda Guerra Mundial, quando mães nos Estados Unidos e no Reino Unido restauravam bonecas antigas para presentear seus filhos. Esse gesto simbolizava reconstrução e esperança após períodos difíceis. Com o passar do tempo, a prática se desenvolveu em um sofisticado nicho artesanal, onde artistas transformam bonecas comuns em réplicas realistas de recém-nascidos. Hoje, &#8220;bebê reborn&#8221; não possui apenas um significado técnico, mas também emocional, representando o desejo de recomeçar e dar nova vida a algo perdido ou que nunca existiu.</p>



<p><strong>Conclusão</strong></p>



<p>O apego aos bebês reborn vai além de ser apenas uma moda contemporânea. Ele reflete as emoções humanas, nossas necessidades mais profundas e a maneira como buscamos conforto, conexão e significado em um mundo que se torna cada vez mais isolado. Sob a perspectiva de Jung, o reborn representa um símbolo do inconsciente coletivo; para Bowlby, é um substituto emocional quando faltam vínculos reais.</p>



<p>Oscilando entre o terapêutico e o patológico, entre o simbólico e o concreto, o bebê reborn nos leva a questionar os limites da fantasia, o papel dos objetos simbólicos e a fragilidade das relações humanas. Em vez de julgar ou ridicularizar, talvez o mais sensato seja tentar compreender: por que tantas pessoas sentem a necessidade de cuidar de algo que nunca chorou?</p>



<p><strong>Carlos São Paulo – </strong>Médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana. carlos@ijba.com.br</p>



<p><strong>Campanha de Matrículas Abertas</strong></p>



<p>Se você se interessa por temas como este e deseja aprofundar sua compreensão sobre a alma humana, os arquétipos, os vínculos e os símbolos, considere tornar-se um profissional capacitado ou simplesmente explorar mais a psicologia de Jung conosco.</p>



<p></p>



<p>📚 O Instituto Junguiano da Bahia, em parceria com a Escola Bahiana de Medicina, está com matrículas abertas até o dia <strong>30 de maio de 2025</strong> para suas <strong>pós-graduações em Psicologia Analítica</strong>.</p>



<p>Mais do que uma formação profissional, trata-se de uma jornada de crescimento pessoal e autoconhecimento, com base nos ensinamentos de Carl Gustav Jung.</p>



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		<title>ADOLESCENTES, MISOGINIA E O RISCO DO SILENCIAMENTO GENERALIZADO</title>
		<link>https://www.ijba.com.br/blog/adolescentes-misoginia-e-o-risco-do-silenciamento-generalizado/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Bárbara Assis]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Apr 2025 20:37:59 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Por Carlos São Paulo A minissérie Adolescência expõe com precisão um dilema crescente: como combater o machismo e o racismo sem cair em novas formas de exclusão e radicalização? Ao mostrar a história de um adolescente branco, possivelmente autista, que comete um crime após sofrer bullying nas redes sociais, a série propõe uma questão incômoda, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><em><strong>Por Carlos São Paulo</strong></em></p>



<p>A minissérie <em>Adolescência</em> expõe com precisão um dilema crescente: como combater o machismo e o racismo sem cair em novas formas de exclusão e radicalização? Ao mostrar a história de um adolescente branco, possivelmente autista, que comete um crime após sofrer bullying nas redes sociais, a série propõe uma questão incômoda, mas essencial: será que o discurso de justiça social está, em alguns casos, ultrapassando o ponto de equilíbrio?</p>



<p>Um exemplo emblemático foi o caso de um adolescente de 13 anos que, no Instagram, foi alvo de ataques diretos à sua virilidade. Nesta etapa da vida, a imaturidade emocional torna extremamente difícil enfrentar acusações tão sérias, principalmente quando são intensificadas por um discurso social que não faz distinções. A sociedade parece ter adotado um modelo onde qualquer expressão masculina é automaticamente vista com desconfiança. A condição de &#8220;ser homem&#8221; passou a ser vista como sinônimo de opressão. Embora seja inegável que minorias historicamente oprimidas precisem de proteção e reparação, manter o equilíbrio é fundamental. O extremismo na defesa de causas sociais tem gerado uma inversão preocupante: meninos brancos, frequentemente sem recursos emocionais ou cognitivos para se protegerem, acabam se tornando alvos fáceis de críticas generalizadas.</p>



<p>Essa abordagem, ao invés de promover inclusão, gera ressentimento, isolamento e, em alguns casos, radicalização. É nesse contexto que surge a figura do <em>incel</em> — sigla para “involuntary celibate” (celibatário involuntário). O termo, famoso em inglês, refere-se a jovens que enfrentam dificuldades em criar laços afetivos ou sexuais. Muitos se sentem à margem do discurso social predominante e acabam se abrigando em comunidades virtuais que intensificam essa exclusão, convertendo a frustração em ressentimento. Esses espaços não surgem do nada: são alimentados por jovens que, rejeitados, passam a enxergar a sociedade como inimiga. E ao invés de receberem acolhimento, deparam-se apenas com mais hostilidade.</p>



<p>A adolescência é uma fase crucial para o desenvolvimento da identidade. Quando esse desenvolvimento acontece em um ambiente de constante desconfiança e julgamento simbólico, o risco de resultados trágicos se eleva. A série Adolescência não exime o protagonista de suas responsabilidades, mas incita a reflexão sobre o contexto que o levou até aquele momento. Ao criminalizar genericamente a masculinidade jovem, abre-se espaço para que ideologias extremistas ganhem força &#8211; e para que o ódio encontre justificativa emocional.</p>



<p>Não se trata de relativizar a luta contra a misoginia ou o racismo. Trata-se de reconhecer que o combate a essas violências precisa ser inteligente, estratégico e responsável. O moralismo impulsivo, intensificado pelas redes sociais e discursos polarizados, reduz discussões complexas a conflitos de identidade. Nesse ambiente, o diálogo se perde.</p>



<p>As redes sociais, que poderiam promover a escuta e a empatia, frequentemente funcionam como arenas de julgamento imediato. Cancelamentos substituem conversas, e a superficialidade toma o lugar da reflexão. Enquanto isso, questões fundamentais como a violência contra mulheres e a desigualdade educacional são deixadas de lado, eclipsadas por disputas de visibilidade e poder simbólico.</p>



<p>A mensagem da minissérie é evidente: alcançar uma sociedade mais justa requer equilíbrio. Não se combate o ódio criando novos alvos de exclusão. É essencial resgatar o valor da escuta e da responsabilidade compartilhada. Somente assim podemos evitar que jovens, perdidos nos desafios da adolescência, se tornem protagonistas de tragédias que poderiam ser evitadas.</p>



<p><strong>Carlos São Paulo – </strong>Médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana. carlos@ijba.com.br</p>



<p></p>
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		<title>CRIATIVIDADE E ARTE COMO PARTE DA ELABORAÇÃO DO TRAUMA INTERGERACIONAL DEVIDO À ESCRAVIDÃO</title>
		<link>https://www.ijba.com.br/blog/criatividade-e-arte-como-parte-da-elaboracao-do-trauma-intergeracional-devido-a-escravidao/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Administrador]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Mar 2023 16:46:01 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Denise Gimenez Ramos, Ph.D. Palestra apresentada no Internacional Congresss of Analytical Psychology,&#160;Montreal, Canadá, 2010. Publicada em: Ramos, D.G. Creativity and art as part of the elaboration of trauma brought on by slavery. Cultures and identities in Transition. Jungian Peerspectives.Ed.t. by Stein, M e Jones, R. London: Routledge A ideia de estudar a escravidão do ponto [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Denise Gimenez Ramos, Ph.D.</strong></p>



<p><strong>Palestra apresentada no Internacional Congresss of Analytical Psychology,&nbsp;Montreal, Canadá, 2010.</strong></p>



<p><strong>Publicada em: Ramos, D.G. Creativity and art as part of the elaboration of trauma brought on by slavery. <em>Cultures and identities in Transition. Jungian Peerspectives</em>.Ed.t. by Stein, M e Jones, R. London: Routledge</strong></p>



<pre class="wp-block-preformatted">A ideia de estudar a escravidão do ponto de vista psicológico me ocorreu quando aplicava o teste de associação de palavras a um grupo de estudantes durante uma aula de psicologia analítica. Para minha surpresa um dos estudantes disse ter ficado muito triste porque associou “negreiro”  à palavra “navio”. Negreiro era o nome do navio que carregava os africanos que seriam vendidos como escravos. Descobri, mais tarde, que outros alunos dessa cidade, tiveram reações semelhantes. Estávamos em Salvador, antiga capital do Brasil, cuja população é composta de 80% de negros ou mulatos. Meus alunos eram médicos e psicólogos e seria quase eu impossível dizer, só por observação visual, quais eram afro descendentes, uma vez que a mistura racial  da população é grande.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Estávamos em 2006, 118 anos após a abolição da escravatura no Brasil, então alguns desses alunos poderiam ter tido parentes, avós ou bisavós que haviam sido escravizados. O teste revelou uma situação conflituosa e traumática no inconsciente pessoal e coletivo. O sequestro, o rompimento dos laços familiares, a migração compulsória, as terríveis viagens nos navios negreiros, a submissão a situações degradantes, como a venda, e todos os maus-tratos a que os africanos foram submetidos, criaram, sem dúvida, uma situação altamente traumática. Segundo os historiadores, durante essa viagem, um terço dos africanos capturados morreu; a doença mais comum erao “<em>Bantu</em>”,&nbsp; que significa sentir falta de alguém. O nível de mortalidade nos navios negreiros era três a quatro vezes maior do que em navios com imigrantes livres (Eltis 2003).</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Do total de 11 milhões de africanos que foram escravizados, estima-se que três milhões e seiscentos mil tenham sido trazidos para o Brasil. Hoje, 51% da população brasileira é de origem africana. Nos últimos anos, uma significativa literatura tratou da história desse povo, de suas rebeliões e lutas pela construção de uma identidade. No entanto, do ponto de vista psicológico, ainda há muito a ser feito.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Uma das principais questões para nós hoje é como os descendentes desses escravizados estão vivendo e como lidam com esses eventos históricos traumáticos.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Cento e vinte e dois anos após a abolição, o Brasil continua sendo um país marcado pela desigualdade racial. As estatísticas mostram que, no Brasil, a maioria das pessoas&nbsp; desempregadas, sem educação e pobres - assim como os criminosos na prisão - são afrodescendentes (Henriques 2001; Kilsztajn et al.2008). Estudos mostram que até a primeira metade do século 20, durante o processo de generalização do trabalho livre e da competição, a grande massa de descendentes da antiga população escrava vivia na marginalidade econômica (Furtado 2000; Hoffmann 2001). Os próprios brasileiros muitas vezes atribuem isso esse dado ao legado da escravidão, argumentando que a experiência da escravidão prejudicou os afrobrasileiros tão severamente como grupo social que eles se mostraram incapazes, um século após a emancipação, de competir efetivamente com os brancos por empregos, educação, habitação e outros bens sociais.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Claramente, o legado da escravidão ajudou a moldar esse processo, produzindo tanto empregadores desacostumados e indispostos a negociar com seus ex-escravos, quanto uma ex-população escrava com demandas muito específicas sobre as condições em que trabalhariam como homens e mulheres livres. Esse legado está presente em grande parte do Brasil, onde os imigrantes brancos são claramente os 'vencedores' e os negros os 'perdedores' no processo de desenvolvimento econômico e de prosperidade. Além disso, embora os descendentes de europeus geralmente se orgulhem da história de seus ancestrais, viajando para o local de origem de sua família e tendo grande prazer em contar e recontar como seus avós cruzaram o oceano e conseguiram ter muito sucesso na nova terra, observei que os afrodescendentes praticamente nunca tocam nesse assunto.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Pesquisas realizadas entre alunos de pós graduação nas cidades de Salvador e São Paulo confirmam esse fato (Ramos, 2009). É importante lembrar que São Paulo, cidade altamente industrializada e desenvolvida localizada no sul do Brasil, foi formada basicamente por imigrantes europeus, em sua maioria italianos, espanhóis e portugueses. A maioria da sua população é branca e a influência da cultura europeia está significativamente presente na sua arquitetura, educação e hábitos e cultura locais. A pesquisa comparou alunos brancos e negros quanto aos sentimentos em relação aos seus ancestrais. Foi constatado uma diferença significativa entre os descendentes de europeus e africanos. Enquanto os primeiros conhecem a origem dos seus antepassados, de que país vieram e manifestaram o desejo de visitar aquele local, os descendentes de africanos dizeram não saber a origem dos seus avós nem saber onde haviam morado quando no Brasil, deixando sem resposta a pergunta se gostariam de saber a origem de sua família. À pergunta sobre a influência da cor da pele nas relações sociais e de trabalho, todos os brancos responderam que a aparência é um fator auxiliar, enquanto os negros paulistas consideram a cor um fator gerador de sentimentos de inferioridade e discriminação. Dentro desse grupo, observamos tambem sentimentos conflitantes: muitos respondem que têm orgulho de sua origem, mas têm vergonha de seus pais e se sentem inferiores.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Outro estudo deste projeto comparou alunos brancos e negros em uma escola da cidade de São Paulo com idade entre 12 e 18 anos. Foram levantadas dez hipóteses para verificar e comparar autoestima, clareamento, identificação racial, atributos de beleza, riqueza, sucesso social e profissional. Foram utilizados como instrumentos a escala de autoestima de Rosenberg (Avanci, J. et al. 2007) e dois questionários. Em um deles os alunos deveriam escolher qual entre quatro fotos de pessoas (2 brancas e 2 pretas) correspondia a uma qualidade. Por exemplo: qual delas é mais bonita? Os resultados mostram que a grande maioria dos adolescentes negros atribuiu aos brancos maior riqueza, beleza e sucesso profissional. No entanto, as alunas negras acreditam que também poderiam ter sucesso profissional. Provavelmente isso se deve à popularidade de artistas e modelos negros e grande valorização da "beleza negra" em alguns circuitos culturais. Interessante notar é que os alunos negros se percebem como tendo tantos amigos quanto os brancos, revelando o mesmo nível de sociabilidade (Ramos,2010).</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Aqui podemos refletir que quando um adolescente negro diz que os negros são mais feios, mais pobres e com menos possibilidades de sucesso ele está numa situação muito difícil: sentindo-se preso em um corpo indesejável; a sombra (no caso, as boas qualidades) é projetada nos colegas brancos. Consequentemente observamos um desejo unânime de parecer branco como também um “branqueamento” quando a maioria dos adolescentes de ambos os sexos se veem mais brancos do que são e declaram que gostariam de ser brancos. Resultados semelhantes foram encontrados por Lima e Vala (2004). Em seu estudo,&nbsp; investigaram os efeitos da percepção da cor da pele e do sucesso social no clareamento e na infra-humanização. Descobriram que os negros que obtêm sucesso social são percebidos como mais brancos do que aqueles que fracassam.. Essas pesquisas confirmam outros estudos que revelam um desejo de branqueamento e a associação de negritude com inferioridade. Walter e Paula Boechat em seu artigo “Raça, racismo e inter-racismo no Brasil: perspectivas clínicas e culturais” afirmam: “o caráter básico e distintivo do racismo brasileiro é que ele se baseia na cor da pele. Isso torna o racismo um elemento central na sombra coletiva do Brasil ”(Boechat, W e Boechat, P. 2009, p. 196)</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">A cor da pele não permite segredos, perdão ou fuga fácil. Obriga o indivíduo a se identificar com um grupo ao qual ele ou ela pode não querer pertencer. Não há escolha. Como diz Kaplinsky “a cor da pele pode desencadear reações emocionais e é a chave do complexo cultural” (Kaplinsky 2009, p.64). Os resultados dessas pesquisas apontam para uma possível causa psicológica para as distorções socioeconômicas descritas acima e levantam as seguintes questões:</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Será que a autoestima dos afrodescendentes ficou tão baixa que dificultou sua ascensão social? O que estaria causando esses sintomas? Estariam relacionados a um complexo coletivo e cultural? Os eventos traumáticos da escravidão podem ser o cerne deste complexo? Ou a situação traumática da escravidão poderia ser fixada em um complexo cultural que se transmite de geração em geração, formando um trauma intergeracional?</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">&nbsp;</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Neste artigo, farei uma breve análise dos traumas e dos complexos culturais e como eles podem se manifestar em um segmento de afrodescendentes que vivem em uma região específica do Brasil. Sem tentar reduzir esse fenômeno complexo a uma única causa psicológica, explorarei os sintomas de um possível complexo cultural e de um trauma coletivo causado pela escravidão.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted"><strong>ESCRAVIDÃO NO BRASIL: BREVE HISTÓRICO</strong> <strong></strong></pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Africanos escravizados foram trazidos para o Brasil para fazer o trabalho exaustivo das plantações de cana. Vieram de diferentes parte da África atravessando o Atlântico nos chamados navios negreiros. Devido a terríveis condições de higiene e saúde, muitos morreram no percurso. &nbsp;</pre>



<pre class="wp-block-preformatted"><strong>Negros no porão de um navio negreiro</strong></pre>



<figure class="wp-block-image size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="615" src="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_1-1024x615.jpg" alt="" class="wp-image-4973" srcset="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_1-1024x615.jpg 1024w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_1-300x180.jpg 300w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_1-768x461.jpg 768w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_1.jpg 1298w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption><strong>J.M. Rugendas. Paris 1935</strong></figcaption></figure>



<pre class="wp-block-preformatted"></pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Chegando no Brasil, as famílias e etnias foram separadas e distribuídas em diferentes locais de modo a provocar um rompimento dos laços que os uniam. Desta forma, o tratamento dos colonizadores criou uma ruptura nos laços familiares e culturais da língua nativa. (Pinho, 2004). Este comércio teve início nos tempos coloniais, em 1532, e durou até 1888. Durante esses três séculos e meio de escravidão, a população negra teve um papel fundamental no desenvolvimento econômico do país.

<strong>Rota mais frequente de tráfico</strong></pre>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img decoding="async" src="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_2-2.jpg" alt="" class="wp-image-4976" width="841" height="503" srcset="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_2-2.jpg 405w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_2-2-300x179.jpg 300w" sizes="(max-width: 841px) 100vw, 841px" /></figure>



<pre class="wp-block-preformatted">Estima-se que 3 milhões e 600 mil escravos chegaram no Brasil</pre>



<pre class="wp-block-preformatted"><strong>Centro histórico de Salvador</strong></pre>



<pre class="wp-block-preformatted">O centro histórico da cidade de Salvador, Bahia (mesma cidade onde ministrei o workshop) foi escolhido para este estudo. Esta cidade&nbsp; é de grande importância para este estudo, pois ali chegavam os “navios negreiros” e onde os africanos eram vendidos. Neste centro histórico, muitas casas do século XVIII e locais onde trabalharam e viveram escravos estão bem preservados. Com o tempo, após a abolição da escravatura, esta parte da cidade passou por uma grande transformação e foi nomeada monumento cultural mundial pela UNESCO em 1985 (Cerqueira 1994; Miranda e Santos 2002).</pre>



<pre class="wp-block-preformatted"><strong>Imagem da região onde aportavam os navios negreiros</strong></pre>



<figure class="wp-block-image size-full"><img decoding="async" width="965" height="535" src="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_3.jpg" alt="" class="wp-image-4977" srcset="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_3.jpg 965w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_3-300x166.jpg 300w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_3-768x426.jpg 768w" sizes="(max-width: 965px) 100vw, 965px" /><figcaption><strong>Cartão posta</strong>l</figcaption></figure>



<pre class="wp-block-preformatted"><strong>A PESQUISA SOCIO PSICOLÓGICA</strong></pre>



<pre class="wp-block-preformatted">A pesquisa foi realizada entre 2005 e 2009 e centrou-se em:</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">A. Documentos históricos</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">B. Observação de campo - o que acontece nas ruas</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">C. Visita a museus e galerias de arte no Pelourinho e entrevistas com seis pintores</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">D. Viagem ao centro de dois dos mais famosos grupos musicais do Pelourinho</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">E. Visita a lugares sagrados construidos pelos negros</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">F. Entrevistas com líderes comunitários</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">A. Documentos históricos</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Locais do pelourinho</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">&nbsp;</pre>



<pre class="wp-block-preformatted"></pre>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="710" src="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_4-1024x710.jpg" alt="" class="wp-image-4978" srcset="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_4-1024x710.jpg 1024w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_4-300x208.jpg 300w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_4-768x533.jpg 768w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_4.jpg 1299w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<pre class="wp-block-preformatted">Originalmente o pelourinho, poste onde os escravos eram açoitados, &nbsp;foi colocado na primeira feira livre da cidade, a “Praça da Feira” que hoje é conhecida como “Praça Municipal”, uma praça aberta no topo da colina, logo acima do local onde os navios negreiros chegavam. Hoje, há uma fonte moderna e colorida em seu lugar.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;
<strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Fonte da deusa Ceres
</strong></pre>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="653" height="868" src="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_5.jpg" alt="" class="wp-image-4979" srcset="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_5.jpg 653w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_5-226x300.jpg 226w" sizes="(max-width: 653px) 100vw, 653px" /><figcaption>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Foto da autora&nbsp;</figcaption></figure></div>



<pre class="wp-block-preformatted"></pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Em algum momento entre 1602 e 1607, o pelourinho foi transferido por decreto do governador para o “Terreiro de Jesus” um local “longe dos olhos do público”. Mas como o Terreiro de Jesus era o local da igreja e da escola jesuíta, os gritos e gemidos dos escravos interferiam nos cultos e no ensino da igreja. Assim, por pedido da igreja, o rei de Portugal D. João VI o removeu o fundo da “Porta de São Bento” onde hoje se encontra a “Praça Castro Alves”. Atualmente, no mesmo local do pelourinho, ergue-se uma estátua de origem francesa de Ceres, deusa da fertilidade e da agricultura.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">&nbsp;<strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O centro histórico</strong></pre>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="1022" src="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_6-1024x1022.jpg" alt="" class="wp-image-4980" srcset="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_6-1024x1022.jpg 1024w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_6-300x300.jpg 300w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_6-150x150.jpg 150w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_6-768x767.jpg 768w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_6.jpg 1301w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Foto da autora</strong></figcaption></figure>



<pre class="wp-block-preformatted"></pre>



<pre class="wp-block-preformatted">O pelourinho foi retirado pela última vez em 1807 e levado para a praça que viria a levar o seu nome. Assim, o pelourinho de Salvador ficou por último no alto do íngreme “Largo do Pelourinho”, etapa final de sua trajetória, e lá permaneceria por mais 28 anos, até 1835. Hoje é o principal local de eventos musicais. O local de leilão de escravos foi reformado e convertido em museu (Rocha, 1994).</pre>



<pre class="wp-block-preformatted"><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Centro do Pelourinho</strong></pre>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_7.jpg" alt="" class="wp-image-4981" width="840" height="557" srcset="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_7.jpg 968w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_7-300x199.jpg 300w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_7-768x510.jpg 768w" sizes="(max-width: 840px) 100vw, 840px" /><figcaption><strong>Cartão postal</strong></figcaption></figure>



<pre class="wp-block-preformatted"></pre>



<pre class="wp-block-preformatted">A construção de fontes de água, o monumento à deusa Ceres e, por fim, um local de eventos musicais onde antigamente ficava o pelourinho, podem ser aqui interpretados como uma tentativa de transformar um local associado ao sofrimento e à morte em espaço de alegria e celebração de vida, mesmo que para a maioria da população seja um ato inconsciente.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">B. Observação de campo - O que acontece nas ruas</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">É comum ver mulheres fazendo tererê, estilo africano de trançar os cabelos, nos turistas. Aqui existe uma atitude de orgulho e valorização de uma tradição numa sociedade onde os cabelos lisos loiros são mais apreciados. Também vemos mulheres com roupas africanas vendendo comida tradicional e acessórios feitos de miçangas e pedras. </pre>



<pre class="wp-block-preformatted"><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Turista fazendo tererê</strong></pre>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_8-1024x768.jpg" alt="" class="wp-image-4982" srcset="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_8-1024x768.jpg 1024w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_8-300x225.jpg 300w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_8-768x576.jpg 768w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_8.jpg 1160w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption><strong>Foto da autora</strong></figcaption></figure>



<pre class="wp-block-preformatted"></pre>



<pre class="wp-block-preformatted">A estética afro-brasileira vem ganhando novos elementos por meio de roupas, acessórios, penteados e estampas. Recentemente, “brinquedos étnicos” têm aparecido no mercado, como bonecos pretos vestidos de africanos. Questionado sobre a feiúra da boneca branca, o vendedor negro sorrindo respondeu: “<em>mas essa é a ideia. Veja se você entende”</em>. </pre>



<pre class="wp-block-preformatted"><strong>Bonecas vendidas na praça
</strong></pre>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="853" height="640" src="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_9.jpg" alt="" class="wp-image-4983" srcset="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_9.jpg 853w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_9-300x225.jpg 300w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_9-768x576.jpg 768w" sizes="(max-width: 853px) 100vw, 853px" /><figcaption><strong>Foto da autora</strong></figcaption></figure>



<pre class="wp-block-preformatted"></pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Além dos vestidos étnicos, há muitas lojas que vendem música e instrumentos musicais africanos. Cenas de pessoas fazendo capoeira, mistura de dança e luta, também são vistas nass ruas.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted"><strong>Pessoas dançando capoeira</strong></pre>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_10-1024x768.jpg" alt="" class="wp-image-4984" srcset="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_10-1024x768.jpg 1024w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_10-300x225.jpg 300w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_10-768x576.jpg 768w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_10.jpg 1184w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Foto da autora</strong></figcaption></figure>



<pre class="wp-block-preformatted"></pre>



<pre class="wp-block-preformatted">A capoeira é considerada um movimento de resiliência da cultura negra e hoje é ensinada em escolas de todo o Brasil, assim como no exterior. Segundo Dr.Carlos São Paulo (comunicação pessoal, abril de 2008), a capoeira nasceu da necessidade de desenvolver a inteligência física nas pessoas cujos corpos estavam acorrentados e oprimidos. Assim, os movimentos expressam luta e&nbsp; defesa contra o opressor, que precisavam ser disfarçados como uma forma de dança para não aparecer uma ameaça aos seus patrões.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Pudemos assim observar que algumas tradições africanas não são apenas coletadas e representadas, mas também relembradas e imaginadas, através da associação com danças e artefactos, alguns dos quais foram arranjados e designados para esse fim. Aqui, o “poder de contar e olhar” está intimamente interligado a gestos &nbsp;e associados à capacidade de ver e à possibilidade de tornar as coisas visíveis (Hale 1998). Mas, que coisas eles querem tornar visíveis? E o que é invisível neste lugar? </pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Finalmente vimos algumas crianças e adolescentes andando pelas ruas implorando por dinheiro e turistas estrangeiras brancas em um comportamento sexual aberto com homens negros.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">&nbsp;</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">C. Visita às galerias de arte do Pelourinho e entrevistas com seis pintores</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Foram visitadas 31 galerias de arte catalogadas (setenta por cento do total) e anotados os temas mais comuns nas pinturas, observando-se &nbsp;imagens que tivessem alguma referência à população local e / ou refletissem a escravidão.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted"><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pintando na rua</strong></pre>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="769" src="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_11-1024x769.jpg" alt="" class="wp-image-4985" srcset="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_11-1024x769.jpg 1024w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_11-300x225.jpg 300w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_11-768x576.jpg 768w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_11.jpg 1299w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption><strong>Foto da autora</strong></figcaption></figure>



<pre class="wp-block-preformatted"></pre>



<pre class="wp-block-preformatted"> Os principais temas encontrados nas pinturas foram:</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Natureza: com jovens índios e animais silvestres, principalmente pássaros e onças.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Figuras humanas: pinturas de jovens negras sensuais, principalmente apenas o rosto, sempre com roupas africanas. Enquanto as mulheres parecem alegres, uma possível representação da anima africana, as poucas pinturas de homens revelam uma profunda tristeza e têm um ar sombrio. Nesse caso, os pintores eram todos homens.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Havia apenas três pinturas com referências à origem africana: apenas uma com escravos. Nos outros dois, os indígenas estavam de olhos fechados. O que eles não querem ver? A representação de figuras humanas com os olhos fechados está presente em grande número de pinturas, principalmente quando há uma imagem de homem branco ao centro. No entanto, quando o quadro retrata apenas negros, as figuras negras ficam de olhos abertos. Haveria aqui certa dificuldade de enfrentar o homem branco? Haveria aqui sentimentos conflitantes? O que é tão difícil de olharr?</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Abaixo, uma pintura muito interessante mostra uma mulher com um olhar triste observando um ninho de pássaro. Um pássaro carrega um livro e o outro um lápis. No ninho há também dois lápis. Segundo o autor, essa imagem mostra que o caminho para a liberdade é a educação: “<em>as pessoas só evoluem quando sabem usar lápis e papel”</em> (Raimundo Bastos dos Santos comunicação pessoal, 2009).</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">&nbsp;</pre>



<pre class="wp-block-preformatted"> </pre>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="771" src="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_12-1024x771.jpg" alt="" class="wp-image-4986" srcset="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_12-1024x771.jpg 1024w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_12-300x226.jpg 300w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_12-768x578.jpg 768w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_12.jpg 1299w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption><strong>Comida para os passarinhos Raimundo Bastos dos Santos (Salvador, 2009)</strong></figcaption></figure>



<pre class="wp-block-preformatted">Ainda de acordo com o mesmo pintor, outro caminho para evolução seria o futebol que é aqui mostrado com duas crianças que em vez de ovos carregam &nbsp;bolas de futebol.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">&nbsp;&nbsp;</pre>



<pre class="wp-block-preformatted"> </pre>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="649" height="862" src="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_13.jpg" alt="" class="wp-image-4987" srcset="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_13.jpg 649w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_13-226x300.jpg 226w" sizes="(max-width: 649px) 100vw, 649px" /><figcaption><code>Raimundo Bastos dos Santos, Salvador 2009</code></figcaption></figure></div>



<pre class="wp-block-preformatted">Muitos quadros mostram cenas do passado, retratando&nbsp; atividades que ocorriam no Pelourinho, provavelmente do final do século XIX ao início do século XX, sem qualquer referência à escravatura, tortura ou submissão, mas predominantemente cenas de um passado imaginário pacífico e sem conflito.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Entretanto, as pinturas mais frequentes são aquelas quer representam os &nbsp;Orixás, deuses na religião afro-brasileira chamada Candomblé. São figuras fortes e alegres geralmente retratadas dançando e vestidas com roupas e acessórios muito coloridos. Aqui observamos talvez um ponto de orgulho e autoestima, pois os mestres (pai ou mãe de santo) nas religiões afrobrasileiras são muito respeitados e consultados por políticos e personalidades no Brasil.</pre>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_15-1024x747.jpg" alt="" class="wp-image-4988" width="840" height="612" srcset="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_15-1024x747.jpg 1024w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_15-300x219.jpg 300w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_15-768x560.jpg 768w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_15.jpg 1300w" sizes="(max-width: 840px) 100vw, 840px" /><figcaption><strong>Orixás por Ricardo Miranda dos Santos (Salvador, 2009)</strong></figcaption></figure>



<pre class="wp-block-preformatted">&nbsp;</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Em termos de religião, é importante lembrar que grande parte das crenças religiosas brasileiras, `a parte do cristianismo, derivam de mitos e lendas africanas, sendo a linguagem dessas religiões transmitida pelas gerações. Os aspectos míticos dessas crenças influenciaram o desenvolvimento cultural e religioso do país .</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">D. Visita ao centro de dois dos mais famosos grupos musicais do Pelourinho: “Filhos de Gandhi” e “Olodum”</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">O grupo “Filhos de Gandhi”, com aproximadamente 10.000 membros, começou como uma organização cultural e musical (carnavalesca) cujo objetivo era o de pregar a paz em homenagem ao líder Mahatma Gandhi. Eles cultivam tradições mítica religiosas afrobrasileiras e seus trajes são brancos e azuis representam a paz proposta por Ghandi. Suas canções fazem referência à beleza e à força dos negros sofredores que, embora marginalizados e discriminados, ainda demonstram a arte, a alegria e o legado da terra de seus ancestrais (a velha África).</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">&nbsp;</pre>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_16.jpg" alt="" class="wp-image-4989" width="605" height="531"/><figcaption><strong>Cartão postal</strong></figcaption></figure></div>



<pre class="wp-block-preformatted">O outro grupo é chamado de Olodum que significa “<em>Deus dos deuses</em>”, Deus criador do universo. Enquanto a maioria dos grupos musicais brasileiros veste amarelo e verde, o grupo Olodum adiciona vermelho e preto aos seus trajes. Segundo eles, o vermelho significa sangue e o preto o orgulho de sua raça. O ritmo é forte, a atitude um misto de diversão e agressividade e dizem que o som alto da bateria&nbsp; “<em>afasta os fantasmas</em>”. As canções geralmente são sobre a criação do universo, as maravilhas do criador e a origem da raça escrava. Em uma de suas melodias mais populares, &nbsp;cantam que nasceram no Egito e são filhos do faraó. Aqui vemos uma fantasia de grandiosidade, já que nenhum escravo foi enviado do Egito para o Brasil:</pre>



<p><em>Pelourinho<br>Uma pequena comunidade<br>Que porém Olodum unira<br>Em laço de confraternidade</em></p>



<p><em>Despertai-vos para a cultura Egípcia no Brasil<br>Em vez de cabelos trançados<br>Veremos turbantes de Tutancâmon</em></p>



<p><em>E nas cabeças, enchem-se de liberdade<br>O povo negro pede igualdade<br>Deixando de lado as separações.</em></p>



<p>(Composição: Luciano Gomes).&nbsp;</p>



<pre class="wp-block-preformatted">Em busca por uma identidade, é natural que busquemos nossos mitos de origem. No caso dos afrodescendentes, esse retorno ao passado remete à questão da diáspora africana, já que, ao longo do caminho, muitos desconhecem a origem de seus pais, a história e o local de nascimento da família. Assim, a música, os vestidos e acessórios criam uma imagem de “Mamãe África”, idealizando uma África mítica ao criar tradições afrobrasileiras. Por outro lado, algumas letras do Olodum são famosas pelo ritmo alegre expressando esperança na construção de um país unido. Nessas canções não há referências à escravidão, sendo um dos temas mais comuns o herói negro que <em>“sacode”</em> o país e o transforma, não com a guerra, mas com uma atitude amorosa:</pre>



<pre class="wp-block-preformatted"><em>&nbsp;</em></pre>



<pre class="wp-block-preformatted"><em>Vai se me chamar</em><em><br>
Eu também vou<br>
Sou Olodum<br>
Sou do Pelô<br>
Sou quem balança o Brasil<br>
Ai que saudade que eu sinto<br>
Do som lá do Pelourinho<br>
Eu sou seu nego<br>
Vem me fazer chamego<br>
Que eu te dou o meu caminho<br>
Vendaval, Temporal<br>
Pra ser feliz no Olodum<br>
Não há segredos não<br>
Tô feliz, eu tô<br>
Tô legal<br>
Vem ser mais um amor<br>
Nesse carnaval</em><em></em></pre>



<pre class="wp-block-preformatted"> </pre>



<pre class="wp-block-preformatted">(Olodum do Pelô: Lázaro Marçal, Rita Sena, Marquinhos Marques, P. Onasis)</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">E. Visita à igreja de Nossa Senhora do Rosário</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Ex-escravos construíram esta igreja no século 17 e a decoraram com o ouro que escondiam em seus bolsos enquanto construíam igrejas para seus senhores. Muito bem escondido atrás da igreja, existe um pequeno cemitério e uma vitrine com grade. Uma escavação revelou que os esqueletos ali enterrados eram de escravos ainda com suas correntes, mortos no pelourinho. Seus corpos deveriam ficar expostos ao público para que servissem de exemplo. Porém, durante a noite, os membros da comunidade &nbsp;os retirava e os enterravam em um lugar escondido. </pre>



<pre class="wp-block-preformatted"><strong>Imagem da escrava Anastácia</strong></pre>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="784" src="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_17-1024x784.jpg" alt="" class="wp-image-4990" srcset="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_17-1024x784.jpg 1024w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_17-300x230.jpg 300w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_17-768x588.jpg 768w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_17.jpg 1300w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption><strong>Foto da autora</strong></figcaption></figure>



<pre class="wp-block-preformatted">Na vitrine de vidro estão duas estátuas da escrava Anastácia, que se tornou um dos poucos mitos da escravatura. Anastácia é a lenda de uma bela jovem escrava. Desejada por seu “dono”, atrai a ira da esposa que a pune colocando uma máscara de ferro em sua boca &nbsp;que ela morra de fome e sede. No fundo, esta lenda elogia a beleza negra e o apelo sexual como superiores aos da mulher branca.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">&nbsp;</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">F. Entrevistas com empresários e líderes comunitários</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Durante as entrevistas com lojistas e donos de restaurantes, foi visível um forte movimento de transferência e contratransferência durante as entrevistas. Às vezes, os entrevistados me faziam esperar muito tempo, me proporcionaram assim, talvez de forma inconsciente, a vivência do desrespeito e da humilhação. Como entendi que não era pessoal (minha cor de pele não ajudava), contratei um afrodescendente como meu assistente.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">A principal observação entre os lojistas e alguns líderes comunitários é que existe uma grande preocupação com a situação comercial do Pelourinho. O principal problema, segundo eles, é que os moradores de Salvador realmente só vão ao centro histórico da cidade quando há um show ou evento acontecendo, muitas lojas e restaurantes foram obrigados a fechar suas portas.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Uma entrevista particularmente interessante foi realizada com o Sr. Clarindo Silva, que mora no Pelourinho há 50 anos e é dono do restaurante mais antigo e famoso, a “Cantina da Lua”. O Sr. Silva tem muito orgulho do Pelourinho e da sua própria história, e até&nbsp; mostrou um terno com que desfilou no desfile do Pelourinho. 

Dono do restaurante Cantina da Lua- Sr. Clarindo da Silva</pre>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="769" height="1024" src="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_18-769x1024.jpg" alt="" class="wp-image-4991" srcset="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_18-769x1024.jpg 769w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_18-225x300.jpg 225w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_18-768x1022.jpg 768w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_18.jpg 830w" sizes="(max-width: 769px) 100vw, 769px" /><figcaption><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Foto da autora , Salvador 2009</strong></figcaption></figure>



<pre class="wp-block-preformatted">Sem dúvida um dos principais defensores da preservação deste local, Silva afirma que o Pelourinho deve ser um local com escolas e drogarias e não apenas um local histórico ou um museu a céu aberto. O Pelourinho precisa transformar sua história.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted"><strong>CONCLUSÕES</strong></pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Essas observações&nbsp; permitem levantar várias questões. Entre elas, aquela semelhante àquela levantada por Eyerman (2001) em seu livro <em>Trauma Cultural: Escravidão e a Formação da Identidade Afro-Americana</em> ao analisar a escravidão nos Estados Unidos:</pre>



<pre class="wp-block-preformatted"><em>Que fotos os afrodescendentes querem apresentar para si próprios e para os turistas e&nbsp; população branca</em>? <em>Como a expressão cultural dos descendentes de africanos evoluiu, mudou e voltou às suas origens ao longo das gerações?</em></pre>



<pre class="wp-block-preformatted">A verdadeira história do Pelourinho, a nosso ver, está escondida em um pequeno cemitério atrás de uma igreja e na fala amarga de seus habitantes. Não há interação consciente entre a riqueza cultural&nbsp; simbólica e seu cotidiano. Embora a cultura africana esteja profundamente arraigada no Brasil - como pode ser visto na música, na dança, na alimentação e nas práticas religiosas - parece que sua aculturação permanece restrita a essas atividades e não se integra a outras, como nas atividades econômicas com fins lucrativos. Os prédios e casas precisam de melhores cuidados e muitos moradores estão com problemas financeiros. É claro que os habitantes do Pelourinho não usam sua capacidade para mostrar suas múltiplas qualidades e criatividade, ou seja, para tornar seu mundo visível (ou invisível) como forma de poder e parte da construção social de sua identidade (Barton, 2001).</pre>



<pre class="wp-block-preformatted"><em>&nbsp;</em></pre>



<pre class="wp-block-preformatted"><em>O Pelourinho é apenas uma exposição, uma espécie de teatro que esconde o verdadeiro eu desta população? A falta de representação da escravidão é uma repressão do trauma ou uma forma de resiliência dessa cultura?</em><em></em></pre>



<pre class="wp-block-preformatted">De acordo com a afirmação de Singer e Kimbles (2004: 19) de que um grupo traumatizado pode representar um “falso eu” para o mundo, poderíamos refletir se os costumes, as pinturas e as danças que observamos podem estar mostrando um “falso eu” mas que a identidade mais autêntica e vulnerável estaria escondida dos olhos do público. É possível que:</pre>



<pre class="wp-block-preformatted"><em>um grupo traumatizado com suas defesas pode se encontrar &nbsp;vivendo uma história que se estende por várias gerações, vários séculos, ou mesmo milênios, com experiências repetitivas e dolorosas que fixam esses padrões de comportamento e emoção naquilo que os psicólogos analíticos vieram a conhecer como complexos.</em> (Singer e Kimbles 2004: 19)</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">As entrevistas com os artistas e com importantes figuras da comunidade, bem como a visita ao cemitério de escravos e a letra da música, revelam um outro lado de sofrimento e trauma. A maioria das canções remete a um passado fantasioso e irreal, com fantasias de poder e grandiosidade. Pudemose também observar uma certa depressão por parte dos entrevistados, pois há pouca perspectiva de futuro e sentimentos de consternação. Seriam eles o futuro dos adolescentes negros de nosso estudo?</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Os habitantes do Pelourinho esperam ajuda do governo e reclamam amargamente da falta de apoio oficial. Os pintores não se sentem reconhecidos e valorizados e todos parecem preocupados com o possível esvaziamento do local. No entanto, há muito pouca iniciativa privada. Observamos certa passividade e um ressentimento quase infantil. Como sabemos, as pessoas nas quais os efeitos do trauma são arraigados costumam desenvolver uma sensação crônica de desamparo e vitimização, semelhante a vista neste estudo. Claramentee, por trás das pinturas coloridas há profunda depressão e tristeza. Nossos dados permitem dizer que conflitos, sofrimentos e energias agressivas raramente são expressos. Pelo contrário, a maioria das imagens são suaves e alegres, expressando uma natureza ou paraíso idealizados.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Provavelmente, a energia usada para afastar a memória da experiência traumática empobreceu a vida mental ou a força para viver de forma mais ativa e consciente. Embora as defesas ajudem a sobreviver, ao mesmo tempo estão reprimindo a energia necessária que poderia quebrar a barreira racial.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Enquanto este Centro Histórico protege e enquadra os seus habitantes, ao mesmo tempo é uma prisão que forja uma identidade. Uma identidade baseada principalmente na cor da pele. Os afrodescendentes podem se sentir em casa e se proteger no Pelourinho. Mas esta é uma proteção que pode impedir um desenvolvimento futuro; uma proteção que não permite qualquer fuga dessa identidade grupal. Como diz Kaplinsky: "<em>pertencer implica uma fronteira e embora uma fronteira forneça uma sensação de contenção, também pode ser uma área de interrelação, ou um ponto que precisa ser rompido a fim que possamos nos tornar a ser e individuar</em>”. (Kaplinsky 2009, p.63)</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Embora o trauma do sequestro e da subordinação forçada não tenha sido vivido diretamente pelos sujeitos deste estudo, a memória da escravidão parece forjar uma identidade coletiva, mesmo que não seja sentida por todos nesta comunidade. Podemos até questionar se o nome “pelourinho” de alguma forma tem um efeito inconsciente sobre a população “obrigando-a” a repetir as memórias coletivas como uma experiência contemporânea. Como vimos, o lugar onde esteve durante séculos foi substituído por fontes, estátuas e centros musicais, mas o seu nome certamente não deixa esquecer a escravidão que ali se praticava e que parece perpetuar-se como um complexo cultural centrado numa trauma coletivo: um trauma intergeracional.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Sabemos que, quando o trauma deixa de ser integrado na totalidade da experiência de vida de uma pessoa, a vítima permanece fixada no trauma. A interrupção ou perda do apoio social está associada à incapacidade de superar os efeitos do trauma psicológico. A falta de apoio pode deixar marcas duradouras no ajuste e funcionamento subsequentes. Freud (1893) descreveu a compulsão de repetir o trauma como uma tentativa do organismo de drenar esse excesso de energia. Ele pensava que, ao refazer e repetir o trauma, as vítimas tentavam mudar uma postura passiva para uma de enfrentamento ativo. Não seria o caso das crianças abandonadas nas ruas? Isso não explicaria o sentimento de vitimização de alguns habitantes?</pre>



<pre class="wp-block-preformatted"><strong>O trauma integeracional devido à escravidão</strong></pre>



<pre class="wp-block-preformatted">As formas como a memória colectiva e a representação de um passado partilhado estão presentes no Pelourinho, através da pintura e da música, não equivalem a uma elaboração ou transformação do trauma, mas podem levantar duas hipóteses: podem estar expressando defesas que possam ajudar o espírito desse grupo a sobreviver, ou então revelando uma cisão entre a psique coletiva, um trauma e um complexo cultural. Talvez ambas hipóteses sejam válidas.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted"> </pre>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_19.jpg" alt="" class="wp-image-4992" width="772" height="579" srcset="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_19.jpg 600w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2023/03/Den_19-300x225.jpg 300w" sizes="(max-width: 772px) 100vw, 772px" /></figure>



<pre class="wp-block-preformatted">Se o trauma liga o passado ao presente por meio de representações e imaginação, então o que testemunhamos como&nbsp; representação da escravidão, pode indicar que esse trauma está atuando no presente na forma de comportamentos repetidos e compulsivos de submissão inconsciente e baixa estima, que podem explicar a situação sócio-cultural crítica dos afrodescendentes na maior parte do Brasil. Os poucos personagens negros históricos, como a escrava Anastácia e outros pertencentes à luta heróica pela liberdade, não foram incorporados à consciência coletiva e permanecem escondidos nos fundos de um pequeno cemitério, por exemplo. Raramente mencionados, retratados ou cantados por seus descendentes, não são usados ​​como exemplos de orgulho ou autoestima.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">A riqueza cultural e a capacidade de resiliência dos afrodescendentes, a contribuição que seus ancestrais deram ao desenvolvimento da nação permanecem inconscientes. As ideias de domínio, controle e poder ainda estão depositadas nos brancos, provocando uma cisão defensiva. De acordo com Young-Eisendrath (1987: 41), neste caso duas condições podem estar presentes: ansiedade (ou medo) - quando o Outro é experimentado como poderosamente mau - ou inveja - quando o Outro é experimentado como poderosamente bom, mas detém o poder e “os bens” para si mesmo. Como ela aponta: “<em>o racismo é um complexo psicológico organizado em torno do arquétipo dos opostos, a cisão da experiência em Bom e Mau, Branco e Negro, Eu e Outro”. Uma das consequências desta cisão é explícita nas projeções sobre o "corpo do negro"</em> (Young-Eisendrath 1987: 41) </pre>



<pre class="wp-block-preformatted">A prostituição e a exploração do corpo, principalmente dos corpos de mulatas vendidos como mercadoria, e do corpo masculino negro como forte e sensual, partem do estereótipo de que os negros têm melhores atributos “físicos”, como se estivessem “mais próximos da natureza ”E, portanto, dotados de uma sexualidade especialmente atraente e de um força excepcional. Esse estereótipo é claramente assumido pela população observada, que usa seu corpo e sua arte corporal como principais veículos de sua cultura. O mesmo que observamos em nossos estudos com adolescentes quando as meninas enxergam a possibilidade de sucesso profissional por meio da exposição corporal. Paula e Walter Boechat fizeram uma observação semelhante: “a ideia de inferioridade dos grupos não brancos ainda permanece no inconsciente cultural (isto é) a ideia de que os negros podem chegar a uma realização social apenas no esporte ou na música, não em um profissão acadêmica ”. (Boechat, W e Boechat, P. 2009, p.112)</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Por outro lado, podemos compreender alguns comportamentos observados no Pelourinho, como formas defensivas de comportamento, manobras para seduzir e enganar os poderosos mas que estão longe de expressar os verdadeiros sentimentos desta população. Podem até ser considerados como uma forma de resiliência e capacidade de sobrevivência dessas pessoas que ainda hesitam em assumir sua plena liberdade. Um bom exemplo é uma cena observada em um restaurante do Pelourinho, com a resposta gentil e sorridente da garçonete (negra) ao cliente agressivo (branco) que reclamava da lentidão do atendimento: <em>“Calma aí, meu rei, por que essa pressa? &nbsp;sua comida está a caminho ”.</em></pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Então, quanto mais estudamos esse fenômeno, mais complexo ele se mostra. O que fica evidente é que o silêncio e a falta de estudos sobre o assunto têm contribuído para a preservação de estereótipos que são crenças carregadas de emoção, baseadas em complexos culturais que interferem na visão mais precisa e empática desta população. Provavelmente esses estereótipos são de todos os brasileiros, o que dificulta o desenvolvimento de grande parte dessa população, tanto emocional quanto socioeconômicamente.</pre>



<pre class="wp-block-preformatted">Assim, podemos dizer que os estudos antropológicos, históricos e sociais, os dados epidemiológicos, os estudos comparativos entre pretos e brancos permitem afirmar que há fortes indícios de um complexo cultural devido ao trauma intergeracional da escravidão na população observada. Também podemos dizer que, para ter um país mais saudável, a nova geração precisa interpretar e chegar a um acordo com seu passado traumático coletivo e sua relação com o passado. E para isso é preciso pesquisar as origens, sanar o trauma e resgatar a dignidade da herança africana. </pre>



<pre class="wp-block-preformatted">É importante notar que a questão do trauma da escravidão formou um complexo que atinge a cultura brasileira como um todo, e não apenas os afrodescendentes. Esse complexo provavelmente alimenta o complexo de inferioridade apontado em outros estudos, que é considerado a base psicológica para a tolerância à corrupção política no país (Ramos 2004). Uma vez que todos os brasileiros são de alguma forma afetados por esses complexos em sua formação, ora identificados como “superiores” e ora “inferiores”, a identidade nacional e a possibilidade de construir uma nação mais saudável e justa passam a ser ameaçadas, perpetuando inúmeras projeções sinistras independentes da cor da pele e desconectadas da realidade, mas aprisionadas em uma história vergonhosa e trágica. Neste caso somos todos “vítimas” e só a dolorosa consciência da “negritude da nação” poderá restaurar o valor da herança africana na formação de uma identidade nacional. Aliás, não existe o termo “afrobrasileiro”, “afrobrasileiro” ou “afrodescendente” no Brasil. Esses termos foram usados ​​aqui apenas para fins de diferenciação. Todos nós nos chamamos, simplesmente, “brasileiros”, o que provavelmente indica que uma parte do substrato social que forma a identidade nacional permanece intacta.</pre>



<p>AGRADECIMENTO</p>



<p>Minha gratidão ao Dr. Carlos São Paulo, presidente do Instituto Junguiano da Bahia por seus ensinamentos sobre a Bahia, seus mistérios e mitos, como também pela possibilidade de realizar esta pesquisa.</p>



<pre class="wp-block-preformatted">REFERÊNCIAS</pre>



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<pre class="wp-block-preformatted">Orixá de Ricardo Miranda dos Santos (Salvador, 2009)</pre>



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<pre class="wp-block-preformatted">Feira de São Joaquim de José Maria de Souza (Salvador, 2009)</pre>
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		<title>O Senhor das Moscas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Carlos São Paulo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 26 Oct 2022 02:30:57 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Autor: Carlos São Paulo Wilian Golding, mostra em seu romance, O Senhor das Moscas, que o homem tem uma natureza selvagem que poderá aflorar, por meio de seus medos e crenças, em qualquer fase da vida. Nessa história um grupo de garotos púberes, após um acidente aéreo, consegue chegar vivo até uma ilha desabitada do [&#8230;]</p>
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<p><strong>Autor: </strong>Carlos São Paulo</p>



<p class="has-drop-cap has-text-align-left has-black-color has-text-color">Wilian Golding, mostra em seu romance, <strong>O Senhor das Moscas,</strong> que o homem tem uma natureza selvagem que poderá aflorar, por meio de seus medos e crenças, em qualquer fase da vida. Nessa história um grupo de garotos púberes, após um acidente aéreo, consegue chegar vivo até uma ilha desabitada do Pacífico. O impacto do acidente, do lugar desconhecido e sem a presença de adultos, fez neles surgir o Beelzabub (termo grego para definir O Senhor das Moscas) que existe em nossas bases primitivas da psique, como a se alimentar dessas sensações de aniquilamento do ego.&nbsp;</p>



<p class="has-black-color has-text-color">A história começa com os garotos Ralph e Piggy. Eles usam uma concha que produz um som suficiente para chamar a atenção dos outros perdidos na ilha. Dentre os meninos que apareceram, destaca-se o Jack Merrideu, que desde logo demonstra uma postura oposta à do Ralph. Enquanto esse último tem fé no resgate, Jack demonstra querer se adaptar ao lugar como lar definitivo.&nbsp; Os garotos realizam uma eleição e elegem Ralph como líder. Era a esperança de serem resgatados que predominava na consciência do grupo, e escondia a sombra de viverem ali para sempre &#8211; representada na liderança de Jack e a sua postura de caçador.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Ralph era a percepção Intuitiva e Introvertida do grupo. Ele foi escolhido num momento de impacto, onde os demais precisavam alimentar-se da esperança de um resgate. A sua primeira decisão foi a de construir abrigos e acender uma fogueira para chamar a atenção de navios e aviões que por ali passassem. Ao seu lado, o garoto Piggy, como assessor do líder, correspondia à atitude da consciência Extrovertida e a função Reflexiva, auxiliar da Intuição do grupo. A função Reflexiva é a função psíquica que na psicologia de Jung traz a lógica universal. Era um garoto gordinho. Enxergava mal e precisava de grossas lentes. Foram essas lentes ao sol que acenderam a fogueira e, portanto, luz para o grupo.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">O tempo foi passando. A sensação de desproteção foi aos poucos ganhando terreno.&nbsp; A necessidade de lutar pela sobrevivência precisava de outro líder que fosse prático como o Jack, o representante da função psíquica Sensação. A atenção do grupo agora se fixa na caça. Pintam os seus rostos e realizam rituais como nos primórdios da humanidade e como são as bases de construção de nossa psique. Era a ativação de um núcleo psicótico capaz de criar monstros e cometer todo tipo de atrocidades na defesa dos medos inconscientes dessas figuras aterradoras que habitam o nosso ser.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Ralph nota a sua fogueira apagada e sabe que a sua liderança terminou. Em seu lugar, surgiu a força da liderança de Jack. Agora era um grupo de caçadores disposto a conseguir carne para alimento e morar ali para sempre. Nesse momento ouviram um barulho amedrontador e logo materializam as figuras de monstros do imaginário grupal criando a ideia de uma ilha perigosa e assustadora. O grupo corta a cabeça de um porco e coloca-o empalado como um anti-monstro.&nbsp;</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Uma outra função psíquica se destaca nessa hora. Está na figura do Simon. Trata-se da função Sentimento que define os valores escolhidos na construção de uma personalidade. Simon encontra o anti-monstro e dialoga com ele, pois ele é o aspecto da personalidade que tem valores próprios e não se confunde com os valores comuns a todos. Por isso ele não acredita em monstros fétidos, cheios de moscas e tem uma atitude destemida. Descobriu que o fenômeno estranho vivido pelo grupo fora provocado por um paraquedista que caíra e se debatera até a morte. Quando conseguimos perceber nossa verdade pessoal sem confundi-la com as verdades alheias, que nos induzem a nos defender de uma ilusão, sobram energias para as nossas realizações pessoais.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Quando Simon vai avisar ao grupo o que descobriu, encontra os caçadores envolvidos no fanatismo sob a liderança de Jack. Estes o confundem com o monstro e o matam perfurando seu corpo com lanças como se estivessem lutando contra o monstro. Isso acontece quando os nossos sentimentos são confundidos com ameaças monstruosas que habitam nossa psique em momentos de pouca consciência. No entanto, esse grupo já não conseguira tal revelação devido ao estágio avançado de perturbação esquizo-paranóide.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">A função Sentimento fora destruída. A seguir roubaram as lentes de Piggy. A condição Reflexiva desse grupo já não pode mais enxergar a realidade. Logo Piggy não é mais suportado e foi destruído por uma enorme pedra que bateram na sua cabeça, como a declarar o peso e a dureza da realidade nesses momentos da vida em que o desespero toma conta do nosso ser e liberta os nossos Belzebus. O grupo sem a dimensão do Sentimento e da Reflexão, tenta destruir Ralph, que é a prospecção de um futuro saudável. No entanto, os gêmeos Sam e Eric que não sabiam diferençar-se um do outro, funcionaram como um elo entre o mundo da consciência e a dimensão estúpida do inconsciente. Esconderam Ralph dos seus perseguidores permitindo a sobrevivência da esperança de um resgate. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; </p>



<p class="has-black-color has-text-color">Finalmente os adultos chegam em seus aviões. A visão do resgate transforma todo o grupo em crianças inocentes, sofridas e carentes da proteção dos adultos para lhes auxiliar no seu desenvolvimento. Os gêmeos, essa dualidade, são os nossos sonhos que funcionam como um presente da natureza. É esse o elo capaz de unir nossos aspectos superiores da personalidade aos aspectos inferiores de nossa psique. Essa é a forma natural para conseguirmos um desenvolvimento saudável de nosso ser, prestando atenção aos nossos sonhos quando dormimos ou mesmo sonhando acordados.</p>



<p>___________________________________________________________</p>



<p><strong>Carlos São Paulo – </strong>Médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana. . carlos@ijba.com.br</p>
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		<title>Quando eu estou invisível</title>
		<link>https://www.ijba.com.br/blog/quando-eu-estou-invisivel/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Carlos São Paulo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 10 Aug 2022 00:01:29 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Por Carlos São Paulo Platão conta a história de um pastor chamado Giges, que encontrou um cadáver que usava um anel. Quando o pastor pegou o anel e o colocou em seu próprio dedo, descobriu que, ao usá-lo, tornava-se invisível. Percebendo essa condição, passou a fazer ações condenáveis que nunca antes fizera. Platão, então, pergunta: [&#8230;]</p>
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<p>Por Carlos São Paulo</p>



<p class="has-drop-cap">Platão conta a história de um pastor chamado Giges, que encontrou um cadáver que usava um anel. Quando o pastor pegou o anel e o colocou em seu próprio dedo, descobriu que, ao usá-lo, tornava-se invisível. Percebendo essa condição, passou a fazer ações condenáveis que nunca antes fizera. Platão, então, pergunta: como então um homem com esse anel poderia agir, sendo ele um homem justo ou não?</p>



<p>Os níveis de consciência entre os humanos é uma espécie de medida do quanto cada indivíduo se distancia dos animais, pois estes seguem uma vida padronizada e obedecem à programação dos instintos. Eles não possuem compromisso com a moral e a ética; são a nossa capacidade reflexiva, a qual permitirá que modifiquemos as expressões instintivas ativadas. Em um bom estágio evolutivo, seremos capazes de nascer, agir e morrer com dignidade e honra.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na psicologia de Jung, indivíduos inconscientes da existência de uma personalidade que nos aproxima dos répteis são capazes de usar o anel de Giges em detrimento da sua humanidade, produzindo as injustiças, que vão deixando, pelo caminho, as suas vítimas pisoteadas, sem notar que elas existem. &nbsp;</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Não somos portadores de apenas uma personalidade; temos um feixe delas. Na maioria das vezes, as ações que pelas quais somos punidos e pagamos um preço alto são produzidas por uma personalidade que desconhecemos. No entanto, o eu consciente é capaz de sentir a responsabilidade ética e conter os interesses sem sucumbir ao poder do anel de Giges.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Durante nosso desenvolvimento, confrontamo-nos com os acontecimentos da vida e organizamos os que chamamos de complexos. Estes registram nossas experiências passadas, que vão sendo reforçadas a cada situação análoga com a qual nos confrontamos. O bom analista, ao ouvir a história do seu cliente, fica atento à personalidade que a narrou. É dessa maneira que o paciente toma conhecimento das ficções que estão por trás do seu sofrimento. Essa é a forma de o cliente notar uma outra realidade que se confunde com o presente.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao refletirmos sobre a invisibilidade que nos conduz a uma atitude desfavorável ao desenvolvimento, necessitamos de um espaço terapêutico. Um lugar que, como um espelho, permita-nos caminhar pelo mundo das trevas sem tropeçar tanto no mundo da luz. Dessa forma, em lugar de se defender do que imaginamos ser real, caminhamos com a consciência das mentiras que transformamos em verdade. &nbsp;</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em um mundo com caminhos ilimitados para a realização de desejos de poder, em detrimento da sorte do outro, torna-se necessário o sacrifício de abandonar tudo isso e seguir trilhas pavimentadas pela responsabilidade ética. Quando essa condição não é atendida, aparecem os sintomas neuróticos como uma tentativa de nos fazer perceber que estamos usando o anel de Giges para tornarmo-nos invisíveis de nós mesmos.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os alquimistas lutavam para conseguir transformar a massa confusa, ou algo sem valor, em ouro, um metal valorizado por não se deixar ser corrompido e não ser facilmente encontrado. Essa foi a metáfora aproveitada por Jung para traduzir o que ele chamou de Processo de Individuação.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O homem sem evolução, ainda tão presente em nossa civilização, usa seus interesses escusos de poder. Daí a condição de atitudes inesperadas daqueles que se utilizam do anel de Giges para esconder suas ações de si e do outro, obtendo o poder para compensar seus sentimentos de desimportância, por exemplo, ao tempo em que um sintoma, um sofrimento, vem ao nosso socorro para que possamos compreender a necessidade de buscar as transformações nesse caminho utópico dos alquimistas, mas que nos fazem melhor do que éramos antes.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;Utilizamos esse estado de consciência alcançado para compartilhar com outros o que vemos ou assistimos, dando a impressão de que há uma concordância sobre algo que dissemos ser objetivo. No entanto, cada um com as suas escalas de valores e nível de evolução, a lutar como quem precisa vencer uma guerra, que parece lhe ocorrer lá fora, mas trata-se da guerra interior. Ela nos faz abandonar o que é do comportamento dos animais, os quais não podem escolher seu modo de ser.</p>



<p>O processo de evolução nos exige um amadurecimento que nos deixe capazes de decidir entre nossos desejos e impulsos de poder. Para isso, precisamos de uma capacidade reflexiva para tornarmo-nos donos de nossas decisões.</p>



<p>________________________________________________________________________________________</p>



<p><strong>Carlos São Paulo&nbsp;</strong>–&nbsp;Médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana. carlos@ijba.com.br</p>
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		<title>A Estranha História do Dr. Jekyll e Mr. Hyde</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Carlos São Paulo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 29 Jun 2022 20:21:35 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Por Carlos São Paulo Há momentos em que, no ventre agonizante da consciência, nasce um sentimento que contraria a ideia de existirmos como um ser de uma única personalidade. Esse sentimento aparece quando nos perguntamos: quem em mim atuou dessa maneira que me envergonha? No encanto da leitura de um clássico da literatura O Estranho [&#8230;]</p>
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<p>Por Carlos São Paulo</p>



<p class="has-drop-cap has-black-color has-text-color">Há momentos em que, no ventre agonizante da consciência, nasce um sentimento que contraria a ideia de existirmos como um ser de uma única personalidade. Esse sentimento aparece quando nos perguntamos: quem em mim atuou dessa maneira que me envergonha? No encanto da leitura de um clássico da literatura <em>O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde</em>, percebi uma ficção que conta toda a verdade sobre nós mesmos.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">No contexto histórico da era vitoriana, período marcado pelo moralismo puritano, importava muito ter uma imagem que correspondesse ao ideal daquela sociedade. Foi nesse período que Robert Louis Stevenson escreveu essa novela e publicou em 1886. Dr. Jekyll era um personagem desejoso de respeitabilidade e tradicionalismo. Ele caminhou tanto por um dos extremos de sua natureza que, essa escolha unilateral, o levou a repelir tudo que estivesse em oposição a esse caminho. Em consequência criou, com tudo que foi sobrepujado, uma forma oculta “hide” de ser e o chamou de Mr. Hyde.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Stevenson relata em sua história que o Dr. Jekyll, ao reconhecer sua dualidade e sentir um “Outro” contido a se debater, se deu conta de um corpo fraco para conter as energias enfurecidas da vida. Resolve então trabalhar para conseguir uma substância química para que cada uma dessas personalidades pudesse morar em corpos separados. Foi a maneira que imaginou poder conciliar sua vontade de continuar a ser respeitado e estimado, com esse “Outro” escondido em si mesmo e com vontades moralmente feias. Esse “Outro” era o inconsciente causando turbulência na consciência.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">O inconsciente coloca uma coisa no lugar de outra, essa é sua forma de funcionar; assim como a consciência separa uma mesma realidade em opostos irreconciliáveis. É como aquela porta que de um lado está escrito “entrada” e do outro “saída”; mas é a mesma porta. Não podemos enxergar sem luz e sombra. A consciência divide a natureza do homem em regiões do bem e do mal e coloca cada coisa com sua característica singular; enquanto o inconsciente engana, confunde, coloca uma coisa no lugar de outra e agrupa os produtos psíquicos, por suas semelhanças, para formar categorias. Suas manifestações, portanto, não têm a lógica da consciência.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Se algo nos afeta, entusiasma e tem forças sobre nós, eis ai uma de nossas personalidades buscando um meio de conversar conosco. No entanto, se nosso receio é de não atender ao que julgamos ser o belo para o outro, então cavamos um fosso profundo entre tudo isso que somos nós. E, como o Abel e Caim em nossas entranhas, o nosso eu quer favorecer um em detrimento do outro. Dessa forma provocamos um abismo entre os dois e corremos o risco de destruir o verdadeiramente belo.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Dr. Jekyll conseguiu a fórmula química que procurava. Esta, ao ser ingerida, o fez sofrer a metamorfose que o transformou em Mr. Hyde. Este era mais jovem, tinha uma menor estatura e feições aterrorizantes. Ao tomar o produto novamente, voltava a ser Dr. Jekyll. Dessa forma ele passou a viver um e outro, como indivíduos separados, até ser vencido pelo Mr. Hyde e por fim à sua vida.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Diz Stevenson: “A droga não agia de forma discriminatória; ela não era nem divina, nem diabólica; apenas balançava as portas da prisão de meu caráter.”. A palavra diabo é aquilo que desune. Na nossa dualidade, para unirmos essas partes em discórdia, necessitamos de “símbolos”. Essa palavra mostra a carga afetiva envolvida e a torna maior do que aquilo que é mostrado.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">No processo da psicoterapia associada à psicofarmacologia, devemos considerar os símbolos nos dois recursos: aqueles que participam na formação do que chamamos de “complexos”; quanto o saber que o remédio prescrito, além do seu efeito químico, carrega a sua eficácia simbólica.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Jung define “complexos” como dotados de tensão ou energia próprias, com tendência de formarem, também por conta própria, uma pequena personalidade. Daí o Mr. Hyde aparecer com menor estatura (pequena personalidade) e mais jovem, pois o complexo começa a se organizar tempos depois que o sujeito nasceu e teve suas experiências do desenvolvimento.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">A psicofarmacologia moderna tem como ajuda conter as emoções inapropriadas e facilitar o trabalho da psicoterapia em aproximar esses nossos lados inimigos, para nos tornarmos “in-­‐divíduo”.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Stevenson narrando como Dr. Jekyll escreve: “que o homem, verdadeiramente, não é único, mas, de fato, dois. Eu digo dois, pois o estado do meu próprio conhecimento não passa desse ponto. Outros seguirão&#8230; e arrisco em dizer que o homem será, no final das contas, conhecido por uma mera constituição de habitantes de múltiplas formas, incongruentes e independentes.” Assim tudo depende de um “Eu” como regente da consciência para governar essa população e fazer justiça como o rei Salomão.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Como diz a física e a psicologia: tudo está conectado. Cada um de nós possui várias personalidades que precisam se relacionar entre si sob a regência de um “Eu” bem fortalecido e, ao mesmo tempo, aberto para interagir com o cosmo. Nosso juiz interior não deverá ser cooptado pelos símbolos da nossa sociedade, em detrimento do respeito à própria natureza e aos talentos presenteados pelos deuses. Só assim poderemos alcançar a condição de respeito à nossa singularidade na pluralidade do todo e finalmente nos sentirmos “in- divíduo”.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">_______________________________________________________________________________</p>



<p class="has-black-color has-text-color"><strong>Carlos São Paulo </strong>–&nbsp;Médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana. carlos@ijba.com.br</p>
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		<title>Seminário on-line de Psicopatologia com Ajax Perez Salvador</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Administrador]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 May 2022 21:01:54 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[CID]]></category>
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		<category><![CDATA[Neurociência]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Re-imaginar as disfunções psíquicas e os sintomas psiquiátricos, relendo o CID e o DSM dentro da perspectiva arquetípica e a teoria dos complexos e sua releitura na neurociência é o tema da nova edição do Seminário on-line de Psicopatologia que será apresentado por Ajax Perez Salvador, dias 06 e 07 de maio de 2022. Vagas [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-black-color has-text-color"><strong>Re-imaginar as disfunções psíquicas e os sintomas psiquiátricos, relendo o CID e o DSM dentro da perspectiva arquetípica e a teoria dos complexos e sua releitura na neurociência</strong> é o tema da nova edição do Seminário on-line de Psicopatologia que será apresentado por Ajax Perez Salvador, dias 06 e 07 de maio de 2022.</p>



<p><strong>Vagas disponíveis: 10</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color"><strong>Datas:</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color">06/05/2022 &#8211; das 19h às 22h</p>



<p class="has-black-color has-text-color">07/05/2022 &#8211; 8h30 às 12h30 e das 14h às 18h.</p>



<p class="has-black-color has-text-color"><strong>Formas de pagamento:  <a href="https://www.ijba.com.br/inscricao/?cursoId=4589&amp;teams=true">Boleto </a></strong>, <strong>Pix ou transferência bancária</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color"><strong>Investimento: R$ 350,00 (trezentos e cinquenta reais)</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color"><strong>Forma de pagamento:</strong></p>



<p><strong>Transferência bancária ou PIX</strong></p>



<p><strong>Dados bancários:</strong></p>



<p><strong>Banco Itaú</strong> <strong>(341)</strong></p>



<p><strong>Agência</strong> :5190 <strong>C/C</strong> 00036-3</p>



<p><strong>Favorecido:</strong> <strong>Zênite Empreendimentos Educacionais LTDA.</strong></p>



<p><strong>CNPJ :</strong> 04.638.015/0001-30</p>



<p><strong>PIX &#8211; Chave</strong> CNPJ : 04638015000130</p>



<p class="has-black-color has-text-color"><strong>O comprovante do depósito/transferência ou PIX deverá ser enviado para o e-mail: instituto@ijba.com.br com nome, telefone de contato.</strong></p>



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<p></p>
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		<title>Dulcinéa Monteiro apresenta palestra sobre Psicologia do Envelhecimento</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Bárbara Assis]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Nov 2021 16:31:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>
		<category><![CDATA[Envelhecimento]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Jung afirma que “no adulto está oculto uma criança, uma criança eterna, algo ainda em formação, e que jamais estará  terminado, algo que precisará de cuidado permanente, de atenção e de educação.” E é sobre o viver e envelhecer bem, entendendo os processos biológicos e psicológicos, em busca de um sentido pleno para a trajetória [&#8230;]</p>
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<p>Jung afirma que “no adulto está oculto uma criança, uma criança eterna, algo ainda em formação, e que jamais estará  terminado, algo que precisará de cuidado permanente, de atenção e de educação.” E é sobre o viver e envelhecer bem, entendendo os processos biológicos e psicológicos, em busca de um sentido pleno para a trajetória natural da vida que Dulcinéa Monteiro, Psicóloga, Analista Junguiana, gerontóloga e professora convidada do Instituto Junguiano da Bahia, fala na palestra “<strong>Psicologia do Envelhecimento”.</strong></p>



<p>Dados demográficos preveem que a população brasileira até o ano de 2030 será composta por mais de 40 milhões de pessoas idosas. E, de acordo com a psicóloga e analista junguiana Dulcinéa Monteiro, para envelhecer bem é necessário cuidar-se desde a juventude. </p>



<p>Neste vídeo, Dulcinéa Monteiro, apresenta conceitos que auxiliam o processo de entendimento da dinâmica da vida, a exemplo das curvas da Existência (Lei da Entopia x Lei da Ascenção &#8211; Leonardo Boff), as vivências do tempo- puer e do tempo-senex  e a constante transformação das pessoas na busca de qualidade de vida. </p>



<p>Para Dulcinéa Monteiro, a sabedoria da vida é a arte de ressignificar. “As vivências do tempo-Puer e do tempo-Senex acontecem ao longo da nossa vida, sem se circunscrever a alguma idade específica”, comenta.  </p>



<p><strong>Assista ao vídeo</strong>.</p>



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<p><strong>Vídeo original do Canal da Odontogeriatria UFF</strong></p>
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		<title>Psicologia e epidemias</title>
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		<dc:creator><![CDATA[daniel daniel]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 30 Mar 2021 17:46:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[cura]]></category>
		<category><![CDATA[efeito placebo]]></category>
		<category><![CDATA[Epidemias]]></category>
		<category><![CDATA[Jung]]></category>
		<category><![CDATA[Paulo Nunes]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia Analítica]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-medium wp-image-3539 alignleft" src="https://instituto-junguiano.local/wp-content/uploads/2021/03/4a62ff719e00381a46ea6d70926506ce-224x300.jpg" alt="" width="224" height="300" srcset="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2021/03/4a62ff719e00381a46ea6d70926506ce-224x300.jpg 224w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2021/03/4a62ff719e00381a46ea6d70926506ce.jpg 576w" sizes="(max-width: 224px) 100vw, 224px" />A revista “Filosofia”, em sua edição de Julho de 2020, levantou a seguinte questão: “teria o método científico chegado ao seu fim?” O artigo da capa discute os desafios da ciência em situações como a pandemia de coronavírus, quando a dificuldade inerente ao próprio método científico em oferecer resposta imediata a questões emergentes torna o terreno propício para o surgimento do que Jung chamou de “epidemias psíquicas”: teorias conspiratórias, messianismos, panaceias que alastram-se rapidamente e ignorando o bom-senso. Muitos médicos, esquecendo o mandamento hipocrático <em>p</em><em>rimum non nocere </em>(“em primeiro lugar, evitar fazer o mal”), têm mostrado dificuldades em abandonar a persona do salvador e aceitar sua impotência diante da ausência de evidência científica de qualidade que embase terapias medicamentosas contra vírus SARS-CoV2.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Para a Medicina, o tipo de pesquisa considerado “padrão-ouro” para a medição dos efeitos terapêuticos de determinada droga é o ensaio clínico duplo-cego randomizado. Neste modelo, dois grupos de pessoas grandes o suficiente para atender às exigências de representatividade estatística são “randomizados”, isto é, garante-se que em cada um deles existam pessoas de idade, gênero, doenças preexistentes (entre outras variáveis) em igual proporção, para evitar que a predominância de uma característica num dos grupos interfira nos resultados. Um dos grupos receberá a droga proposta como tratamento, desde que esta já tenha sido aprovada em testes preliminares <em>in vitro</em> e em animais. O outro grupo receberá algo inócuo (ou “placebo”) no lugar da droga verdadeira, de modo que, nem quem é tratado, nem quem trata sabe quem recebe a medicação e quem recebe o placebo. Este fator dá o caráter “duplo-cego” da pesquisa, importante para distinguir a ação da substância no organismo dos efeitos psicológicos causados pelo sentimento de receber de alguém um cuidado (“efeito placebo”). Este efeito ocorre mesmo quando o paciente não sabe se está recebendo a droga, mas o médico sabe e transmite-lhe a “esperança” da cura de forma inconsciente.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Diferentemente da pesquisa médico-farmacológica, a pesquisa científica em Psicologia Clínica apresenta uma questão peculiar: na psicoterapia, a intervenção terapêutica e a resposta a ela são bastante individualizadas, por conta do caráter fortemente subjetivo do sofrimento psíquico e principalmente do modo único como cada pessoa responde a ele. Este fator apresenta grandes desafios à generalização dos resultados da pesquisa, que é necessária para a validação do tratamento em uma população-alvo. O desenvolvimento da pesquisa em Psicologia é empírico e de difícil adequação às exigências dos testes que determinam a “eficácia”, termo que se refere ao efeito medido sob condições estritamente controladas, onde o componente humano (mais especificamente, o afetivo) do processo é indesejável e considerado como “variável confundidora”.  O desfecho positivo desejado na intervenção terapêutica é chamado de “efetividade”, isto é: aquele verificado em situações da prática cotidiana (RAMOS, 2019). Isto implica que o “princípio ativo” da psicoterapia não pode ser dissociado do “efeito placebo” sem que se perca sua função ou finalidade. Para Jung:</p>
<p>“O grande fator de cura na psicoterapia é a personalidade do médico. Gostaria de enfatizar novamente que os mais recentes desenvolvimentos da psicologia analítica nos confrontam com elementos imponderáveis da personalidade humana; precisamos aprender a colocar na base a personalidade do médico como um fator curativo ou prejudicial; e agora é necessário sua própria transformação &#8211; a autoeducação do educador” (JUNG, 1966, <em>apud</em> RAMOS, 2019).</p>
<p>A pergunta, aparentemente retórica, feita na revista “Filosofia” já tem sido respondida há algum tempo, no que se chama de paradigma pós-moderno do pensamento científico. Segundo a Doutora em Psicologia Clínica Eloísa Penna:</p>
<p>“O movimento que questiona as bases do pensamento científico moderno e resulta na concepção de ciência pós-moderna é caracterizado pela ‘desdogmatização da ciência’ (Santos, 2000) e suas principais características da pós-modernidade, de acordo com Hauke (2001), são: pluralidade de pontos de vista, diversidade de epistemologias e métodos, aceitação de paradoxos e contradições, inevitabilidade de imprecisão e incerteza, ênfase na relatividade dos parâmetros e na polivalência de significados, concepção de verdade transitória e relativa, valorização do autoconhecimento e, por conseguinte, da subjetividade na aquisição e na produção de conhecimento e integração da individualidade na coletividade” (PENNA, 2005).</p>
<p>Diferentemente da pretensão científica em produzir um conhecimento puramente objetivo, livre da subjetividade humana, “Jung critica a exigência de objetividade que exclui a subjetividade nos métodos científicos, declarando que conhecimento e autoconhecimento são indissociáveis e condicionados pela psique do pesquisador” (PENNA, 2005).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Parte da resposta da sociedade a uma epidemia tão severa pode e deve ser dada pelo método científico tradicional. Mas há um componente, classicamente subtraído da Medicina e das Ciências da natureza em geral, que nenhum estudo de eficácia pode preencher: a dimensão do significado ou sentido da experiência, o valor pessoal dos processos vitais, a reflexão sobre os sentimentos que surgem diante da ameaça do contágio, o medo de morrer precocemente, de perder entes queridos, ou de perder o emprego, ter seu modo de vida desfigurado numa sociedade pós-pandemia, a angústia do confinamento e isolamento social, entre muitos outros. Estes sentimentos se superpuseram às inquietações existenciais preexistentes e nos fizeram buscar desesperadamente algo que desse sentido à nossa existência, ameaçada por um contágio iminente e uma evolução incerta do processo patológico.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A Psicoterapia Analítica nos ensina a encarar o indivíduo enquanto um todo (holos) psicossomático, que não vai ao consultório apenas em busca de uma substância para sanar os males do corpo, mas também busca na pessoa daquele que o atende a escuta para o que lhe molesta a alma, em sua relação consigo mesmo e com o próximo; seus valores, medos, desejos e decisões. Jung encarou as crenças, religiões, os mitos pessoais de seus pacientes como evidências objetivas de uma atividade psíquica vital para seu bem estar, tanto quanto os dados vitais que medimos num atendimento médico (pressão arterial, frequência cardíaca etc.). A saúde das ideias, dos princípios e moral, dos significados, do sagrado e do sentido da vida individual são, por assim dizer, os sinais vitais da alma, só possíveis de serem aferidos na escuta e no acolhimento humano, algo que jamais pode ser substituído por aparelhos, fármacos ou técnicas específicas. Desprezando a variável humana da equação, a Ciência deixa o campo livre para ideologias e fanatismos diversos que conquistarão as massas pelo Calcanhar de Aquiles da cultura contemporânea: a necessidade aguda de um sentido para o frio e impessoal mundo das leis da Física.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>De nada valerá todo o avanço tecnológico em uma cultura que gera cada vez mais insatisfação pessoal e adoecimento psíquico em troca de benefícios cada vez menos evidentes. O economista australiano Richard Dennis reflete, por exemplo, sobre a incapacidade da ciência econômica para trazer valor à sociedade, ainda que seja uma disciplina cujo objeto principal é a riqueza. Em seu artigo “Se Economia é uma ciência, por que ela não está sendo mais útil?”, ele afirma:</p>
<p>“Eu gosto de Economia e penso que ela tem algo a oferecer a qualquer democracia que precise tomar decisões duras. […] Mas nenhum economista pode nos dizer em que tipo de sociedade queremos viver, quanto do nosso meio ambiente queremos proteger ou até em que tipo de casa, deveríamos viver. Economistas sabem o preço de tudo e o valor de nada. Valores dependem inteiramente de nós” (DENNISS, 2019; tradução nossa).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Denniss concorda com Jung, que diz:</p>
<p>“Tem-se a impressão de se poder fazer qualquer tipo de ciência apenas com o intelecto; mas isto não ocorre com a Psicologia, cujo objeto exorbita os dois aspectos que nos são transmitidos através da percepção sensorial e do pensamento. A função de valor, ou seja, o sentimento, constitui parte integrante da orientação da consciência; por isso, não pode faltar em um julgamento psicológico mais ou menos completo, pois de outra forma o modelo do processo real a ser produzido seria incompleto. É inerente a todo processo psíquico a qualidade de valor, isto é, a tonalidade afetiva. Esta tonalidade indica-nos em que medida o sujeito foi afetado pelo processo, ou melhor, o que este processo significa para ele na medida em que o processo alcança a consciência. É mediante o ‘afeto’ que o sujeito é envolvido e passa, consequentemente, a sentir todo o peso da realidade. Esta diferença corresponde, portanto, mais ou menos àquela que existe entre a descrição de uma enfermidade grave que se lê em algum livro e a doença real que o paciente tem. Psicologicamente, não se possui o que não se experimentou na realidade. Uma percepção meramente intelectual pouco significa, pois o que se conhece são meras palavras e não a substância a partir de dentro” (JUNG, 2013).</p>
<p>Nenhuma sociedade que ignore a necessidade do desenvolvimento psíquico, através da autoeducação, do autoconhecimento, está livre de um retorno “inexplicável” do obscurantismo, que ameaça destruir com um só golpe todo o progresso científico até então conquistado.</p>
<p>&nbsp;</p>
<hr />
<p><strong>Paulo Nunes &#8211; </strong>Médico graduado na UFBA em 2005. Psicoterapeuta Junguiano pós-graduado no IJBA. Mestrando em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Contato: (79) 99859-1753 (Telefone e whatsapp).  Instagram.com/paulonunes181</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>REFERÊNCIAS</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>DENNISS, R. If economics is a science, why isn&#8217;t it being more helpful? Disponível em <a href="https://www.theguardian.com/commentisfree/2019/oct/30/if-economics-is-a-science-why-isnt-it-being-more-helpful">https://www.theguardian.com/commentisfree/2019/oct/30/if-economics-is-a-science-why-isnt-it-being-more-helpful</a>, último acesso em 21 de junho de 2020.</p>
<p>Filosofia Ciência e Vida, Ed. 162. São Paulo, EditoraEscala, 2020.</p>
<p>JUNG, C.G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 10 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>
<p>PENNA, Eloisa M. D.. O paradigma junguiano no contexto da metodologia qualitativa de pesquisa. Psicol. USP [online]. 2005, vol.16, n.3, pp.71-94. ISSN 0103-6564.  <a href="https://doi.org/10.1590/S0103-65642005000200005">https://doi.org/10.1590/S0103-65642005000200005</a>, último acesso em 13 de março de 2021.</p>
<p>RAMOS, D. G. Efetividade versus eficácia: questões desafiadoras na avaliação de técnicas psicoterapêuticas. In Kublikowski, I; Kahhale, E.M.S. P. e Tosta, R.M. (orgs) &#8211; Pesquisas Em Psicologia Clínica: Contexto E Desafios. Sāo Paulo: Educ, 2019, p. 47 &#8211; 63. Disponível em <a href="https://www.pucsp.br/educ/downloads/Pesquisas_em_Psicologia.pdf">https://www.pucsp.br/educ/downloads/Pesquisas_em_Psicologia.pdf</a>.</p>
<p>O post <a href="https://www.ijba.com.br/blog/psicologia-e-epidemias/">Psicologia e epidemias</a> apareceu primeiro em <a href="https://www.ijba.com.br">IJBA</a>.</p>
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