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	<title>daniel daniel, Autor em IJBA</title>
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	<title>daniel daniel, Autor em IJBA</title>
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		<title>O juiz e o perdão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[daniel daniel]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 May 2021 19:58:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[O juiz e o perdão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Como juiz ele decidia o destino de muitos. Não por gosto, mas ele saboreava o poder de decidir. Naquele hospital ele era apenas o “AVC do 12”. Os médicos esqueceram-se de sua humanidade e se preocuparam apenas em nomear órgãos doentes, como muitas vezes ele fizera com o réu no tribunal ao se reportar aos [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Como juiz ele decidia o destino de muitos. Não por gosto, mas ele saboreava o poder de decidir. Naquele hospital ele era apenas o “AVC do 12”. Os médicos esqueceram-se de sua humanidade e se preocuparam apenas em nomear órgãos doentes, como muitas vezes ele fizera com o réu no tribunal ao se reportar aos autos.</p>
<p style="text-align: justify;">Sua vida estava ameaçada de terminar. A respiração do Meritíssimo estava ofegante e os seus sentidos desmanchavam-se em silêncio e sombra. Profissionais de saúde percebiam o ritmo da vida mostrado em monitores, com desenhos que iam se desviando do padrão e diminuíam sua agilidade enquanto aquela vida se dissolvia em mistério. Mas ainda lhe restava consciência para sentir-se como um réu diante dos médicos a aguardar uma sentença.</p>
<p style="text-align: justify;">As imagens do passado visitavam a sua memória a partir das histórias recentes e descambavam para um tempo mais longe: o tempo da infância. Assim, a ponta do começo de uma vida se unia à do fim, e formavam essa enigmática figura geométrica do círculo, em que não há começo nem fim. Tudo é eterno.</p>
<p style="text-align: justify;">Ali deitado, avaliou o que teve validade na vida. Viveu uma vida de aparências no desempenho do seu trabalho, no casamento e nas relações sociais. A alegria do seu trabalho se confundia com a ambição. Socialmente, a vaidade era seu alimento e compensava os dissabores dessa vida de um homem genérico, com suas vitórias proporcionadas pelo jogo político de uma boa posição social.</p>
<p style="text-align: justify;">Um de seus médicos se destacava por uma presença mais constante e por sua juventude. Essa presença parece ter influenciado suas reflexões sobre o quanto o poder de perdoar não lhe pertencia em seu trabalho e assim decidia o destino de um outro homem. Ficava a contemplar aquela juventude ao tempo em que lembrava o quanto percorreu sua existência encontrando no caminho as pedras dos momentos duros e, às vezes, sentia a brisa suave da primavera com o seu cheiro de flores, que logo murchavam, depois de mostrar sua beleza. Traduziam nossa sensibilidade às boas experiências, mesmo que passageiras. Enquanto isso, nessa estrada, o vento da saudade carregava as experiências do passado na forma de lembranças e imagens, em que os mortos não envelheciam e as paisagens insistiam em se mostrar congeladas no tempo.</p>
<p style="text-align: justify;">Ele ouviu alguém chamar aquele enigmático médico jovem de Dr. Jairinho. Este lhe dizia alguma coisa ao ouvido enquanto o juiz apenas enxergava uma imagem um pouco borrada. A voz era de alguém que lhe falava alguma coisa quase inaudível e, ao mesmo tempo, tão pesada e colorida como o chumbo.</p>
<p style="text-align: justify;">Uma melhora fez o Meritíssimo enxergar as feições do jovem que lhe odiava, mas pensava o quanto seu estado poderia levá-lo a distorcer a realidade. Afinal, o que seria concreto ou abstrato? Ou teria sido um sonho? Continuou em suas reflexões a se perguntar o que pode fazer sentido para uma existência. Eternizamo-nospor meio do que criamos, a exemplo dos nossos atos marcantes na vida de outros humanos, dos filhos e das gerações seguintes. Naquele momento, imaginou as estrelas e o quanto nos encantamos com a sua imensidão, sem nos interessarmos por sua distância. São apenas pontinhos luminosos guardando todos os segredos do universo. Talvez, por isso, dizemos às crianças que, quando alguém morre, &#8220;virou uma estrelinha&#8221;. Essa é uma maneira saudável de ensiná-las sobre a eternidade. Aquela pessoa está em algum lugar tão distante, que, só por meio da saudade, chegamos até lá.</p>
<p style="text-align: justify;">O Dr. Jairinho continuava a lhe falar ao ouvido sempre que ia visitá-lo e estavam a sós, mas sua audição não fazia distinção. Em um desses dias, o juiz acordou com um pesadelo em que todo o cemitério tremia e as sepulturas deixavam seus mortos saírem apontando o dedo em sua direção enquanto um deles, uma mulher, cantava o Réquiem, de Mozart. Esse sonho aconteceu logo depois que ele escutou do médico enigmático o nome Rosa Malena. Esta era a desencarnada que cantava.</p>
<p style="text-align: justify;">Em um mundo em que tudo passa e se degenera, o que haverá de estável, real e eterno? Perguntava a si mesmo, ao tempo em que se respondia. Talvez estivesse querendo conseguir o perdão dos seus atos por seu próprio amadurecimento até a morte física. Sabia que os médicos falavam que ele estava em um estado de coma, mas ouvia, sentia e até podia enxergar algumas vezes. Voltou a acordar de outro sonho em que Rosa Malena aparecia vestida de preto e com as mãos postas como a venerar o sagrado. Aquela que foi sua amante por um tempo e que, ao ficar grávida dele, sofreu seu desprezo e a recomendação de registrar o filho como se o pai fosse o marido dela.</p>
<p style="text-align: justify;">O Dr. Jairinho estava de volta. Ele olhava e começava a entender que se tratava daquele menino que era seu filho. Agora ele estava, aplicando-lhe uma injeção na veia e, dessa vez, o moribundo juiz escutou com a nitidez que nunca tivera antes. Era uma sentença: &#8220;É com essa injeção de cloreto de potássio que você irá desaparecer de minha vida. Amanhã irei ao cemitério para assistir a sua cremação.&#8221;</p>
<hr />
<p><strong>Carlos São Paulo</strong> – Médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana. carlos@ijba.com.br</p>
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		<title>A Igreja do Diabo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[daniel daniel]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 May 2021 16:59:43 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[A Igreja do Diabo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O conto “A Igreja do Diabo, de Machado de Assis, talvez seja o seu melhor trabalho como contista, publicado no livro “Histórias Sem Data”. Nesse conto o leitor entra em contato com as dimensões contraditórias da natureza humana, diante de uma mesma realidade. Nele percebemos um Diabo com o espírito semelhante ao nosso. Tal Diabousa [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O conto “A Igreja do Diabo, de Machado de Assis, talvez seja o seu melhor trabalho como contista, publicado no livro “Histórias Sem Data”. Nesse conto o leitor entra em contato com as dimensões contraditórias da natureza humana, diante de uma mesma realidade. Nele percebemos um Diabo com o espírito semelhante ao nosso.</p>
<p style="text-align: justify;">Tal Diabousa uma alegoria onde compara capas de veludo com franjas de algodão a um homem bom que pode ser puxado pelo mau; e capas de algodão com franjas de seda a um homem mau que pode ser puxado pelo seu lado bom. A contradição humana é da sua própria natureza que, de acordo com o pensamento junguiano, não é nem boa e nem má, apenas existe. A depender de como a consciência focaliza os acontecimentos e como o faz, essa natureza poderá ser vista como o céu ou o inferno. Jung, em seu Livro Vermelho, nos relata que inferno é quando você sabe que todas as coisas sérias que você planejou com você são também risíveis; que tudo delicado é também brutal; que tudo bom é também mau; que tudo alto é também baixo e que tudo prazeroso é também vergonhoso.</p>
<p style="text-align: justify;">Nossa consciência não consegue abarcar todos os lados da personalidade. Daí não conseguirmos unir esses elementos dispersos no vaso que é destinado a ser receptáculo de todo o ser fazendo surgir um mundo dividido e essa é a eterna contradição humana. É mais fácil para a consciência fragmentar esse todo. Machado então traz um Diabo que ao competir com Deus mostra essas dimensões que aparecem como vícios e virtudes que se misturam na formação do nosso ser.</p>
<p style="text-align: justify;">O Diabo precisou existir para que as manifestações instintivas e pouco elaboradas do homem pudessem ser contidas e assim fazer a sociedade evoluir. Ele veio como um instrumento de Deus. As religiões ensinavam o temor a Deus em lugar de uma consciência maior sobre o bem comum, como nos leva a pensar uma cultura cristã mais elaborada. Para essa cultura não é o temor que leva à evolução a sociedade humana, mas a consciência amadurecida de nascer, viver, crescer e morrer com dignidade e honra.</p>
<p style="text-align: justify;">Nos séculos XII e XIII, os teólogos definiam o mito do Diabo cristão como forma aterradora, capaz de levar o homem ao sofrimento de perder sua alma. Foi assim com os pintores renascentistas. Naquela época uma pessoa tomada por um complexo que a tornava subitamente alterada, como perdendo a cabeça, era isso atribuído ao Diabo. Os filósofos do Iluminismo desmistificaram esse Diabo. E desde o século XX Ele foi banalizado como mercadoria de consumo. Aparece em histórias em quadrinhos, heavy metal, jogos eletrônicos, nos carnavais e etc.</p>
<p style="text-align: justify;">Machado descreve que quando o Diabo,rindo, chega ao céu, diz a Deus: “&#8230;Não venho pelo vosso servo Fausto, mas por todos os Faustos do século e dos séculos”. Uma referência ao texto de Goethe que nos reporta a Mefistófeles que, como um Diabo, consegue levar Fausto a se interessar pelos prazeres mundanos e perder sua alma. Porém termina por perder para Deus. O esforço de Fausto em sua vida comprou sua salvação. Nesse momento de encontro de Deus e o Diabo, um homem virtuoso dá entrada no céu e Deus relata ao Diabo as virtudes daquele ser. Essa passagem lembra o Livro de Jó. Um texto bíblico que nos mostra Deus e o Diabo como aspectos de um mesmo fenômeno vivido pelo homem quando este alcança maior maturidade depois de percorrer sua estrada de desafios e sofrimentos. O Diabo refere-se ao céu como uma hospedaria de preço alto. Uma alusão de o quanto é difícil o homem poder viver apenas um aspecto de sua natureza, subtraindo de sua totalidade todos os outros aspectos negados.</p>
<p style="text-align: justify;">Nesse conto o Diabo propõe uma doutrina muito semelhante à de Deus, a diferença é que uma é a negação da outra. Ele defendeu a inveja, a gula, a preguiça e toda liberdade para manifestações dos desejos. Defendeu que o amor ao próximo era “uma invenção parasita” e que ele não merecia nada além da indiferença. Para experimentarmos uma realidade temos de conhecer o seu outro lado. O Diabo triunfa ao fundar a igreja, mas logo ele percebe as transgressões que seus fiéis veem cometendo. Tais fiéis praticavam às escondidas atos de arrependimentos e ternuras. Ele foi perdendo os seus adeptos e diminuindo o seu poder. O Diabo desceu à terra para lutar contra o bem e acabou colaborando com Deus. Perturbado, ele volta aos céus sem compreender o acontecido, e Deus o consola com uma frase, a propósito da alegoria: “Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana”.</p>
<p style="text-align: justify;">O filosofo tcheco, VilémFlusser, em seu livro A História do Diabo, nos diz que o nacionalismo é a máscara romântica e diabólica da luxúria. “Cantam-se hinos militares a plenos e emocionados pulmões enquanto se mata quem nunca se tinha visto antes, ou enquanto se morre nas mãos de quem não nos conhece”. “Por isso, pode-se afirmar que o nacionalismo é uma das vitórias mais impressionantes do Diabo”. Flusser reconhece no Diabo um espírito semelhante ao nosso e talvez tão infeliz quanto o nosso.</p>
<p style="text-align: justify;">Em nossa caminhada subindo a Torre de Babel, vamos deixando pelo caminho todo tipo de sofrimento humano e assistimos ao Diabo aparecer na forma de uma religião fundamentalista enfeitando o corpo dos jovens com bombas de alto poder que o leva à morte e àdas demais pessoas desconhecidas, mas com direito de viver.</p>
<hr />
<p><strong>Carlos São Paulo</strong> – Médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana. carlos@ijba.com.br  / www.ijba.com.br</p>
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		<title>Sobre Covid, Clarice e Pássaros</title>
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		<dc:creator><![CDATA[daniel daniel]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 28 Apr 2021 15:08:10 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Clarice e Pássaros]]></category>
		<category><![CDATA[Sobre Covid]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O dia nasce pesado, cinzento, contrastando com o azul brilhante do céu de Salvador. Atualizo o número de mortes por Covid-19 no Brasil — mais de 295 mil. A dor tem peso real e se antecipa aos números, constato, ela é um sopro invasivo e não precisa de atualizações. Olho o relógio e vejo que [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">O dia nasce pesado, cinzento, contrastando com o azul brilhante do céu de Salvador. Atualizo o número de mortes por Covid-19 no Brasil — mais de 295 mil. A dor tem peso real e se antecipa aos números, constato, ela é um sopro invasivo e não precisa de atualizações. Olho o relógio e vejo que estou atrasada para o trabalho. Apresso-me a engolir um café, trocar de roupa e correr para o elevador. Ao apertar o botão, lembro que não haveria trabalho, que a cidade estava fechada, que a vida estava fechada, e não teria, por enquanto, aqueles indiferentes bons-dias, muitos dos quais sem respostas, que costumavam recepcionar as minhas manhãs, sem falar nas tentativas de diálogo pelos mais animados: &#8220;nossa, que calor!&#8221; Então o elevador chegava ao seu destino final e cada um corria para o rodopio das suas labutas.</p>
<p style="text-align: justify;">Confesso que já no parágrafo anterior constatei uma estranha saudade daqueles dias, mas precisei de alguns segundos para acreditar no que estava sentindo. Quase o encerrei com um — bons tempos aqueles! Fui salva pelo clichê, e ganhei segundos preciosos que me trouxeram à lembrança os sorrisos amarelos, os elogios falsos, as bajulações evidentes, as desculpas esfarrapadas, os interesses mesquinhos enfeitados por um belo sorriso, as hipocrisias de cada dia&#8230; A virtualidade da vida estaria alterando o meu sentimento sobre as interações humanas? o meu olhar sobre os mecanismos que ela própria utiliza para gerar os seus movimentos?</p>
<p style="text-align: justify;">Quando estava quase a responder às perguntas plantadas no final do parágrafo anterior, ocorreu-me a frase de Clarice Lispector: &#8220;Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos.&#8221; Grande Clarice, sempre arrancando as minhas máscaras, sempre me levando a ultrapassar as minha zonas fóticas, sempre me conduzindo para o aquém e o além do que penso ser&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Já me precipitava às perguntas abandonadas no parágrafo <em>anterior ao anterior</em> (perdição provocada, pelo menos em parte, pela lembrança de Clarice, que também tem o dom de me desviar de mim), quando um bem-te-vi resolve entrar em cena e me fazer companhia — <em>bem-te-vi!</em>, cantava —, <em>bom-que-te-ouvi</em>, meu coração respondia. Em algum lugar sorria Clarice; <em>bom-que-ouvi!</em></p>
<hr />
<h3>Texto de<strong> <em>Cristina Sobral</em></strong></h3>
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		<title>Para uma menina, com amor</title>
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		<dc:creator><![CDATA[daniel daniel]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 20 Apr 2021 19:36:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[COM AMOR]]></category>
		<category><![CDATA[PARA UMA MENINA]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Querida criança que habita o meu coração, que está doente e que sofre. Do lugar em que me encontro agora já posso enxergar a tua dor, tão disfarçada que estava pelo que tinhas de alegre e forte. E posso percebê-la agora, porque já vejo, entendo e acolho a minha dor. Por isso, minha menina, é [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Querida criança que habita o meu coração, que está doente e que sofre. Do lugar em que me encontro agora já posso enxergar a tua dor, tão disfarçada que estava pelo que tinhas de alegre e forte. E posso percebê-la agora, porque já vejo, entendo e acolho a minha dor. Por isso, minha menina, é que estou aqui para ensinar-te a compreender o que te afliges como um bem precioso, um bem que sinaliza para a luz que a própria dor encoberta.</p>
<p style="text-align: justify;">Tantos temas difíceis tivestes que lidar tão cedo, não é mesmo? Mas saibas, minha querida, te saístes muito bem. Quero dizer que honro a tua caminhada, todo o esforço que fizestes para decifrar a ti e ao mundo, mesmo tocada pela melodia persistente e dissonante das vozes que em torno de ti gravitavam.</p>
<p style="text-align: justify;">Vem cá, minha criança, quero dar-te um abraço! Um abraço que una o teu coração ao meu de uma forma tão pura e intensa que nunca mais sentirás esta dor silenciosa que te acompanha, a prender os teus e os meus próprios passos. Para curá-la, hoje sei, teria bastado um olhar atento e amoroso sobre ti, este que te ofereço agora, impregnado pela luz do amor mais fundo que posso sentir, para que não mais te ressintas pela ausência de farol ou guia a conduzir-te. Mas, compreenda, criança, tinhas mesmo que ser o teu próprio guia.</p>
<p style="text-align: justify;">Ah, não sofras mais! Lava a tua dor com as lágrimas que te ofereço agora, elas vêm do rio da gratidão que me atravessa largo, para que eu possa chorar por ti o teu próprio pranto represado, para que sejas livre, livre, minha menina.</p>
<p style="text-align: justify;">Vem, comece logo a sonhar os sonhos mais improváveis, a fazer as travessuras mais loucas, a errar — sem temores! — novos erros, a cantar alto, bem alto, como tanto gostavas, em um dueto com o Deus que somente tu percebias. Vem, vem resgatar comigo a tua/minha alegria, a minha/tua leveza, a tua/minha coragem, expande o meu coração e o teu até a estrela mais remota, e cada instante da vida será o nosso canto de amor.</p>
<p style="text-align: justify;">Agora podes dormir&#8230; No interior de mim sempre estará tua casa, teu leito, teu jardim, e hoje que nada mais resta a oprimir-te o peito, peço licença para tomar das tuas mãos a minha/tua existência.</p>
<p style="text-align: justify;">Dorme em paz, minha criança, o de mais puro que tinhas está ancorado em mim.</p>
<h4><strong><em>Texto de Cristina Sobral</em></strong></h4>
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		<title>Maternidade: escolha ou obrigação?</title>
		<link>https://www.ijba.com.br/blog/maternidade-escolha-ou-obrigacao/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[daniel daniel]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 Apr 2021 04:53:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[TARSILA DE NÍCHILE]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na sociedade em que vivemos hoje, ser ou não ser mãe ainda é um tabu quase proibido de se questionar. É claro que algumas mulheres e homens podem contestar, mas a realidade é que a maior parte da sociedade, ao menos a brasileira e não só, enaltece a maternidade como destino natural da vida de [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Na sociedade em que vivemos hoje, ser ou não ser mãe ainda é um tabu quase proibido de se questionar. É claro que algumas mulheres e homens podem contestar, mas a realidade é que a maior parte da sociedade, ao menos a brasileira e não só, enaltece a maternidade como destino natural da vida de uma mulher, o que pode ser visto na mídia, em comerciais com mulheres carregando seus lindos bebês no colo; ou nos finais de novela que apresentam casais formados e as mulheres grávidas; por fim, em famílias e entre amigos que normalmente perguntam: Quando virá o primeiro filho? E o segundo? Ou ainda quando lançam comentários diante de uma mulher que tem uma leve barriguinha: Está grávida de quantos meses? Ainda que muitas vezes elas possam não estar grávidas ou sequer pensando nisso&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;">Estamos envoltos por uma cultura patriarcal que, de forma geral, pressiona para que todas as mulheres sejam mães e ameaçam as que não são com mensagens diretas ou subliminares do tipo: “Você só saberá o que é ser mulher de verdade quando for mãe”; “Se você não for mãe será uma mulher incompleta”; “Se você não tiver filhos irá se arrepender”; “Sem filhos quem cuidará de você na velhice?”; Por fim, a ameaça final associada ao esgotamento biológico: “Daqui a pouco seu relógio biológico vai tocar e você vai querer ter filhos e, se demorar demais, não terá mais tempo de gerá-los”. E por aí se vão as pressões implícitas (ou explícitas?) do culto à maternidade que aliás, vêm com frequência das próprias mulheres, inconscientes que estão de uma identificação sombria com o primado patriarcal.</p>
<p style="text-align: justify;">É claro que a maternidade é algo de suma importância para a preservação da espécie humana, sem ela nenhum de nós estaríamos aqui e a sociedade fatalmente desapareceria. E é claro, também, que muitas das mulheres experimentam momentos de felicidade sendo, entre outras coisas, mães. Mas, podemos questionar se a maternidade deveria continuar sendo pensada como destino irrefutável para todas as mulheres, independentemente de sua subjetividade. E este é o objetivo do presente artigo, afinal, nem toda mulher deseja ser mãe. No Brasil, por exemplo, segundo o artigo online da revista Bem Estar<a name="_ednref1"></a><a href="https://ijep.com.br/artigos/show/maternidade-escolha-ou-obrigacao#_edn1">[i]</a>, o IBGE levantou que o arranjo familiar de casais sem filhos correspondia em 2014 a 19,9%, ou seja, 5,2% maior do que em 2004. Além disso, nem todas as mulheres podem ser mães biologicamente, e assim vemos as clínicas de fertilização terem um aumento anual no mundo da ordem de 9% (FERNANDEZ, 2019). Por fim, nem todas as que se tornam mães se sentem realizadas com a sua experiência de maternidade, como é relatado no livro “Mães Arrependidas”, de Orna Donath (2017). De qualquer forma, as imposições culturais valem para todas as mulheres e cabe a cada uma perceber como são afetadas e como lidar com essas exigências sociais.</p>
<p style="text-align: justify;">A maternidade, enquanto tema arquetípico, faz parte, além da consciência coletiva, também do inconsciente coletivo. Esse, por sua vez, possui conteúdos e modos de comportamento similares em toda a parte e em todos os indivíduos e tem a forma de categorias herdadas, as quais Jung chamou de arquétipos. Ele referiu-se aos arquétipos, também, como imagens universais, que possuem uma infinidade de aspectos, dentre eles o fato de existirem desde os tempos mais remotos, ressurgindo espontaneamente, sem a influência de uma transmissão externa. Entretanto, Jung esclarece que uma imagem primordial tem o seu conteúdo definido mais conscientemente a partir da experiência vivida de cada um.</p>
<p style="text-align: justify;">A psique coletiva, em parte de forma inconsciente e em parte de forma consciente, definiu culturalmente o corpo da mulher pela capacidade de conceber filhos ou não, a qual é considerada a essência de sua vida e a justificativa para sua existência, conforme os cânones do primado patriarcal. (Cf. DONATH, 2017, p. 27). No livro “Mães Arrependidas” (2017, p. 28), essa autora diz: “presume-se que a transição para a maternidade se deve estritamente ao desejo da mulher de experimentar seu corpo, seu ser e sua vida de uma nova maneira, preferível à anterior”. Ela continua, refletindo sobre o que a psique coletiva promete para a futura mãe: uma feminilidade madura, uma oportunidade de evolução, um sentimento de pertencimento, uma visita a sua própria infância, a oportunidade de corrigir os erros de sua criação e reforçar os aspectos positivos, a criação de vínculos mais profundos com seu parceiro, a possibilidade de ela vivenciar o amor incondicional, o fim da solidão, um envelhecimento respeitoso e até uma forma de escapar a um hipotético presente sem sentido. A autora também toca na sombra da psique coletiva, no que não é abertamente falado, quando menciona sobre como as mulheres que não são mães são julgadas de forma crítica, independentemente dos motivos que tiveram para não viverem a maternidade, seja por viverem sozinhas e não escolherem ser mães solteiras; seja por terem limitações econômicas, físicas ou psíquicas; ou mesmo por viverem com um parceiro que não deseja ser pai. Enfim, seja lá por qual motivo for, há sempre um olhar de soslaio, uma inquietação no ar, um questionamento retido ou declarado direcionado à mulher que não se tornou mãe. (Cf. DONATH, 2017, p. 29)</p>
<p style="text-align: justify;">Naturalmente, as mulheres que são “mães de ninguém” também estão imersas na psique coletiva, sendo levadas a sentir e a questionar não só a si mesmas, como também as demais, sobre esse tema. O termo “mães de ninguém” tem o intuito de alterar a linguagem relacionada às “mulheres que não são mães”, que já traz uma carga negativa e depreciativa como se algo que fosse natural às mulheres não fosse cumprido por elas. As “mães de ninguém” buscam a adaptação ao meio social, tentando cumprir exigências e opiniões, internas e externas e, para isso, buscam ativamente criar uma determinada personalidade dentro deste contexto, a qual tenta e pode vir a convencer aos outros e às vezes até a si mesmas de que são mesmo daquela maneira socialmente pré-definida. Essa criação que cada pessoa faz ao longo do seu desenvolvimento, principalmente na primeira metade da vida, Jung chamou de persona: uma máscara constituída conforme os ideais normativos da consciência coletiva, que serve para nortear a relação de cada indivíduo, particularmente, com os objetos e espaços sociais externos. Mas, como alerta Jung, a persona não condiz integralmente com a essência da personalidade individual. Ou seja, ela raramente abarca quem a pessoa realmente é como um ser mais integral (Cf. JUNG, 2013, p. 426). Pois, conforme ele esclarece, a persona é uma máscara da psique coletiva, que aparenta falsamente uma individualidade, construída com base no que as pessoas acham que são e como elas gostariam de ser vistas pelos demais para se sentirem seguras e amadas.  Entretanto, a consciência egóica do indivíduo pode se identificar com a persona, apesar de ela não ser a verdadeira individualidade. Isso pode ser percebido de forma indireta nos conteúdos contrastantes e compensadores do inconsciente que aparecem nos sonhos e nas falhas de linguagem, por exemplo (Cf. JUNG, 2015, p. 47). Jung aponta ainda que:</p>
<p style="text-align: justify; padding-left: 160px;">O indivíduo não é apenas um ser singular e separado, mas também um <em>ser social</em>, a psique humana também não é algo de isolado e totalmente individual, mas também um fenômeno coletivo. E assim como certas funções sociais ou instintos se opõem aos interesses dos indivíduos particulares, do mesmo modo a psique humana é dotada de certas funções ou tendências que, devido à sua natureza coletiva, se opõem às necessidades individuais. (JUNG, 2015 p.35, grifos do autor)</p>
<p style="text-align: justify;">Tomando por base o argumento acima de Jung, podemos entender que quando as pessoas se identificam com a psique coletiva, elas tentam impor aos outros as exigências do seu inconsciente, pois assim ficam com o sentimento de uma validez geral, em função da universalidade da psique coletiva, ignorando as diferenças das psiques individuais (Cf. JUNG, 2015, p. 40). Nas palavras de Jung (2015, p.40) “Tal desprezo pela individualidade significa a asfixia do ser individual, em consequência da qual o elemento de diferenciação é suprimido na comunidade&#8230; As mais altas realizações da virtude, assim como os maiores crimes são individuais”. Portanto, segundo Jung, quando há a identificação da pessoa com a psique coletiva só prospera no indivíduo o que é coletivo, e então, o que for individual torna-se reprimido, podendo se tornar algo destrutivo que adquire força por ter sido depositado inconscientemente na sombra. Isso porque a sombra é composta pelos aspectos que consideramos que não se encaixam na nossa persona, na imagem que gostaríamos de ter para atender às demandas coletivas. Ela abrange os aspectos que são considerados desagradáveis ou imorais pelo nosso ego, e que por isso mesmo, gostaríamos de fingir que não existem, por se referirem a nossas inferioridades e impulsos inaceitáveis, atos e desejos vergonhosos, ou talvez considerados assim, ao menos em parte, por não estarem de acordo com o que a psique coletiva entende como socialmente honroso e adequado (Cf. HOPCKE, 95-97)</p>
<p style="text-align: justify;">Assim, apesar da imagem mágica que a psique coletiva impõe sobre a maternidade, e, embora uma grande parte das mulheres encontre realização no papel maternal, há também muitas mulheres que confundem seus reais desejos com os da persona que construíram, além de outras que preferem ser “mães de ninguém”, e até as que se arrependem de terem tido filhos. As ameaças dessa imagem idealizada às mulheres que não querem ou não podem ser mães biológicas, e o silêncio que ainda predomina entre nós sobre as ansiedades, angústias e sofrimentos relacionados à experiencia de uma maternidade real precisam ser trazidos à luz para que possamos refletir, não só como terapeutas, mas também como homens e mulheres.</p>
<p style="text-align: justify;">Essa reflexão é feita para que nós, como seres individuais e coletivos simultaneamente, possamos ter a chance de perceber como nos sentimos e como nos colocamos no mundo a respeito desse tabu, assim como para que possamos ter maior consciência de como tratamos a nós mesmas, sendo mães ou não. Refletindo sobre esse tema, podemos elaborar algumas coisas:  todos temos uma individualidade, pois a Natureza nos fez tão múltiplos quanto seres humanos existem e assim estamos abarcados pelo nosso inconsciente e consciente pessoais; todos estamos inseridos num contexto social e coletivo, em uma cultura e, por isso, estamos mergulhados no inconsciente e na consciência coletivos; assim, somos seres individuais e coletivos ao mesmo tempo e teremos situações em nossas vidas que o nosso ser individual entrará em conflito com o nosso ser coletivo. Quanto mais percebermos que somos indivíduos inseridos em uma cultura, mais podemos trazer para a luz da consciência nossos aspectos que não se encaixam nos padrões coletivos e assim menos nos sentiremos ameaçados por eles. Dessa forma, trabalhamos no sentido da individuação, segundo Jung (2015 p.63-64) “de tornar-se um ser único”, cuja meta é “despojar o si-mesmo dos invólucros falsos da persona, assim como do poder sugestivo das imagens primordiais”.</p>
<hr />
<p style="text-align: justify;"><strong>TARSILA DE NÍCHILE</strong> – Analista em formação pelo IJEP &#8211; tarsilanichile@gmail.com</p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Referências:</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p style="text-align: justify;">DONATH, Orna. Mães Arrependidas Uma outra visão da maternidade. 1ª. Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.</p>
<p style="text-align: justify;">FERNANDEZ, Maria; SEVILLANO, Elena G. O custo de ser mãe aos 40 faz prosperar uma bilionária indústria de reprodução assistida. El país, Madri, 22 jul 2019. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/07/19/actualidad/1563549009_803035.html#:~:text=Aos%2040%20anos%2C%20cai%20para,o%20neg%C3%B3cio%20da%20reprodu%C3%A7%C3%A3o%20assistida. Acesso em: 26 dez 2020</p>
<p style="text-align: justify;">HOPCKE, Robert H. Guia para a obra completa de C.G. Jung. 3.ed. Petrópolis: Vozes, 2012</p>
<p style="text-align: justify;">JUNG, Carl Gustav. Tipos Psicológicos. 7.ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>
<p style="text-align: justify;">______Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11.ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>
<p style="text-align: justify;">______O eu e o inconsciente. 27.ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>
<p style="text-align: justify;">Segundo o artigo online da revista Bem Estar, CASAIS sem filho são quase 20% dos arranjos familiares no país, diz IBGE. G1 de 04/12/2015, Disponível em: http://g1.globo.com/bemestar/noticia/2015/12/casais-sem-filho-sao-quase-20-dos-arranjos-familiares-no-pais-diz-ibge.html Acesso em 26 dez 2020</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>PARTE DE MIM &#8211; Um diálogo com a sombra</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Apr 2021 21:03:30 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[PARTE DE MIM]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Vem cá. Quero falar contigo, que sempre me fala de doenças e de morte e me faz pensar em coisas tão duras, imaginar catástrofes, desconfiar de pessoas, incentivar minha insegurança, desacreditar de mim, criar situações que não existem, infligir pensamentos horripilantes, e me causar tanto pavor. Recordo-me de ti desde muito cedo; criança fugindo da [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Vem cá. Quero falar contigo, que sempre me fala de doenças e de morte e me faz pensar em coisas tão duras, imaginar catástrofes, desconfiar de pessoas, incentivar minha insegurança, desacreditar de mim, criar situações que não existem, infligir pensamentos horripilantes, e me causar tanto pavor. Recordo-me de ti desde muito cedo; criança fugindo da cama com pesadelo. Temia fechar os olhos e voltar a te ver. Ainda temo. Diante do sonho mau, prefiro a insônia a ter que fechar os olhos e te encontrar mais uma vez. Por que expõe tanto a minha fragilidade e esfrega na minha cara o que há de pior em ser humana?</p>
<p style="text-align: justify;">Por muito tempo me esquivei de ti, confesso até que te rejeitei. Mas hoje não quero fugir, nem te repreender, nem recorrer a Deus para me livrar de você. Vamos conversar? Quero te convidar a seguir comigo. E te agradecer por todas as vezes que me salvou de perigos. Quero ver o teu rosto, olhar no profundo dos teus olhos, e não mais te temer. Eu reconheço que existe e que faz parte de mim.</p>
<p style="text-align: justify;">Quero te apresentar coisas que talvez ignore, já que a luz te apavora. Inclusive, quero que compreenda que, sem ela, a tua existência seria impossível. A luz é a tua irmã. Não a inveje. Você e ela são, em mim, a totalidade. Se, em algumas situações, rebelo-me contra ti para seguir um caminho iluminado, logo mais adiante prefiro te ouvir e entrar no vale escuro.</p>
<p style="text-align: justify;">Ao longo da nossa existência, te considerei o meu pior inimigo. Tantas batalhas internas travamos&#8230;Batalhas cansativas, que me roubavam energia psíquica. Cansei de te enxergar como adversário. Decidi não oferecer mais resistência ao que julgo como mau, inferior e inaceitável. Nem desejo projetar componentes que são meus em outras pessoas. Mais que aceitar o lado sombrio de minha personalidade, quero respeitá-lo e acolhê-lo com gentileza. Seria esse o sentido de “amar ao inimigo” e “reconciliar-se primeiro com o adversário”? A lição de que só é possível amar verdadeiramente quando aprendemos a “amar ao próximo como a nós mesmos”? Pelo não, pelo sim, já que ainda não consigo me aceitar por inteiro, escolho começar por ti: minha  sombra, parte reprimida de mim.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Por Aline D’Eça<br />
</strong> Em 06/04/2021</p>
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		<title>Complexos culturais, polarização e adoecimento dos brasileiros</title>
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		<dc:creator><![CDATA[daniel daniel]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 07 Apr 2021 16:03:34 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>A vivência em atendimento terapêutico nos anos recentes tem-nos colocado diante de um fenômeno recorrente nas sessões de terapia, a constelação de complexos culturais, não que isso não ocorresse antes. Contudo, nas análises, muitas vezes, o terapeuta volta sua atenção para os problemas pessoais e esquece de atentar-se para a importância da cultura do indivíduo [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">A vivência em atendimento terapêutico nos anos recentes tem-nos colocado diante de um fenômeno recorrente nas sessões de terapia, a constelação de complexos culturais, não que isso não ocorresse antes. Contudo, nas análises, muitas vezes, o terapeuta volta sua atenção para os problemas pessoais e esquece de atentar-se para a importância da cultura do indivíduo na constelação de seus complexos, mas no Brasil, de hoje, é impossível não levar isso em consideração. Embora se possa afirmar que o mundo todo esteja passando por um momento crítico, também não é pertinente negar que cada cidadão, diante de sua cultura, está vivenciando este momento de forma distinta.</p>
<p style="text-align: justify;">De acordo com SINGER &amp; KAPLINSKY (2019, p. 55) a desconsideração dessa temática se deve,</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify; padding-left: 120px;">“A inoportuna incursão de Jung em discussões sobre o caráter nacional e, em especial, sobre a psique alemã nos anos de 1930 (Jung 1936/1970) efetivamente barraram uma consideração mais detalhada entre grupos com base na raça, etnia e identidades tribais/nacionais por junguianos, que foram profundamente afetados e limitados pelas acusações de antissemitismo contra Jung e seus seguidores. Após a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto, poucos quiseram tratar do tema do “caráter nacional” ou de complexos culturais, com medo de serem manchados com acusações de discriminação ou, pior ainda, de contribuir para justificação do genocídio. Com isso, os junguianos aprenderam muito bem que pisar nas minas terrestres dos complexos culturais pode ser muito doloroso e destrutivo.”</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Ou seja, entendeu-se que é preciso distanciar-se desses estudos já que podem ser confundidos com o reforço de estereótipos e preconceitos, contudo também é preciso atentar-se em não desprezar, no setting  terapêutico, a importância da consideração desse conteúdo. E, na fala acima já aparece um exemplo clássico da constelação de um complexo cultural, diante da palavra antissemitismo relacionada à Jung. Devido a constelação desse complexo evita-se estudar e falar sobre temáticas que relacionem Jung ao antissemitismo, enquanto o ideal seria lidar com essa sombra que libertaria os pós-junguianos das amarras que os bloqueiam. Jung, por ser o fundador da psicologia analítica, não se torna um ser isento de reproduzir preconceitos, é preciso enxergá-lo como um homem, de seu tempo, suscetível as armadilhas da constelação de complexos, especialmente os culturais. O que se torna relevante, portanto, é encarar e avaliar os fatos para não sucumbir a complexos que reforcem ainda mais os preconceitos de nossa sociedade. Veja que não se assinala aqui que ser antissemita é positivo, pelo contrário, mas antes que é necessário encarar de frente a sombra que ronda a psicologia analítica, até para que não se avolume.</p>
<p style="text-align: justify;">Faz-se relevante, para facilitar a discussão, trazer o conceito de complexo cunhado pelo próprio Jung, (1936/1976, OC 18/1, §149) quando afirma que,</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify; padding-left: 120px;">“O complexo apresenta uma espécie de corpo e uma determinada quantidade de fisiologia própria. Pode perturbar o coração, o estômago, a pele. Comporta-se, enfim, como uma personalidade própria. Quando se quer dizer ou fazer alguma coisa e, desgraçadamente, um complexo intervém na intenção inicial, acaba-se dizendo ou fazendo a coisa totalmente oposta ao que se queria de início. Há subitamente uma interrupção, e a melhor das intenções acaba sendo perturbada, como se tivéssemos sofrido a interferência de um ser humano ou de uma circunstância exterior.”</p>
<p style="text-align: justify;">
<p style="text-align: justify;">Um dos objetivos principais da psicologia analítica é tornar os complexos mais conscientes, já que assim a energia seria liberada, o que facilitaria o desenvolvimento psicológico. Isso não quer dizer que o indivíduo estará livre dos complexos, mas que seu ego vivenciará os outros “eus” sem se sentir ameaçado ou sucumbir a eles. Sendo assim, é muito relevante trazer à tona aquelas questões que consideramos mais escuras do nosso ser e isso deve ser feito tanto no individual, quanto no cultural.</p>
<p style="text-align: justify;">No Brasil, durante muito tempo, vivemos o mito de que por sermos um povo mestiço não éramos preconceituosos, éramos um povo alegre, festivo, acolhedor e isso mascarou a nossa enorme sombra cultural e apenas fez com que ela se avolumasse. Um exemplo clássico é a política de cotas nas universidades, muito questionada já que perpetraria o que muitos chamaram de “preconceito inverso”, (como se isso fosse possível), quando na verdade, o que se estabeleceu foi a constelação de um complexo cultural, já que os projetos inclusivos além de necessários são possíveis, pois todo ato de aprendizagem está na cultura em si. Sendo assim, todos estão capacitados para aprender, apesar de suas diferenças, contudo nem todos têm as mesmas oportunidades. Mas, o termo <strong>cotas raciais </strong>constela, em boa parte da população brasileira, o complexo cultural que explicitou a nossa diferença, até então negada coletivamente. Embora seja sabido, a partir de dados concretos, que as diferenças de oportunidades entre pretos e brancos, no Brasil, existe e é imensa, para um país que se afirma mestiço e não preconceituoso, esta realidade não sendo assumida culturalmente, ou seja, não sendo trazida à base da consciência coletiva, propiciou a constelação.</p>
<p style="text-align: justify;">Outros termos e palavras, no Brasil atual, constelam igualmente o nosso complexo cultural como, direitos humanos, feminismo, aborto, comunismo, gênero, transgênero, capitalismo, Bolsonaro, Lula, Lava-Jato, dentre outros. Como abordado acima, sobre Jung e o antissemitismo, quanto mais os negamos, mais os constelamos e o resultado disso é uma política que represente a opressão dessas discussões ou o estímulo à polarização. Não é possível descartar que, “Os complexos culturais no inconsciente do grupo contribuem fortemente para a pressão barométrica da vida cotidiana e podem ser pensados como parte do ambiente psíquico de todos os pacientes.” (SINGER &amp; KAPLINKY 2019, p. 71)</p>
<p style="text-align: justify;">Ou seja, não é possível descartar no setting terapêutico o quanto esses complexos influenciam a vida e as problemáticas dos indivíduos, portanto, caso o terapeuta não os leve em consideração, dificilmente contribuirá positivamente para o processo do analisando. Alguns terapeutas defendem a isenção política e cultural, como se isso fosse possível e viável dentro da psicologia analítica, já que o próprio Jung preconizava o contrário, quando defendia que a relação com o outro também é essencial para a realização do ser individual (JUNG, p. 121, 2012). A cultura, a política nacional como constituinte desta cultura, os diversos acontecimentos do país etc. estão presentes no setting terapêutico e influenciam analisando e analista. Então como seria possível descartar essa discussão e a constelação desses complexos, já que, muitas vezes, estes podem ser os eventos que mais estejam afetando o indivíduo?</p>
<p style="text-align: justify;">É possível, portanto, que depressão, ansiedade, Burnout etc. sejam apenas nomes dados, no momento, para pessoas que estão vivenciando a dúvida, a incerteza e a constelação de complexos que efetivamente foram negados e empurrados por um “ego nacional” unilateralizado que não nos permitiu enxergar as circunstâncias reais de nossos conteúdos mais obscuros.  Importante ressaltar que não existe aqui a intenção de levantar bandeiras partidárias de direita ou esquerda. Pois, “(&#8230;) os complexos culturais nem sempre são “politicamente corretos”, embora o “politicamente correto”, possa ser ele próprio um complexo cultural” (SINGER &amp; KAPLINKY 2019, p. 58)</p>
<p style="text-align: justify;">Pode-se supor que a pandemia tenha agravado a constelação desses complexos, pois nos exige o olhar coletivo. Contudo, é sabido que a nossa polarização começa antes disso. Em 2015, por exemplo, a então presidente da República Dilma Roussef é exposta a eventos de explicita misoginia em adesivos de automóveis que sugerem o seu estupro, e esses são aceitos como manifestação política. Ao negar a nossa veia misógina, patriarcal, doentia, ela surge como constelação do que há de mais cruel e pernicioso contra as mulheres em uma sociedade, a banalização do estupro.</p>
<p style="text-align: justify;">Hoje, em meio a pandemia, banalizamos a morte, mas como isso pode estar atrelado ao complexo cultural dos brasileiros? Fácil responder, vivemos em um país onde morrem um número expressivo de jovens negros e pobres anualmente, de mulheres vítimas de feminicídio e isso não causa espanto ou um movimento coletivo contra esses eventos, é porque já estamos adaptados a cultura da morte, especialmente quando esta atinge, em sua maioria, os pretos e pobres do país, os invisíveis. Em 2007 tivemos o fenômeno do filme Tropa de Elite (Dir. José Padilha) que, apesar de muitos terem considerado como um filme denúncia, na verdade, a sua mensagem mais forte era “bandido bom, é bandido morto” e “na guerra vale tudo, até mesmo a tortura”. Então, como não assumir que já estávamos constelados pela cultura da morte e não da vida, da recuperação?</p>
<p style="text-align: justify;">Vale ressaltar novamente que os complexos constelam tanto à direita, quanto à esquerda e uma não é positiva e outra negativa, simplesmente se faz necessário trazer à base da consciência aquilo que pode interferir na nossa ação de forma que sejamos tomados por esse “outro eu”, ao invés de dialogar com ele. Sendo assim, é impossível ao analista não acolher esses assuntos no setting terapêutico, pois muitos clientes se sentem afetados pelas atuais condições políticas do país, especialmente por ter que reconhecer o lado obscuro da cultura de seu povo. Enxergar a si próprio como também possuidor dessa sombra e perpetuador de preconceitos é sempre muito doloroso e merece atenção. Por isso se torna relevante assumir que o inconsciente cultural influencia o indivíduo e é determinante na constelação de complexos, tanto de forma negativa, quanto positiva.</p>
<p style="text-align: justify;">Para finalizar, vale trazer a fala de Jung (1936/1976, § 309), “Todos temos complexos; é um fato muito banal e desinteressante&#8230; O que interessa é saber o que as pessoas fazem com seus complexos; é a questão prática que conta.”  Portanto, cabe ao analista considerar a problemática trazida por seu analisando e não descartar a influência da cultura na constelação de complexos que estejam atrapalhando a vida plena do seu cliente.</p>
<p>&nbsp;</p>
<hr />
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Andrea Alencar</strong></p>
<p>Membro analista em formação pelo IJEP &#8211; RJ</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Referências:</strong></p>
<p>JUNG, C. G. (2012) Ab- reação, análise dos sonhos e transferência. Petrópolis, RJ: Vozes</p>
<p>_________. (1936/1976) Fundamentos da psicologia analítica. [TavistockLectures]. OC 18/1</p>
<p>SINGER, C. &amp; KAPLINSKY, C. (2019) Complexos culturais em análise. In: MURRAY, S. Psicanálise junguiana: Trabalhando no espírito de C. G. Jung ( p. 55 à75). Petrópolis, RJ: Vozes</p>
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		<title>Psicologia e epidemias</title>
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		<dc:creator><![CDATA[daniel daniel]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 30 Mar 2021 17:46:56 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Carl Gustav Jung]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-3539 alignleft" src="https://instituto-junguiano.local/wp-content/uploads/2021/03/4a62ff719e00381a46ea6d70926506ce-224x300.jpg" alt="" width="224" height="300" srcset="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2021/03/4a62ff719e00381a46ea6d70926506ce-224x300.jpg 224w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2021/03/4a62ff719e00381a46ea6d70926506ce.jpg 576w" sizes="(max-width: 224px) 100vw, 224px" />A revista “Filosofia”, em sua edição de Julho de 2020, levantou a seguinte questão: “teria o método científico chegado ao seu fim?” O artigo da capa discute os desafios da ciência em situações como a pandemia de coronavírus, quando a dificuldade inerente ao próprio método científico em oferecer resposta imediata a questões emergentes torna o terreno propício para o surgimento do que Jung chamou de “epidemias psíquicas”: teorias conspiratórias, messianismos, panaceias que alastram-se rapidamente e ignorando o bom-senso. Muitos médicos, esquecendo o mandamento hipocrático <em>p</em><em>rimum non nocere </em>(“em primeiro lugar, evitar fazer o mal”), têm mostrado dificuldades em abandonar a persona do salvador e aceitar sua impotência diante da ausência de evidência científica de qualidade que embase terapias medicamentosas contra vírus SARS-CoV2.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Para a Medicina, o tipo de pesquisa considerado “padrão-ouro” para a medição dos efeitos terapêuticos de determinada droga é o ensaio clínico duplo-cego randomizado. Neste modelo, dois grupos de pessoas grandes o suficiente para atender às exigências de representatividade estatística são “randomizados”, isto é, garante-se que em cada um deles existam pessoas de idade, gênero, doenças preexistentes (entre outras variáveis) em igual proporção, para evitar que a predominância de uma característica num dos grupos interfira nos resultados. Um dos grupos receberá a droga proposta como tratamento, desde que esta já tenha sido aprovada em testes preliminares <em>in vitro</em> e em animais. O outro grupo receberá algo inócuo (ou “placebo”) no lugar da droga verdadeira, de modo que, nem quem é tratado, nem quem trata sabe quem recebe a medicação e quem recebe o placebo. Este fator dá o caráter “duplo-cego” da pesquisa, importante para distinguir a ação da substância no organismo dos efeitos psicológicos causados pelo sentimento de receber de alguém um cuidado (“efeito placebo”). Este efeito ocorre mesmo quando o paciente não sabe se está recebendo a droga, mas o médico sabe e transmite-lhe a “esperança” da cura de forma inconsciente.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Diferentemente da pesquisa médico-farmacológica, a pesquisa científica em Psicologia Clínica apresenta uma questão peculiar: na psicoterapia, a intervenção terapêutica e a resposta a ela são bastante individualizadas, por conta do caráter fortemente subjetivo do sofrimento psíquico e principalmente do modo único como cada pessoa responde a ele. Este fator apresenta grandes desafios à generalização dos resultados da pesquisa, que é necessária para a validação do tratamento em uma população-alvo. O desenvolvimento da pesquisa em Psicologia é empírico e de difícil adequação às exigências dos testes que determinam a “eficácia”, termo que se refere ao efeito medido sob condições estritamente controladas, onde o componente humano (mais especificamente, o afetivo) do processo é indesejável e considerado como “variável confundidora”.  O desfecho positivo desejado na intervenção terapêutica é chamado de “efetividade”, isto é: aquele verificado em situações da prática cotidiana (RAMOS, 2019). Isto implica que o “princípio ativo” da psicoterapia não pode ser dissociado do “efeito placebo” sem que se perca sua função ou finalidade. Para Jung:</p>
<p>“O grande fator de cura na psicoterapia é a personalidade do médico. Gostaria de enfatizar novamente que os mais recentes desenvolvimentos da psicologia analítica nos confrontam com elementos imponderáveis da personalidade humana; precisamos aprender a colocar na base a personalidade do médico como um fator curativo ou prejudicial; e agora é necessário sua própria transformação &#8211; a autoeducação do educador” (JUNG, 1966, <em>apud</em> RAMOS, 2019).</p>
<p>A pergunta, aparentemente retórica, feita na revista “Filosofia” já tem sido respondida há algum tempo, no que se chama de paradigma pós-moderno do pensamento científico. Segundo a Doutora em Psicologia Clínica Eloísa Penna:</p>
<p>“O movimento que questiona as bases do pensamento científico moderno e resulta na concepção de ciência pós-moderna é caracterizado pela ‘desdogmatização da ciência’ (Santos, 2000) e suas principais características da pós-modernidade, de acordo com Hauke (2001), são: pluralidade de pontos de vista, diversidade de epistemologias e métodos, aceitação de paradoxos e contradições, inevitabilidade de imprecisão e incerteza, ênfase na relatividade dos parâmetros e na polivalência de significados, concepção de verdade transitória e relativa, valorização do autoconhecimento e, por conseguinte, da subjetividade na aquisição e na produção de conhecimento e integração da individualidade na coletividade” (PENNA, 2005).</p>
<p>Diferentemente da pretensão científica em produzir um conhecimento puramente objetivo, livre da subjetividade humana, “Jung critica a exigência de objetividade que exclui a subjetividade nos métodos científicos, declarando que conhecimento e autoconhecimento são indissociáveis e condicionados pela psique do pesquisador” (PENNA, 2005).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Parte da resposta da sociedade a uma epidemia tão severa pode e deve ser dada pelo método científico tradicional. Mas há um componente, classicamente subtraído da Medicina e das Ciências da natureza em geral, que nenhum estudo de eficácia pode preencher: a dimensão do significado ou sentido da experiência, o valor pessoal dos processos vitais, a reflexão sobre os sentimentos que surgem diante da ameaça do contágio, o medo de morrer precocemente, de perder entes queridos, ou de perder o emprego, ter seu modo de vida desfigurado numa sociedade pós-pandemia, a angústia do confinamento e isolamento social, entre muitos outros. Estes sentimentos se superpuseram às inquietações existenciais preexistentes e nos fizeram buscar desesperadamente algo que desse sentido à nossa existência, ameaçada por um contágio iminente e uma evolução incerta do processo patológico.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A Psicoterapia Analítica nos ensina a encarar o indivíduo enquanto um todo (holos) psicossomático, que não vai ao consultório apenas em busca de uma substância para sanar os males do corpo, mas também busca na pessoa daquele que o atende a escuta para o que lhe molesta a alma, em sua relação consigo mesmo e com o próximo; seus valores, medos, desejos e decisões. Jung encarou as crenças, religiões, os mitos pessoais de seus pacientes como evidências objetivas de uma atividade psíquica vital para seu bem estar, tanto quanto os dados vitais que medimos num atendimento médico (pressão arterial, frequência cardíaca etc.). A saúde das ideias, dos princípios e moral, dos significados, do sagrado e do sentido da vida individual são, por assim dizer, os sinais vitais da alma, só possíveis de serem aferidos na escuta e no acolhimento humano, algo que jamais pode ser substituído por aparelhos, fármacos ou técnicas específicas. Desprezando a variável humana da equação, a Ciência deixa o campo livre para ideologias e fanatismos diversos que conquistarão as massas pelo Calcanhar de Aquiles da cultura contemporânea: a necessidade aguda de um sentido para o frio e impessoal mundo das leis da Física.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>De nada valerá todo o avanço tecnológico em uma cultura que gera cada vez mais insatisfação pessoal e adoecimento psíquico em troca de benefícios cada vez menos evidentes. O economista australiano Richard Dennis reflete, por exemplo, sobre a incapacidade da ciência econômica para trazer valor à sociedade, ainda que seja uma disciplina cujo objeto principal é a riqueza. Em seu artigo “Se Economia é uma ciência, por que ela não está sendo mais útil?”, ele afirma:</p>
<p>“Eu gosto de Economia e penso que ela tem algo a oferecer a qualquer democracia que precise tomar decisões duras. […] Mas nenhum economista pode nos dizer em que tipo de sociedade queremos viver, quanto do nosso meio ambiente queremos proteger ou até em que tipo de casa, deveríamos viver. Economistas sabem o preço de tudo e o valor de nada. Valores dependem inteiramente de nós” (DENNISS, 2019; tradução nossa).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Denniss concorda com Jung, que diz:</p>
<p>“Tem-se a impressão de se poder fazer qualquer tipo de ciência apenas com o intelecto; mas isto não ocorre com a Psicologia, cujo objeto exorbita os dois aspectos que nos são transmitidos através da percepção sensorial e do pensamento. A função de valor, ou seja, o sentimento, constitui parte integrante da orientação da consciência; por isso, não pode faltar em um julgamento psicológico mais ou menos completo, pois de outra forma o modelo do processo real a ser produzido seria incompleto. É inerente a todo processo psíquico a qualidade de valor, isto é, a tonalidade afetiva. Esta tonalidade indica-nos em que medida o sujeito foi afetado pelo processo, ou melhor, o que este processo significa para ele na medida em que o processo alcança a consciência. É mediante o ‘afeto’ que o sujeito é envolvido e passa, consequentemente, a sentir todo o peso da realidade. Esta diferença corresponde, portanto, mais ou menos àquela que existe entre a descrição de uma enfermidade grave que se lê em algum livro e a doença real que o paciente tem. Psicologicamente, não se possui o que não se experimentou na realidade. Uma percepção meramente intelectual pouco significa, pois o que se conhece são meras palavras e não a substância a partir de dentro” (JUNG, 2013).</p>
<p>Nenhuma sociedade que ignore a necessidade do desenvolvimento psíquico, através da autoeducação, do autoconhecimento, está livre de um retorno “inexplicável” do obscurantismo, que ameaça destruir com um só golpe todo o progresso científico até então conquistado.</p>
<p>&nbsp;</p>
<hr />
<p><strong>Paulo Nunes &#8211; </strong>Médico graduado na UFBA em 2005. Psicoterapeuta Junguiano pós-graduado no IJBA. Mestrando em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Contato: (79) 99859-1753 (Telefone e whatsapp).  Instagram.com/paulonunes181</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>REFERÊNCIAS</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>DENNISS, R. If economics is a science, why isn&#8217;t it being more helpful? Disponível em <a href="https://www.theguardian.com/commentisfree/2019/oct/30/if-economics-is-a-science-why-isnt-it-being-more-helpful">https://www.theguardian.com/commentisfree/2019/oct/30/if-economics-is-a-science-why-isnt-it-being-more-helpful</a>, último acesso em 21 de junho de 2020.</p>
<p>Filosofia Ciência e Vida, Ed. 162. São Paulo, EditoraEscala, 2020.</p>
<p>JUNG, C.G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 10 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>
<p>PENNA, Eloisa M. D.. O paradigma junguiano no contexto da metodologia qualitativa de pesquisa. Psicol. USP [online]. 2005, vol.16, n.3, pp.71-94. ISSN 0103-6564.  <a href="https://doi.org/10.1590/S0103-65642005000200005">https://doi.org/10.1590/S0103-65642005000200005</a>, último acesso em 13 de março de 2021.</p>
<p>RAMOS, D. G. Efetividade versus eficácia: questões desafiadoras na avaliação de técnicas psicoterapêuticas. In Kublikowski, I; Kahhale, E.M.S. P. e Tosta, R.M. (orgs) &#8211; Pesquisas Em Psicologia Clínica: Contexto E Desafios. Sāo Paulo: Educ, 2019, p. 47 &#8211; 63. Disponível em <a href="https://www.pucsp.br/educ/downloads/Pesquisas_em_Psicologia.pdf">https://www.pucsp.br/educ/downloads/Pesquisas_em_Psicologia.pdf</a>.</p>
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		<title>A Cabana</title>
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		<dc:creator><![CDATA[daniel daniel]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 19 Mar 2021 14:51:30 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Resolvi ler o livro escrito pelo canadense William P. Young e colocá-lo no divã para uma análise. Esse livro nasceu em 2007 e, devido ao seu sucesso entre os leitores iniciais, ganhou o mundo e foi lançado no Brasil em 2008. Trata-se de um texto situado na fronteira entre a ficção distrativa e a ficção [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">Resolvi ler o livro escrito pelo canadense William P. Young e colocá-lo no divã para uma análise. Esse livro nasceu em 2007 e, devido ao seu sucesso entre os leitores iniciais, ganhou o mundo e foi lançado no Brasil em 2008. Trata-se de um texto situado na fronteira entre a ficção distrativa e a ficção utilitária. É uma fábula. Desde que foi lançado, permanece entre os mais vendidos na categoria ficção. Por que tanto interesse por essa história fabulosa?</p>
<p style="text-align: justify;">O interesse de um povo por uma fábula revela o quanto um conflito comum está sendo compensado. De acordo com Bérgson, um filosofo francês, “o homem é, a cada passo de seu percurso na terra, confrontado com a finitude. E por meio dela, com o tempo e a angustia, leva-o a buscar modos de escapar de seu destino com a fabulação”. Esse é o papel dos nossos sonhos, um mundo onde dispensamos o conceito de verdade.</p>
<p style="text-align: justify;">O texto conta a história de Mack. Um homem que, aos treze anos de idade, confessou aos colegas o quanto se ressentia em não poder defender sua mãe dos maltratos de seu pai, um alcoólatra inveterado que se considerava religioso. Por causa disso, foi torturado por ele. A saída que o rapaz encontrou foi abandonar a família e colocar veneno de rato nas garrafas das bebidas do pai. Na fase adulta, Mack tornou-se um chefe de família apaixonado pela mulher. Assumiu a responsabilidade de educar os cinco filhos sem se permitir falhar, diferentemente da imagem que carregava do pai. Missy, a filha caçula de seis anos, foi assassinada por um maníaco sexual. Foi nesse momento que começou a <em>Grande Tristeza </em>e o mundo se descoloriu para ele. Quatro anos depois, Mack encontrou um modo de se reconciliar com “Papai”.</p>
<p style="text-align: justify;">Um sofrimento vivenciado em sua literalidade é insuportável. A fabulação dessa dor, ou a sua transformação em símbolo, permite que a mente e o corpo se harmonizem para dar um sentido a essa experiência. Missy gostava de ouvir uma lenda em que a filha de um cacique se jogava de um penhasco para cumprir o sacrifício necessário para salvar toda a tribo. Justamente Missy foi sacrificada pelo maníaco. O local do sacrifício, a cabana, se tornou para Mack um símbolo sagrado capaz de mudar-lhe a vida. A experiência simbólica &#8211; cabana – fê-lo reconciliar-se com “Papai” e obter a redenção de suas culpas.</p>
<p style="text-align: justify;"> O sacrifício, em nossa existência, depende do modo como estabelecemos a relação com o sagrado. Precisamos tomar consciência do que consideramos sagrado e qual o sacrifício que deveremos cumprir para conseguir essa condição. A psicologia de Jung orienta sacrificar a energia que direcionamos para os nossos anseios do passado e ter a coragem de enfrentar o futuro, mesmo quando ele se apresenta vazio e desencantado. A cada sacrifício sempre haverá um acontecimento que se parece com uma morte. Isto porque o antigo deverá sempre ceder lugar ao que é novo. O sagrado é conseguir ter a vida plena e singular, para morrer com dignidade e honra.</p>
<p style="text-align: justify;">Para a psicologia junguiana, a natureza do homem contém padrões capazes de recriar as experiências humanas em todas as gerações que se sucedem. Essas manifestações são feitas por meio de símbolos, verdadeiras fontes de energia para veicular o sentido e significado dos nossos comportamentos. Esses símbolos se mostram pelas imagens que vestem. Por isso, cada pessoa pode percebê-los de acordo com a sua experiência pessoal. A cabana, por exemplo, tem uma imagem que se tornou símbolo para Mack. Todo símbolo pode ser ressignificado e, dessa forma, a cabana do começo da história, palco de uma tragédia, teve um significado diferente daquele que foi dado no final, &#8211; palco de uma redenção.</p>
<p style="text-align: justify;">Mack, depois de um acidente, entra em estado de inconsciência clínica e seu cérebro “sonha”. Neste “sonho” ele vive a experiência da cabana como a rever todas as dúvidas com o sagrado, para dessa forma conseguir a redenção. Deus lhe aparece em suas três formas: Pai, Filho e Espírito Santo. Deus, a quem ele chamou de “Papai” tinha a imagem de uma mulher alta e negra. Cristo era um marceneiro parecendo ser do Oriente Médio e, por fim, o Espírito Santo lhe apareceu como uma mulher miúda claramente Asiática.</p>
<p style="text-align: justify;">Tudo que é psíquico precisa ser traduzido em imagens. Essa foi a necessidade de Mack. Ele precisava romper essa prisão das convenções e paradigmas. Chamar um homem de “papai” seria um desafio muito grande para o momento, porém na forma de uma grande mãe capaz de nutri-lo, deve ter sido feita a compensação. É assim o processo de cura na psicoterapia, uma experiência com as figuras da imaginação e não com um conceito.</p>
<p style="text-align: justify;">Para os junguianos, a verdadeira religião é um meio de se praticar rituais e fazer contato com o todo desconhecido e misterioso. É como no mundo dos sonhos. Não se pode reduzir todo o mistério a conceitos. Lá, no mundo dos sonhos, a consciência será apenas uma porta para permitir o trânsito livre entre dois mundos: o interior e o exterior. Neste mundo dos sonhos, jamais alguém deixará de escutar as súplicas de uma gota d’água trêmula jogando-se para um abismo até desaparecer em sua própria natureza, a fim de demonstrar o quanto o mundo dividido entre o bem e o mal é mera ilusão.</p>
<hr />
<p><strong>Carlos São Paulo</strong> – Médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana. carlos@ijba.com.br  / www.ijba.com.br</p>
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		<title>Terra em mutação- o mundo precisa de terapia</title>
		<link>https://www.ijba.com.br/blog/terra-em-mutacao-o-mundo-precisa-de-terapia/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[daniel daniel]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 Jan 2021 19:52:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[terapia]]></category>
		<category><![CDATA[Terra em mutação]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O ano de 2020 foi marcado por uma grande transformação mundial: o planeta foi acometido por uma pandemia causada pelo coronavírus, chamado de Sars-Cov-2. O vírus, que veio da China, espalhou-se pelo mundo e já atingiu 86.749.940 pessoas, causando 1.890.342 mortes (dados da OMS). &#160; O dano causado até o momento é, sem dúvida, vasto; [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O ano de 2020 foi marcado por uma grande transformação mundial: o planeta foi acometido por uma pandemia causada pelo coronavírus, chamado de Sars-Cov-2. O vírus, que veio da China, espalhou-se pelo mundo e já atingiu 86.749.940 pessoas, causando 1.890.342 mortes (dados da OMS).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O dano causado até o momento é, sem dúvida, vasto; porém, nem de longe, comparável ao estado em que a Europa se encontrava depois da segunda guerra mundial (1945). Na época o desafio mais sério após a guerra era a falta de moradia. Grande número de casas fora destruído 40% na Alemanha, 30% no Reino Unido, 20% na França e os sem-teto eram um enorme problema em todo o continente. A infraestrutura de transportes, como trilhos e veículos ferroviários, pontes, estradas e canais, fora igualmente destruída.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Cabe lembrar que levou mais de cinco anos para a prosperidade do pós-guerra se fazer sentir. Quando ela chegou, porém, caracterizou-se como uma das eras de maior expansão econômica da história mundial.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Apesar de reconhecermos que as duas catástrofes mundiais são diferentes e geraram consequências também diferentes, podemos compará-las no sentido do reconhecimento de determinadas analogias comuns. Jung, que vivenciou a primeira e segunda guerra tece comentários sobre fatores psicológicos que podem ter contribuído para causar a segunda guerra mundial:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Em consequência da industrialização, amplos círculos da população viram-se desenraizados e aglomerados nos grandes centros. Essa nova forma de existência, caracterizada pela psicologia de massa e pela dependência social dos fatores de oscilação do mercado e dos salários, gerou um indivíduo instável, inseguro e facilmente influenciável. Para ele, a sua vida dependia dos chefes de empresa e dos capitães da indústria, na pressuposição – correta ou não – de que estes, por sua vez, estavam guiados sobretudo pelos interesses financeiros. Sabia que poderia se transformar, a qualquer momento, em vítima das mudanças econômicas sobre as quais não tinha o menor controle, apesar de seu trabalho consciencioso ou bom desempenho. Não tinha em que se apoiar. [454] A impressão de fraqueza do indivíduo e até mesmo de sua inexistência foi compensada pelo desencadeamento de forças até então desconhecidas. É por meio desses descaminhos que o inconsciente força o homem a adquirir consciência de si mesmo. Lamentavelmente, no inconsciente do indivíduo não existiam valores capazes de propiciar uma reação a fim de entender e integrar o inconsciente no momento em que alcançasse a consciência. Assim eclodiu a avalancha que se transformou, inesperadamente, no instrumento de derrocada da nação.&#8221; (JUNG, OC 10/2, par 454-455).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Será que hoje, quase 100 anos depois, mudamos, ou continuamos reféns do capitalismo (travestido de neoliberalismo), que nos desenraiza da nossa essência e nos torna vítimas e algozes de nós mesmos?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Para Maffesoli (2007), com a pandemia, estamos vivendo o esgotamento do ilustre materialismo, <em>stricto sensu</em>, ou do materialismo histórico, de tradição marxista, que fomentaram, com a globalização, a sociedade de consumo. Todas são coisas que estão se tornando cada vez mais obsoletas ou que, no mínimo, não têm mais o aspecto dominante que possuíam até então.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Na época atual, a transgressão consiste em estar atento ao retorno do primitivo, que podemos compreender como preocupação com o primordial. O corpo social é um metabolismo vivo. E, como tal, tem variações, ritmos específicos, múltiplas acentuações. Entre eles, certamente, o chamado do enraizamento, o regresso para a origem. Hoje se assiste à superação do egocentrismo que foi o elemento essencial da tradição ocidental em geral, e da modernidade em particular. Do fervilhar existencial às diferentes audácias científicas, o que está em jogo é uma mutação de grande envergadura (MAFFESOLI, 2007).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Tais colocações conduzem à sabedoria das palavras do chefe Seattle que, da mesma forma, antevia os riscos que poderiam advir da quebra do vínculo entre natureza e espírito:</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ensinarão vocês às suas crianças o que ensinamos às nossas? Que a terra é nossa mãe? O que acontece à terra acontece a todos os filhos da terra. O que sabemos é isto: a terra não pertence ao homem, o homem pertence à terra. Todas as coisas estão ligadas, assim como o sangue nos une a todos. O homem não teceu a rede da vida, é apenas um dos fios dela. O que quer que ele faça à rede, fará a si mesmo&#8230;. O que acontecerá quando os cantos secretos da floresta forem ocupados pelo odor de muitos homens e a vista dos motes floridos for bloqueada pelos fios que falam? Onde estarão as matas? Sumiram! Onde estará a águia? Desapareceu! E o que será dizer adeus ao pônei arisco e à caça? Será o fim da vida e o início da sobrevivência (CHEFE SEATTLE, 1852 apud CAMPBELL, 1998, p. 34).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A psicologia pode tomar o caminho mais amplo, contudo, estendendo o seu horizonte, aventurando-se para o interior de uma maneira menos literal: <em>sem separações</em>. O interior estaria em qualquer lugar: qualquer lugar que nós observamos e ouvimos com um ouvido e um olho psicológicos. O mundo inteiro transforma-se em nosso consultório, nosso <em>petri dish</em>. A psicologia seguiria as áreas dos naturalistas, botânicos, oceanógrafos, geólogos, urbanistas, designers, com as intenções ocultas, a latente subjetividade de regiões que o velho paradigma considerava unicamente objetivas, além da consciência e da interioridade. O caminho mais amplo é também uma via de duas mãos. Além de entrar no mundo com seu olhar psicológico, ele também deixaria o mundo entrar na sua província, admitindo que ares, águas e lugares desempenham um papel tão importante nos problemas que a psicologia enfrenta quanto os humores, as relações e as memórias (HILLMAN, 1995, p. xxii).</p>
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<p>As dramáticas reviravoltas políticas e ecológicas dos últimos anos, que culminou na pandemia, colocou o ser humano em um ponto crucial na história da Terra: ou estimula-se o desenvolvimento de uma cultura enquanto contexto para o desenvolvimento de uma reciprocidade ambiental, baseada na ética ou irá se caminhar para a destruição do planeta.</p>
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<p>Guattari (2006) propõe uma ética ecosófica, ou seja, uma ética que vincule e articule os três registros ecológicos, quais sejam: o do meio ambiente físico, o das relações sociais e o da subjetividade humana, também conhecidos como ecologia mental, ecologia social e ecologia ambiental. Segundo este autor, as três ecologias devem ser articuladas a partir de um projeto humano comum, ou seja, um projeto contínuo de “ressingularização”, em que a um só tempo os indivíduos se tornem mais solidários e cada vez mais diferentes, o que poderia ser estendido às relações sociais e ao meio ambiente.</p>
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<p>A situação pandêmica atual mobilizou cientistas do mundo inteiro para correrem contra o tempo e frear o coronavírus. E, em menos de um ano, eles conseguiram desenvolver a melhor alternativa de contenção: <a href="https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2020/12/4895565-covid-19-maioria-do-stf-decide-pela-vacinacao-obrigatoria.html">as vacinas</a>. Essa façanha foi eleita a descoberta do ano pelo periódico mais reconhecido na área científica: a revista Science. A Science destaca a velocidade em que os imunizantes foram criados, graças a investimento financeiro massivo e uso de novas tecnologias. É o homem trabalhando em sinergia (apesar da contrareação regressiva e sombria de determinados líderes negacionistas, que levam desinformação científica à população).</p>
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<p>O sentido desse texto é contribuir para a reflexão que surgimos e nos desenvolvemos na terra com intimidade, que gerou nossa identidade com Gaia. Somos parte da natureza e estamos ligados à ela e aos nossos semelhantes, ainda que distintos de nós: feitos com outros tons de tinta, sendo por isso mesmo, nossos complementares. Reconhecer esse elo é a verdadeira alteridade. Só assim poderemos sair de nós mesmos para nos ver com os olhos do planeta em que vivemos.</p>
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<p><strong><u>Ermelinda Ganem Fernandes</u></strong></p>
<p>Médica, Analista junguiana, Doutora em Engenharia e Gestão do Conhecimento (UFSC), Coordenadora do Curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Processo criativo e facilitação de grupos-abordagem junguiana.</p>
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<p><strong>Referencias bibliográficas:</strong></p>
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<p>CAMPBELL, J. O Poder do Mito. 13a. ed. São Paulo: Palas Athena, 1998.<br />
GUATTARI, Felix. As três ecologias. Campinas: Papirus, 2006.<br />
HILLMAN, J. The psyche the size of the earth: a psychological foreword. In: ROSZAK, T., GOMEZ, M.E., KANNER, A.D. (org.). Ecopsychology: restoring the earth, healing the mind. San Francisco, Sierra Club Books, 1995.</p>
<p>JUNG, C. G. Aspectos do Drama Contemporâneo &#8211; Civilização Em Mudança &#8211; Vol. 10/2 &#8211; Col. Obras Completas &#8211; 4ª Ed. – 2011.</p>
<p>MAFFESOLI, M. O ritmo da vida: variações sobre o imaginário pós-moderno. São Paulo: Record, 2007.</p>
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