Terra em mutação- o mundo precisa de terapia

O ano de 2020 foi marcado por uma grande transformação mundial: o planeta foi acometido por uma pandemia causada pelo coronavírus, chamado de Sars-Cov-2. O vírus, que veio da China, espalhou-se pelo mundo e já atingiu 86.749.940 pessoas, causando 1.890.342 mortes (dados da OMS).

 

O dano causado até o momento é, sem dúvida, vasto; porém, nem de longe, comparável ao estado em que a Europa se encontrava depois da segunda guerra mundial (1945). Na época o desafio mais sério após a guerra era a falta de moradia. Grande número de casas fora destruído 40% na Alemanha, 30% no Reino Unido, 20% na França e os sem-teto eram um enorme problema em todo o continente. A infraestrutura de transportes, como trilhos e veículos ferroviários, pontes, estradas e canais, fora igualmente destruída.

 

Cabe lembrar que levou mais de cinco anos para a prosperidade do pós-guerra se fazer sentir. Quando ela chegou, porém, caracterizou-se como uma das eras de maior expansão econômica da história mundial.

 

Apesar de reconhecermos que as duas catástrofes mundiais são diferentes e geraram consequências também diferentes, podemos compará-las no sentido do reconhecimento de determinadas analogias comuns. Jung, que vivenciou a primeira e segunda guerra tece comentários sobre fatores psicológicos que podem ter contribuído para causar a segunda guerra mundial:

 

Em consequência da industrialização, amplos círculos da população viram-se desenraizados e aglomerados nos grandes centros. Essa nova forma de existência, caracterizada pela psicologia de massa e pela dependência social dos fatores de oscilação do mercado e dos salários, gerou um indivíduo instável, inseguro e facilmente influenciável. Para ele, a sua vida dependia dos chefes de empresa e dos capitães da indústria, na pressuposição – correta ou não – de que estes, por sua vez, estavam guiados sobretudo pelos interesses financeiros. Sabia que poderia se transformar, a qualquer momento, em vítima das mudanças econômicas sobre as quais não tinha o menor controle, apesar de seu trabalho consciencioso ou bom desempenho. Não tinha em que se apoiar. [454] A impressão de fraqueza do indivíduo e até mesmo de sua inexistência foi compensada pelo desencadeamento de forças até então desconhecidas. É por meio desses descaminhos que o inconsciente força o homem a adquirir consciência de si mesmo. Lamentavelmente, no inconsciente do indivíduo não existiam valores capazes de propiciar uma reação a fim de entender e integrar o inconsciente no momento em que alcançasse a consciência. Assim eclodiu a avalancha que se transformou, inesperadamente, no instrumento de derrocada da nação.” (JUNG, OC 10/2, par 454-455).

 

Será que hoje, quase 100 anos depois, mudamos, ou continuamos reféns do capitalismo (travestido de neoliberalismo), que nos desenraiza da nossa essência e nos torna vítimas e algozes de nós mesmos?

 

Para Maffesoli (2007), com a pandemia, estamos vivendo o esgotamento do ilustre materialismo, stricto sensu, ou do materialismo histórico, de tradição marxista, que fomentaram, com a globalização, a sociedade de consumo. Todas são coisas que estão se tornando cada vez mais obsoletas ou que, no mínimo, não têm mais o aspecto dominante que possuíam até então.

 

Na época atual, a transgressão consiste em estar atento ao retorno do primitivo, que podemos compreender como preocupação com o primordial. O corpo social é um metabolismo vivo. E, como tal, tem variações, ritmos específicos, múltiplas acentuações. Entre eles, certamente, o chamado do enraizamento, o regresso para a origem. Hoje se assiste à superação do egocentrismo que foi o elemento essencial da tradição ocidental em geral, e da modernidade em particular. Do fervilhar existencial às diferentes audácias científicas, o que está em jogo é uma mutação de grande envergadura (MAFFESOLI, 2007).

 

Tais colocações conduzem à sabedoria das palavras do chefe Seattle que, da mesma forma, antevia os riscos que poderiam advir da quebra do vínculo entre natureza e espírito:

 

Ensinarão vocês às suas crianças o que ensinamos às nossas? Que a terra é nossa mãe? O que acontece à terra acontece a todos os filhos da terra. O que sabemos é isto: a terra não pertence ao homem, o homem pertence à terra. Todas as coisas estão ligadas, assim como o sangue nos une a todos. O homem não teceu a rede da vida, é apenas um dos fios dela. O que quer que ele faça à rede, fará a si mesmo…. O que acontecerá quando os cantos secretos da floresta forem ocupados pelo odor de muitos homens e a vista dos motes floridos for bloqueada pelos fios que falam? Onde estarão as matas? Sumiram! Onde estará a águia? Desapareceu! E o que será dizer adeus ao pônei arisco e à caça? Será o fim da vida e o início da sobrevivência (CHEFE SEATTLE, 1852 apud CAMPBELL, 1998, p. 34).

 

A psicologia pode tomar o caminho mais amplo, contudo, estendendo o seu horizonte, aventurando-se para o interior de uma maneira menos literal: sem separações. O interior estaria em qualquer lugar: qualquer lugar que nós observamos e ouvimos com um ouvido e um olho psicológicos. O mundo inteiro transforma-se em nosso consultório, nosso petri dish. A psicologia seguiria as áreas dos naturalistas, botânicos, oceanógrafos, geólogos, urbanistas, designers, com as intenções ocultas, a latente subjetividade de regiões que o velho paradigma considerava unicamente objetivas, além da consciência e da interioridade. O caminho mais amplo é também uma via de duas mãos. Além de entrar no mundo com seu olhar psicológico, ele também deixaria o mundo entrar na sua província, admitindo que ares, águas e lugares desempenham um papel tão importante nos problemas que a psicologia enfrenta quanto os humores, as relações e as memórias (HILLMAN, 1995, p. xxii).

 

As dramáticas reviravoltas políticas e ecológicas dos últimos anos, que culminou na pandemia, colocou o ser humano em um ponto crucial na história da Terra: ou estimula-se o desenvolvimento de uma cultura enquanto contexto para o desenvolvimento de uma reciprocidade ambiental, baseada na ética ou irá se caminhar para a destruição do planeta.

 

Guattari (2006) propõe uma ética ecosófica, ou seja, uma ética que vincule e articule os três registros ecológicos, quais sejam: o do meio ambiente físico, o das relações sociais e o da subjetividade humana, também conhecidos como ecologia mental, ecologia social e ecologia ambiental. Segundo este autor, as três ecologias devem ser articuladas a partir de um projeto humano comum, ou seja, um projeto contínuo de “ressingularização”, em que a um só tempo os indivíduos se tornem mais solidários e cada vez mais diferentes, o que poderia ser estendido às relações sociais e ao meio ambiente.

 

A situação pandêmica atual mobilizou cientistas do mundo inteiro para correrem contra o tempo e frear o coronavírus. E, em menos de um ano, eles conseguiram desenvolver a melhor alternativa de contenção: as vacinas. Essa façanha foi eleita a descoberta do ano pelo periódico mais reconhecido na área científica: a revista Science. A Science destaca a velocidade em que os imunizantes foram criados, graças a investimento financeiro massivo e uso de novas tecnologias. É o homem trabalhando em sinergia (apesar da contrareação regressiva e sombria de determinados líderes negacionistas, que levam desinformação científica à população).

 

O sentido desse texto é contribuir para a reflexão que surgimos e nos desenvolvemos na terra com intimidade, que gerou nossa identidade com Gaia. Somos parte da natureza e estamos ligados à ela e aos nossos semelhantes, ainda que distintos de nós: feitos com outros tons de tinta, sendo por isso mesmo, nossos complementares. Reconhecer esse elo é a verdadeira alteridade. Só assim poderemos sair de nós mesmos para nos ver com os olhos do planeta em que vivemos.


 

Ermelinda Ganem Fernandes

Médica, Analista junguiana, Doutora em Engenharia e Gestão do Conhecimento (UFSC), Coordenadora do Curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Processo criativo e facilitação de grupos-abordagem junguiana.

 

Referencias bibliográficas:

 

CAMPBELL, J. O Poder do Mito. 13a. ed. São Paulo: Palas Athena, 1998.
GUATTARI, Felix. As três ecologias. Campinas: Papirus, 2006.
HILLMAN, J. The psyche the size of the earth: a psychological foreword. In: ROSZAK, T., GOMEZ, M.E., KANNER, A.D. (org.). Ecopsychology: restoring the earth, healing the mind. San Francisco, Sierra Club Books, 1995.

JUNG, C. G. Aspectos do Drama Contemporâneo – Civilização Em Mudança – Vol. 10/2 – Col. Obras Completas – 4ª Ed. – 2011.

MAFFESOLI, M. O ritmo da vida: variações sobre o imaginário pós-moderno. São Paulo: Record, 2007.

 

Lista de comentários

  • Patricia 22 / 01 / 2021 Resosta

    Olá professora Ermelinda! Que texto reflexivo! Faço o curso de Arteterapia Junguiana em Salvador, mas sou uruguaia. Já estou na etapa do tcc e por isso me chamou muito a atenção seu texto, pois a minha proposta é de reintegração com a natureça e as artes. Somos natureça e nos fizemos de artes, mas a vida “adulta” nos leva a negação e desvalorização das nossas raízes himanas profundas. destruí-la nos destruimos. Na adolescencia tive muitos conflitos e críticas familiares pela minha veia artística e de gosto pela natureça, era a “doidinha” da família. Mesmo assim, consegui manter meus ideais, agora com 45 Anos percebo a conexão que a cultura desconecta das crianças e adolescentes. Contudo a natureça e a linguagem das artes ficam, se regeneram e quem morre somos nós, a especie humana. Nesta pandemia vejo o quanto ainda somos “bichos” de estimação do capitalismo patriarcal ainda. Grata por compartilhar suas reflexões. Um forte abraço!

  • Aline Ramalho 23 / 01 / 2021 Resosta

    Fantástico esse texto! Inteiro!

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