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	<title>Arquivos Xangô - IJBA</title>
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	<title>Arquivos Xangô - IJBA</title>
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		<title>A Capoeira e a liberdade                   </title>
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		<dc:creator><![CDATA[Carlos São Paulo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Aug 2022 04:03:58 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Por Carlos São Paulo A capoeira nasceu de uma necessidade do desenvolvimento da inteligência corporal, forçada por circunstâncias em que os negros eram explorados como escravos, aqui no Brasil. Assim, deixou de ser uma expressão de um povo oprimido para ser uma expressão livre de arte. &#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; A capoeira acontece dentro de um círculo de [&#8230;]</p>
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<p>Por Carlos São Paulo</p>



<p class="has-drop-cap has-black-color has-text-color">A capoeira nasceu de uma necessidade do desenvolvimento da inteligência corporal, forçada por circunstâncias em que os negros eram explorados como escravos, aqui no Brasil. Assim, deixou de ser uma expressão de um povo oprimido para ser uma expressão livre de arte.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A capoeira acontece dentro de um círculo de três metros de diâmetro e, dentro desse círculo, encenam-se e dramatizam-se temas arquetípicos (que de acordo com Jung, são padrões inatos de comportamento, herdados, comuns à humanidade) e trocas de energias. É o jogo da capoeira que comporta e abriga tudo que é do ser humano – isto é, os opostos: luminoso/obscuro, dança/luta, sabedoria/brincadeira, etc.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O círculo é uma das grandes imagens primordiais da humanidade, e Jung conceituou o Si-mesmo como: “a circunferência total que abrange tanto o consciente como o inconsciente; é o centro dessa totalidade, como o Ego é o centro da mente consciente” (CW 12, par.444). Chegou a comparar o Si-mesmo a uma arena de luta em conflito entre opostos polares, mas, sobretudo, a um sistema auto-regulador que buscava equilíbrio por meio da interação de forças contrárias.</p>



<p>            Não se pode considerar o conceito do Si-mesmo (trata-se de um conceito empírico e não uma formulação filosófica ou teológica) sem se aproximar por meio de sua semelhança, da “Imagem de Deus”. A necessidade de os fenômenos psíquicos se expressarem por meio de uma imagem para poder existir, faz com que o Si-mesmo busque, pela função que guarda, uma imagem de Deus, enquanto o Ego se basta com a imagem do corpo. Para Jung, é por causa da constante indiscriminação entre objeto e imago que as pessoas não conseguem fazer uma distinção conceitual entre Deus e imagem de Deus, e portanto pensam que quando se fala imagem de Deus, está-se falando de Deus e apresentando explicações teológicas (CW 8. P.528).</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Deus, enquanto imagem do Si-mesmo, poderá adquirir diversas faces em cada cultura e até mesmo uma face particular para cada indivíduo que cultua aquele seu deus. Nos anos de 1260 a 1328 o Mestre Eckhart dizia que a qualidade da vida de um homem depende das exigências a que sua alma faz quando admira a face de seu deus. Não se trata aqui de um deus metafísico e sim uma metáfora de deus.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Numa perspectiva histórica da capoeira, foi roubada dos negros sua individualidade, sua liberdade e sua independência. Subjugados pelos senhores, extenuados pelo trabalho forçado a que eram submetidos, sujeitos às mais ultrajantes humilhações e degradação, havia pouca ou quase nenhuma energia à disposição para lutar contra esse estado de coisas. Não havia forças suficientes para arrancar as correntes que os senhores lhes impuseram. Mergulhados nessa realidade sórdida, mostravam-se como que atônitos, vítimas do destino e à mercê dos deuses. Em certas ocasiões, esses deuses parecem estar entediados e, querendo brincar de alguma forma, colocando todos em situações até certo ponto desconfortáveis.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando a pessoa se sente acorrentada, o ego encontra-se fragilizado. Não se reconhece as próprias possibilidades e ainda se as projetam em nossos adversários.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Podemos dizer que nos sentimos escravos daqueles sobre quem projetamos o poder. Em uma análise simbólica, a “corrente” nos remete à ideia de prisão. Para sairmos desse aprisionamento, necessitamos do Outro, mas precisamos também reconhecer nossas próprias potencialidades. Enquanto não abrirmos mão dessa “corrente”, continuaremos invejando o Outro, projetando nele nossas próprias possibilidades e esperando que ele desempenhe os potenciais que ainda não integramos em nós mesmos.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para sair da condição de escravo, por outra parte, os negros, apoiados em seus deuses, passam a se utilizar dos recursos da natureza, procurando, dessa forma, entrar em contato com os novos valores. Nasce então a capoeira, inicialmente como defesa. Essa é a artimanha criada pelo escravo para trabalhar com a experiência de oprimido, reprimido, submisso e rejeitado. Entretanto se o escravo está se aprontando para lutar contra a opressão, não poderia fazê-lo aos olhos do senhor. A capoeira como luta, precisava ser disfarçada e é então transformada, como num truque, numa dança. O escravo se utiliza desse recurso para enganar e iludir o senhor. A capoeira, como luta, veio como uma defesa. Ela não veio para ser uma ligação mais verdadeira com o senhor. Ela veio para matar o senhor.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Aqui, continuando a explicar com a história da capoeira o funcionamento do psiquismo humano, em situações como aquela vivida pelos escravos, a imagem de um deus guerreiro (a exemplo de Xangô) fará com que um movimento criativo se insinue dentro e fora de nós. Começa agora a se instaurar um ego mais fortalecido, a auto-estima vai sendo pouco a pouco resgatada. Há indícios de uma fé inabalável, e o poder, que antes se encontrava deslocado no Outro, vai sendo paulatinamente resgatado. Entretanto, a consciência ainda não conseguiu integrar esse poder e por isso se utiliza de uma falsa persona. Persona, de acordo com Jung, é a máscara colocada pelo indivíduo de maneira a facilitar a comunicação com o seu mundo externo e ser aceito pelo grupo social a que pertence.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O surgimento, nessa etapa da história, de heróis como Zumbi alude à emergência de novos valores que estão surgindo das profundezas de nosso inconsciente. É o convite para uma jornada redentora e criativa, para que possamos nos beneficiar dos tesouros escondidos dentro de nós, como a liberdade. Os heróis trazem as qualidades que não estavam integradas em nossa consciência, como por exemplo, o poder. Em outras palavras, das profundezas do nosso íntimo começa a insinuar-se lentamente uma dança, a dança da libertação. É nessa fase que estamos com um ego mais forte e já não estamos tão vulneráveis. Na história da capoeira, essa fase corresponde ao surgimento do Quilombo de Palmares que resiste bravamente ao poder colonial.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com a abolição da escravatura, os escravos livres levam a capoeira para a marginalidade e aprimoram as técnicas de ataque e defesa. Eles agora estavam soltos e desempregados pelas ruas. Começaram a promover badernas e ganharam cada vez mais habilidades. O berimbau agora ganha mais um anexo-a navalha- tendo agora duas funções: uma, a de avisar a aproximação da polícia, e a outra, de funcionar como uma foice para enfrentar os soldados.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;Nosso destino quer se expressar, e o universo, por sua vez, traz os objetos e situações externas para um encontro que se propõe a fazer nossa consciência crescer e perceber partes não vividas até então. Agora, portanto, em contato com o nosso lado escuro, libertamos o potencial oculto de nossa natureza. É o confronto real com a sombra. Sombra, Jung a definiu como “a coisa que uma pessoa não tem o desejo de ser” (CW 16, par.470). O ego está, nesse momento, mais preparado para ver os aspectos umbrosos da personalidade. O resultado desse confronto é imprevisível, é arquetípico. A única certeza é a de que ambas as partes serão transformadas.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O ego necessita agora viver a perda, abrir mão de alguns aspectos e integrar outros para, então, transcender esse estágio. Não será possível avançar na sua trajetória sem perder muitos membros. Isto é, algumas partes do ego precisam morrer para dar lugar a outras, mais criativas.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No governo de Vargas, a capoeira é apresentada como arte. A sua prática é liberada e transforma-se num esporte nacional, ensinada em academias e fazendo parte dos programas de governo para o turismo. Agora, a capoeira verdadeiramente livre lança seu corpo no espaço e vive a harmonia dos seus opostos. Não é mais necessária a persona falsa, o berimbau não tem mais a função de alertar para a presença da sombra, isto pertence ao passado.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Este momento que foi transformado é a sugestão de vida e de aspectos antes negados pela consciência que passam a ser símbolos criativos estruturantes da personalidade, trazendo sentido para nossas vidas.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O que a capoeira vem nos mostrar é que a vida é tudo isso: uma dança, um jogo, uma luta, um ritual, um processo em permanente mudança, um movimento.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como luta, é o aspecto que nos leva a enfrentar as adversidades que se interpõem em nossa jornada, podendo ou não nos desviar de nossa missão.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como jogo, aprendemos a ganhar ou perder num propósito de seguir nosso destino sem nos permitir a paralisia de não jogar. Muitas vezes pensamos que estamos perdendo e na realidade estamos ganhando a possibilidade de seguirmos nosso verdadeiro caminho. Em outras ocasiões acontece o contrário.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como dança, descobrimos que apesar de nossa caminhada ser solitária, precisamos nos relacionar com o outro desconhecido dentro de nós, que só poderá ser despertado por meio da relação com o Outro. Para isso, precisamos aprender a dançar com esse Outro, ser uma dança que para possuir harmonia precisa adquirir mais sabedoria do que conhecimento. É a sabedoria do viver e entregar-se nas mãos de um Deus que habita as regiões abissais da nossa natureza.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como ritual, nos aproximamos de Deus. Protegidos pela divindade, encontramos o sentido do viver e, através dos mistérios que nos arrodeiam buscamos uma meta inatingível que nos faz desfrutar da caminhada em sua direção, pois aí está o sentido do viver. É como se aproximar do horizonte, o belo está em apreciá-lo e não em chegar lá.</p>



<p class="has-text-align-left"><strong>____________________________________________________________</strong></p>



<p><strong>Carlos São Paulo&nbsp;</strong>–&nbsp;Médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana. carlos@ijba.com.br</p>
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		<title>Oxum fica pobre por amor a Xangô</title>
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		<dc:creator><![CDATA[daniel daniel]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 09 Mar 2018 17:29:51 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Por Carlos São Paulo Uma semente, lançada ao solo fértil, é vencida pelo “instinto” ou pela lei natural de ter que morrer para ressurgir em uma nova forma de vida. Assim, uma amante driblou o desejo de poder e, como uma semente, entregou-se a Eros para viver uma nova forma de vida em que o [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="font_8"><strong>Por Carlos São Paulo</strong></p>
<p class="font_8">Uma semente, lançada ao solo fértil, é vencida pelo “instinto” ou pela lei natural de ter que morrer para ressurgir em uma nova forma de vida. Assim, uma amante driblou o desejo de poder e, como uma semente, entregou-se a Eros para viver uma nova forma de vida em que o amor é alimentado pela paixão. Essa é a história dos amantes Oxum e Xangô, que li no maravilhoso livro Mitologia dos Orixás, de Reginaldo Prandi.</p>
<p class="font_8">
<p class="font_8">Para desfrutarmos de um raro prazer ao buscar entender a mente humana, observamos os mitos cavalgando no referencial teórico da psicologia de C. G. Jung. Esses mitos revelam as tramas que regem as nossas vidas contidas no inconsciente coletivo e que podem ser vividas por qualquer um de nós. Os mitos dos orixás originalmente fazem parte dos poemas dos babalaôs, aqueles que nos conduzem pelos segredos oraculares.</p>
<p class="font_8">
<p class="font_8">Um certo dia, Xangô chameja na vida de Oxum. Ela era rica, dengosa e vaidosa. Ela colocou em seu leito vários amantes, que viveram com ela um prazer incomum. Até que, naquela aldeia, chegou um rapaz de virilidade flamejante que deixou Oxum fogosa. Era Xangô. Ele era um alabê, chefe dos tocadores de atabaques, que rejeitou deitar-se com Oxum.</p>
<p class="font_8">
<p class="font_8">Ao ritmo de um atabaque, com toques rápidos de características guerreiras, Oxum desmanchava-se em felicidade numa relação sexual com Xangô. Oxum implorava por seu amor, mas ele só desdenhava dela. Tempos depois, Xangô ficou pobre e, envergonhado, foi viver longe do som dos atabaques. Ele tomou Oxum como amante, e ela o supriu na busca de conforto e prazeres. Para isso, desfez-se de todos os seus pertences até lhe restar apenas um vestido branco. Todos os dias ela lavava sua única veste e, de tanto lavá-la no rio, a roupa, que era branca, ficou amarela. Desde esse dia, Xangô amou verdadeiramente a Oxum.</p>
<p class="font_8">
<p class="font_8">Como a negativa das antigas fotografias, um indivíduo, ao desenvolver a identidade do eu, também desenvolve simultaneamente o seu oposto, que é o não eu. A esse não eu, já que não é consciente, Jung denominou Alma. Com esse raciocínio, um ser é tão viril quanto a sua alma é feminina e vice-versa. É essa alma que será projetada num outro ser para se conseguir uma relação amorosa.</p>
<p class="font_8">
<p class="font_8">No mito, Xangô só foi capaz de amar Oxum quando ela se despojou da sua antiga vida ou de tudo aquilo que não pertencia à sua alma. Numa visão literal, é como se a posição masculina fosse a de não se conformar com o feminino que se mostra com mais poderes que ele. Não olhamos para os mitos, ou mesmo nossos sonhos, de forma literal, e sim procurando entender o simbólico.</p>
<p class="font_8">
<p class="font_8">Desde o século XX, as mulheres conquistaram mudanças significativas e puderam assumir espaços nunca antes imaginados. Deixaram de viver dedicadas a seus maridos para conquistarem uma participação social igualitária. Surgiu o termo “empoderamento feminino” – um neologismo do educador Paulo Freire que tem origem no termo inglês “empowerment” – para reger um movimento em que homens e mulheres tornam-se igualmente livres sem carregar estereótipos do papel de gênero. Apesar de todas essas mudanças, não podemos deixar de considerar a influência desse passado na sociedade atual, principalmente quando se trata de relacionamentos amorosos.</p>
<p class="font_8">
<p class="font_8">Enquanto antes a flor rolava sendo carregada pelo fluxo da correnteza devido a sua leveza, agora, como quem adquiriu raízes, essa flor divide e compete com o fluxo da correnteza para não ser levada como antes. Isso é o que ocorre com a relação amorosa entre homens e mulheres. Em nosso mito, Xangô só pôde amar Oxum quando as vestes dela amarelaram.</p>
<p class="font_8">
<p class="font_8">Na alquimia, amarelar é quando a alma compartilha e divide. Talvez como no outono, quando as árvores amarelam suas folhas para despojar-se delas e esperar o inverno para, assim, renascerem na primavera. A luz do sol se apresenta habitualmente amarela e, após várias reflexões, chega o pôr-do-sol e ela torna-se vermelha. A esse vermelho, os alquimistas chamavam a fase da rubedo, que é a última fase para se atingir a pedra filosofal. A rubedo é também o casamento do sol com a lua, ou do céu com a terra. Para Jung, a Alquimia representa a projeção em laboratório de um drama ao mesmo tempo cósmico e psicológico.</p>
<p class="font_8">
<p class="font_8">Talvez aqui o feminino de Xangô necessitasse de uma Oxum de jeito agradável que criasse uma segurança emocional para ele dentro da relação. Em uma reflexão, podemos pensar que a qualidade que fez Oxum ter tanto poder com seu processo profissional também estabeleceu uma competição dentro de seus relacionamentos, uma vez que, para chegar a essa condição, ela precisava ser agressiva, decisiva, competitiva e de opinião fixa. O momento do amarelecimento permitiu a Xangô sentir que suas opiniões também contavam.</p>
<p class="font_8">
<p class="font_8">Quando Xangô se confrontar com uma Oxum, dessas que precisam de um homem, mas agem como se não precisassem, ele se sentirá inútil e haverá sexo sem existir amor. Onde o deus Phobos, deus do poder, permanece; o deus Eros, do amor, desaparece. O mito nos convida a refletir se a tendência dominadora que Oxum precisava para crescer em sua carreira não está sendo trazida para dentro da relação.</p>
<p class="font_8">
<p class="font_8">Homens que buscam mulheres para se relacionar são incapazes de amar quando o acolhimento é substituído por um estado competitivo sobre quem domina a relação. O sagrado é a alteridade. Precisamos desenvolver a capacidade de se colocar no lugar do outro, aprender com as diferenças e respeitar o indivíduo como esse outro de si mesmo.</p>
<p class="font_9">
<p class="font_9">Carlos São Paulo – médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana.</p>
<p class="font_9">carlos@ijba.com.br  / www.ijba.com.br</p>
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