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	<title>Arquivos Carl Gustav Jung - IJBA</title>
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	<title>Arquivos Carl Gustav Jung - IJBA</title>
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		<title>No princípio, era o verbo: Jung e o dilema narrativo na Psicologia cultural</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Bárbara Assis]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 18 Jun 2025 06:15:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Blog]]></category>
		<category><![CDATA[Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[Jung]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Cultural]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Márcio de Abreu Qualquer pessoa que já tenha tentado traduzir em palavras a intensidade de um orgasmo ou a profundidade de um arrebatamento estético sabe que a linguagem parece sempre ficar aquém do vivido. De fato, há experiências que desafiam os limites do discurso, permanecendo à margem do narrável. Esse limiar entre o inefável [&#8230;]</p>
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<p><strong><em>Por Márcio de Abreu</em></strong></p>



<p>Qualquer pessoa que já tenha tentado traduzir em palavras a intensidade de um orgasmo ou a profundidade de um arrebatamento estético sabe que a linguagem parece sempre ficar aquém do vivido. De fato, há experiências que desafiam os limites do discurso, permanecendo à margem do narrável. Esse limiar entre o inefável e o inteligível tem se tornado um ponto de interesse crescente na Psicologia Cultural, visto que seu principal objeto de estudo consiste justamente na dimensão cognitivo-afetiva da experiência humana e nos processos simbólicos que a moldam.</p>



<p>Para Jaan Valsiner &#8211; um dos seus teóricos mais prolíficos -, os métodos narrativos são cegos para aspectos da experiência que não são plenamente capturados por palavras. Isso se aplica, por exemplo, a estados transitórios de curta duração e subjetividade intensificada, nos quais o emocional se funde com o simbólico. A solução, segundo o próprio Valsiner, demanda um alargamento do campo de investigação da Psicologia Cultural, de modo a incorporar formas intermediárias e transitórias de produção de significado. Certamente, isso implica voltar-se não apenas para os relatos que as pessoas produzem sobre suas experiências, mas também para expressões corporais, gestos, mudanças na prosódia e outros indicadores dinâmicos de significados emergentes. A proposta é sedutora: em vez de tomarmos a linguagem verbal como único caminho para acessar a experiência, por que não considerar outras vias de mediação simbólica?</p>



<p>Contudo, ao mesmo tempo em que expande o horizonte da Psicologia Cultural, a proposta de Valsiner incorre em um impasse epistemológico. Afinal, sua crítica aos métodos narrativos traz implícita a suposição de que seria possível acessar níveis pré-discursivos da experiência sem transformá-los em algo estruturado e representável. Em outras palavras, ela pressupõe a existência de uma essência da experiência que poderia ser capturada diretamente, quando, na realidade, qualquer tentativa de acesso já implica sua interpretação e tradução em formas comunicáveis. Além disso, se a tese central da crítica ao paradigma narrativo é que há dimensões da experiência que escapam à verbalização, como é possível, então, articulá-las teoricamente sem recorrer a descrições verbais?</p>



<p>Neste ponto, a Psicologia Cultural poderia se beneficiar de um diálogo com a Psicologia Analítica, especialmente por meio de uma analogia com o conceito de arquétipos. Segundo Jung, os arquétipos não podem ser conhecidos em si mesmos, mas apenas inferidos a partir de suas manifestações tangíveis, como imagens, narrativas e padrões de comportamento. Quando expressas, tais manifestações passam a ser atualizadas pela vida “interior” (impressões, pensamentos e sentimentos) e “exterior” (sistemas de normas e valores socialmente determinados) daquele que vive a experiência. Da mesma forma, os estados transitórios da experiência que Valsiner busca investigar não são diretamente acessíveis, mas apenas apreensíveis através de suas expressões mediadas, as quais envolvem tanto sistemas de sentidos pessoais quanto significados coletivamente compartilhados.</p>



<p>Isso sugere que, em vez de buscar escapar da linguagem e do discurso narrativo, o desafio da Psicologia Cultural poderia ser compreender como essas mediações inevitáveis moldam e estruturam a experiência subjetiva. A questão não é tanto se há dimensões da experiência que escapam à verbalização, mas sim como aquilo que escapa pode se manifestar por meio de símbolos, gestos e padrões de ação que, ainda que não sejam estritamente discursivos, estão sempre mediados por formas de significação.</p>



<p>Ainda assim, há uma lacuna teórica nessa proposta, e que a teoria junguiana pode ajudar a preencher. Mais do que oferecer uma alternativa para o dilema levantado por Valsiner, o conceito junguiano de arquétipo pode lançar luz sobre a própria origem desse impasse. Para compreender essa possibilidade, voltemo-nos para alguns mitos de criação.</p>



<p>Na mitologia egípcia, por exemplo, <em>Ptah</em> deu forma à realidade ao pronunciar os nomes dos elementos que estavam em seu coração: à medida que pronunciava seus nomes, tudo que ele pensou se tornava real. No <em>Popol Vuh</em>, o livro sagrado dos maias, os deuses criadores <em>Tepeu</em> e <em>Gucumatz</em> “pensaram” e “disseram” o mundo à existência, dando forma, pelo verbo, aos elementos da natureza. Segundo a mitologia dos Maori, na Nova Zelândia, o deus supremo <em>Io</em> cria o mundo usando palavras de poder para dar forma ao vazio. Na tradição hindu, os <em>Vedas</em> dizem o seguinte sobre <em>Brahman</em>, a força suprema de deus, presente em todas as coisas: “No começo era <em>Brahman</em>; com ele estava <em>Vâk</em>, a Palavra; e a Palavra é <em>Brahman</em>”. Esses mitos sugerem que o ato de nomear e estruturar a fenômenos e experiências por meio da linguagem não é apenas um imperativo cultural, mas pode refletir um padrão psíquico profundo.</p>



<p>Se assumirmos, com Jung, que o surgimento da ciência pode ser entendido como uma expressão da “função religiosa” &#8211; ou seja, a necessidade psíquica fundamental de dar sentido à existência e de organizar fenômenos e experiências em sistemas coerentes de explicação —, então a própria necessidade de articular a experiência humana em teorias verbais teria origem no mesmo motivo arquetípico subjacente aos mitos de criação. Por essa perspectiva, talvez nos encontremos diante de um dilema incontornável. Seja no âmbito da ciência ou da mitologia, qualquer comunicação de um fenômeno ou experiência &#8211; mesmo quando baseado em linguagens não verbais &#8211; está sujeita a reconstruções e ressignificações. Isso nos coloca novamente diante do dilema narrativo: a mediação é inescapável sempre que o simbólico precisa ser articulado intersubjetivamente, e a palavra continua sendo um dos seus principais veículos. Afinal, como se lê no Gênesis: “No princípio, era o verbo” &#8211; e, ao que tudo indica, nele permanecemos.</p>



<p><strong>Referências</strong></p>



<p>Aranha, A. (2012). <em>O livro grego de Jó</em>. Petrópolis: Vozes.</p>



<p>Hongi, H. (1907). A Maori cosmogony. The Journal of the Polynesian Society, Vol. 16, No. 3(63), pp. 113-119. <a href="https://www.jstor.org/stable/20700820?searchText=Io%20maori%20creation&amp;searchUri=%2Faction%2FdoBasicSearch%3FQuery%3DIo%2Bmaori%2Bcreation%26so%3Drel&amp;ab_segments=0%2Fbasic_search_gsv2%2Fcontrol&amp;refreqid=fastly-default%3Ae7d7175c05faa9534ec76d2e6ee6440d">https://www.jstor.org/stable/20700820?searchText=Io%20maori%20creation&amp;searchUri=%2Faction%2FdoBasicSearch%3FQuery%3DIo%2Bmaori%2Bcreation%26so%3Drel&amp;ab_segments=0%2Fbasic_search_gsv2%2Fcontrol&amp;refreqid=fastly-default%3Ae7d7175c05faa9534ec76d2e6ee6440d</a></p>



<p>Jacobi, J. (2016). <em>Complexo, arquétipo e símbolo na psicologia de C. G. Jung</em>. Petrópolis: Vozes.<strong></strong></p>



<p>Jung, C. G. (2016). <em>OC 9/1 Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em> [ePub]. Petrópolis: Vozes.</p>



<p>Jung, C. G. (2013). <em>OC 11 Psicologia e religião: ocidental e oriental</em> [ePub]. Petrópolis: Vozes.</p>



<h1 class="wp-block-heading has-medium-font-size"><strong>Mitoselendas.com.br. (s/d). <em>Tepeu e Gucumatz: os criadores do mundo na mitologia maia</em>. <a href="https://www.mitoselendas.com.br/2025/03/tepeu-e-gucumatz-os-criadores-do-mundo.html">https://www.mitoselendas.com.br/2025/03/tepeu-e-gucumatz-os-criadores-do-mundo.html</a></strong></h1>



<p>Shaw, G. J. (2022). <em>Os mitos egípcios: um guia aos antigos deuses e lendas</em>. Petrópolis: Vozes.</p>



<p>Vachot, C. (1958). <em>La guirlande des lettres: origine, nature et puissance du langage</em>. Tradução de Luiz Potual. <a href="https://www.reneguenon.net/GuirlandaDasLetras#:~:text=No%20come%C3%A7o%20era%20Brahman%3B%20com,e%20o%20Verbo%20era%20Deus">https://www.reneguenon.net/GuirlandaDasLetras#:~:text=No%20come%C3%A7o%20era%20Brahman%3B%20com,e%20o%20Verbo%20era%20Deus</a>.</p>



<p>Valsiner, J. (2025). <em>Beyond words: cultural psychology on trouble</em>. Paper prepared for the VIII Seminário Internacional de Psicologia Cultural:&nbsp;Cannibalizing Cultural Psychology, Salvador, Ba, April 14-16 2025</p>



<p><strong>Márcio de Abreu</strong> – Analista junguiano com especialização em Processo Criativo e Facilitação de Grupos pelo Instituto Junguiano da Bahia (IJBA). Doutor em Psicologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Mestre em Teoria Crítica e Estudos Culturais pela The University of Nottingham e em Cultura e Sociedade pela UFBA. Bacharel em História com Habilitação em Patrimônio Cultural pela Universidade Católica do Salvador (UCSAL).</p>
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		<title>Vida Invisível de Eurídice Gusmão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Carlos São Paulo]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 31 Aug 2022 05:40:59 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Carl Gustav Jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Carlos São Paulo Os complexos culturais atravessam as gerações como a girar em torno de um eixo em que as razões objetivas dos comportamentos vão sendo esquecidas e, em seu lugar, surgem condutas reativas ao que foi perdido. Essa é uma das razões que nos leva a dar importância ao conhecimento sobre a história [&#8230;]</p>
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<p class="has-text-align-left"><strong>Por Carlos São Paulo</strong></p>



<p class="has-drop-cap">Os complexos culturais atravessam as gerações como a girar em torno de um eixo em que as razões objetivas dos comportamentos vão sendo esquecidas e, em seu lugar, surgem condutas reativas ao que foi perdido. Essa é uma das razões que nos leva a dar importância ao conhecimento sobre a história que conta como nossas mães e avós viveram as experiências de serem mulheres, esposas e mães, em uma cultura patriarcal.</p>



<p>Na psicologia de C. G. Jung, denominamos “complexos” tudo que atrapalha o exercício da vontade livre e nos faz sentir a experiência com a carga afetiva de algum fato análogo que foi doloroso. Essa é a razão de certos acontecimentos em nossas vidas nos fazerem sofrer de forma desproporcional ao que aconteceu. Estamos inconscientes desses fatos. Assim como reagimos a vivências pessoais com os complexos, também a cultura de um povo procura se proteger do que já foi vivido de forma traumática e estabelece o que chamamos de complexos culturais Intergeracionais.</p>



<p>A família patriarcal, por exemplo, tinha o sexo no corpo feminino como o mal. Talvez essa seja a razão que fez surgir, nos tempos atuais, as “relações líquidas&#8221;, como denomina o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman. É um modo de viver sem o cimento de Eros e com as consequências que fizeram ambos os sexos correrem para o mundo do poder, do penetrar, em lugar do acolhimento vaginal como se a feminilidade fosse o mal.</p>



<p>Jung defende que o nosso interesse é saber o que as pessoas fazem com seus complexos. É o que fazemos com os nossos complexos pessoais e culturais que determina quem nos tornamos como indivíduos, grupos e sociedades. Daí a importância de uma boa literatura, mais que qualquer compêndio informativo, para nos alertar sobre os complexos existentes na cultura em que nascemos.</p>



<p>O romance da brasileira Martha Batalha, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, adaptado para o cinema, conta a história de duas irmãs nascidas nos anos 40. A mais velha, Eurídice, era uma mulher brilhante, provavelmente vocacionada para a música. Em obediência ao seu pai, por ser mulher, teve que declinar o convite de Heitor Villa-Lobos para seguir uma vida artística.</p>



<p>Eurídice, que escolheu obedecer ao pai, casou-se com Antenor e perdeu a liberdade de ser ela mesma. Nem se dedicou à sua vocação, nem teve seu talento reconhecido por ser do lar. Guida, a irmã mais nova, escolheu desobedecer ao pai e fugiu com Marcos. Apareceu grávida, imaginando que o amor de pai superaria o complexo cultural de ter uma filha mãe solteira, mas foi despejada por ele, que considerou Eurídice como sua única filha. As duas irmãs, portanto, seguiram caminhos opostos e nenhuma das duas foram felizes em suas escolhas. Guida viveu na extrema pobreza e conseguiu criar seu filho com a ajuda da Filomena — uma ex-prostituta que cuidava de crianças —, enquanto Eurídice viveu na pobreza de espírito, em sua “vida invisível”.</p>



<p>Há uma diferença entre ter talento e ter vocação. Talento é fazer bem o que se dispõe a fazer; vocação é tão maior que não leva em conta a valorização econômica da profissão. A vocação é um fazer com alma, mas parece que nem todas as pessoas possuem; o talento é uma habilidade adquirida por muitas pessoas que são capazes de fazer bem aquilo a que se dedicam.</p>



<p>Para entendermos um complexo cultural, precisamos retroceder no tempo e analisarmos os mitos. Mitos são verdades psíquicas que os historiadores, às vezes, contam, dando a impressão de que deixaram de lado sua importância simbólica. Sabe-se que a “Imaculada Concepção” de Maria só veio a ganhar importância dogmática no século XIX. O corpo feminino representado nessa ideia não poderia deixar o desejo sexual tomar conta do lugar sagrado da família.</p>



<p>Nesse passado, uma figura feminina, para ser amada, teria que ser depurada do pecado e do sexo. Então qual a razão da mulher não virgem ser odiada? O corpo da mulher mobilizava no homem o desejo impróprio que poderia produzir a gravidez indesejada. Além disso, dentre tantas outras análises, poderemos considerar também um mecanismo de defesa masculino para que o homem não vivesse a responsabilidade de corresponder ao desejo feminino caso esse fosse considerado. Quando a ciência ofereceu a homens e mulheres a condição de ter o sexo evitando a gravidez, que não se queria, a sociedade modificou a expressão desse complexo cultural que ainda persiste, vendendo o mundo dos homens como algo cobiçado — ter o poder —, em lugar do mundo cristão e feminino, que é acolhedor ao tempo em que Eros mostra como é uma relação de alteridade ou mais evoluída.</p>



<p>Homens hoje formam famílias e lutam com a dificuldade de ter uma esposa que é, ao mesmo tempo, mulher e mãe. Mãe que guarda em si o tema arquetípico da “Imaculada Concepção”. Como voltar a erotizar a família ou essa mulher que se tornou mãe? É o estado de consciência de um complexo cultural em que muito se precisa fazer para que o homem não faça de sua família o estado de amor dissociado de sexo e necessite das “Madalenas” para efeito de suas experiências sexuais, nem falte às mulheres um homem capaz de respeitá-las com o seu feminino acolhedor e suas realizações nesse mundo cíclico em que vivem as mulheres.</p>



<p><strong>________________________________</strong></p>



<p><strong>Carlos São Paulo </strong>– Médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana. carlos@ijba.com.br</p>
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		<title>Manifesto Junguiano &#8211; 17 de abril de 2022</title>
		<link>https://www.ijba.com.br/blog/manifesto-junguiano/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Administrador]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 Apr 2022 23:53:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Carl Gustav Jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este manifesto foi redigido por um grupo independente com o apoio de diversos profissionais, analistas, grupos de pesquisas e estudos, e instituições de ensino da obra de Carl Gustav Jung ao redor do Brasil  Nós, pesquisadores e analistas inspirados e envolvidos no estudo, pesquisa e prática profissional com base na obra iniciada pelo psiquiatra suíço [&#8230;]</p>
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<p><strong>Este manifesto foi redigido por um grupo independente com o apoio de diversos profissionais, analistas, grupos de pesquisas e estudos, e instituições de ensino da obra de Carl Gustav Jung ao redor do Brasil</strong></p>



<p> <br>Nós, pesquisadores e analistas inspirados e envolvidos no estudo, pesquisa e prática profissional com base na obra iniciada pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung e levada adiante por várias gerações de autores desde a sua morte em 1961 até os dias de hoje, contestamos a forma convenientemente superficial e tendenciosa com que Christian Dunker, professor titular da USP, associa as ideias de Jung ao Nazismo em vídeo levado ao ar no dia 13 de abril de 2022. Causou estranheza à comunidade junguiana aqui subscrita que, no atual contexto político brasileiro, Dunker tenha utilizado o seu canal no Youtube para requentar uma antiga polêmica relacionada à vida e obra de C.G. Jung, principalmente considerando a forma inexplicável pela qual ele partiu de uma pergunta sobre os desentendimentos teóricos entre Freud e Jung (enviada por um internauta) para associar este último ao Partido Nacional Socialista alemão.<br> <br>A declaração de que Jung teria se relacionado com o Nazismo por ter sido presidente da Associação Alemã de Psicoterapia em 1933 é equivocada, já que se tratava da Sociedade Médica Geral de Psicoterapia (localizada na Alemanha, porém, internacional), da qual Jung era presidente de honra. A Sociedade Alemã de Psicoterapia, subordinada à SMGP, jamais foi presidida por Jung, como Dunker afirma, o que faz apoiado numa bibliografia sofrível, como o Dicionário de Plon e Roudinesco, desconsiderando autores e pesquisadores importantes do campo junguiano como B.Hannah, H. Ellenberger, S.Shamdasani e E.Taylor. Esta miopia seletiva segue uma estratégia que desqualifica e ataca o autor, sem se dar ao trabalho de discutir a ideia, estratégia que o próprio Dunker chama de “transporte direto da vida para a obra”, que não se prestaria à crítica de Freud, mas da qual o youtuber se vale livremente para questionar Jung.<br> <br>Reconhecido especialista em Lacan, Dunker tem um público de mais de 300 mil seguidores apenas através do Youtube, o que dá a medida do poder de destruição de um vídeo irresponsavelmente planejado desde o princípio para gerar uma polêmica vazia, o que pode ser visto pela arte da capa e o título sensacionalista usados na divulgação. Os resultados, no entanto, repercutem negativamente sobre o trabalho sério de inúmeros pesquisadores e analistas que se debruçam sobre a obra de Jung e de autores pós-junguianos e que merecem o mesmo respeito dado aos psicanalistas ou a qualquer outra linha de pesquisa psicológica, cujo fim é sempre a compreensão da alma humana e o tratamento de suas dores. Apesar de sua ampla erudição e empenho na discussão teórica que habitualmente faz em relação a outros temas em seu canal, Dunker deixa de lado critérios éticos concernentes a um pesquisador na tentativa de desacreditar a psicologia analítica através de um expediente tão grosseiro.<br> <br>A escolha de Roudinesco e sobretudo Noll como fontes teóricas foi extremamente descuidada. Este último sabidamente encarava Jung como um adversário pessoal a ser destruído, sendo sua pesquisa bastante questionável. O mínimo que se deve exigir de um pesquisador como Dunker seria ir diretamente ao texto de Jung citado por Roudinesco, em vez de fazer a crítica da crítica. Como criticar um autor que não se leu? Jung era um homem de sua época e, como todos nós, não está livre de falhas e preconceitos; no entanto, espera-se de um professor universitário o mesmo rigor acadêmico que este certamente deve cobrar dos seus alunos na universidade.<br> <br>Sabemos que não se constrói conhecimento selecionando apenas autores que corroboram uma tese já tomada por verdadeira. Na ciência, este equívoco é tão conhecido que possui nome próprio: “viés de confirmação”. Há que se debater com honestidade intelectual e considerando perspectivas históricas e conceituais divergentes, como por exemplo, a oposição entre a ideia de uma psique única para todos (Freud) e aquela em que cada povo possui um solo cultural próprio que determina características psicológicas particulares para cada nação (Jung) – esta última, longe de ser um precedente para o racismo, encontra-se apoiada na Antropologia que se ocupa das especificidades culturais. <br> <br>Vivemos um momento histórico no qual o uso inadequado das redes sociais e o uso ideológico e político das fake news deixaram de ser um problema menor. Todo o poder de repercussão e as implicações éticas do uso das redes não podem passar despercebidos por quem quer que se proponha a ocupar esses espaços. As universidades e os intelectuais que a elas se ligam têm realizado um enorme esforço para combater a onda de obscurantismo que se vale das redes sociais e disparos em massa de mensagens para nivelar por baixo o debate, apelando mais às crenças e medos arraigados do indivíduo do que ao bom senso e julgamento crítico. Seja pela negligência do trabalho da pesquisa das informações e da verificação da legitimidade das fontes, seja pelas intenções questionáveis dos seus autores, lançar afirmações polêmicas sem o devido cuidado teórico da investigação de sua veracidade é imperdoável e enseja intenções não explicitadas.<br> <br>Quem se debruçou longamente sobre os textos junguianos sabe perfeitamente que o espírito desta linha de pesquisa psicológica é radicalmente contrário a toda forma de unilateralidade, seja ela manifesta através de um sujeito singular, seja em movimentos políticos e sociais como Nazismo, Fascismo, Stalinismo, enfim, os “ismos” que Jung critica com veemência em vários textos de suas obras reunidas, publicadas no Brasil pela Editora Vozes.<br> <br>Por isso, repudiamos a associação leviana entre Jung e o Nazismo; o mesmo se estende ao uso inconsequente e irresponsável de relatos da vida pessoal de quaisquer autores, feito, por quem quer que seja, como argumento para atacar as ideias nos textos de uma obra. Este procedimento reforça a perspectiva individualista tão apontada na narrativa junguiana como problemática, por tratar-se de uma força que organiza movimentos totalitários e fundamentalistas centrados na dominação e na exclusão das diversidades, diferenças e da conexão inexorável dos sujeitos com o mundo na sua integralidade. <br> <br>Os pontos equivocados apontados no vídeo merecem ser corrigidos, para que ganhem uma apreciação ética condizente com os esforços de Jung e de todos os que dialogam e trabalham embasados e compromissados com sua obra, inclusive com as revisões e ampliações pós-junguianas. Finalizamos com as palavras do historiador Sonu Shamdasani:<br> <br>“Ocultista, cientista, profeta, charlatão, filósofo, racista, guru, anti-semita, libertador das mulheres, misógino, apóstata de Freud, gnóstico, pós-moderno, polígamo, curador, poeta, falto artista, psiquiatra e antipsiquiatria – do que C.G. Jung ainda não foi chamado? (…) A rapidez de reação indica que as pessoas reagem à vida e à obra de Jung como se fossem suficientemente conhecidas. Entretanto, a própria proliferação de ‘Jungs’ nos leva a questionar se, de fato, todos estariam falando de uma mesma criatura”. (SONU SHAMDASANI, em Jung e a construção da psicologia moderna &#8211; 2005, p.15)</p>



<p><em><strong>Autores</strong></em></p>



<p>Ajax Salvado</p>



<p>Andrea Tubero</p>



<p>Heráclito Pinheiro</p>



<p>Malena Contrera</p>



<p>Paulo Nunes (@jungexplica)</p>



<p>Santina Rodrigues</p>



<p><em><strong>Colaboradores:</strong></em></p>



<p>Aicil Franco (@francoaicil)</p>



<p>Aline Mamede</p>



<p>Anderson Santiago (@asantiagospsi)</p>



<p>Andrea Vistué (@casadejatoba)</p>



<p>Angela Damas (@angela_dammas)</p>



<p>Camila Ribeiro (@camilarcsoares)</p>



<p>Guilherme Scandiucci</p>



<p>Henrique Barçante</p>



<p>Leticia Jacintho (@leticiajacintho)</p>



<p>Luiz Filipi Marques (@luizpsicologoitj)</p>



<p>Marcus Quintaes</p>



<p>Mateus Donia Martinez (@mateusopsi)</p>



<p>Naime A Silva (@naimeapsilva)</p>



<p>Pedro Teixeira Carvalho (@psi.pedroteixeira)</p>



<p>Ramon da Cruz Salgueiro (@minhaqueridainsonia)</p>



<p>Rubia Santiago M. B. Gonzaga</p>



<p>Sonielson Souza(@sonielson_psi)</p>



<p>Tarsila De Níchile(@tnichile)</p>



<p>Vanessa Coutinho</p>



<p>Vânia Kuraim (@van_kuraim)</p>



<p>Walter Mateus</p>



<p><strong><a href="https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLScbpRvqUBLd4obvcuF83yBTl9HNthbbNDTslkTb822tMBAXyw/viewform">Clique aqui, assine, e apoie o manifesto</a></strong></p>
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		<title>Psicologia e epidemias</title>
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		<dc:creator><![CDATA[daniel daniel]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 30 Mar 2021 17:46:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[cura]]></category>
		<category><![CDATA[efeito placebo]]></category>
		<category><![CDATA[Epidemias]]></category>
		<category><![CDATA[Jung]]></category>
		<category><![CDATA[Paulo Nunes]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="size-medium wp-image-3539 alignleft" src="https://instituto-junguiano.local/wp-content/uploads/2021/03/4a62ff719e00381a46ea6d70926506ce-224x300.jpg" alt="" width="224" height="300" srcset="https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2021/03/4a62ff719e00381a46ea6d70926506ce-224x300.jpg 224w, https://www.ijba.com.br/wp-content/uploads/2021/03/4a62ff719e00381a46ea6d70926506ce.jpg 576w" sizes="(max-width: 224px) 100vw, 224px" />A revista “Filosofia”, em sua edição de Julho de 2020, levantou a seguinte questão: “teria o método científico chegado ao seu fim?” O artigo da capa discute os desafios da ciência em situações como a pandemia de coronavírus, quando a dificuldade inerente ao próprio método científico em oferecer resposta imediata a questões emergentes torna o terreno propício para o surgimento do que Jung chamou de “epidemias psíquicas”: teorias conspiratórias, messianismos, panaceias que alastram-se rapidamente e ignorando o bom-senso. Muitos médicos, esquecendo o mandamento hipocrático <em>p</em><em>rimum non nocere </em>(“em primeiro lugar, evitar fazer o mal”), têm mostrado dificuldades em abandonar a persona do salvador e aceitar sua impotência diante da ausência de evidência científica de qualidade que embase terapias medicamentosas contra vírus SARS-CoV2.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Para a Medicina, o tipo de pesquisa considerado “padrão-ouro” para a medição dos efeitos terapêuticos de determinada droga é o ensaio clínico duplo-cego randomizado. Neste modelo, dois grupos de pessoas grandes o suficiente para atender às exigências de representatividade estatística são “randomizados”, isto é, garante-se que em cada um deles existam pessoas de idade, gênero, doenças preexistentes (entre outras variáveis) em igual proporção, para evitar que a predominância de uma característica num dos grupos interfira nos resultados. Um dos grupos receberá a droga proposta como tratamento, desde que esta já tenha sido aprovada em testes preliminares <em>in vitro</em> e em animais. O outro grupo receberá algo inócuo (ou “placebo”) no lugar da droga verdadeira, de modo que, nem quem é tratado, nem quem trata sabe quem recebe a medicação e quem recebe o placebo. Este fator dá o caráter “duplo-cego” da pesquisa, importante para distinguir a ação da substância no organismo dos efeitos psicológicos causados pelo sentimento de receber de alguém um cuidado (“efeito placebo”). Este efeito ocorre mesmo quando o paciente não sabe se está recebendo a droga, mas o médico sabe e transmite-lhe a “esperança” da cura de forma inconsciente.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Diferentemente da pesquisa médico-farmacológica, a pesquisa científica em Psicologia Clínica apresenta uma questão peculiar: na psicoterapia, a intervenção terapêutica e a resposta a ela são bastante individualizadas, por conta do caráter fortemente subjetivo do sofrimento psíquico e principalmente do modo único como cada pessoa responde a ele. Este fator apresenta grandes desafios à generalização dos resultados da pesquisa, que é necessária para a validação do tratamento em uma população-alvo. O desenvolvimento da pesquisa em Psicologia é empírico e de difícil adequação às exigências dos testes que determinam a “eficácia”, termo que se refere ao efeito medido sob condições estritamente controladas, onde o componente humano (mais especificamente, o afetivo) do processo é indesejável e considerado como “variável confundidora”.  O desfecho positivo desejado na intervenção terapêutica é chamado de “efetividade”, isto é: aquele verificado em situações da prática cotidiana (RAMOS, 2019). Isto implica que o “princípio ativo” da psicoterapia não pode ser dissociado do “efeito placebo” sem que se perca sua função ou finalidade. Para Jung:</p>
<p>“O grande fator de cura na psicoterapia é a personalidade do médico. Gostaria de enfatizar novamente que os mais recentes desenvolvimentos da psicologia analítica nos confrontam com elementos imponderáveis da personalidade humana; precisamos aprender a colocar na base a personalidade do médico como um fator curativo ou prejudicial; e agora é necessário sua própria transformação &#8211; a autoeducação do educador” (JUNG, 1966, <em>apud</em> RAMOS, 2019).</p>
<p>A pergunta, aparentemente retórica, feita na revista “Filosofia” já tem sido respondida há algum tempo, no que se chama de paradigma pós-moderno do pensamento científico. Segundo a Doutora em Psicologia Clínica Eloísa Penna:</p>
<p>“O movimento que questiona as bases do pensamento científico moderno e resulta na concepção de ciência pós-moderna é caracterizado pela ‘desdogmatização da ciência’ (Santos, 2000) e suas principais características da pós-modernidade, de acordo com Hauke (2001), são: pluralidade de pontos de vista, diversidade de epistemologias e métodos, aceitação de paradoxos e contradições, inevitabilidade de imprecisão e incerteza, ênfase na relatividade dos parâmetros e na polivalência de significados, concepção de verdade transitória e relativa, valorização do autoconhecimento e, por conseguinte, da subjetividade na aquisição e na produção de conhecimento e integração da individualidade na coletividade” (PENNA, 2005).</p>
<p>Diferentemente da pretensão científica em produzir um conhecimento puramente objetivo, livre da subjetividade humana, “Jung critica a exigência de objetividade que exclui a subjetividade nos métodos científicos, declarando que conhecimento e autoconhecimento são indissociáveis e condicionados pela psique do pesquisador” (PENNA, 2005).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Parte da resposta da sociedade a uma epidemia tão severa pode e deve ser dada pelo método científico tradicional. Mas há um componente, classicamente subtraído da Medicina e das Ciências da natureza em geral, que nenhum estudo de eficácia pode preencher: a dimensão do significado ou sentido da experiência, o valor pessoal dos processos vitais, a reflexão sobre os sentimentos que surgem diante da ameaça do contágio, o medo de morrer precocemente, de perder entes queridos, ou de perder o emprego, ter seu modo de vida desfigurado numa sociedade pós-pandemia, a angústia do confinamento e isolamento social, entre muitos outros. Estes sentimentos se superpuseram às inquietações existenciais preexistentes e nos fizeram buscar desesperadamente algo que desse sentido à nossa existência, ameaçada por um contágio iminente e uma evolução incerta do processo patológico.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A Psicoterapia Analítica nos ensina a encarar o indivíduo enquanto um todo (holos) psicossomático, que não vai ao consultório apenas em busca de uma substância para sanar os males do corpo, mas também busca na pessoa daquele que o atende a escuta para o que lhe molesta a alma, em sua relação consigo mesmo e com o próximo; seus valores, medos, desejos e decisões. Jung encarou as crenças, religiões, os mitos pessoais de seus pacientes como evidências objetivas de uma atividade psíquica vital para seu bem estar, tanto quanto os dados vitais que medimos num atendimento médico (pressão arterial, frequência cardíaca etc.). A saúde das ideias, dos princípios e moral, dos significados, do sagrado e do sentido da vida individual são, por assim dizer, os sinais vitais da alma, só possíveis de serem aferidos na escuta e no acolhimento humano, algo que jamais pode ser substituído por aparelhos, fármacos ou técnicas específicas. Desprezando a variável humana da equação, a Ciência deixa o campo livre para ideologias e fanatismos diversos que conquistarão as massas pelo Calcanhar de Aquiles da cultura contemporânea: a necessidade aguda de um sentido para o frio e impessoal mundo das leis da Física.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>De nada valerá todo o avanço tecnológico em uma cultura que gera cada vez mais insatisfação pessoal e adoecimento psíquico em troca de benefícios cada vez menos evidentes. O economista australiano Richard Dennis reflete, por exemplo, sobre a incapacidade da ciência econômica para trazer valor à sociedade, ainda que seja uma disciplina cujo objeto principal é a riqueza. Em seu artigo “Se Economia é uma ciência, por que ela não está sendo mais útil?”, ele afirma:</p>
<p>“Eu gosto de Economia e penso que ela tem algo a oferecer a qualquer democracia que precise tomar decisões duras. […] Mas nenhum economista pode nos dizer em que tipo de sociedade queremos viver, quanto do nosso meio ambiente queremos proteger ou até em que tipo de casa, deveríamos viver. Economistas sabem o preço de tudo e o valor de nada. Valores dependem inteiramente de nós” (DENNISS, 2019; tradução nossa).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Denniss concorda com Jung, que diz:</p>
<p>“Tem-se a impressão de se poder fazer qualquer tipo de ciência apenas com o intelecto; mas isto não ocorre com a Psicologia, cujo objeto exorbita os dois aspectos que nos são transmitidos através da percepção sensorial e do pensamento. A função de valor, ou seja, o sentimento, constitui parte integrante da orientação da consciência; por isso, não pode faltar em um julgamento psicológico mais ou menos completo, pois de outra forma o modelo do processo real a ser produzido seria incompleto. É inerente a todo processo psíquico a qualidade de valor, isto é, a tonalidade afetiva. Esta tonalidade indica-nos em que medida o sujeito foi afetado pelo processo, ou melhor, o que este processo significa para ele na medida em que o processo alcança a consciência. É mediante o ‘afeto’ que o sujeito é envolvido e passa, consequentemente, a sentir todo o peso da realidade. Esta diferença corresponde, portanto, mais ou menos àquela que existe entre a descrição de uma enfermidade grave que se lê em algum livro e a doença real que o paciente tem. Psicologicamente, não se possui o que não se experimentou na realidade. Uma percepção meramente intelectual pouco significa, pois o que se conhece são meras palavras e não a substância a partir de dentro” (JUNG, 2013).</p>
<p>Nenhuma sociedade que ignore a necessidade do desenvolvimento psíquico, através da autoeducação, do autoconhecimento, está livre de um retorno “inexplicável” do obscurantismo, que ameaça destruir com um só golpe todo o progresso científico até então conquistado.</p>
<p>&nbsp;</p>
<hr />
<p><strong>Paulo Nunes &#8211; </strong>Médico graduado na UFBA em 2005. Psicoterapeuta Junguiano pós-graduado no IJBA. Mestrando em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Contato: (79) 99859-1753 (Telefone e whatsapp).  Instagram.com/paulonunes181</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>REFERÊNCIAS</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>DENNISS, R. If economics is a science, why isn&#8217;t it being more helpful? Disponível em <a href="https://www.theguardian.com/commentisfree/2019/oct/30/if-economics-is-a-science-why-isnt-it-being-more-helpful">https://www.theguardian.com/commentisfree/2019/oct/30/if-economics-is-a-science-why-isnt-it-being-more-helpful</a>, último acesso em 21 de junho de 2020.</p>
<p>Filosofia Ciência e Vida, Ed. 162. São Paulo, EditoraEscala, 2020.</p>
<p>JUNG, C.G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 10 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>
<p>PENNA, Eloisa M. D.. O paradigma junguiano no contexto da metodologia qualitativa de pesquisa. Psicol. USP [online]. 2005, vol.16, n.3, pp.71-94. ISSN 0103-6564.  <a href="https://doi.org/10.1590/S0103-65642005000200005">https://doi.org/10.1590/S0103-65642005000200005</a>, último acesso em 13 de março de 2021.</p>
<p>RAMOS, D. G. Efetividade versus eficácia: questões desafiadoras na avaliação de técnicas psicoterapêuticas. In Kublikowski, I; Kahhale, E.M.S. P. e Tosta, R.M. (orgs) &#8211; Pesquisas Em Psicologia Clínica: Contexto E Desafios. Sāo Paulo: Educ, 2019, p. 47 &#8211; 63. Disponível em <a href="https://www.pucsp.br/educ/downloads/Pesquisas_em_Psicologia.pdf">https://www.pucsp.br/educ/downloads/Pesquisas_em_Psicologia.pdf</a>.</p>
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