Rapunzel

15/03/2018

O desejo de ser amada com exclusividade faz a mulher mãe manter a filha aprisionada ao seu mundo até que esta desperte para sua completude a partir do amor por um homem que traduza seus anseios mais profundos. Essa é a mensagem do conto de fada Rapunzel.

       

Nossos antepassados criavam histórias enquanto observavam a natureza e, com sua pouca consciência, projetavam nelas conteúdos que pertenciam a toda a humanidade. Assim, os antigos gregos personificavam acontecimentos geofísicos, como os raios, trovões e terremotos, na figura de Zeus, concebido como um deus poderoso que governava o Olimpo, lugar onde habitavam as divindades greco-latinas.

       

Ao analisarmos essas histórias, mitos ou contos de fadas, passamos a conhecer as conexões ocultas que nos levam a conduzir a vida por caminhos indesejáveis quando não estamos conscientes delas.

       

Essa análise é feita de forma semelhante ao modo como trabalhamos com os sonhos dos clientes em psicoterapia. Exploramos as imagens fazendo analogias até encontrarmos sentido para o sonhador e ajudá-lo nas decisões de acordo com o seu espírito. Ao fazermos dessa forma, com os mitos e contos de fadas, compreenderemos o homem coletivo que vive em nossa alma e isso nos ajudará a nos reconectar com a natureza, um ato de religare, palavra latina que significa religação e deu origem à expressão "religião".

       

Rapunzel é um conto de fada que começa com uma mulher grávida tendo desejos de comer raponsos – em alemão, rapunzel – plantados no quintal de uma bruxa. Para atender a esposa, o marido imprudentemente entra na propriedade alheia e rouba esses vegetais. Como o desejo nunca sacia, esse ato é repetido pelo homem até que, na terceira vez, ele é flagrado. No confronto com a bruxa, o futuro pai amedrontado lhe suplica ser perdoado e esta o atende mediante a promessa de ele lhe dar a filha logo ao nascer.

       

Tão logo nasce a criança, a bruxa aparece e a chama de Rapunzel, levando-a consigo. Ela torna-se uma bela garota de cabelos longos e dourados que lhes escorrem pelas costas. Ao fazer 12 anos, a menina é levada para a floresta e aprisionada no alto de uma torre em um quarto sem portas e sem acesso por escadas, com apenas uma janela por onde joga as tranças quando solicitada pela bruxa quando esta quer ter acesso à filha. Essa foi a forma de tornar o mundo de Rapunzel restrito ao egoísmo dessa mãe que quer a garota para si e alimentar seus desejos também. Entenderemos aqui algumas dessas tramas ocultas do nosso psiquismo. Notamos um pai desistindo da filha e deixando a mãe viver só para essa criança. Ao se eximir do papel paterno, deixa a filha ser vítima da possessão materna. Essa condição criará pouca oportunidade para essa filha se abrir para o mundo e libertar-se do universo infantil. Tudo isso acontece devido a um pai que se enche de temores e não consegue confrontar o aspecto “bruxa” de sua esposa.

       

Uma menina de 12 anos tem o seu corpo em mudanças físicas para tornar-se mulher e completar o ciclo. Rapunzel, em sua natureza, expressou o erotismo orientado para uma mãe que também fez o papel de pai, com o seu longo “falo”, que a aprisionou.

       

Cabelos saem da cabeça, assim como as ideias. Rapunzel e seus longos cabelos tornam-se uma extensão que liga o corpo da mãe ao seu, tal qual o cordão umbilical que simbolicamente deixa a filha aprisionada até que o amadurecimento exija seu nascimento para a vida e essa ligação simbiótica seja interrompida.

       

Um dia, o canto melodioso de Rapunzel atraiu um príncipe que cavalgava no bosque. Extasiado pela voz, ele foi procurá-la até descobrir a forma como a bruxa conseguia subir na torre. O príncipe a imitou e teve acesso a Rapunzel subindo pelas tranças como fazia sua mãe bruxa. Ao vê-la, apaixonou-se por ela e não demorou a pedi-la em casamento.

       

O príncipe, como o pai de Rapunzel, também rouba o que pertence à bruxa, o afeto. O feminino, mesmo aprisionado a uma mãe dominadora e fálica, sentiu sua “alma” espelhada no príncipe. Este reencarnava tudo que nela faltava, como a natureza masculina ausente em sua infância. Chamamos “alma” ao aspecto interior de nossa relação com o mundo dos objetos psíquicos. Dessa forma, a voz e os cabelos serviram de ponte para esse encontro.

       

No entanto, tão logo encontrou a bruxa, Rapunzel traiu a si mesma revelando que o filho do rei era mais leve do que ela. A mãe, que só a queria para si, também a fez sentir o peso dessa relação ao comparar com a leveza do príncipe. A bruxa revela: – Pensei que tivesse isolado você do mundo e, mesmo assim, você me enganou. Enrolou seus cabelos e cortou as belas tranças, abandonando a garota no deserto. Esperou o príncipe e o surpreendeu derrubando-o da torre e deixando-o cego a perambular pelo mundo.

       

Vagando pelo mundo, na aridez do deserto, ele escuta a voz que cantava uma linda canção e a encontra. Nesse encontro, abraçaram-se e suas lágrimas desfizeram a cegueira do príncipe para que agora enxergassem um ao outro.

       

Rapunzel viveu a aridez do deserto de sua vida do mesmo modo como muitas mulheres que julgam ter perdido sua beleza e feminilidade por doença, idade ou acidente, até que encontram outros valores em seu íntimo e nascem para a vida, pois finalmente a mãe negativa de sua psique a libertou cortando “o cordão umbilical” que a prendia na impossibilidade de amar. É nesse deserto que pessoas que se amam estão jogadas, perdidas, sem “enxergarem” um ao outro, envolvidas em suas crenças e idealizações de beleza até que possam encontrar-se e enfim experimentarem um amor amadurecido e mais forte.

 


Carlos São Paulo – médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana.

carlos@ijba.com.br  / www.ijba.com.br

 

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