QUANDO CULPAMOS O DESTINO

08/07/2020

 

 

A vida atira-nos como uma pedra,

e nós vamos dizendo no ar: “Aqui me vou mexendo”.

(Fernando Pessoa)

 

 

Sina é a parte da nossa vida que está predeterminada. Destino é o resultado do que fazemos com a nossa vida, incluindo a nossa sina. Esta é a nossa proposição a ser explorada neste artigo.

 

1. CONTINGÊNCIAS DA VIDA

 

É um fato incontestável que somos constantemente subjugados pelos caprichos da vida, estando submetidos a um império de contingências que fogem do nosso controle. Como exemplos óbvios, não tivemos a oportunidade de escolher os nossos pais, a nossa nacionalidade, a cor de nossa pele, o nosso DNA, a nossa vocação, os nossos talentos naturais, as nossas limitações físicas e mentais. Pensando bem, nem mesmo o nosso nome foi de nossa escolha (nem mesmo os eventuais apelidos que nos foram atribuídos).

 

Há também inúmeras outras circunstâncias externas que direcionam a “roda-viva” da nossa vida que não contaram com nossa determinação, como ao sermos envolvidos num acidente de carro em que não tivemos culpa, sermos assaltados em situações que não apresentavam condições inerentes de risco, vivenciarmos um acidente natural (terremoto, tsunami, enchente, incêndio, explosão, deslizamento de terra), não mencionando o mais temido dos eventos com que todos nós seremos um dia envolvidos – a morte natural.

 

Todos os eventos acima compartilham de uma importante característica comum: eles não contaram com nossa deliberação, ou seja, não tiveram participação de nossa vontade nem foram consequências de nossas decisões, bem como não poderiam ter sido por nós alterados.  

 

No entanto, existem outras circunstâncias que também direcionam nossa história de vida através de eventos que, apesar de não intencionados, são consequência de nossa deliberação consciente. Por exemplo, podemos sofrer graves ferimentos num acidente de carro por habitualmente dirigirmos sem o cinto de segurança. É óbvio que também podem ocorrer eventos que resultaram de nossa deliberação consciente e intencionada, como quando conseguimos passar num concurso de emprego muito disputado após alguns anos de muita preparação por nossa parte (resultado que, apesar de nosso esforço, poderia ter não ter ocorrido). Notemos que, para o bem ou para o mal, ambos eventos poderiam ter sido alterados por nós.

 

Em adição, há ainda circunstâncias que são direcionadoras dos rumos de nossa vida através de eventos resultantes de nossas atitudes impulsionadas por processos pessoais internos que contaram com nossa deliberação inconsciente, como quando tendemos a replicar ou a compensar a história de nossos pais em nossa própria história, eventos que também poderiam ter sido eventualmente alterados caso tivéssemos consciência dessa situação e envidássemos esforços para despotencialização desses impulsos inconscientes.

 

2. MITOS DA PREDESTINAÇÃO

 

Na Grécia antiga considerava-se como de grande relevância os ditames da vida que nos são impostos sem contar com nossa anuência, intenção ou mesmo desejo. Nessa condição, os helenos acreditavam que suas vidas eram predestinadas pela moira (o “destino cego” - personalização da sina a que todas as pessoas estariam sujeitas) (1)

 

O mito em que esse tema era encenado tinha como protagonistas três deusas, conhecidas como as Moiras ou Parcas (as “temíveis fiandeiras”), que detinham o poder de traçar os rumos das almas já no momento de sua concepção: Láquesis era a responsável por determinar o lote, a porção, a parte ou o quinhão dos acontecimentos inevitáveis para aquela alma, Cloto ratificava essas determinações e Átropos tecia o fio da vida da forma como foi predeterminada.

 

O poder das Moiras era tal que se considerava que as mesmas tinham maior participação na determinação na vida dos seres humanos do que mesmo Zeus, o deus supremo do Olimpo, o que explica o fato de uma vez determinada a sina de uma pessoa, nem Zeus podia modificá-la, levando Ésquilo a registrar seu comentário na peça teatral “As Eumênides” que as Parcas eram “honradas em toda parte entre os deuses”. Ou seja, Zeus reinava supremo no Olimpo, mas as Moiras eram as divindades que ditavam o que realmente acontecia aos mortais.  

 

Platão, em sua obra “A República”, nos conta esse mito grego numa versão um pouco modificada, que ficou conhecida como o “Mito de Er”. Sua trama discorre sobre um guerreiro supostamente morto em batalha, mas que ressuscita no décimo segundo dia com a incumbência de relatar aos homens o que sua alma presenciou nessa passagem pelo além:

 

Referendando o “Mito de Er”, o neoplatônico Plotino (século III d.C.) registra que, na determinação das condições humanas, porção e escolha participam antes do fuso da Necessidade ser girado. Depois disso, somente o destino definido através do fuso será válido desde que as condições escolhidas estarão irremediavelmente fixadas, contando com a participação do “espírito guardião” (daimon) para a sua consecução. (2)

 

Ainda bem antes de Platão, podemos encontrar passagens de Homero em sua “Ilíada”, que referendam a forte crença dos helenos antigos na predestinação das vidas dos homens pelos deuses. Dirigindo-se à sua aflita mulher Andrômaca, Heitor, filho do rei de Troia Príamo, assim a tranquiliza quando partia para a frente de batalha:

Numa passagem mais adiante da “Ilíada”, encontramos a mãe de Heitor Hécuba, dirigindo-se a Príamo sobre o resgate do corpo de Heitor, após este ter morrido em batalha contra Aquiles que, por vingança, fica de posse do corpo daquele príncipe de Troia:

 

 Ainda nesse contexto, Aquiles, ao encontrar Príamo quando este chega para tentar resgatar o corpo de seu filho Heitor e como que consolando seu inimigo rei de Troia, assim se expressa:

Cabe agora ressaltar que em adição à crença em moira, os gregos antigos também acreditavam na úpermoira (uma “fatalidade sobre a fatalidade”), uma sina que as pessoas atraíam para si mesmas, geralmente através de atos de hýbris (comportamento excessivamente arrogante daquele que se apropria daquilo que é dos deuses), e que, por não ter sido decretada pelas Parcas, poderia ter sido evitada. Corroborando essa crença dos helenos, o poeta latino do início da Era Cristã Propércio relata com indignação que “nós artificialmente ampliamos a desgraça da fortuna”.

 

Assim, através da crença na úpermoira, os gregos intuíam que os males que nos afligem não podem ser debitados somente na conta dos deuses, desde que através de nossa insensatez, atraímos uma parte das desgraças de que poderíamos ter sido poupados. As tragédias de Sófocles ilustram bem essa situação, peças teatrais nas quais, segundo crítica de Junito Brandão, o herói é um “concausante” do destino, isto é, o destino atua, mas o homem concorre para que o mesmo se realize. (3)

 

É oportuno ainda nesse contexto retornar a Homero, ilustrando seu registro na “Odisseia” de uma reunião de Zeus com sua corte em que este se refere da seguinte maneira em relação às queixas dos mortais: “Vejam o quão prontos estão os mortais para culpar os deuses. É de nós, dizem eles, que vem o mal, mas eles, deles mesmos, através da sua cega insensatez têm sofrimentos além do que é determinado”.

 

3. CARMA E PROVIDÊNCIA DIVINA

 

Na mentalidade moderna foi enfraquecida a crença em uma predeterminação do nosso futuro, não somente por termos deixado de acreditar nas forças irracionais da vida, mas pelo fato do pensamento disseminado pelas filosofias orientais e pelo pensamento judaico-cristão terem suplantado o pensamento grego antigo nesse aspecto.

 

Na perspectiva oriental apregoada pelo hinduísmo e pelo budismo, a ideia do carma substitui a crença na sina pela crença de que a vida da pessoa reflete as consequências morais e espirituais da conduta de sua alma em vidas passadas. De certa maneira, existe um paralelo entre o conceito grego de úpermoira e o oriental de carma desde que ambos apregoam a possibilidade das condições adversas na vida de uma pessoa ter sido atraída pelas próprias atitudes inadequadas desta.  

 

De outra forma, a perspectiva calcada no pensamento judaico-cristão pode ser ilustrada através do “Eclesiastes” (Antigo Testamento) onde encontramos esta ideia de que o futuro pertence a Deus, desde que só ele conhece de antemão todos os momentos da vida por ter a visão total do projeto que o mesmo realiza na história: “Procure compreender a obra de Deus, porque ninguém endireita o que ele encurvou. Esteja alegre no dia feliz, e no dia da desgraça procure refletir, porque um e outro foram feitos por Deus, para que o homem nunca possa descobrir nada do seu próprio futuro”.

 

No pensamento cristão pós-bíblico (Orígenes, Tertuliano, Clemente de Alexandria, Agostinho) refuta-se a ideia da sina por esta desconsiderar a ideia do livre-arbítrio, tendo sido posteriormente desenvolvida a crença na Providência divina como um propósito para a vida da pessoa, propósito este que não seria decorrente de forças irracionais da sina mas de um plano de Deus, dogma que seria assim traduzido por Boécio, teólogo romano do século V: “O governo do mundo não é confiado à cegueira do acaso, mas à razão divina”.

 

Nesse contexto, mas já no século XIV, o frade franciscano Guilherme de Ockham nos adverte que desde que o homem não é capaz de conhecer nenhum desígnio divino, este tem o dever de se abandonar a Deus, isto é, ao destino. Quatro séculos mais tarde Voltaire, filósofo iluminista francês, também nos alerta que pedir algo a Deus seria um ato de desmedida pretensão desde que pressupõe que o Todo-Poderoso possa em seguimento a uma singela oração humana modificar seus desígnios eternos, os quais já seriam por natureza mais do que perfeitos. Bem depois, a filósofa francesa Simone Weil nos lembra que “Cristo prescreveu contemplar e imitar os lírios e as aves, por sua indiferença frente ao futuro, por sua docilidade frente ao destino...”.

 

Apesar da ideia de a sina ter sido rejeitada pela teologia cristã, no Novo Testamento encontram-se inúmeras passagens sugestivas da crença em circunstâncias na vida que são inexoráveis, flertando com o conceito pagão de sina. Um dos mais significativos desses eventos lá registrados seria aquele relacionado com a cruz de Cristo cuja inevitabilidade indicaria uma predestinação que Jesus gostaria de ter podido evitar, mas sabendo que não deveria nem poderia fazê-lo, foi ao encontro de sua crucificação com resignação, e o que era sina tornou-se destino.

 

Tal concepção é ilustrada de forma ficcional por Níkos Kazantzákis no seu romance “A última tentação de Cristo”, o qual foi posteriormente transformado em filme por Martin Scorsese. A maior tentação de Jesus, o carpinteiro, é viver uma vida comum, sem problemas, confortável, casado, com filhos. Tão melhor que um compromisso no Gólgota. Sua voz interior, o vocatus, o chama para um lugar diferente. Sua última tentação, ao vivenciar a solidão e ser abandonado pelo pai, é renunciar à sua vocação e tornar-se uma pessoa comum. Quando ele imagina sua vida dessa maneira, compreende que teria traído a si mesmo, traindo sua individuação. Ao dizer sim ao seu vocatus, Jesus define o seu destino tornando-se o Cristo. (4)

 

Outro exemplo de alusão bíblica à sina pode ser observado no evangelho segundo João quando Jesus encontra um homem que nasceu cego e seus discípulos perguntam ao mestre se a razão para essa cegueira teria sido um pecado cometido pelo homem ou por seus pais.

Já no Antigo Testamento encontram-se passagens que indicam a crença de que o sofrimento de uma pessoa seria um castigo consequente de algo errado feito por ela. Desde que Deus seria responsável por todos os acontecimentos (bons e maus) no mundo e não havia a ideia disseminada do demônio na Escritura Judaica, se o mal acontecia com uma pessoa e sendo Deus justo, então essa pessoa deveria necessariamente ter cometido uma infração moral da vontade de Deus – um pecado, situação esta bem retratada no “Livro de Jó”.

 

Ainda em um período do Antigo Testamento, houve adicionalmente a crença que os pecados cometidos pelos pais poderiam ser castigados em sucessivas gerações de uma família, convicção que era também compartilhada ainda no Período Clássico da Grécia. Entretanto, os profetas bíblicos posteriores contestaram essa crença, estabelecendo que cada pessoa seria responsável por suas próprias infrações da lei divina. 

 

É fato que nos tempos contemporâneos não se dá mais relevância à possibilidade de nossa vida estar moldada por uma sina decorrente de forças irracionais ou mesmo por um plano divino, fazendo com que não reflitamos muito sobre essas questões. Como consequência, encontramos grandes dificuldades em desenvolver a atitude psicoespiritual adequada para enfrentar as vicissitudes inexoráveis da nossa existência.

 

4. SINA E DESTINO

 

Encontramos grande dificuldade em discernir as diferenças das circunstâncias de nossa vida que geram consequências evitáveis daquelas provocadoras de consequências inevitáveis e, dessa forma, tendemos a comumente debitar na conta do que chamamos de “destino” o direcionamento fundamental do enredo de nossa história pessoal.

 

Também observamos de uma forma geral o uso de outros termos como substitutos de destino, tais como: sina, fatalidade, fado, fortuna, sorte, azar, acaso, providência. De uma forma sagaz, Lepargneur ironiza que Sorte seria a interpretação de Destino por um otimista; Providência por um crente; Acaso por um indiferente; Azar por um pessimista. (5)

 

Entretanto, para melhor entendermos a funcionalidade geral desses fenômenos responsáveis pelos eventos direcionadores do enredo de nossa vida, faz-se necessário discriminá-los considerando-se essencialmente a sua eventual inevitabilidade. Assim, chamaremos de:

  

Desse modo, podemos postular que o termo “destino” contempla os eventos decorrentes de todas as circunstâncias de nossa vida, qual seja, aqueles que não contaram com a nossa deliberação bem como aqueles que contaram com a participação de nossa deliberação (consciente ou inconsciente), esclarecendo assim o pressuposto fundamental deste artigo: “Sina é a parte da nossa vida que está predeterminada. Destino é o resultado do que fazemos com a nossa vida, incluindo a nossa sina”.

 

Sina como Destino Não Deliberado

 

No cenário de incerteza e inconstância das contingências da vida atuantes nas questões humanas, as quais podem corriqueiramente transformar-se em condições completamente opostas, o filósofo francês Michel de Montaigne (século XVI) faz uma analogia entre as tempestades que parecem ser dotadas de malícia contra a imponência avassaladora de nossos prédios e os espíritos no além que parecem invejar as grandezas aqui de baixo, concluindo que “a maior parte dos eventos dependem da fortuna, a qual não será governada por razões humanas nem se sujeitará à prudência”. (6)

 

Ainda no mesmo enquadramento de ideias, Nietzsche, no limiar do período da Filosofia Contemporânea, assim nos instiga em “Assim Falou Zaratustra”: “Acima de todas as coisas, estende-se o céu da Contingência, o céu da Inocência, o céu do Acaso, o céu do Capricho”, provocação que compartilha da angústia de Fernando Pessoa ao desabafar: “Apavora-me a tirania suprema que nos faz dar passos não sabendo de que acontecimento a incerteza de mim vai ao encontro”. (7)

 

Já era possível se apreender a vigência da crença sobre a influência da sina na determinação da vida humana ainda no zeitgeist do Período Clássico da Grécia Antiga, conforme registros observados em diversas peças dos grandes Poetas Trágicos Ésquilo, Sófocles e Eurípides, tais como:

Regredindo ainda mais no curso da História, retornamos ao Período Homérico da Grécia Antiga para trazermos à cena Sísifo, personagem constante da “Ilíada” e da “Odisseia”, o qual foi qualificado por Junito Brandão como “o mais astuto e inescrupuloso dos mortais”. (8) Tendo em mente o mito deste que, por ter enganado aos deuses, foi condenado a perpetuamente rolar um bloco de pedra até o cume do morro somente para vê-lo rolar de volta ao sopé, somos provocados a questionar sobre até que ponto estamos aprisionados à uma vida predeterminada ou, por outra via, até que ponto temos algum grau de liberdade, mesmo considerando os ditames da sina.

 

Ponderando sobre o questionamento acima, concluímos ser irrefutável que no conjunto das circunstâncias da vida encontram-se aquelas que não podemos alterar por não termos autonomia para fazê-lo. Estas independem de nossa volição e deliberação, configurando o que aqui estamos caracterizando como sina. Por exemplo, como já mencionado, nascemos com um código genético definido, de pais não escolhidos por nós, num contexto cultural específico, com uma inclinação vocacional distinta, com uma constituição física e mental inatas. Somos também sujeitos a diversas circunstâncias externas que não são decorrentes de nossas decisões, como quando sofremos os efeitos de uma pandemia ou de uma “bala perdida” na rua.

 

Entretanto, há diversas outras condições da vida que estão sujeitas à nossa interferência, oferecendo-nos uma importante parcela de participação no direcionamento de nossa história e nos conferindo alguma dignidade como seres minimamente autônomos que não atuam simplesmente como meros autômatos sujeitos aos caprichos de um força maliciosa, assunto para o qual direcionamos agora a nossa atenção.

 

Destino por Deliberação Consciente

 

Conforme enfatiza Hollis, destino não é sinônimo de sina. O destino inclui o nosso potencial, as nossas possibilidades inerentes, que podem ou não vir a se realizar. O destino convida à escolha. Destino sem escolha é apenas duplicação da sina. (9)

 

Parte do que seria simplesmente atribuído por nós como resultado de nossa sina (destino sem escolha, ou “destino cego” como chamado pelos gregos antigos) poderia ter sido verdadeiramente alterado de forma consciente para fornecer uma direção mais plena para a nossa vida. O destino representa um campo expandido de resultados, abarcando não somente as determinações da sina, mas também aquilo que é passível de se tornar realidade a partir de nossas atitudes. 

Destino por Deliberação Inconsciente

 

Como já antecipado, também no campo de domínio do destino encontra-se a nossa história pessoal. Esta poderá estar sendo encenada através de um script que não foi essencialmente escrito por nós, o qual registra reflexos adaptativos que desenvolvemos como respostas às contingências da vida, fenômenos psíquicos denominados de complexos pela psicologia profunda. Esses processos pessoais internos podem estar impulsionando atitudes em nós que estão direcionando os rumos de nossa vida sem contar com a nossa participação consciente.  

Expandindo nessa linha de argumentação, Murray Stein registra que “tipicamente, uma pessoa jovem vive com a ilusão de possuir muito maior livre-arbítrio do que é psicologicamente verdadeiro. Todas as limitações à liberdade parecem ser impostas de fora, da sociedade e de regulamentações externas, e percebe-se muito pouco até que ponto o ego é controlado em igual medida de dentro. Uma reflexão mais atenta revela que somos tão escravos da nossa própria estrutura de caráter e demônios interiores quanto da autoridade externa... O destino é tecido de dentro, assim como ditado de fora”. (10)

 

Também criticando nossa ilusão de sermos possuidores de um  poder irrestrito de escolha, Eckart Tolle alerta que só há verdadeiramente opções de escolha quando existe um elevado grau de consciência, estado que exige a nossa desidentificação com os padrões condicionados da mente que nos obrigam a pensar, sentir e agir de determinadas maneiras. (11)

 

Com maturidade suficiente e mesmo que sob intensa relutância, poderemos reconhecer que muitas de nossas escolhas pregressas decorreram de um limitado campo de visão, condição denominada pelos gregos antigos de hamartia (“visão ferida” que nos faz “errar o alvo”, fazer a coisa errada). (12)

 

Os helenos intuíam que havia uma analogia natural entre um arqueiro errar o alvo com sua flecha e um ser humano desviar-se da trilha correta na sua vida – a inabilidade do arqueiro em atingir o alvo residiria numa falha do caráter de sua consciência. Essa concepção parece já ter sido de alguma forma compartilhada em período anterior pelo filósofo chinês Confúcio ao dizer que “quando um arqueiro erra o centro do alvo ele dá meia volta e procura pela causa do erro nele mesmo”.

 

Aqui se vê uma relação direta entre “errar o alvo” e inconsciência. Permanecer no escuro sem o devido conhecimento sobre si mesmo e sobre as circunstâncias da vida nos faz incorrer em hamartia, condição passível de ser superada somente através da expansão da consciência. (13)

 

Forças inconscientes e reações reflexas em nós tornam-se a lente através da qual fazemos escolhas que naturalmente ocasionam suas respectivas consequências. Nos tornamos prisioneiros daquilo que não conhecemos sobre nós mesmos, ou por outra, podemos ser movidos pelo que não compreendemos a nosso respeito, permanecendo a serviço do passado, situação que nos remete a William Faulkner ao dizer que “o passado não morreu; ele não é nem mesmo passado”.  

 

Embora a mente consciente mantenha a crença de que está vendo as coisas claramente, na realidade são esses fenômenos psíquicos – os complexos - em ação no nosso inconsciente que, se nada for feito a respeito, estarão determinando uma importante parcela do nosso destino que poderia ter se desenrolado de uma forma mais adequada. Sem uma boa medida de consciência, não conseguimos lidar com essas questões da nossa história pessoal que nos põem a serviço do passado.

 

Ficamos prisioneiros de importantes condições mutáveis de nossa vida se não questionarmos os padrões prevalentes nela e não descobrirmos de que comandos silenciosos do nosso inconsciente somos reféns. Em suma, somos obrigados a questionar sobre os scripts a que nossas escolhas estão inconscientemente se sujeitando. Quanto mais estreita for a perspectiva da nossa consciência, mais estaremos corroborando com o vaticínio de Jung de que aquilo que é negado internamente em nós se torna parte do nosso destino.

 

As palavras sina ou fatalidade não fazem parte do vocabulário usualmente empregado por Jung em sua obra, tendo as mesmas sido usadas poucas vezes em seus livros e, mesmo assim, em situações sem maiores destaques. Ressalta-se, porém, que Jung considerava a forma como enfrentamos as circunstâncias predestinadas da vida – aqui por nós referidas preferencialmente como sina - como de grande relevância para o processo de individuação, qual seja, o processo através do qual se busca a plenitude humana através do desdobramento da essência da pessoa.

 

Numa descrição objetiva, individuação é a imposição evolutiva de nos tornarmos quem somos o mais completamente que formos capazes, dentro das limitações determinadas pela sina. Nessa perspectiva, Hollis retorna para nos alertar no seu “A passagem do meio”: “A não ser que enfrentemos conscientemente nossa sina, ficamos presos a ela. Precisamos separar quem somos daquilo que adquirimos, nosso senso do eu de facto porém falso. ‘Eu não sou o que me aconteceu; eu sou o que escolhi tornar-me’. Precisamos dizer conscientemente essa frase todos os dias para que possamos nos tornar mais do que prisioneiros da nossa sina”.

 

Assim, o fundamental nesse processo de individuação não reside em nossa sina em si, desde que todos nós somos por ela contemplados, mas em nossa atitude perante a mesma. Ao recuarmos no enfrentamento de nossa sina, nossa alma pode sofrer danos como consequência de desprezarmos aquela porção de nossa vida que foi predestinada. Nessa condição, Edinger explicita que o processo de individuação é assistido pela sina, que atua como uma necessidade da qual não podemos fugir e que somente com o auxílio dela é que nossa personalidade consegue se consolidar. (14)

 

Poderíamos ilustrar as duas perspectivas aqui tratadas, destino e complexos, através desta instigante reflexão por Lepargneur em seu “Destino e identidade”: “Em resumo, vivemos com coisas decididas no céu e chamamos isto destino (ou vocação), e vivemos com coisas decididas na terra e chamamos isto de condicionamentos: o resto seria liberdade.”   

 

Amor Fati como Acolhimento da Sina

 

Conforme anteriormente colocado, o conceito de destino aqui trabalhado contempla os eventos de todas as circunstâncias de nossa vida, ou seja, aqueles que não contaram com a nossa deliberação bem como aqueles com contaram com a nossa deliberação (consciente ou inconsciente), pressuposto teórico que nos levou à postulação também já explicitada de que “sina é a parte da nossa vida que está predeterminada. Destino é o resultado do que fazemos com a nossa vida, incluindo a nossa sina”. Assim sendo, aqui se destaca a relevância de devotarmos especial atenção para a forma como lidamos com a nossa sina.    

 

Ao nos falar sobre as duas regras fundamentais da vida ética nos poemas homéricos, Reale menciona a primeira como sendo “ouvir a palavra dos deuses”, e a segunda, “aceitar a sorte e o destino que cabe a cada um, qual que ele seja, enquanto ele é desejado pelos deuses”. Assim, para o homem homérico realizar-se plenamente, este deveria aceitar o querer dos deuses, caso contrário caminharia para a ruína inevitável. (15)

 

A vigência desses preceitos éticos pode ser ainda claramente constatada alguns séculos mais tarde em peças teatrais dos poetas trágicos Sófocles e Eurípides, tais como:

 

O acolhimento da sina de uma pessoa era denominado pelos antigos de amor fati, expressão latina que significa “amor ao fado” (“fado” como “fatalidade” ou “sina”), cujo conceito, anteriormente adotado pelos estoicos e muito depois também empregado por Nietzsche, contempla a aceitação integral da vida mesmo em seus aspectos mais cruéis e dolorosos.

 

Os estoicos tinham grande respeito por Fortuna, a deusa romana da sorte, a qual tinha santuários espalhados por todo o império e era popularmente considerada a controladora do destino dos seres humanos, sendo vista como uma mistura apavorante e aleatória de generosidade, capricho e malícia. (16)

 

Sêneca, filósofo que foi preceptor do Imperador romano Nero (século I d.C.), resume de forma sagaz o pensamento estoico nesse aspecto ao dizer que “não há nada que Fortuna não ouse fazer... o destino conduz quem quer e arrasta quem não quer”, sendo complementado no século seguinte por outro famoso estoico, o imperador Marco Aurélio: “Para a natureza que oferece e toma de volta, todo aquele que é instruído e modesto diz: ofereça o que for de tua vontade e toma de volta o que for de tua vontade... aceite aquilo que lhe acontece como foi tecido com o fio do seu destino, pois nada seria mais apropriado”. (17)

 

Como ilustração da perspectiva de acolhimento da sina, podemos imaginar que uma pessoa com um traço depressivo inato irá certamente experienciar essa probabilidade genética ao longo da sua vida. Porém, a forma como a pessoa vai lidar com esse traço poderá variar dentro de um vasto espectro de possibilidades que transita entre o acaso (ficar simplesmente sujeito à situação) e a escolha (lidar da melhor forma possível com a situação). Outra pessoa pode apresentar uma tendência inata à adição, mas por determinação própria escolher seguir um outro caminho. (18)  

 

A maneira como o indivíduo integra, compensa ou sucumbe a esse traço depressivo, ou lida com a tendência ao vício, fica à sua disposição. Suas possíveis atitudes em face dessas características naturais estão relacionadas com o que se chama de caráter, palavra derivada do grego kharakter, com o significado original de um instrumento de marcar, gravar. Assim, haveria elementos na nossa célula psíquica que seriam “marcados” na subestrutura da personalidade - a personalidade seria uma imagem de nós mesmos que projetamos para o mundo como uma maneira de nos mostrarmos para os outros, conceito esse relacionado com o que a psicologia profunda define como persona.  

 

Apesar do caráter poder ser de certa maneira desenvolvido ou modificado, todos nós temos características inerentes que o definem. Quando vivemos de acordo com determinados princípios, mesmo em situações difíceis, desgradáveis ou desvantajosas, desenvolvemos a força do caráter. A atitude do indivíduo em relação à sua sina através de um enfrentamento corajoso, se a sina for sombria, ou com humildade, se a sina for benevolente, irá contribuir com o reforço da fibra do seu caráter.    

 

Referindo-se à intuição de Heráclito de que “o caráter de um homem é o seu daimon”, Cornford interpreta que esse reverenciado filósofo grego (século V a.C.) teve a intenção de dizer que o “espírito tutelar” (daimon) é a força que delineia a vida a partir do interior da pessoa, sendo a causa responsável pela construção ou destruição da sua fortuna, e não um “destino” que lhe foi designado externamente. (19)

 

Tal reflexão heraclitiana foi ratificada por Eurípides ao conceber, na versão de Junito Brandão, que o destino do homem nasce do demônio que habita em seu peito e ao colocar na boca de Medeia a constatação de que “a paixão é mais forte do que a razão”, podendo-se assim conjecturar que no teatro de Eurípides Moira teria sido substituída por Eros. “O caráter de um homem é o seu daimon” deu origem ao ditado “caráter é destino”, o qual é desta forma interpretado por James Hillman no seu “A Força do Caráter”: “Pois o que resta é o pedaço de destino que o caráter único de cada pessoa personifica...”.

 

Amar ao fado (amor fati) é um reconhecimento de que é aqui, neste lugar, neste momento que somos convocados a viver nossas vidas. O sentido da vida não será alcançado pela conquista triunfante do ego sobre a sina, mas por sua interação com e desenvolvimento através da mesma e algumas vezes mesmo por sua derrota. Sentido não é algo abstrato e sim consequência de uma vida vivida na maneira como deveria ser vivida, qual seja, em sintonia com o estabelecido por forças que transcendem aos desejos do ego consciente.

 

No seu livro de memórias organizado e editado por Aniela Jaffé, Jung ressalta a importância de consolidarmos o nosso próprio destino, pois “desta maneira forjamos um ego que não se abate quando coisas incompreensíveis acontecem; um ego forte, capaz de suportar a verdade, capaz de enfrentar o mundo e o destino. Aí então, experimentar a derrota também significa vivenciar a vitória. Nada é perturbado – nem interna nem externamente, pois nossa continuidade resistiu à corrente da vida e do tempo. Mas isto só pode acontecer quando não nos imiscuímos inquisitivamente nos componentes do destino”. (20)

 

Com o passar das estações da vida, somos cada vez mais levados a constatar que somos bem menos livres do que pensávamos ser. Contudo, também podemos perceber que, mesmo subjugados pelas forças inexoráveis que determinam a nossa vida, temos alguma autonomia para forçar a expansão dessas estreitas condições limitantes em possibilidades mais amplas.

 

A aceitação daquela parcela de nossa vida que é imutável (sina) constitui um pré-requisito essencial para viabilizar os nossos esforços de atuação nas realidades da vida que estão sujeitas à nossa interferência. Lembramos que todas as grandes tradições religiosas pregam a submissão de seus seguidores ao desejo de Deus (a palavra “Islam” significa resignação, rendição à Alá).

 

Sabemos também que qualquer que seja o mistério da cura, esta requer a submissão do ego à natureza humana e do universo, superando a fantasia obsessiva de sua soberania. Tanto é assim que todos os grupos de recuperação através do “programa de doze passos” são iniciados com o desafio de aceitação por parte de seus membros de que estes não detêm o controle da situação que os aprisiona.

 

Essa atitude de “aceitação” daquilo que não podemos alterar na vida libera importante quantum de energia vital para ser empregada na construção do nosso destino como um todo. Nas palavras de Ortega Y Gasset, considerado o maior filósofo espanhol do século XX, “viver é ser livre dentro de uma sina dada... aceitamos a sina e, nela, nos decidimos por um destino”.

     

O acolhimento da cruz por parte de Cristo, conforme anteriormente ilustrado, teria sido coerente com sua pregação aos seus seguidores de acordo com registros em diversas partes do evangelho, tais como: “Quem não toma sua cruz e me segue, não é digno de mim” (Mateus, 10,38) e “Se alguém quiser me seguir, que negue a si mesmo e tome diariamente sua cruz” (Lucas, 9,23). Numa perspectiva psicoespiritual, carregar a cruz significaria enfrentar resolutamente tudo o que necessita ser encarado na vida, assumindo-se o fardo de nossa responsabilidade pelo que nos cabe em nossa passagem pela Terra.

 

Uma vida em que se assume a responsabilidade de “carregar a cruz”  dificilmente decorre de um projeto do ego, cuja gratificação é, para se dizer o melhor, fugaz. Sentido surge por vezes através de experiências de grande sofrimento desde que constitui um epifenômeno do amor fati. No final, amar ao fado significa viver a vida que nos foi designada e não a vida vislumbrada pelo ego, pelos nossos pais ou pelas expectativas sociais.

 

A liberdade de ação, mesmo que limitada às condições ditadas pela sina, pode constituir não somente nossa fonte de dignidade, escolha moral e responsabilidade, mas também o fundamento de nossos valores, a fim de que não sejamos simplesmente joguetes de um universo indiferente ou de deuses caprichosos. No final, podemos não amar o fado, mas podemos amar a vida que conseguimos resgatar das suas garras.

 

O significado da vida depende do quanto mais completamente conseguimos expressar de nós mesmos no contexto de nossa sina - não adianta tentar negá-la. Ao invés disso, podemos trabalhar com ela e até mesmo ocasionalmente triunfar, mesmo dentro das limitações que a mesma nos impõe.

 

Temos que encontrar nosso ponto de equilíbrio no espectro desta importante tensão entre opostos: quanto mais nos identificamos com a sina, mais nos deprimimos e nos sentimos aprisionados, enquanto que quanto mais nos identificamos com a liberdade, menos deferência devotamos à atuação da “mão invisível” da sina em nossas vidas.

 

Nesse contexto, ressalta-se que os estoicos aconselhavam as pessoas a controlar as suas reações às coisas mesmo que não pudessem controlar as próprias coisas, o que podemos constatar neste pensamento de Lucrécio, filósofo romano do século I a.C.: “Devemos fazer o melhor possível daquelas coisas que se encontram em nosso poder de ação e aceitar o resto da forma como a natureza nos oferece.” (21)

 

No seu “O mito de Sísifo”, Albert Camus imagina observar um sorriso na face de Sísifo quando da execução dessa inútil tarefa repetitiva ad infinitum, sorriso que estaria sinalizando, como uma rebeldia existencial contra sua sina, que Sísifo escolheu empurrar o bloco de pedra morro acima, resgatando das mãos dos deuses a sua liberdade e a sua dignidade a partir dessa mudança de atitude.  

 

De forma semelhante, em sua obra “Em busca de sentido”, Viktor Frankl descreve como o Holocausto destruiu quase tudo em sua vida: família, trabalho, casa. Só uma coisa não conseguiram arrancar desse psiquiatra austríaco feito prisioneiro num campo de concentração nazista, sua “liberdade final”, qual seja, o poder de escolher sua atitude em função das circunstâncias sobre as quais não tinha nenhum controle.

 

Naquelas condições desumanas de extrema restrição de liberdade, Frankl descobriu que nós conseguimos sobreviver mesmo que vítimas de inúmeras feridas causadas pela sina, mas não conseguimos sobreviver sem um sentido para nossas vidas: “A liberdade espiritual do ser humano, a qual não se lhe pode tirar, permite-lhe, até o último suspiro, configurar a sua vida de modo que tenha sentido. Pois não somente uma vida ativa tem sentido (...) Se é que a vida tem sentido, também o sofrimento necessariamente o terá”.

 

Ainda nesse contexto, somos remetidos à pertinente constatação de Jung de que nossas neuroses são formas de sofrimento que ainda não encontraram o seu sentido. Assim, o sofrimento faz parte da condição humana, mas a vida pode ser engrandecida ou apequenada através de nossas escolhas. O significado é encontrado através da aceitação da nossa sina e, ao mesmo tempo, na luta para permanecermos livres e fazermos escolhas baseadas em valores dentro de um constrito elenco de possibilidades.

 

“Amar o fado” significa viver tão completamente quanto possível a vida para a qual fomos convocados. Nós estamos aqui para compreender e servir ao que a vida pede de nós. Essa atitude não representa resignação, derrota, fatalismo ou passividade, representa uma “submissão heroica”.

 

A tarefa embutida na submissão heroica é encontrada toda vez que sobrepujamos o medo e a letargia, que escolhemos crescer ao invés de ficarmos reclamando pela vida que nos foi dada no lugar de uma outra idealizada. Amor fati foi propriamente sintetizado por Jung quando nos orienta para uma vida plena em que “devemos beber o cálice de dor e prazer que nos cabe até a última gota”. 

 

Estamos agora prontos para ratificar com bastante ênfase que a combinação dos resultados decorrentes de nossa atitude perante a nossa vida como um todo – suas condições imutáveis e mutáveis - irá delinear o perfil fundamental daquilo que estamos aqui chamando de destino.  

 

5. O MISTÉRIO DO ACASO

 

A polêmica sobre os mistérios da vida em geral foi inaugurada por Heráclito com sua provocação “o universo é a brincadeira de uma criança que joga dados”, tendo esse filósofo sido séculos depois refutado por Einstein com sua impugnação “recuso-me a crer que Deus joga dados”. Como uma síntese dessa dialética transcendental, Stephen Hawkins replica: “Deus não só joga dados como os lança onde não podemos achar”.

 

Aqui caberia também enquadrar a angústia do filósofo alemão Werner Jaeger quando nos interpela “mas que homem pode realmente entender as maneiras de Deus?” (22), questionamento que talvez já tivesse sido respondido muitos séculos antes por Agostinho no seu “A Cidade de Deus” ao nos instigar com este duplo paradoxo: “Deus compreende todos os incompreensíveis por uma compreensão incompreensível”.

 

Qual desses gigantes do pensamento humano tem razão? Não é possível saber, pois a resposta envolve um mistério e mistérios não são para ser compreendidos, mas reverenciados. Nas palavras do filósofo contemporâneo Ricardo Peter “os absurdos da vida não fazem parte dos objetos da razão. Os absurdos são tão indecifráveis quanto a própria vida”. (23)

 

Discorrendo sobre a atitude básica de Jung em relação às ocorrências da vida, Aniela Jaffé ressalta que ele preferia  deixar as coisas se desenvolverem à sua própria maneira: “A vida e seus eventos aconteciam e Jung deixava que eles acontecessem, não lhes dando as costas, mas acompanhando seu desenvolvimento com muita atenção, esperando para ver qual seria o resultado. Jung nunca descartou a possibilidade de que a vida sabia mais e melhor do que a mente controladora, e sua atenção se dirigia não apenas para as coisas em si mesmas, mas principalmente para o agente desconhecido que organiza os eventos por trás da vontade e do conhecimento humano. (24)

 

Nessa percepção de Jaffé, Jung ficava embevecido com os mistérios da vida, perscrutando as intenções secretas do agente organizador das contingências da realidade, reverência à inescrutabilidade dos mistérios também demonstrada por Montaigne ao atestar que “conhecer não é chegar a estabelecer verdades totalmente certas, é saber que existem o inconhecível e o inconcebível, é dialogar com a incerteza.”

 

Concluindo sua análise sobre o posicionamento de Jung face aos eventos da vida, Jaffé acrescenta que para ele nenhum momento era trivial ou pequeno demais para não se prestar atenção nos mesmos. Essa perspectiva foi de alguma forma reforçada por Ferreira Gullar quando nos conscientiza de que “é preciso sempre estar alerta para o acaso”, bem como por Edgar Morin quando reforça que “é preciso esperar o inesperado ou, pelo menos, o improvável. Quantas vezes o provável não se realizou e o improvável aconteceu na vida de um indivíduo e de uma sociedade!”. Esses pensadores contemporâneos corroboram assim, mais de 1500 anos depois, o oráculo de Heráclito de que “sem esperança, você não encontrará o inesperado”.

 

Poucos dias antes de sua morte, ao ser perguntado numa entrevista a respeito de sua noção sobre Deus, Jung respondeu: “Até este dia, Deus é o nome pelo qual designo todas as coisas que cruzam, de forma inesperada e repentina, o meu caminho planejado, todas as coisas que perturbam minhas perspectivas, planos e intenções subjetivos e que alteram o curso de minha vida para melhor ou para pior”. Referindo-se a essa resposta, Edinger conclui que aquilo que a maioria das pessoas chamam de “acaso” ou “acidente”, Jung está chamando de “Deus”, experienciando acontecimentos aparentemente arbitrários como significativos ao invés de destituídos de sentido. (25)

 

6. GUARDIÕES DO DESTINO

 

Já no rumo de conclusão desta reflexão, podemos trazer esta perspicaz constatação de Lepargneur: “Chegamos à conclusão de que o Destino existe realmente, o problema sendo de analisá-lo, de avaliar o quanto de humano entra nele, ou quanto de divino; mas a dosagem parece mudar com cada ocorrência. Os favorecidos pelo Destino são notadamente aqueles que souberam aproveitar acasos.”

 

E para não dizer que não honramos os deuses na nossa despedida, tiramos nosso chapéu para a sina, reconhecendo que as divindades escolhem as regras do jogo da vida, mas sem esquecermos que estamos aqui para jogar esse jogo cumprindo a tarefa indelegável de buscarmos nossa máxima expressão possível dentro das limitações impostas e de assumirmos a plena responsabilidade pelo uso que fazemos da importante parcela de autodeterminação de que dispomos.

 

Em linguagem simbólica, o que quer que os deuses tenham determinado para nós, continuamos convocados para atuar como guardiões de nossa alma, ditame que se descumprido nos induzirá a indevidamente culparmos o destino pelo nosso destino.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DO ARTIGO

 

(1) SANFORD, John A. Destino, amor e êxtase.

 

(2) PLOTINO. As enéadas.

 

(3) BRANDÃO, Junito de Souza. Teatro Grego: tragédia e comédia.

 

(4) HOLLIS, James. Nesta Jornada que chamamos vida.

 

(5) LEPARGNEUR, Hubert. Destino e identidade.

 

(6) MONTAIGNE, M. Ensaios.

 

(7) PESSOA, Fernando. Livro do desassossego.

 

(8) BRANDÃO, Junito de Souza. Dicionário Mítico-Etimológico.

 

(9) HOLLIS, James. A passagem do meio.

 

(10) STEIN, Murray. Jung: o mapa da alma.

 

(11) TOLLE, Eckart. O poder do agora: um guia para a iluminação espiritual.

 

(12) HOLLIS, James. What matters most.

 

(13) SANFORD, John. Healing body and soul.

 

(14) EDINGER, Edward. Anatomia da psique.

 

(15) REALE, Giovanni. Corpo, alma e saúde.

 

(16) THE SCHOOL OF LIFE. Grandes pensadores.

 

(17) AURÉLIO, Marco. Meditações.

 

(18) HOLLIS, James. Creating a life.

 

(19) CORNFORD, F. M. From religion to philosophy: a study in the origins of Western speculation.

 

(20) JUNG, C. G. Memórias, sonhos, reflexões.

 

(21) LUCRÉCIO. Sobre a natureza das coisas.

 

(22) JAEGER, Werner. Paideia: a formação do homem grego.

 

(23) PETER, Ricardo. A imperfeição no evangelho.

 

(24) JAFFÉ, Aniella. From the life and work of Jung.

 

(25) EDINGER, Edward. Ego e arquétipo.

 

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