Feliz 2020

28/12/2019

 

 

A vida é feita de ciclos, ondas de um oceano, que fluem e refluem nas marés da existência, trazendo as vicissitudes da vida, com seus rodopios e reveses. Precisamos saber tirar proveito desse movimento do cosmos. Observar a circularidade da existência: Onde está o começo do viver e do conhecer? Não há começo, nem final, há apenas pontos de passagem. É a experiência que nos prepara a experiência. A criança aprende a falar ao participar das conversações à sua volta. Conviver com o incompleto, o precário, o provisório é inerente ao viver, enquanto dinâmica circular. Na circularidade, contamos com o que não temos ... ainda.

 

A circularidade do viver conecta-se ao símbolo da ampulheta do tempo, utilizada por Nietzche para falar sobre o eterno retorno: “viver a vida de novo sem nada novo nela – cada coisa retorna a nós como uma ampulheta do tempo”. A ampulheta simboliza a contínua passagem do tempo, o seu fluxo inexorável e a transitoriedade da vida humana, que culmina sempre inevitavelmente com a morte.

 

Parece que na tese do Eterno Retorno os pares de opostos da vida se alternam nas vivências numa eterna repetição. Criação e destruição, alegria e tristeza, saúde e doença, bem e mal, belo e feio… tudo vai e tudo retorna. Porém, os pares, na verdade, não são opostos e sim faces complementares de uma mesma moeda. Sim, porque é a nossa consciência que divide e enxerga o mundo de forma binária: A ou B. Para Carl Gustav Jung "O problema central da psicologia é a integração dos opostos. Isto é encontrado em todo lugar e todos os níveis. [...] Em alquimia este processo se chama conjunção de dois princípios.[...]”.

 

Podemos utilizar a alquimia como metáfora para falar do que acontece conosco na circularidade da vida. Solvemos opostos e os reunificamos de uma nova maneira, solve et coagula. Repetimos esse processo várias vezes, em diferentes níveis, na espiral da individuação (processo em que a pessoa torna-se si mesma, inteira, indivisível e distinta de outras pessoas. Torna-se única, busca uma singularidade como diferenciação do coletivo. Transforma-se através do coletivo sem identificar-se com ele) até a obtenção da pedra filosofal, símbolo do aprimoramento da consciência.

 

Diante do exposto, podemos transformar a virada do ano num momento criativo de passagem, utilizando o espelho da reflexão para olhar melhor. Seguindo o coelho branco da fábula de ”Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carrol, que grita “estou atrasado, estou atrasado”, ou “é tarde demais, é tarde demais”, podemos lá pelas tantas, como Alice, perguntar ao apressado: “Quanto tempo dura o eterno”? Ao que o coelho vai responder: “Às vezes apenas um segundo”.

 

Nesse momento, que tal trazermos na imaginação a ampulheta do tempo de Nietzche e avaliarmos como estamos transitando no relógio da vida? Estamos passando muito rápido por ele, e sem nos darmos conta, ao olharmos para nós mesmos, o tempo passou ou estamos revisitando o tempo que passou, cultivando ingredientes de saudosismo melancólico, em um passatempo? Estamos na justa medida entre o tempo cronológico, quantitativo (tempo de Chronos) e o “não tempo” ou tempo qualitativo (tempo de Kairós)?

 

Que hábitos precisamos sacrificar do tempo que está findando para que possamos renovar o tempo que está chegando? Muitas vezes torna-se necessário iniciar uma transformação mais profunda na nossa personalidade (ou até a revolução), solvendo comportamentos que não fazem mais sentido, suportando a ansiedade de separação. Sim, porque não queremos perder nada “que nos pertence”. O vazio e a morte simbólica decorrentes desse processo podem ser um convite para abrirmos mão e darmos espaço para a rosa e a beleza florescer, nos dando a vastidão e liberdade para alçar novos vôos.

 

Talvez possamos nos reinventar no presente pegando carona com o Louco do Tarot, símbolo da liberdade e da vitalidade criativa, combinando os opostos, buscando abarcar  todas as possibilidades possíveis. Está associado ao telos circular da individuação. O louco nos pergunta: Para onde estamos indo? Lugar nenhum. A meta não é o des-envolvimento. Nas palavras de James Hillman: “O processo de desenvolvimento, na verdade, afasta-se da meta da alma, que é rodar em círculos. O que buscamos está aqui ou em lugar nenhum. Um telos circular”. Como o pivô de um dervixe, girando. A cada giro, um novo olhar com uma nova consciência,  em circumambulação.  

 

A simbologia da ampulheta valoriza o encontro sincronístico entre o tempo linear de Chronos e o tempo simbólico de Kairós, conjunção esta que traz fluxo, diálogo e transformação no lugar de estagnação. Neste percurso, cada repetição leva a um novo patamar, na espiral da individuação, dando lugar a uma nova síntese, facilitando o diálogo entre os opostos. A totalidade inclue o claro e o escuro e aceitar o nosso destino é um dos grandes aprendizados da vida, com os seus picos e vales. Tudo o que começa acaba e tudo que acaba começa.

 

E brindemos o Ano Novo com Nietzsche: “os homens não têm de fugir à vida como os pessimistas, mas como alegres convivas de um banquete que desejam suas taças novamente cheias, dirão à vida: uma vez mais”. 

Ermelinda Ganem Fernandes - Médica, Psicoterapeuta junguiana e Doutora em Engenharia e Gestão do Conhecimento (UFSC). Coordena o Curso de Especialização em Processo Criativo e Facilitação de Grupos (abordagem junguiana) do Instituto Junguiano da Bahia.

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