Quem vigiará os vigilantes?

04/12/2019

 

Em uma das suas Sátiras, o poeta romano que viveu entre os séculos I e II, Décimo Júnio Juvenal, dá aos homens o papel de guardiões da moral. As mulheres, como Eva, teriam uma tendência natural ao pecado, devendo ser custodiadas pelos homens. Com medo de que as “maquinações femininas” corrompessem seus próprios custodiadores, nasce a célebre citação latina: Quis custodiet ipsos custodes (Quem vigiará os vigilantes?)?

 

Este é o lema da polícia na série de TV Watchmen (“Os Vigilantes”, 2019). O enredo é uma sequência dos quadrinhos do fim da década de 1980 e mostra um futuro distópico onde, após de décadas de mandatos presidenciais do conservador Richard Nixon, o ator Robert Redford assume a presidência para uma série de mandatos progressistas.

 

A obra estreia recriando o histórico – e pouco conhecido – Tumulto Racial de Tulsa (1921), em Oklahoma, onde brancos atacaram e destruíram uma rica comunidade negra conhecida como Black Wall Street, com mais de 100 mortos, 800 feridos e 6000 negros presos. No futuro ficcional, o governo Redford fornece uma reparação monetária aos descendentes das vítimas do massacre, o que desagrada aos liberais anti-estado, que não concordam com o uso do dinheiro público para uma tentativa de reparar o que foi o maior incidente de violência racial nos Estados Unidos.

 

A série da HBO chega numa época onde movimentos fortemente conservadores, racistas, sexistas, homofóbicos ganham força com a ascensão de presidentes que representam a exacerbação de um moralismo intolerante. Ela mostra um país dividido pelo ódio racial e uma aparente inversão dos papéis, com supremacistas brancos em guetos, vivendo na marginalidade e uma polícia predominantemente composta por pretos. As tensões escalaram de tal forma que os policiais são obrigados por lei a usar máscaras para que suas reais identidades não os tornem vítimas de represália dos racistas. O grupo supremacista se intitula de “Sétima Kavalaria”, uma referência direta à Ku Klux Klan. Seus integrantes usam a máscara do herói Rorscharch, da obra que deu origem ao universo da série.

 

Watchmen surgiu em 1986 como uma série mensal de 12 revistas em quadrinhos, publicada pela editora estadunidense DC Comics. A princípio, o autor Alan Moore pretendia usar heróis conhecidos para criar uma história de grande impacto, onde uma visão iconoclasta de personagens previamente adorados pelo público ajudaria a compor o enredo desolador que ocorria durante os piores momentos da Guerra Fria. A DC Comics não permitiu que Moore “estragasse” suas criações; em vez disso, pediu-lhe que criasse as próprias personagens.

 

Enquanto os quadrinhos tradicionais – cujas histórias saturam as telas do cinema atual – retratam super-humanos ideais, Watchmen lidou com a complexidade da alma humana em uma obra com forte teor dramático, político e uma profundidade que ainda hoje falta aos filmes da Marvel e da DC. Ao ler a série de quadrinhos é possível notar que o autor manteve sua intenção original ao criar personagens que nada são senão caricaturas de contornos muito menos lisonjeiros dos heróis mais populares da época.

 

A história começa com a morte de um dos heróis, O Comediante. A investigação do seu assassinato é o fio que conduz a trama. O mundo havia saído da guerra do Vietnam e o Comediante, como muitos soldados veteranos, não sabia mais como viver em tempos de paz. Isolado, deprimido, sem vida social, só conseguia conectar-se com seus inimigos, só conseguia viver em guerra. Pouco antes de morrer, ele faz uma última visita a seu inimigo mortal e confessa, aos prantos, seu arrependimento ao descobrir que matou tanto pelos motivos errados. Simbolicamente, a sua morte é a morte do riso, da alegria de viver.

 

Os Estados Unidos foram vitoriosos na guerra do Vietnam graças à ajuda do único super-herói com poderes, o Dr. Manhattan. Baseado no Capitão Átomo, ele é capaz de manipular a matéria a nível subatômico; seu poder e a extensão da sua vida parecem não ter limites. Juntamente com seu colega vigilante, o Ozymandias, ele trabalha numa solução energética para a crise dos combustíveis fósseis que é a fonte de muitas guerras. Enquanto isso, o Coruja Noturna e a Espectral patrulham as ruas para controlar a criminalidade crescente, enquanto Rorscharch investiga o assassinato do Comediante.

 

Fica claro para o leitor mais atento que o Adrian Veidt (Ozymandias), autointitulado “o homem mais inteligente da Terra”, é uma versão distorcida do Super-Homem. Enquanto este último é mostrado como um símbolo alienígena (isto é, inexistente em nossa espécie) da pureza e da bondade, do uso altruísta e humanista de um poder de proporções míticas, a sua paródia mostra o que realmente acontece quando alguém obtém poder em demasia: sonhando ser como Alexandre O Grande, Ozymandias deseja unificar sob sua liderança todo o mundo conhecido. O Coruja Noturna é uma espécie de “Batman nerd”: menos viril, precisa vestir uma fantasia e usar uma série de equipamentos eletrônicos como forma juvenil de proteger-se dos desafios e responsabilidades da vida adulta. Rorscharch é um detetive que interroga, tortura, prende, sentencia e mata, mostrando como seria se um justiceiro como o Batman existisse na vida real, despido das idealizações dos quadrinhos. Espectral é a garota vítima de abuso ou de um lar disfuncional com uma figura paterna negativa ou ausente: se veste de forma provocadora, flerta e se relaciona com vários heróis, demonstrando interesse até no seu próprio pai biológico (o que lhe era desconhecido), o que simboliza o estado incestuoso inconsciente que a leva a buscar repetidamente nos homens a figura paterna ausente em sua infância.

 

Os heróis, parafraseando Jung, tornaram-se doenças. O Comediante, como na piada do palhaço Pagliacci que procura o médico para curar sua tristeza, tornou-se alcoólatra e depressivo. O Dr. Manhattan vive uma vida puramente intelectual. Incapaz de lidar com seus sentimentos e manter relacionamentos normais, foge para Marte após ser abandonado pela mulher. O Coruja Noturna é um rapaz branco, tímido e com disfunção erétil, saudoso por uma figura paterna (representado por seu predecessor e ídolo, o primeiro “Coruja”) que o introduzisse ainda que tardiamente aos ritos de passagem à vida adulta. A Espectral é um estereótipo machista (digno de Juvenal) da mulher “fácil” que só desempenha um papel secundário na trama, como parceira sexual dos protagonistas masculinos. Não há representante preto entre os heróis. Ozymandias é um sociopata que veste a pele do altruísmo em prol da humanidade, mas que em sua fortaleza na Antártida (a “Fortaleza da Solidão”?), crê-se superior a todos e tenta salvar a humanidade de si mesma, com o propósito escuso de ser a mão oculta que a comanda em direção a uma paz forçada, ao custo de milhões de vidas. Ao envelhecer, na série televisiva, sua grande inteligência dá lugar a delírios senis. Rorscharch é um justiceiro moralista e homofóbico que só descobre os planos de Ozymandias porque, como legítimo representante do pensamento de extrema-direita, acredita facilmente em teorias da conspiração.

 

Ocultas sob as capas da fama, beleza, poder e glória da jornada heróica, existem personalidades infantis, incapazes de lidar com seus sentimentos. Uns, para fugir dos sentimentos de impotência, inferioridade ou rejeição, buscam poder, perfeição e reconhecimento universal, cometendo o pecado da hybris (ou inflação do ego, segundo Jung) ao tentarem indevidamente equiparar-se a deuses. Outros tentam lutar contra o terror da crueldade da qual foram vítimas transformando a si próprios em monstros semelhantes aos que combatem. Para Nietzsche (2005), "aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se um também. Quando olhamos muito tempo para o abismo, o abismo nos olha de volta.”

 

Watchmen ilustra o que Jung (2012) afirmava: os antigos bem sabiam que os deuses, enquanto arquétipos impessoais, devem ser tratados com reverência e não tomados como objeto da personificação humana. A idealização (e também ideologização) da vida aliena o homem da sua condição, o isola dos seus semelhantes e o conduz à loucura. Assim aconteceu com Nietzsche quando pretendeu estar além do niilismo da sua época e idealizou seu Übermensch (Super-Homem) em Assim falou Zaratustra (2018), ignorando a alegoria contida no fato de que o próprio Zaratustra precisou descer do seu monte onde estaria “além do bem e do mal”, “rindo-se de todas as cenas e tragédias da vida”, para buscar a companhia das pessoas.

 

Na série televisiva de 2019, assim como na vida real, o mundo não mais está em guerra, a Guerra Fria acabou. O muro de Berlim caiu há 30 anos. Mas as pessoas parecem sentir falta da guerra. Supremacistas contra polícia, esquerda contra direita, conservadores contra progressistas. Polícia contra traficantes, cristianismo contra ateísmo. Muitos acreditam estarmos à beira de uma guerra civil, alguns devem ansiar por ela. Enquanto isso, os soldados da guerra diária adoecem sob os severos efeitos psicológicos causados pelo ato de matar regularmente: a depressão, o suicídio e a dependência química aumentam vertiginosamente entre policiais (GROSSMAN, 2009). Em meio a extremismos e rivalidades tão estúpidas, os mais sensatos são representados pela atitude do Dr. Manhattan: o homem mais poderoso e sábio do mundo não tem interesse algum em interferir positivamente na vida dos seus semelhantes porque, ao buscar demasiadamente o conhecimento, perdeu-se dos sentimentos que faziam dele humano. Entre os semideuses da política e das redes sociais e os humanos animalizados pela pobreza material e espiritual, o mundo segue num perigoso flerte com a insanidade.

Paulo Nunes - Médico graduado na UFBA em 2005.

Psicoterapeuta Junguiano pós-graduado no IJBA.

Atendimentos em Salvador. Contato: (79) 99859-1753 (Telefone e Whatsapp).

instagram.com/paulonunes181

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

GROSSMAN, D. On Killing: The Psychological Cost of Learning to Kill in War and Society. Back Bay Books, 2009.

 

JUNG, C. G. Símbolos da transformação: análise dos prelúdios de uma esquizofrenia. 7 ed. Petrópolis: Vozes, 2011s.

 

MOORE, Alan. Watchmen. Titan, 2006.

 

NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

 

NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

 

Quis custodiet ipsos custodes? https://pt.wikipedia.org/wiki/Quis_custodiet_ipsos_custodes%3F, Acesso em 9 de novembro de 2019.

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