Qual É o Seu Chamado?

16/10/2019

 

Eu sou chamado a servir a quê?

A resposta vai atuar de forma diferente para cada um de nós,

porque cada um tem um vocatus separado.

Mas em todo caso seremos servidos, de volta,

por aquilo a que fomos chamados a servir.
(James Hollis)

 

 

Acredito com muita convicção que na primeira fase da vida temos que tentar conquistar o mundo para não sermos por ele devorados. Entretanto, na segunda fase da vida, temos que tentar ser quem genuinamente somos para não sermos devorados por quem estamos falsamente sendo. Com esse propósito em mente, temos que atender ao nosso chamado, buscando o sentido da nossa vocação pessoal.

 

Vocação pessoal é o que somos chamados a fazer com nossa energia vital. Uma parcela considerável do significado da nossa vida como homo faber decorre de atendermos esse chamado que faz parte do processo de individuação, dinâmica através da qual nos tornarmos nós mesmos tão plenamente quanto for possível.

 

Dessa forma, ao darmos acolhimento à nossa vocação pessoal, não teremos mais tempo para ficarmos simplesmente ocupados com aquilo que nos acontece.

 

 

O Chamado como Vocação

 

Fazendo uma metáfora do chamado com o que acontece com uma sinfônica, Marc Gafni elucida que uma orquestra é formada por muitos instrumentos, todos necessários para que a música seja tocada. Cada instrumento é distinto e especial, sem ser melhor do que nenhum outro. Para tocar a música, cada membro da sinfônica precisa ser particularmente receptivo ao chamado único do seu instrumento. Cada chamado só é grandioso quando magnificamente perseguido. Se todos tocassem o mesmo instrumento, a música seria alta e tediosa, sem contextura nem harmonia. A música surge da diversidade, do pluralismo. O chamado não é um emprego ou uma ocupação – ele é uma vocação. Ele não é o que você faz para viver – ele é a sua vida. Precisamos sentir a voz de quem chama, encontrar em seguida nossa própria voz e depois compreender que ambas são a mesma.

 

Trabalho x Vocação

 

No seu “A passagem do meio”, James Hollis registra que existe uma enorme diferença entre o trabalho e a vocação. O trabalho é aquilo a que nos dedicamos para ganhar dinheiro e satisfazer nossas necessidades econômicas. A vocação (do latim vocatus – um chamado ou convocação) é o que somos chamados a fazer com a energia da nossa vida. Para Jung, a psique é sempre teleológica, estando constantemente em busca de sua plenitude, e pode não dar a menor importância para nosso conforto e segurança. Sentir que somos produtivos é uma parte fundamental da nossa individuação, e deixar de responder à nossa vocação pode causar enorme dano à alma. Não escolhemos realmente uma vocação; na verdade é ela que nos escolhe. Nossa única escolha é o modo como respondemos ao chamado.

 

O homem é o único ser vivo que tem a opção de não se tornar o que ele é, diferentemente do tigre, por exemplo, que, como nos apresenta John Sanford, já é naturalmente completo. Assim, esse animal não encontra nenhuma dificuldade em ser um tigre, sendo simplesmente o que ele deveria ser. Para o homem, no entanto, o processo da vida que busca sua realização deve ser desenvolvido através de uma personalidade consciente. A não ser que a personalidade consciente se desenvolva e se torne uma via para a totalidade da pessoa fluir, o processo de individuação não consegue acontecer. E uma vida criativa não realizada se torna envenenada.

 

Algumas pessoas, ainda na visão de Hollis, conseguem unir o trabalho à vocação, embora possam ter de pagar um enorme preço por isso. Ironicamente, algumas vezes, uma forte vocação requer até mesmo o sacrifício de desejos do ego, tais como aqueles relacionados com necessidade de conforto e segurança material. Mas não pedimos a vocação; ela nos é pedida. E uma parte considerável do significado da nossa vida decorre de dizermos sim quando isso nos é pedido.

 

O sacrifício dos desejos do ego é doloroso, mas infinitamente menor do que olharmos para trás e nos arrependermos de ter deixado de responder ao chamado. O vocatus envolve nos tornarmos tão plenamente nós mesmos quanto formos capazes. Renunciar à segurança que nos esforçamos para conseguir pode ser assustador, mas não tanto quanto rejeitar essa pessoa mais ampla que somos chamados a ser. A alma tem suas necessidades, que não são bem atendidas por contracheques e privilégios.

 

Nesse contexto, ousamos afirmar que ao atendermos ao nosso chamado encontramos uma causa maior que dota a vida de sentido, constatação essa delineada através de outra perspectiva por Max Weber ao registar que “efetivamente, para o homem, enquanto homem, nada tem valor a menos que ele possa executá-lo com entusiasmo. Todo homem sério, que vive para uma causa, também vive dela”.

 

 

 

Temos todos duas vidas: A verdadeira, que é a que sonhamos na infância, e que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa; A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros, que é a prática, a útil, aquela em que acabam por nos meter num caixão; Na outra não há caixão nem mortes; Na outra somos nós; Na outra vivemos;  Nesta morremos, que é o que viver quer dizer.

(Datilografia - Fernando Pessoa)

 

 

Qual É a Minha Vocação?

 

Em “Nesta Jornada que chamamos vida”, James Hollis nos informa que a ideia de vocação, o que se faz com as energias vitais, é usualmente substituída por planejamento de carreira. Tal visão é inconscientemente traiçoeira, porque torna nossa humanidade algo trivial. Não há nada de errado com o trabalho, muito pelo contrário, mas escolher uma ocupação de vida com base no pagamento ou na aposentadoria futura é um meio de apequenar a alma.

 

Como encontramos nossa vocação? No fim, é por meio da capacidade do ego de renunciar a suas necessidades de segurança e conforto a serviço de uma força mais profunda. Mas não é fácil. As escolhas reais na vida sempre envolvem o conflito entre valores competitivos, cada um dos quais com uma considerável reivindicação em nós.

 

Geralmente, após um exame detalhado, as escolhas que enfrentamos exigem que deixemos alguma estância familiar na vida e nos movamos para o desconhecido. Geralmente elas exigem a aceitação de um grau maior de ansiedade, ambivalência e ambiguidade do que achamos cômodo. Elas exigem que cresçamos, frequentemente de forma bem dolorosa. Na realidade o fato de essas escolhas não serem fáceis é um bom sinal de que estamos no caminho certo.

 

No fim, a escolha da vocação é também um reconhecimento de que algo na verdade está nos escolhendo. E isso pode ter pouco a ver com o que nós, o ego, desejamos. Como Jung observou “Você só pode se sentir no caminho certo quando os conflitos de dever parecem ter se resolvido, e você tiver se tornado a vítima de uma decisão imposta, sem sua consulta”.

 

 

Um rei o enviou a um país para executar uma tarefa especial e específica.  Você vai até o lugar e realiza uma centena de outras coisas, mas se não se desincumbiu daquela que foi mandado fazer, é como se não tivesse feito absolutamente nada. Da mesma forma, cada pessoa veio ao mundo para realizar um trabalho particular e esse é seu propósito. Se ele não o puser em prática, não terá feito nada.

                                                                                                   (Rumi – Poeta Persa, Séc. XIII)

 

Óbices ao Chamado

 

O trabalho que somos chamados a fazer não é o emprego pelo qual somos pagos, continua James Hollis. O trabalho, opus, é a busca pela nossa vocação, é o trabalho de crescimento pessoal e encontro pessoal. Essa obrigação de fazer nosso próprio trabalho parece óbvia, porém na prática ela é muito difícil. Isso implica que cresçamos, que aceitemos a responsabilidade final por nossas escolhas e suas consequências e que possamos aguentar a solidão de nossa jornada. Somos chamados a confrontar nossos sofrimentos para que saibamos o que eles querem de nós. Devemos perguntar de nossa vida qual a tarefa de crescimento exigida. Como Jung diz, a vida nos faz uma pergunta, e nossa vida é uma pergunta. O que é que ela quer de nós? O que nos é exigido para que possamos vivê-la totalmente? Não é de se espantar que muitos acabem, na meia-idade ou mais tarde, sentindo-se traídos. Eles investiram no que foram levados a investir por pressões sociais ou, talvez, sua própria visão estreita. Às vezes algumas pessoas fazem mudanças radicais nas conjunturas críticas da vida, mas a maioria delas permanecem presas pelas suas escolhas originais, constritos pela sua percepção da própria inabilidade em mudar o curso e abarcar a intenção da alma.

 

Frequentemente tentamos escapar da singularidade do nosso chamado, conforme percebe Marc Gafni. A voz desse chamado pode gritar tão diretamente às impressões da nossa alma, que ele se torna, ao mesmo tempo, estimulante, animador, mas assustador. Devido ao risco inerente à resposta a um chamado, às vezes ouvimos claramente um chamado autêntico, mas simplesmente não queremos responder. Pode haver muitos motivos para isso, sendo dois predominantes: a preguiça e o medo. Aqui preguiça alude ao  esforço e à energia sempre necessários para que possamos responder a um verdadeiro chamado. Estamos todos sob a influência de uma pesada inércia, que funciona como se fosse uma droga, sendo sempre mais fácil e mais confortável permanecer onde estamos. A segunda razão para a resistência é o medo – medo de que o chamado entre em conflito com nossos planos. Este medo se acha presente no mito de Jonas.

 

 

Uma noite Jonas foi atravessado por uma Presença que o convida a levantar-se e partir para Nínive, a grande cidade inimiga do povo de Israel. Ele é convocado a ir em direção aos seus inimigos. Ao invés de partir em direção a Nínive, Jonas parte para Társis na Sardenha, ao norte da Espanha, um espaço de lazer, um lugar de esquecimento.

 

Jonas foge de sua palavra interior. Encontra um barco, que partia para Társis, e dorme no seu porão. O problema é que uma tempestade se precipita. Enquanto ele continua dormindo, ondas se levantam.

 

Eis o primeiro ensinamento do livro de Jonas: o fato de não nos tornarmos nós mesmos pode gerar consequências não apenas em nosso interior, mas, também, em torno de nós. Precisamos lembrar que o maior serviço que podemos prestar aos outros é tornarmo-nos nós mesmos; se não o fizermos, haverá tempestades, distúrbios em nossa volta.

 

Reconhecendo ser ele próprio a causa daquele transtorno, Jonas mergulha no oceano. Simbolicamente, esse é um mergulho em seu inconsciente, ele para de fugir. Jonas vai entrar no processo de conhecer a si mesmo, a sua sombra e os seus medos. Isto é simbolizado pelos três dias que ele passa no ventre da baleia, a descida na profundidade de si mesmo... Ao tocar o fundo de seus limites, ele reencontrará o Ser que lhe faz ser e aceitará sua missão.

 

Uma vez que a baleia o vomitou para fora de si, ele vai cumprir sua missão: Jonas pregará na grande cidade, afirmando que, se seus habitantes continuarem a viver do mesmo modo, todos serão destruídos... Para sua grande surpresa, os habitantes de Nínive escutam sua voz e retornam à sua verdadeira natureza. A cidade não mais será destruída.

      (Jean-Yves Leloup)

 

Sofrer de Forma Consciente

           

A argúcia embutida no argumento de Lily Tomlin de que “mesmo que você esteja ganhando a corrida de ratos, ainda assim você é um rato” nos remete à continuidade do pensamento de James Hollis ao questionar se haveria outra alternativa à banalidade, à histeria e ao consumismo senão o sofrimento particular e honesto das questões relacionados com o sentido da vida. Quem sofre sua própria jornada vai servir ao mundo de forma mais honesta do que aqueles que seguem uma ideologia de massa desde que qualquer ideologia nega a validade da jornada da alma individual.

 

Referida visão se coaduna com o pensamento de Erik Fromm de que “a principal missão do homem em sua vida é dar à luz a si mesmo, é tornar-se aquilo que ele é potencialmente”, sendo ainda reforçada por Huberto Rohden quando percebe que aquilo que faz uma enorme diferença entre os seres humanos não é o que eles são atualmente, mas aquilo que podem vir a ser, isto é, o que já são potencialmente.

 

 

A personalidade individual começa no ponto exato em que cada um se diferencia dos demais; em muitos homens esse ponto é simplesmente imaginário. Por essa razão, ao classificar os seres humanos, compreendeu-se a necessidade de separar os que carecem de características específicas: produtos do meio, das circunstâncias, da educação que tiveram, das pessoas que os orientam, das coisas que os rodeiam... A sociedade pensa e deseja por eles. Não têm voz, mas eco. Não há linhas definidas nem em sua própria sombra, que é, apenas uma penumbra... Ninguém percebe que a sociedade submeteu-o a essa operação aritmética que consiste em reduzir muitas quantidades a um denominador comum: a mediocridade.

(José Ingenieros)

 

Somos assim levados ao paradoxo de que se sentir bem pode ser uma medida muito pobre da valia da vida de alguém. Sentir-se bem raramente fazia parte da vida das figuras da história que inspiraram e engrandeceram. Como Jung escreveu a um amigo:


“O conflito aparentemente insuportável é prova da correção da sua vida. Uma vida sem contradição interna é só uma vida pela metade, ou então uma vida no além, destinada apenas para os anjos. Mas Deus ama os seres humanos mais do que ama os anjos.”


E para você: “QUAL É O SEU CHAMADO?”

 

 

Referências Bibliográficas

 

1) GAFNI, Marc. As marcas da alma.

2) HOLLIS, James. A passagem do meio.

3) WEBBER, Max. Ciência e política.

4) PESSOA, Fernando. Poesia de Álvaro de Campos.

5) HOLLIS, James. Nesta jornada que chamamos vida.

6) LELOUP, Jean-Yves; WEIL, Pierre; CREMA, Roberto. Normose: a patologia da normalidade

7) FROMM, Erich. Análise do homem.

8) ROHDEN, Huberto. O pensamento filosófico da Antiguidade.

9) INGENIEROS, José. O homem medíocre.

10) SANFORD, Johh. Healing and wholeness.

ABSOLON MACEDO - Engenheiro, Especialista e Mestre em Administração, com Extensão em Gestão pela University of Waterloo/Canadá; Pós-graduações em Psicologia Geral e Analítica das Organizações, em Filosofia Contemporânea e em Sociologia do Trabalho e da Saúde Mental;  Formação em Psicologia do Comportamento Social no CAPT-OKA/EUA, com Treinamento nos Institutos Junguianos de New York, Washington, Texas, Florida e Cleveland/EUA, e aperfeiçoamento no Jung Institut Zurich/Suíça; Qualificação e Certificação para aplicação do MBTI – Tipos Psicológicos (Steps 1, 2 e 3) e do PMAI (Estrutura Arquetípica) pelo CAPT/EUA, e do EQ-2.0/EQ – 360 (Inteligência Emocional) pelo MHS/EUA; Consultor e Professor de Pós-Graduação de Filosofia do Comportamento Humano e de Liderança e Comportamento Organizacional.

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