A Singularidade

09/10/2019

 

É frenética, sensível, vibrante e triste, enfim, comovente, a trajetória tão bem narrada na cinebiografia de Elton John, no filme Rocketman, onde estão retratadas as suas nuances tão particulares espelhadas no personagem principal. 

 

O filme mostra a fantástica jornada de transformação do tímido pianista prodígio num superstar internacional. Evidencia sua vida desde a infância, sua ascensão e queda, ressaltando a transformação desse menino no grande astro dos anos 70, que tinha guardado dentro de si algo que, mais tarde, seria mostrado ao mundo.

 

São-nos apresentadas a complexidade e a singularidade de um ser humano aberto, vulnerável e, por vezes, fantasioso, pois nem sempre suas narrativas traduziam o que de fato acontecia na sua vida real. Ele teve problemas de drogas, álcool e raiva de assumir a própria sexualidade. Isso nos é exposto numa transparência que enriquece a história, porque as maneiras criativas de representar o vício em drogas e o relacionamento com homens, de forma tão clara quanto sensível, emocionam a quem assiste.

 

Um Elton John, sem persona, agracia-nos com uma história de um ser humano que encarna suas dores, sofrimentos e complexos, desnudando um ícone imaculado pelo público e ressaltando a ousadia de tornar-se quem se é, pagando os preços e os tributos pela conquista da sua própria individuação.

 

Ele se destacou pelos figurinos espalhafatosos e impressionantes, com seus óculos estapafúrdios, tanto nos palcos como na vida real, o que o ajudou na transição de um homem comum para uma estrela, ou seja, o seu figurino, o qual ajuda a contar a história, também o diferencia. Um homem solitário, que usava suas roupas excêntricas, as quais ajudaram a destacá-lo, mas também o isolaram da multidão, cumprindo o papel de encobrir a sua fragilidade e de diferenciá-lo, na sua individualidade.

 

Aparenta dificuldade em se conectar com as pessoas ao seu redor, e sua insegurança e medo de ficar sozinho serviram de atributos para algumas pessoas o empurrarem para a destruição; seu pai se recusou a expressar qualquer carinho ao filho, enquanto o empresário, seu suposto parceiro, se aproveita da sua carência para usá-lo para ganhar mais dinheiro, tendo, ainda, uma mãe completamente desconectada com a sua própria existência, o que evidencia seus complexos paterno e materno, respectivamente.

 

Existe uma proposta, no filme, de trazer a história do personagem à luz da psicologia, pois o discurso ali produzido procura demonstrar que todos os problemas, sucessos e glória do seu personagem se devem à falta de amor e busca pelo mesmo. Retrata o talento musical como uma busca do reconhecimento e de provar seu valor ao pai homofóbico e atender a exigências de uma mãe perversa. O mundo das drogas, das substâncias químicas seria um contraponto ao fracassado relacionamento com seu amado empresário, ao passo que os extravagantes figurinos e as mais lindas apresentações em público poderiam constituir uma maneira de canalizar a tristeza, a depressão e, principalmente, a raiva – e, por que não, a defesa da sua própria neurose.

 

Contudo, Rocketman é imperdível, é o espelho de Elton John: é brega, épico, divertido, sombrio, mas, acima de tudo, verdadeiro, belíssimo, dentro da notável beleza de sua singularidade.

SOCORRO DO PRADO - Especialista em Psicoterapia Junguiana pelo IJBA,

Mestra pela PUC-SP e Membro Candidata do IJUSP/AJB/IAAP.

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