Trauma e renegociação na perspectiva do desenvolvimento

16/05/2019

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Trauma de desenvolvimento é trauma de relacionamento. Nenhum ser humano sobrevive sem um cuidador que assegure a incorporação das necessidades mínimas de sobrevivência (alimentação, contato, higiene, segurança, regulação emocional/fisiológica), durante todo o seu extenso período de dependência. E essa qualidade de relação primordial irá modular não só a forma como o individuo subsequentemente regulará suas emoções, fisiologia, e impulsos, como também a capacidade que terá para estabelecer relações com seus pares e se adaptar aos desafios emergentes.

As psicologias do desenvolvimento, que floresceram no meio analítico no inicio do século XX, usualmente descrevem o processo de formação da personalidade como uma tapeçaria tecida no caleidoscópio das dinâmicas interpessoais, com os muitos fios de experiências incorporados desde o momento da concepção até a puberdade. A ciência atual, através da tecnologia desenvolvida para explorar o genoma humano, reforça que os genes não trazem um pacote de informação soberana sobre o meio para a determinação do temperamento, mas sim que nosso potencial inato só pode ser realizado através da cultura (Hart, 2008). Portanto fatores genéticos e ambientais interagem em cada estágio do desenvolvimento cerebral combinando predisposição e exposição na configuração da personalidade.

O desenvolvimento da personalidade implica em uma implantação arquetípica e progressiva de possibilidades de comportamentos motores, psicológicos e relacionais, cujo domínio requer treino, estímulo e apoio advindos dos cuidadores, para assegurar uma integração bem sucedida de cada tarefa desenvolvimental. A aquisição com sucesso de um marco de aprendizado cria o degrau de habilidades para a continuidade da jornada.

Sofrer uma experiência traumática não é o terrível da nossa biografia: o trauma é uma experiência intrínseca à vida, e também a força propulsora para o nosso desenvolvimento, um convite à criação de recursos resilientes, e aos impulsos formativos da personalidade. Portanto viver um trauma não é equivalente à uma subsequente traumatização, como demonstram os estudiosos do Crescimento Pós- Traumático (Nemeroff et al., 2006).

O terrível da vida está em não ter a chance de reparação das disfunções provocada pelo trauma, e de retorno a um estado basal de segurança e homeostasia. Assim um trauma de desenvolvimento se estabelece quando a criança confronta experiências adversas em seu ambiente com insuficientes recursos psicomotores e relacionais, decorrentes ou mediadas por abuso, negligência, inconsistência e/ou imprevisibilidade na relação com cuidadores, perdendo a capacidade de reestabelecer o senso de segurança. Na condição de insegurança diante de uma experiência cujo perigo não passou (concreta ou psicologicamente), continuar a se defender usando os recursos disponíveis da idade é o que cria os padrões fixos de defesa caracterológica, tipificados pelo período cronológico em que a sobrecarga aconteceu.

Paradoxalmente, essas defesas protegem o individuo contra a inundação de experiências insuportáveis para a época e, por outro lado, se tornam inflexíveis e assim pouco adaptativas às complexidades e diversidades de futuras situações adversas da vida. Elas se tornam uma forma pré-estabelecida de interação com outros, consigo e com o mundo, combinando recursos de enrijecimento muscular (como estratégia para bloquear sensações, emoções e suas expressões) ou colapso muscular (como forma resignada ou dissociada de fugir dos estímulos e impulsos) (Marcher e Fich, 2012).

Abordagens analíticas, psico-corporais e neurociência convergem na compreensão de que estágios ou fases do desenvolvimento podem ser compreendidas como uma forma arquetípica (comum a todos os seres humanos) de ativar e estruturar habilidades, específica e progressivamente, com o decorrer da maturação.

Na neurociência, a noção das fases do desenvolvimento decorre da embriologia, em que períodos críticos ou sensíveis são iniciados e finalizados através da ativação de genes específicos. Períodos críticos são “Janelas de Oportunidades” (Andersen, 2003) organizadas sequencialmente, que oferecem possibilidades facilitadas para a aquisição de competências: o processo de aprendizagens específicas encontram seu momento ótimo, caracterizado por grande plasticidade, quando as sinapses desenvolvem complexos circuitos neurais, e as apoptoses (poda seletiva de neurônios) fortalecem as conexões entre os neurônios sobreviventes. Depois de cada período crítico, as conexões diminuem em número e são menos sujeitas a alterações, mas as que permanecem são mais fortes, mais confiáveis e mais precisas. A aquisição da linguagem é uma das áreas frequentemente usadas para explicar o fenômeno.

Tais “Janelas” implicam que as crianças estarão mais susceptíveis a determinados tipos de experiências, em dados períodos, para amadurecer corretamente; terão uma facilitação do seu aprendizado quando expostas a estímulos adequados e pelo tempo adequado, mas também apresentarão maior vulnerabilidade à ausência dos estímulos específicos. Sub-estimulação causa apoptose indesejada de neurônios, assim como redução do número de circuitos neurais e sua ramificação e conectividade (Hart, 2008). Por isso as “Janelas” fornecem um ponto de partida interessante para compreender a evolução da personalidade saudável, tanto quanto o surgimento, curso e gravidade de psicopatologias.

Podemos entender as experiências de desenvolvimento como redes básicas, matriciais, que estabelecem proteção ou vulnerabilidade diante de outras experiências estressoras no curso da vida. Quando Levine (1999) afirma que “o trauma está no sistema nervoso, e não no evento gerador da experiência traumática”, ele sinaliza a resiliência e o risco que as experiências pregressas, e os resíduos de sobrevivência deixados no nosso organismo durante o curso de nossa historia, oferecem no processamento das novas experiências. O estresse físico e emocional dessas experiências primordiais fica armazenado numa memória implícita, através de padrões específicos de emoções, comportamentos, movimentos e relacionamentos, mesmo antes que tenhamos a capacidade de armazenar memorias declarativas. Portanto “decisões” de sobrevivência podem ser tomadas numa época em que ainda não temos ego estruturante e consciência suficiente para simbolizar as experiências vividas, fazendo com que experiências ameaçadoras não adequadamente reparadas atuem, de forma pervasiva, restringindo o senso de segurança e curiosidade pela vida, que vai se tornando um “lugar” mais estreito.

O estudo das fases desenvolvimentais é uma arqueologia ontológica e arquetípica de como fomos capazes de cumprir essa jornada heróica de sobrevivência, percorrendo os estágios sucessivos de diferenciação (dentro/fora, mãe/bebê, eu/outro-mundo) e individuação (Byignton, 1987), incrementando a percepção corporal como ponte entre sensações, emoções e cognição, e implantando recursos para continuamente aperfeiçoar o equilíbrio entre a busca de dignidade e mutualidade. Segundo Campbell (1983): “... nem sequer teremos que correr os riscos da aventura sozinhos; pois os heróis de todos os tempos nos precederam; o labirinto é totalmente conhecido. Temos apenas que seguir o fio da trilha do herói. E ali onde pensávamos encontrar uma abominação encontraremos uma divindade; onde pensávamos matar alguém, mataremos a nós mesmos; onde pensávamos viajar para o exterior, atingiremos o centro da nossa própria existência, e onde pensávamos estar sozinhos, estaremos com o mundo inteiro.”

 

Referências:

ANDERSEN, S.L. Trajectories of brain development: point of vulnerability or window of opportunity? Neuroscience and Biobehavioral Reviews 27 (2003) 3–18. 

BYINGTON, C.A.B. Desenvolvimento da Personalidade. São Paulo: Ática, 1987. 

CAMPBELL, J. O Herói de mil faces. Trad. A.U. Sobral. São Paulo: Cultrix, 1983. 

HART, S. Brain, Attachment, Personality. London: Karnac, 2008.

LEVINE, Peter. O despertar do tigre. São Paulo: Summus, 1999.

MARCHER, L., FICH, S. Enciclopedia del Cuerpo. Badalona: Paidotribo, 2012. 

NEMEROFF C.B., BREMNER J.D., FOA E.B., MAYBERG H.S., NORTH C.S., STEIN M.B. Review Posttraumatic stress disorder: A state-of-the-science review. Journal of Psychiatric Research 40 (2006) 1–21.

Liana Netto - Psicóloga, doutora em Medicina e Saúde (UFBA), professora internacional da Somatic Experiencing Trauma Institute e de cursos autorais, coordenadora, supervisora e professora da Pós graduação em Psicotraumatologia Junguiana (IJBA). Co-fundadora e coordenadora do projeto social Mãe Providência-BA. Email: lianetto@uol.com.br

 

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