A Pane

02/01/2019

A natureza dá aos homens uma consciência moral que os empurra rumo ao desenvolvimento pleno. No entanto, o mundo lhes oferece caminhos ilimitados para a realização de desejos em detrimento da sorte do outro. O nosso sacrifício é trilhar vias pavimentadas pela responsabilidade ética e abrir mão de tais realizações, o que nos tornará saudáveis. Quando essa condição não é atendida, aparecem os sintomas neuróticos como uma tentativa de nos fazer voltar ao nosso verdadeiro caminho.

 

Em meio às fábulas intrigantes do escritor suíço Friedrich Dürrenmatt, encontrei o conto “A Pane”. Essa história nos leva a uma reflexão sobre o quanto somos responsabilizados por uma personalidade da qual ainda não temos consciência. Isso explica o personagem que se desvia intencionalmente da ética ao entender que os seus atos não são um erro, mas sim uma estratégia sábia para conquistar sua ascensão social.

 

Dürrenmatt conta a história de um caixeiro-viajante, Alfredo Traps, que interrompe sua viagem depois de uma pane em seu carro recém-adquirido, resultado de suas conquistas. Devido ao horário, ele é obrigado a pernoitar na cidade pequena onde parou. É acolhido por um idoso, juiz aposentado, e este o convida para participar de um suntuoso banquete com um jogo curioso que faz o velho relembrar sua função quando estava na ativa.

 

Os amigos do ex-juiz que participam do jogo, também idosos, curiosamente um ex-promotor e um ex-advogado, convidam Traps a ser um réu e ele aceita. Traps alega inocência e o promotor lhe diz: “inocência ou não, o que decide é a tática!”. Então comenta: “quem de nós, consciente, sabe de nossos crimes e delitos secretos?”.

 

Procuram um crime para imputar ao réu, mas Traps não reconhece ter feito nada em sua vida que pudesse enquadrá-lo nessa condição. O promotor vai lhe fazendo perguntas e o interrogado aos poucos vai dando informações que terminam por fazê-lo tomar consciência de sua responsabilidade na morte de seu patrão.

 

As conquistas de Traps se devem ao fato de ele ser o amante da esposa do chefe. De repente, a encenação ameaça se tornar realidade e Traps se pergunta se afinal ele é ou não um criminoso, já que o patrão morreu de um infarto decorrente da descoberta do adultério. Depois de tomar consciência por causa de tão pesada atuação do lado sombrio de sua personalidade, que lhe proporcionou crescimento econômico e social, o conto nos leva a um final surpreendente para nos mostrar o conflito vivido pelo sujeito após o entendimento de seus atos.

 

Na psicologia junguiana, denominamos de “Sombra” tudo aquilo que não sabemos que nos pertence e precisamos de um outro para nos revelar. Esse outro, na maioria das vezes, é o analista, quando a neurose avança como sintoma e nos obriga a procurá-lo.

 

Traps trilhou esse caminho intencionalmente, sabendo que estava errando, mas se explicava intelectualmente as razões que o levaram a agir daquela forma. Entendia seus atos como estratégia para melhorar de vida e acreditava que não havia cometido nenhum crime. O promotor o levou a reconhecer suas culpas que contribuíram para o desfecho da sua história.

 

Jung relata em sua obra que acredita no poder e na dignidade do intelecto, mas somente se este não violar os valores do sentimento. Um simples simulacro de julgamento ativou em Traps a noção correta dos seus atos que antes ele não havia avaliado de forma consciente. Para a analista suíça Aniela Jaffé, cooperadora de Jung, quem não sente a responsabilidade ética que seus conhecimentos comportam sucumbirá ao princípio do poder. Disso poderão resultar efeitos destruidores não só para o próprio indivíduo como também para os outros.

 

A decisão ética é parte de nossa vida rumo ao desenvolvimento pleno. Não poderemos nunca ser poupados disso sem as consequências nocivas. O analista deverá, portanto, levar o seu paciente a reconhecer a personalidade da qual derivam seus atos, mas não conhece o suficiente para perceber o bem e o mal de suas atitudes.

 

Em sua obra, Jung diz que “a arte de viver é a mais sublime e a mais rara de todas as artes”. Em outras palavras, ou atuamos rumo a nos tornarmos um ser adulto autoconsciente ou regredimos para uma condição de atitudes inconsequentes rumo a atuações infantilizadas e primitivas.

 

O nome do personagem é “Traps”, armadilha em inglês. A pane em seu carro é o acaso regido por uma outra ordem desconhecida; juntos, como uma sentença, conduzem nossa vida rumo a uma evolução ou, na impossibilidade desta, a um desenlace inesperado. Traps adotou uma atitude pueril que descartou a responsabilidade da decisão e entregou-se aos impulsos emanados do inconsciente.

 

Traps é o símbolo de um estado de inconsciência que precisava de uma pane para encontrar-se com a sua consciência moral. Essa condição permitiu que ele se desse conta dos demônios que o fizeram agir em desacordo com as leis da vida que atuam na direção do desenvolvimento pleno de um ser. São demônios que só aparecem em quem está inconsciente em relação a seus atos e, ao não cumprir essas leis naturais, será conduzido a penosas solicitações da vida.

Carlos São Paulo – médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana. carlos@ijba.com.br  / www.ijba.com.br

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