A morte de Ivan Ilich

03/10/2018

Os homens criam um mito coletivo do ideal de ser dentro de uma sociedade. O eu se ilude e, em lugar de viver a sua verdade, muitos indivíduos procuram atender a esse ideal, esforçando-se para realizar o desejo ambicioso de obter posições sociais e ter poder. Ao adoecerem, dão-se conta da morte, e essa verdade lança-os às alturas para terem uma visão, às vezes tardia, de uma vida plástica que, em lugar de respeitar sua singularidade, investiu para atender à verdade coletiva. Essa é a lição dada pelo escritor russo Lev Tolstói por meio da novela A morte de Ivan Ilich.

A novela foi publicada em 1886 e conta a história de Ivan Ilich. Ele foi um homem que se destacou entre seus irmãos ao ocupar um cargo de grande relevância. Era um juiz que, por um lado, sentia o gosto do poder de decidir sobre o destino de um outro homem e, por outro lado, fez o seu próprio destino através de escolhas como um casamento sem envolvimento de alma, apenas para atender à oportunidade de cumprir a adaptação ao ideal social.

Em um casamento, buscamos completar-se no outro, e esse outro pode nos revelar a relação do eu com a sua própria alma. Para a Psicologia Analítica, “alma” é um conceito que define o modo como o eu se relaciona com o mundo interior, enquanto “persona” define o modo com que esse mesmo eu se relaciona com o mundo exterior.

O homem, em seu desenvolvimento, constrói um mundo interior que fala a linguagem dos símbolos e, por meio deles, relaciona-se com a natureza que nos habita e às suas exigências. Como o mundo externo, que compartilhamos, faz-nos reféns da razão e nos impede de ouvir os “murmúrios” da natureza que nos torna singular, muitos acabam seguindo o ritmo frenético dos “gritos” produzidos nesse mundo e se conduzem como manadas interessadas em realizar seus desejos ambiciosos de chegar ao sucesso em detrimento da alma.

Quando estamos tensionados entre as exigências de ser um indivíduo singular, imprevisível, adaptado a si mesmo para decidir seus caminhos de acordo com a sua essência e a decisão de realizarmos nossos desejos ambiciosos, no silêncio da noite, o eu cede lugar aos sonhos.

Quando sonhamos mergulhando em águas escuras e profundas nos assombramos. No entanto, gostamos quando voamos nesses sonhos. É o voo que compensa a sensação desconfortável do confronto. Essa é também uma luta entre se proteger com uma máscara que induz o outro a ter uma ideia falsa de nossa importância no mundo, enquanto, por outro lado, uma natureza tenta realizar a sua verdade e seguir o caminho para onde sua alma aponta.

Ivan Ilich vive uma vida sob a égide de um “juiz” interior severo. A exemplo do personagem bíblico Jó, entende que precisa seguir uma vida correta. Seu casamento foi definido por Tolstói como “um oceano de hostilidades veladas”. Em lugar de sentir o perfume de uma mulher, sentia o mau hálito. E a sua agressividade para consigo mesmo fez seu corpo tocar em um objeto que lhe anunciou uma doença que colocaria fim à sua existência.

Diante do adoecimento, sentiu-se como um réu diante dos médicos a aguardar uma sentença. Médicos famosos esqueceram-se de sua humanidade e se preocuparam apenas em nomear órgãos doentes, como muitas vezes ele fizera com o réu no tribunal ao se reportar aos autos.

Ivan Ilich viveu a vida do homem comum previsível que engana a si mesmo e ao outro. Em sua profissão, colocou-se, muitas vezes, como um Deus que decide o destino do outro ser para, tempos depois, confrontar-se, aos 45 anos, com os médicos que, de forma semelhante, pareciam ter em suas mãos uma sentença a proferir.

Diante da doença, assim como ele usava determinadas expressões para falar com os acusados, os médicos famosos que o atendiam lembravam-no dessa mesma postura. Ivan Ilich em meio a nomes de doenças, deixou de ser um indivíduo para tornar-se, no meio médico, as partes adoecidas de um corpo. Afinal, ele era um homem vivo com a alma a pedir que o considerassem por inteiro e não o atormentassem tanto com o “talvez” dessa ciência construída por incertezas.

Em sua “via crucis”, percebia que o caso não estava nesses órgãos doentes, mas na relação de vida e morte. A filha e esposa procuravam continuar suas vidas na sociedade. Em sua decadência, conta apenas com um criado que olha para ele como alguém sofrendo. Seu sofrimento moral, no entanto, era mais doloroso do que o sofrimento físico.

Ao enfrentar a morte, Ivan avaliou o que teve validade na vida. Viveu uma vida de aparências no desempenho do seu trabalho, no casamento e nas relações sociais. A alegria no trabalho se confundia com a ambição. Na vida social, a vaidade era seu alimento e compensava os dissabores dessa vida de um homem genérico com suas vitórias proporcionadas por jogos de cartas.

As imagens do passado voltavam a sua memória a partir das histórias recentes e descambavam para um tempo mais longe: o tempo da infância. Assim, a ponta do começo de uma vida se unia à do fim e formavam essa enigmática figura geométrica do círculo, em que não há começo nem fim. Tudo é eterno.

Carlos São Paulo – médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana. carlos@ijba.com.br  / www.ijba.com.br

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