Eveline

19/09/2018

       Fantasiar é o ato de mergulhar em si mesmo, utilizar-se do pincel da memória com as tintas das lembranças e, com a licença que os poetas têm, fazer surgir um retrato do passado conciliando-o aos nossos interesses. Muitas vezes, esse é o recurso que temos para revelar as situações que precisamos considerar para nos desembaraçarmos da tensão gerada pelo conflito que estamos vivendo no presente.

        Eveline é um dos 15 contos contidos na obra Dublineneses, escrita no princípio do século XX pelo irlandês James Joyce. Conta a história de uma jovem de 19 anos, sentada à janela de sua casa para tomar a importante decisão entre continuar seu pesaroso cotidiano de uma relação abusiva com o seu pai, ou encontrar sentido para sua vida entregando-se a um outro homem.

       A janela é um meio que permite apreciar o exterior a partir do interior. Por ela, Eveline vê, a partir do presente, o passado e tenta enxergar o futuro. Lança o olhar para aquelas casas de tijolos claros e telhados luzidios, diferentes da sua tão humilde e escura residência, e lembra que ali era um terreno baldio.

       Em sua imaginação, o terreno transformou-se em um palco em que desenrolava uma saudosa história. Nessa história, sua mãe ainda era viva e seu pai não era tão mau assim. Assistia com os olhos da memória, as crianças que ali brincavam. Aquele local, hoje escondido pelas casas ali construídas, trazia os personagens que já morreram ou foram morar em outro país. Era um indicativo de que tudo muda e ela estava ali para fazer uma escolha: continuar aprisionada a um casamento inconsciente com o pai e morrer para a vida; ou casar-se com um outro homem e ir para longe. Ao sair em direção à expansão da vida e mudar, precisamos nos conectar com a natureza para ser capaz de fazer o que chamamos “Rito de Passagem”. Culturas tradicionais praticavam intuitivamente esses ritos em que os jovens eram levados a estabelecer uma boa relação com os comandos da natureza universal dos humanos. Rompiam, assim, com a dependência que tinham de seus pais e tornavam-se capazes de abrir o fluxo do amor em outras direções. Essa é a passagem necessária para o jovem experimentar a emoção do amor num ímpeto de união com o objeto amado.

        Eveline vivia uma relação inseparável com sua infância e estava ainda mergulhada na ilusão de um passado em que ainda não sentira o amor de um homem, mas em que havia apenas o primeiro homem de sua vida, seu pai. O pai de Eveline reinou como uma majestade de poderes absolutos. Sua mãe morrera e em seu lugar ficara ela, que identificada com essa mulher que se submeteu aos caprichos de um homem que não soube amá-la, ofereceu sua natureza generosamente amorosa sem exigir nada em troca, tornando-se sua serva.

        O desenvolvimento nos exige sair do envolvimento com a experiência da infância e tornarmo-nos um adulto capaz de decidir seguir um caminho de aventuras em que os perigos fazem parte da vida. A exemplo da parábola cristã, tornar-se o filho pródigo que, por percorrer aventuras e viver com autonomia, foi digno de uma celebração, enquanto aquele que ficou ao lado do pai nunca entenderá essa comemoração feita para quem se desenvolveu.

     Quando a vida não tem nada a oferecer, nossas fantasias ressurgem a fim de mostrar caminhos. Eveline procura decidir seu destino, afinal estava namorando um marinheiro, o Frank, que a levaria como esposa para um outro país. Ela abandonaria o pai, que proibiu o namoro, e atravessaria o portal para um mundo especial que só cabe àqueles que amadureceram e correm os riscos naturais da vida. Frank poderia ser como seu pai dissera: “conheço bem esses marinheiros”, um homem falso, dissimulado. Eveline teria que tomar essa decisão no estreito espaço de tempo em que da janela ela assiste “o entardecer invadir a avenida” e, posteriormente, o momento em que “o entardecer aprofundou-se na avenida”. Até os objetos da sala, que após anos espanava todas as semanas, cada um em seu silêncio tinha sua história e ela teria de separar-se deles.

       A decisão da jovem, como em toda escolha importante da vida, envolvia valores morais. Torna-se preciso cometer o “pecado” necessário para conseguir o prêmio do desenvolvimento pleno. Essa é uma situação perturbadora. Seu pai contava-lhe histórias de fantasmas, enquanto Frank narrava histórias das terras desconhecidas.

     Frank é a possibilidade de outra vida. Era gentil e lhe levaria como esposo para países distantes. Era o jogo da segurança da tradição e o trair para rompê-la. Talvez ela quisesse sucumbir como sua mãe, negando-lhe o caminho de tornar-se um ser com personalidade tão singular quanto suas impressões digitais.

        Rezou a Deus para ajudá-la a se decidir. A oração dá ao indivíduo religioso um senso de alívio pela segurança de contar com a dimensão de um pai arquetípico. A decisão do “eu” de Eveline era comprometida com os seus complexos de ligação com as figuras parentais e decidiu não decidir. Demonstrou total indiferença ao amor e diante daquele mar incógnito escolhe ver o navio partir e deixa Frank sem entender por que ela foi capaz de infligir o mal aos outros e a si própria. Seus olhos não mostravam ao rapaz sinais de amor ou saudade.

        Homens como Frank temem o dano e a destruição que as “Evelines” são capazes de provocar. Mulheres como Eveline precisam libertar-se da sua dependência do amor do homem como forma de poder fazer a ligação com o seu próprio amor, isso evitará padrões destrutivos no relacionamento moderno entre homens e mulheres.  

Carlos São Paulo – médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana. carlos@ijba.com.br  / www.ijba.com.br

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