Carta ao Pai

13/08/2018

 

 

O sofrimento provocado pela repetição de erros existenciais pode resultar da inimizade secreta entre um pai e um filho. O pai, ao não ter consciência da inveja que tem quanto à vitalidade e juventude, influenciará perversamente na estruturação da psique do filho. O resultado é um homem inapropriado para conviver com o amor e o respeito por si mesmo.

 

Franz Kafka vivia numa cultura que transformava o corpo em algo proibido ao toque feito por um outro homem. Construiu um pai sensorialmente ausente e, talvez por isso, ele confinou as mulheres a um papel de atendê-lo em suas carências masculinas. De acordo com os seus biógrafos, teve uma vida aprisionada a uma incessante necessidade de relacionamentos em que o sexo e o amor não se uniam. Vivia em bordeis e teve diversas amantes sem nome.

 

Franz foi autor de ficções célebres. Desviou-se desse caminho para escrever um texto realista cujo nome é Carta ao pai. Nela ele mergulhou profundamente na relação pai e filho e pintou as fantasias que a sua psique registrou sem que seu pai percebesse o script que nela inseriu.

 

Esse roteiro fez Franz tornar-se um homem frágil e permanentemente oprimido pelo pai, que sempre carregou em si, como objeto psíquico. No final do texto, Kafka, referindo-se ao pai, chega à seguinte conclusão: “Se não me equivoco muito, você ainda está parasitando em mim com esta carta”. Não, ele não estava equivocado. Esse pai é o “Outro” que habita sua psique e que na Psicologia Analítica chamamos de “Complexo”.

 

“Complexo” é uma estrutura que se organiza em nosso mundo psíquico para dar conta de situações emocionalmente difíceis de serem assimiladas. Funciona como uma outra personalidade, sempre presente, que busca todas as experiências que façam analogias entre si. Essas se comportam como se fossem as mesmas e nos fazem reagir como se o “livre arbítrio” não existisse. Viramos autômatos a seguir “os roteiros” que nossos pais jamais pensariam em ter sido seus autores.  

 

Dessa forma, mesmo reconhecendo um comportamento inadequado, não conseguimos agir conforme nosso saber até que venhamos a esclarecer o que a ele está associado. Identificado o complexo, precisamos aprender a conseguir guardar a distância ideal para poder obter algum grau de liberdade. Essa é a limitação dos livros ditos de “autoajuda”.  

 

Esses complexos guardam em seu ventre as experiências da humanidade. Tais experiências, ditas arquetípicas, podem ser conhecidas quando apreciamos e refletimos sobre a leitura de histórias antigas que chamamos de mitos. Elas possuem a linguagem de que o inconsciente se utiliza para se expressar em sonhos, visões e fantasias. Recorro, portanto, ao que chamamos de inconsciente coletivo. 

Se entendermos a trama que traduz os comportamentos distorcidos, poderemos ter a ideia do que é saudável. Um dos mitos dos gregos antigos conta a história da relação de Teseu com o seu filho Hipólito. Trata-se de uma narrativa que nos faz compreender uma tendência natural de um pai que experimenta o envelhecer como uma decadência e humilhação a ter uma inveja inconsciente da juventude exuberante do filho. O resultado, quando isso ocorre, é transformar esse filho em um homem, como Kafka, que não sabe amar e nem se permitir ser amado.

 

Nas últimas décadas, o “pecado” (palavra grega que significa errar o alvo) é a permissividade. Talvez estejamos compensando esse passado por oposição. Saímos da repressão extrema para a excessiva liberdade que apaga todos os limites que deveriam ser dados aos filhos. Estes se tornam vítimas dessa falta de embargos. É um outro modo de experimentar um pai ausente e distante física ou psicologicamente.

 

Essa carência de pai pode levar o filho a uma euforia (eu fora de si). A consequência é uma busca do prazer e da felicidade que resulta em um culto ao corpo. Daí a busca de uma satisfação imediata e fugaz sem o necessário vínculo afetivo tão importante para se existir para o outro com algum grau de importância e companheirismo. Dessa forma ficamos sem atender ao nosso instinto gregário.

 

Assistimos hoje ao pai enfraquecido, e a mãe desfeminilizada a levar as meninas a não poderem ter um modelo masculino confiável. Por sua vez, os meninos não encontram um modelo masculino adequado para se identificarem. Quem será então que vai mediar o núcleo familiar com o desafiador mundo externo? O pai não consegue ajudar o filho a “penetrar” o mundo desconhecido que só os heróis adentram. Enquanto isso, esse pai, na forma de herói decadente, deixa o filho à sorte de suas emoções desenfreadas tornando-o agressivo e inconsequente com a ética.

 

A inveja de um pai, pela juventude do seu filho, é algo que não se pode provar, mas constatar. Internado num sanatório para tratar uma tuberculose na laringe, morre Franz Kafka aos 41 anos sem nunca ter dito ao seu pai o que o menino Franz sofria na relação com ele. O seu sofrimento foi traduzido em palavras, numa longa carta que se transformou numa obra de arte para orientar os futuros pais sobre o amor e a verdade.

Carlos São Paulo – médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana. carlos@ijba.com.br  / www.ijba.com.br

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