Angústia Filosófica e Poética

18/07/2018

 

Esta resenha sobre a abordagem envidada por Heidegger para a angústia em seu livro Ser e Tempo foi desenvolvida através de um estilo ficcional, imaginando-se um suposto debate travado entre esse filósofo e o poeta Fernando Pessoa em torno do tema.

 

Heidegger inicia sua reflexão sobre angústia colocando esta como sendo a disposição que nadifica  o mundo, o que equivale dizer que a angústia revela o nada para o homem, mostrando que o real é coisa nenhuma – é originariamente ausência de coisa, de ente. Assim, a angústia, enquanto disposição que acompanha a percepção da realidade pelo ser, é o que permite a este ver pela primeira vez mundo como mundo – como sendo nada pré-constituido, como nada. (1)

 

Pessoa, sentindo-se motivado a se posicionar em relação à percepção da realidade pelo homem e sobre o mistério do significado das coisas, pondera: Nada se sabe, tudo se imagina. (2) Nada que vale a pena ser lembrado é inteiramente real, e nada que vale a pena ser real vale a pena. (3) O mistério das coisas, onde está ele? Onde está ele que não aparece, pelo menos a mostrar-nos que é mistério? Porque o único sentido oculto das coisas é elas não terem sentido oculto nenhum, é mais estranho do que todas as estranhezas e do que os sonhos de todos os poetas e os pensamentos de todos os filósofos, que as coisas sejam realmente o que parecem ser e não haja nada que compreender. Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: as coisas não têm significação: têm existência. As coisas são o único sentido oculto das coisas. (4)

     

Como que atiçando o debate, Heidegger questiona: Pode o homem apreender o real em seu todo, para desse modo lançar-se além dele?. Encontrar-se no meio do real em sua totalidade é diferente de poder apreender a totalidade de sua realidade. Diferentemente da apreensão, o encontrar-se em meio ao real em sua totalidade está relacionado a um sentir-se lançado em um mundo que sempre já se deu.

     

O poeta parece entender o questionamento do filósofo como um convite para um posicionamento seu sobre a metafísica, o que motiva aquele a opinar: Há metafísica bastante em não pensar em nada. O que penso do mundo? Sei lá o que penso do mundo! Se eu adoecesse pensaria nisso. Que idéia tenho eu das coisas? Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos? Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma e sobre a criação do Mundo? O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério! O único mistério é haver quem pense no mistério. Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores? Mas que melhor metafísica que a delas, que é a de não saber para que vivem, nem saber que o não sabem? “Constituição íntima das coisas”... “Sentido íntimo do Universo”... Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada. O único sentido íntimo das coisas é elas não terem sentido íntimo nenhum. (5)

 

Voltando ao objeto da conversa, Heidegger prepara o terreno para retomar o tema da angústia através de uma abordagem preliminar sobre tédio. Para o filósofo, o sentimento de encontrar-se lançado em meio à totalidade sobrevém quando o homem não se encontra ocupado (com as coisas e com ele mesmo). O tédio profundo revela a total ausência de sentido – uma relação com a totalidade da vida que aparece como sem sentido, revela a irrevogabilidade do que é, da totalidade do real que aparece como sem sentido, mas que, contudo, deveria ter um. O tédio mostra que a existência reclama por ser. Assim, o tédio revela ente (a totalidade do ente), enquanto a angústia revela o nada.

 

A melhor forma que Pessoa encontrou para expressar sua idéia de como o homem pode se tornar imune ao tédio e à angústia foi através de uma metáfora: Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois que vem a chiar, manhãzinha cedo, pela estrada. E que para de onde veio volta depois quase à noitinha pela mesma estrada. Eu não tinha que ter esperanças – tinha só que ter rodas... (6)

 

Não perdendo o rumo da prosa, Heidegger amplia seu colorido sobre o quadro da angústia, contemplando tonalidades de estranhamento, afastamento e distanciamento entre o ser e as coisas.  Este coloca que na angústia, o homem se encontra mergulhado no nada como aquilo que é próprio e constitutivo à existência –  o extrato básico e fundamental da vida que não reclama por sentido algum para além dessa atividade própria de constituição. A Angústia é a experiência de estranheza e de solidão, sendo o estranhamento um processo de afastamento, distanciamento das coisas. Ao nos afastar de algo coisificado, o estranhamento nos aproxima do afeto dessa coisa, explicando-se, dessa forma, o fazer artístico que busca recriar as coisas.

 

Para essa visada de estranhamento, o poeta preferiu focá-lo como um processo espelhado nele mesmo como um ser humano (talvez coisificando-se?) e faz uma auto-análise impiedosa que o nadifica: Não sou nada; Nunca serei nada; Não posso querer ser nada; À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa! E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta. Fiz de mim o que não soube, E o que podia fazer de mim não o fiz. Quando quis tirar a máscara, Estava pegada à cara. (7)

 

Ainda com a palavra, Pessoa, na sua condição de poeta, aborda o “fazer artístico que busca recriar as coisas” mencionado pelo filósofo, alertando que: O poeta é um fingidor. Finge tão completamente, Que chega a fingir que é dor, A dor que deveras sente; E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem; Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm; E assim nas calhas de roda, Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda, Que se chama coração. (8)

 

Continuando pela trilha do estranhamento, Heidegger ressalta a perda de sentido das coisas nesse contexto, afirmando que na angústia há uma desmundanização de mundo, enquanto aquilo que é dado e que configura sentido. Na angústia, as coisas vão perdendo sentido e vão entrando numa indiferença, significando a perda de determinação das coisas e apontando para o fato de que estas vão perdendo familiaridade e tornam-se estranhas. Sentir-se estranho é sentir-se em meio ao real como em meio ao indeterminado.

 

Parecendo não se sensibilizar com essas questões de perda de sentido das coisas no mundo como visto pela filosofia, o poeta coloca com certa displicência: Pouco me importa. Pouco me importa o quê? Não sei: pouco me importa. (9) Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol. Ambos existem; cada um como é. (10) Cada coisa a seu tempo tem seu tempo. (11)

 

Estupefato pelo fato de uma pessoa (logo o Pessoa!) não se deixar tocar por tão esquisitos artefatos da arquitetura humana, Heidegger insiste, batendo com ainda maior vigor na mesma tecla, reforçando que o tédio do tédio é o tédio de sentir-se entediado, de ver tudo num sentido banal. Ao entediar-se do seu tédio, o homem pode retomar vida em seu sentido próprio – em sua indeterminação -, mergulhando, assim, na angústia, ao desfamiliarizar e tornar para si estranho o real que era a sua casa. O paradoxal é que essa estranheza é o lar do homem, a sua morada própria, na qual ele encontra o seu destino – a sua possibilidade própria de ser.

 

Sentindo-se impotente nesse cenário de tédio do tédio, o poeta parece “puxar a toalha” ao aceitar que: Perdido, resta o derradeiro inferno, Do tédio intérmino, esse de já não, Nem aspirar a ter aspiração. (12)

 

Ao lado da estranheza, continua Heidegger, a experiência da solidão também é inerente à angústia, a solidão necessária à obra – necessidade constitutiva do homem de se fazer desde si e para si, sem remeter para nada além desse fazer mesmo (sem nenhuma finalidade, nenhum sentido a não ser o fazer).

 

A solidão não parece afetar o poeta que de forma resignada assume sua sina: Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim. (13)

 

Agora o filósofo abre uma perspectiva para as possibilidades futuras da constituição humana a partir de sua angústia adormecida, registrando que o homem, como ser-aí (“pre-sença”), mostra-se como estando na condição de poder questionar o real em seu ser – como estando sempre na possibilidade da transcendência, do questionar metafísico. Nessa condição, Heidegger lembra que “a angústia está aí. Ela apenas dorme”. No homem ela dorme como aquilo que o possibilita ser, fazendo com que o mesmo se encontre sempre na possibilidade de vir a ser tocado por ela – na possibilidade de poder vir a ser, de constituir-se desde si mesmo.

 

Indo no sentido contrário da análise – o que foi constituído ao invés do que pode vir a ser – Pessoa faz um balanço não muito positivo de seu percurso nessa vida: Sou quem falhei ser; Somos todos quem nos supusemos; A nossa realidade é o que não conseguimos nunca. (14) Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram. (15)

 

Construindo uma ponte entre a angústia e o ser no mundo, Heidegger argumenta que a angústia revelaria a totalidade originária da pre-sença, que só poderia ser “percebida” por um olhar abrangente, que a perpassasse enquanto unidade. O com que a angustia se angustia não é nenhum ente intramundano. Ela se angustia com o ser no mundo, que é algo completamente indeterminado. Para a angústia, o que ameaça não se encontra em lugar algum (o nada). A angústia, ao angustiar-se com o ser no mundo, mostra-se como a disposição que abre originariamente mundo como mundo.

 

Olhando para o ser no mundo através de uma visão temperada por uma angústia pessoal, o poeta compartilha sua tristeza aguçada por esse quadro:  Moram ali pessoas que desconheço, que já vi mas não vi; São felizes, porque não são eu.. Que grande felicidade não ser eu! Os outros nunca sentem; Quem sente somos nós, sim, todos nós; Até eu, que neste momento não estou sentindo nada. Nada? Não sei... Um nada que dói... (16)

 

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

 

1 CORDEIRO, Robson Costa. Heidegger e a angústia como revelar-se do nada.

 

2  PESSOA, Fernando: Odes de Ricardo Reis, p. 107.

 

3 Id., Poesia de Álvaro de Campos/No. 97, p. 305.

 

4 Id., Poemas de Alberto Caeiro/O guardador de rebanhos - XXXIX, p. 78.

 

5 Id., Poemas de Alberto Caeiro/O guardador de rebanhos - V, p. 39.

 

6 Id., Poemas de Alberto Caeiro/O guardador de rebanhos – XVI, p.56.

 

7 Id., Poesia de Álvaro de Campos/Tabacaria, p. 270.

 

8 Id., Cancioneiro/Autopsicografia, p. 131.

 

9 Id., Poemas de Alberto Caeiro/Poemas inconjuntos, p.127.

 

10 Id., Poemas de Alberto Caeiro/Poemas inconjuntos, p.122.

 

11 Id., Odes de Ricardo Reis, p. 53.

 

12 Id., Cancioneiro, p. 36.

 

13 Id.,Poesia de Álvaro de Campos/No. 133, p. 354.

 

14 Id., Poesia de Álvaro de Campos/No. 180, p. 418.

 

15 Id., Poesia de Álvaro de Campos/No. 143, p. 370.

 

16 Id., Poesia de Álvaro de Campos/No. 188, p. 429.

ABSOLON MACEDO - Engenheiro, Especialista e Mestre em Administração, com Extensão em Gestão pela University of Waterloo/Canadá;  Pós-graduações em Psicologia Geral e Analítica das Organizações, em Filosofia Contemporânea e em Sociologia do Trabalho e da Saúde Mental;  Formação em Psicologia do Comportamento Social no CAPT-OKA/EUA, com Treinamento nos Institutos Junguianos de New York, Washington, Texas, Florida e Cleveland/EUA;  Qualificação e Certificação para aplicação do MBTI – Tipos Psicológicos (Steps 1, 2 e 3) e do PMAI (Estrutura Arquetípica) pelo CAPT/EUA, e do EQ-2.0/EQ – 360 (Inteligência Emocional) pelo MHS/EUA; Consultor e Professor de Pós-Graduação de Filosofia do Comportamento Humano e de Liderança e Comportamento Organizacional.

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