Crer ou não Crer – uma conversa sem rodeios entre um historiador ateu e um padre católico

28/03/2018

 

Na modernidade, a fé em Deus foi abalada com os recursos da ciência. Os homens adoecem e, mesmo que recorram às orações, vão ao médico. A ciência causou a impressão de que só existia o mundo prático e lógico da razão. Daí existirem discussões como a do historiador Leandro Karnal e o padre Fábio de Mello, publicadas recentemente como "Crer ou não crer – uma conversa sem rodeios entre um historiador e um padre católico".
 

O Eu, como centro da consciência, faz-nos perceber o mundo limitado que possa fazer sentido ao modo de pensar lógico. No entanto, a psique do homem funciona com os seus signos e símbolos. Um símbolo, a poesia da psique, é muito mais do que aquilo que se vê e se pode definir. Desfrutamos melhor do poema que escoa junto com a vida, do que a narrativa pesada dos fatos. Enquanto contamos minutos com um relógio, um outro tempo é marcado por nossas mudanças físicas; mudanças essas imperceptíveis aos observadores dos minutos, mas que se denunciam com as fotos que congelaram com o calendário. A verdade de existirem nascimento e morte levou o sujeito a orientar-se pela dimensão mágica do tempo que nunca teve começo nem fim. Experimentamos assim dois aspectos de uma mesma realidade.
 

O símbolo é essa realidade que mostra o lado observável que se pode descrever junto com uma outra face enigmática e oculta que mobiliza as emoções e produz o efeito de conectar o sujeito com o todo desconhecido de nossa natureza. O símbolo guarda em si a energia de que precisamos para viver.

 

Na sociedade humana, essa energia, o símbolo, que não se transformou em trabalho concreto, fez criar instituições como as religiões. Estas teriam a finalidade de fazer o homem experimentar a parte incognoscível por meio da espiritualidade, mas isso nem sempre acontece. Na Grécia Arcaica, por meio da religião, os homens reconheciam que a vida era superior ao homem e procuravam interpretar o mundo em lugar de conhecê-lo ou pretender alguma verdade. Utilizavam os mitos como orientação de como viver a vida, assim como a Psicologia Analítica procura fazer. O analista toma o mito como um sistema de orientação, sem essa verdade absoluta que a ciência sugere.

 

Por muito tempo, o homem almejou subir a “Torre de Babel” e encontrar uma verdade, como a realidade da morte. Criaram agentes psíquicos, como objetos concretos do mundo objetivo, e o ateu ficou a perguntar qual seria a lógica. Assim, os homens se dividiram naqueles que tomam o demônio como um agente que tem existência própria, e naqueles que sabem lidar com o abstrato e o entendem como símbolo.

 

A ciência e a tecnologia exigem de nossas funções psíquicas o intelecto, com o seu pensamento lógico, e a percepção normal, por meio dos nossos sentidos. Em oposição, está o mundo da magia. Neste participam as funções psíquicas intuição e sentimento. Intuição é o adquirir saber instantâneo que não depende de um conhecimento empírico ou da interferência de raciocínios. Sentimento, na formulação de Jung, é um julgamento de valor responsável por nossas crenças. Assim, ciência e magia são dois aspectos de uma mesma realidade.

 

No Egito Antigo surgiu a alquimia, a qual teve seu auge nos séculos XIV e XVI. Os alquimistas traziam a ciência e a tecnologia como o trabalho (labor) junto com as suas orações para contemplar o desconhecido (oratório). Portanto, o “laboratório” dos alquimistas contemplava a ciência e a magia. Hoje, a física trouxe a dualidade partícula-onda, uma outra maneira de expressar ciência e magia.

 

Com a evolução da consciência, a magia como o lado mais enigmático dessa realidade foi sendo absorvida pela ilusão de uma visão unilateral da ciência e surgiu a ideia anunciada por Nietzsche: “Deus está morto”. Deus então deixava de ser um símbolo, pois como símbolo não poderia estar morto, e sim existir na dimensão de um fenômeno incognoscível que atende à necessidade humana em representar o mistério.

 

Numa entrevista, Jung disse: “não preciso crer em Deus, eu sei”. Ele não se referia a dizer que há um determinado Deus, mas que ele se acha confrontado com um fator desconhecido em si, o qual ele denominou "Deus". “Deus” não era para ele um ser supremo universal e metafísico do credo religioso ou das “filosofias”; era uma força do destino tanto sob o aspecto positivo como sob o aspecto negativo.

 

O padre Fábio de Mello nos descreve sua experiência com um Deus como símbolo. Em sua prática religiosa procurou enriquecer a vida interior com o fazer silêncio, que é um pouco mais do que calar a voz. O Deus do padre não é antropomórfico, que como um amigo fiel ajuda a tudo acontecer no mundo de acordo com as suas expectativas; ele é definido como um ser inatingível, sem nome possível e sem forma cognoscível. Leandro Karnal diz nunca ter considerado as religiões ruins em si, e sim como humanas. Lembra que o ateísmo dificulta aceitar o absurdo da existência e o fim de tudo com a morte. Diz que Deus não existe porque o existir para a estrutura da consciência do Eu é para os seres, e Deus não é um ser nesse sentido.

 

Para os autores dessa obra, a sobrevivência da religião pressupõe um Deus pessoal, não institucional e subjetivo. A espiritualidade que decorre da religiosidade é o verdadeiro ato de religar-se. Consideram importante quando uma religião consegue incluir no seu adepto a sensibilidade ao símbolo. Este não precisa de explicação, desprendendo-se da racionalização.

 

Deus como símbolo não é uma discussão teológica, mas um modo de entender nossa experiência com o inconsciente coletivo, afirma Jung.

Carlos São Paulo – médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana. carlos@ijba.com.br  / www.ijba.com.br

 

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