Dom Quixote de La Mancha

29/11/2017

   

 

        Nascemos mergulhados em um só mundo, o mundo interno, onde existem todos os segredos da natureza. Com a consciência, aos poucos vamos nos esquecendo desses segredos à medida que esse universo interior torna-se pequeno e ilógico frente às exigências de nossa adaptação ao mundo externo, que parece tornar-se a nossa única verdade.

 

        Ao chegarmos à meia-idade, como um fidalgo, constatamos que não realizamos o que imaginávamos que iríamos conseguir. Esse é o momento em que a natureza da psique nos empurra para a adaptação ao fantástico, esquecido e tão pouco compreendido mundo interior. A ingenuidade nos acompanha, como Sancho Pança ao Dom Quixote, numa busca de um amor perfeito e uma sociedade justa.

 

        Miguel Cervantes escreveu, aos 58 anos, numa prisão de Sevilla, a primeira parte do clássico da literatura universal Dom Quixote de La Mancha. Dom Quixote se imortalizou, e a cada geração esse clássico renasce para atender ao espírito do tempo. Aprendemos com ele que não somos uma personalidade única e carregamos tanto o fidalgo Alonso Quijano quanto o Dom Quixote de La Mancha em nós mesmos.

 

        O romance conta a história de Alonso Quijano, um fidalgo de La Mancha, que ao chegar à meia-idade, passava os dias e as noites a ler livros de cavalarias. Como pouco dormia, perdeu o juízo. Feitiçarias, batalhas, desafios, amores e disparates impossíveis encontrados nesses livros habitavam o seu mundo interior ou a sua imaginação. Um dia ele sai em busca de similitudes entre as descrições dos livros e a realidade encontrada no mundo.

 

        Esse nosso mundo interno é modelado pelos arquétipos que traduzem nossa mente arcaica, que tem sua forma própria de se expressar e contém também nossas experiências primais. Assim, os heróis que lá habitam nos instigam a buscar nossa importância no mundo. Quando não conseguimos essa notoriedade, compensamo-nos ao projetar essa necessidade em nossos ídolos. Para alcançar esse equilíbrio, a psique cria símbolos que são sistemas que carreiam energia psíquica quando tudo que é lido nesse mundo interno encontra seu análogo no universo externo.

 

     Quixote, em sua inabilidade no contato com a realidade, perde sua primeira luta com os obstáculos criados por suas fantasias e admite poderes de magos como Frestão e Merlin. Ele encontra como solução nomear seu vizinho Sancho Pança de “pouco sal na moleira”, que é persuadido a ser seu escudeiro. Promete-lhe ser governador de uma ilha e ele prontamente abandona mulher e filhos em busca de aventuras. Dessa forma, Sancho salta de um mundo monótono construído de rotinas para um atraente universo de emoções. O encantamento de Quixote são os magos e o de Sancho é o seu mestre Quixote.

 

        A nossa adaptação à sociedade é regida pela linguagem lógica, que nos permite a comunicação clara com o outro. Essa, no entanto, é uma linguagem que se opõe ao nosso mundo interno, onde habitam os magos e todas as outras figuras da imaginação desse mundo fantástico e primitivo. Enquanto é saudável ser primitivo com relação ao mundo interno de nossa psique, tornamo-nos supersticiosos quando essa mesma atitude é aplicada ao mundo exterior.

 

        Dom Quixote e Sancho são duas partes do nosso ser. São eles que fazem a interpretação da realidade. Enquanto o primeiro crê nessa realidade externa como vê, o segundo duvida, mas é convencido devido à sua ingenuidade. Esses são os movimentos interiores que se conflitam na interpretação do mundo observável. São lados diferentes e complementares. É a dupla face da verdade que nunca pode ser unilateral e sem paradoxos.

 

        Ser unilateral é subtrair da totalidade o essencial. Caminhamos na vida como Quixote e Sancho Pança, lutando com os nossos conflitos criados por essa ilusão do Quixote, que deforma os objetos da realidade e transforma-os em gigantes com os quais precisamos lutar e pelos quais muitas vezes somos derrotados. Nossos complexos na forma de Frestão e Merlin nos deixam iludidos devido à companhia de nossa ingenuidade.    Quixote se enamora de uma lavradora que nem se quer sabe da existência desse amor. É a Dulcinéia del Telboso, que como Beatriz, de Dante Alighieri, faz o seu papel em conduzir o homem pelo mundo das trevas de sua inconsciência. A bem-amada perfeita, como modelo feminino que completa com o masculino a totalidade dessa unidade primordial, faz do verdadeiro amor uma utopia. Amar como totalidade requer uma incompletude.

 

        Percorremos a vida nos adaptando ao que a sociedade elege como o ideal. Os embaraços que nos acodem na meia-idade nos fazem esbarrar na impossibilidade de continuar nessa progressão adaptativa, pois algo nos faz sentir o vazio da existência ou a dificuldade de seguir em frente com essas sensações quase insuportáveis. Mergulhamos pela abertura para o mundo interno da psique e lá nos deparamos com os recursos sábios do pensamento arcaico, que ao emergirem na consciência, precisam que saibamos diferenciar o literal do simbólico.

 

        Assim como no imaginário de Cervantes surgiram as imagens capazes de nutrir e preencher o vazio existencial do homem por séculos, podemos permitir que as nossas ilusões e esperanças de um mundo melhor alimentem o sonho da realização dos nossos ideais. Nunca devemos abrir mão das utopias.

 

Carlos São Paulo – médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana.

 

carlos@ijba.com.br  / www.ijba.com.br

 

 

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