Os Três Porquinhos

19/07/2017

 

Como as inocentes historinhas infantis podem nos levar a diversos caminhos de reflexão e serem úteis para explicarmos, por exemplo, o desenvolvimento da personalidade de um homem ou o da própria humanidade, tomo como modelo a história dos três porquinhos.

 

Essa história foi resgatada na Inglaterra pelo folclorista Joseph Jacobs, no século XIX, que o transformou em literatura infantil. Os personagens do conto são os três porquinhos – Cícero, Heitor e Prático – e um lobo fixado na ideia de devorá-los.

 

A história começa quando os três porquinhos decidiram sair da casa da mãe. Foi cada um construir a sua própria casa. Cícero constrói uma casa de palha e barro; Heitor faz a dele com madeira e pregos; enquanto Prático edifica com cimento e tijolos. No dia em que o lobo aparece, com um sopro desmorona a casa de Cícero, que foge para abrigar-se com o irmão Prático. Com um esforço maior, o lobo também destrói a casa de Heitor, que vai abrigar-se com os irmãos. No entanto, o lobo tenta derrubar a casa de Prático e não consegue. Resolve então descer pela chaminé, mas esta estava acesa. Dessa forma, o lobo é assado, e os porquinhos se alimentam dele.

 

Imaginar essa história como metáfora nos permite explorá-la em várias direções, como fazemos com os nossos sonhos, até que possamos nos dar conta de algo importante para esclarecer nossos comportamentos e atitudes. Essa é uma das histórias que nunca aconteceram, mas revelam uma verdade maior, contida na engrenagem dessas imagens que expressam a nossa natureza.

                 

Ao chegarmos ao mundo, abrimos os olhos, e os expectadores percebem que há uma consciência. O desenvolvimento desse bebê segue junto à construção de um eu, que é uma estrutura para organizar os conteúdos do que tomamos consciência. Esse eu é a nossa personalidade, que se fortalece quando consegue exercitar-se no embate da vida. Essa estrutura, como uma ponte entre o que foi esquecido e a realidade externa que nos convida a interagir, nos faz construir uma ideia de nós mesmos definida por uma imagem que se entrelaça com esses conteúdos jogados na escuridão do inconsciente e que definimos como ego.

 

Essa construção do ego pode ser frágil como uma casa de palha e barro. É fácil derrubá-la com o sopro do lobo, ou com os conflitos da vida, e reduzi-la a seus fragmentos de palha e barro, gerando assim a perda de sua unidade funcional para, em lugar de um eu, fazer surgir um feixe de “eus”. Nessa condição, os lobos, que são apenas fadas adormecidas, se põem a assombrá-los constantemente. Surge então a loucura.

             

Um outro modo de olhar para essas imagens é observarmos a humanidade em seu percurso evolutivo. No princípio, sem os recursos que hoje a ciência nos trouxe, a natureza, ou o lobo, em nossa analogia, era uma ameaça constante que deixava nossas vidas efêmeras.

                

Um ego construído como uma casa de madeira, unida por pregos que vão aos poucos sofrendo a corrosão pela oxidação em pontos fundamentais para a sua sustentação, torna-se vulnerável ao sopro do lobo, que, com um pouco mais de insistência e esforço, faz tudo desmoronar. Suas partes agora não oferecem mais coerência ao que é sentido como realidade, enquanto as fadas adormecidas acordam embriagadas e descontentes. Elas são ainda vistas como lobos que atrapalham a vida de si próprio e dos demais. Surge então o quadro neurótico.

                 

Essas imagens nos fazem pensar no estágio da humanidade em que esta oferecia alguma resistência à natureza, mas não o suficiente para controlá-la. A ciência do século XVII já havia popularizado os sabonetes, que passaram a ter baixo custo, e, no século XIX, Louis Pasteur provava que existia uma relação entre higiene corporal e saúde.

 

Chegam os tijolos, e a casa de alvenaria tem seus blocos unidos por um bom cimento que a faz resistir aos sopros do lobo. O ego, agora fortalecido, mantém-se numa boa relação com a natureza que lhe deu origem. É um verdadeiro ato de religare.

 

Religare vem do latim e tem o significado de religação. Refere-se a uma nova ligação entre o homem e a totalidade do seu ser, ou à ideia de Deus. Os esforços do lobo não mais abalam esse ego, ou a casa se mantém em sua unidade funcional. As fadas adormecidas acordam para fazerem parte da vida e deixarem o mundo mais encantado e sem lobos. Esse lobo, como a unilateralidade, a literalidade e a garantia de segurança, não mais nos assombra. Em vez disso, vivenciamos a sabedoria e nos alimentamos dos nossos sonhos, mesmo os utópicos. Não mais desprezamos do eu as partes que, perante a sociedade ou a família, não venham a ser desejáveis. Sentimos o cimento que nos une e somos agora “in-divíduo”.

 

O desenvolvimento desse ego depende de que a condução com que os conflitos produzidos na vida, entre o que se quer e o que está, seja bem feita. É, portanto, a infância o grande momento de se aproveitarem as potencialidades da natureza de um ser e oportunizá-las através da nossa responsabilidade de adulto. Para isso, precisamos estimular o crescimento de nossas crianças com uma reforma profunda nos métodos pedagógicos atuais, cuja evolução é ainda incipiente.

 

 A humanidade, por sua vez, experimenta viver com um avanço científico que pretende dominar o lobo e alimentar-se dele. É o mundo que precisa do homem não só com a vida longa, mas também um ego feito de alvenaria. Um ego capaz de criar uma imagem apropriada do amor, em que o tempo nada vale e o eu seja capaz de enfrentar tranquilo a tristeza do inverno, sem o medo de que, depois dele, não venha a alegria da primavera.

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