O símbolo do Apocalipse Zumbi

28/06/2017

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O seriado de televisão “Lost”, lançado em 2004 e sucesso mundial por seis temporadas, mostrou o destino de um grupo de pessoas que sobreviveram miraculosamente a uma queda de avião numa misteriosa ilha do Pacífico. Ao contrário da ficção “Náufrago” (filme de 2000 com Tom Hanks), a maior dificuldade das vítimas não residia na vida em um ambiente selvagem, mas sim na convivência humana em uma situação onde não havia Estado que impusesse regras para tal. Fora do alcance dos governos, polícia e justiça e tendo a sobrevivência imediata como maior referência, rapidamente formaram-se grupos distintos que não demoraram a entrar em conflito pelas mais diversas questões.

 

Nas primeiras décadas do século XXI este cenário ficcional se reproduziu das mais diversas formas, como por exemplo em “Shingeki no Kyojin” (“Ataque dos Titãs”, mangá de 2009), “The Walking Dead” (série de TV, 2010), nos filmes “Jogos Vorazes” (2012), “Divergente” e “O Doador de Memórias” (2014), apenas para citar alguns exemplos. Entre eles há em comum o retrato de uma humanidade forçada ao convívio num espaço limitado após uma catástrofe de proporções mundiais, seja ela causada por doenças, guerras ou totalitarismo político. A população remanescente geralmente se divide em grupos, distritos ou facções, ou quando consegue uma convivência minimamente harmônica, o faz através da rígida divisão da comunidade em classes funcionais e assim aliena o indivíduo de suas diversas possibilidades de vida em prol da organização coletiva.

 

Em contraposição ao conceito alemão do “zeitgeist” (“espírito da época”), tendência de vida consciente que se expressa profusamente num determinado período histórico, Jung propôs a existência do espírito inconsciente de uma época, uma expressão compensatória do inconsciente coletivo à unilateralidade do espírito da época representado em manifestações artístico-culturais que traziam o germe do desenvolvimento futuro da humanidade. Ele afirma, por exemplo, que para compensar o cenário de grande desvalorização da mulher na Idade Média, o espírito inconsciente da época teria feito surgir a grande valorização da figura da Virgem Santíssima, assim como da mulher amada (ou “alma gêmea”) no amor cortês, entre outras formas de idealização do feminino que conduziram o mundo fortemente patriarcal a uma relação menos predatória com as mulheres. Se considerarmos a temática sombria das narrativas pós-apocalípticas do século XXI como uma resposta ao espírito da nossa época, qual seria sua mensagem para o homem moderno?

 

No fim do século XIX, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche escreveu a parábola do “louco” que, com uma lamparina nas mãos à luz do dia, procurava por Deus. Desesperado, ele chegou à conclusão catastrófica de que Deus havia morrido e os homens, culpados do deicídio, pagariam por ele um elevado preço. A parábola era uma crítica ao espírito da sua época, onde a racionalidade científica pretendia ser a única forma legítima de compreensão da realidade, rebaixando os ideais filosóficos a fantasias abstratas sem valor prático, e as religiões ao status de meras ilusões ou “delírios de massa” – como disse o psicanalista Sigmund Freud – ou de “o ópio do povo”, como disse Karl Marx. Para o “louco da lamparina” matar Deus foi um erro monumental, pois a humanidade estava longe de poder viver sem ele e assim estaria condenada a vagar pelo vácuo gélido do mundo puramente material sem um ideal que iluminasse o seu caminho, assim como seria com uma Terra que se desgarrasse da órbita solar. A intenção de Nietzsche, conhecidamente ateu, foi apontar o equívoco de abandonar a crença em Deus sem que houvesse um ideal psicologicamente equivalente para substituí-lo, reconhecendo que ninguém vive no “nihil” (“nada”, em alemão) sem uma conexão com o sagrado que dê sentido à vida. Para seu infortúnio, sua própria vida foi o maior exemplo das consequências nefastas do niilismo na psicologia humana: ignorando a advertência do seu próprio “profeta da lamparina” e sentindo-se mais capaz que o alemão médio de matar em si as aspirações metafísicas ou espiritualistas, criou como substituto para Deus o ideal do “Übermensch” (“Super-homem” ou “Além-do-homem”). Completamente alienado de Deus e dos homens, acabou sucumbindo à loucura.

 

Para Jung, o resultado imediato do niilismo alemão denunciado por Nietzsche foi o esvaziamento coletivo de um ideal ético-espiritual que guiasse o desenvolvimento psíquico das massas, deixando o caminho livre para que o papel de guia fosse reivindicado no século seguinte de modo inconteste por um ditador: Adolf Hitler. Justamente por esta razão é que Hitler viu nos judeus seu maior perigo: ancorados em sua ética própria, jamais serviriam de massa de manobra. O produto da substituição da vivência religiosa – como legítimo fio condutor entre os dilemas éticos conscientes e as inúmeras possibilidades de solução vindas do inconsciente – por um líder humano sedento de poder é sabido de todos.

 

A vivência religiosa é, para Jung, um instinto natural do ser humano e não pode ser eliminado. Podendo ou não estar atrelada a uma profissão de fé ou à crença em Deus, a experiência religiosa é um contato com uma personalidade inconsciente mais abrangente que o Eu consciente a quem ele chamou de Selbst (ou “Si-mesmo”), vivência de alto valor psíquico que dá à vida do indivíduo um sentido incomensuravelmente maior do que a simples expectativa de bem-estar social e alto padrão de vida material. Sem este contato com o sagrado interior o homem sente-se vazio, carente e propenso a projetar a imagem deste sagrado em algum substituto externo, como um líder ou ídolo carismático ou um idealismo envolvente. Esta projeção confere a seu objeto características sagradas que inspiram no indivíduo toda a devoção.

 

Num mundo onde se deve trabalhar e pagar pesados impostos por quase toda a vida sem a garantia de previdência social e atenção à saúde dignos na fragilidade da velhice, além do perigo constante da violência e do terrorismo, a falta de sentido para viver não é nem de longe compensada pelos benefícios oferecidos pelo capitalismo (apartamentos, automóveis, smartphones, refeições gourmet, entretenimento, etc.). O testemunho disto é dado pelas crescentes taxas de depressão e suicídio dos países com maior desenvolvimento industrial e humano, onde as condições para viver aparentemente são as mais favoráveis.

 

No momento político crucial que vivem o Brasil e o mundo a pobreza psíquica dos povos, dos seus líderes e ideais partidários traz a sensação desoladora de desamparo, falta de conexão com o próximo, decadência moral das instituições e ruína do estado de direito. Sem conexão com a própria alma e ansioso por achar um culpado para sua desventura, o cidadão comum apenas projeta no outro seus próprios demônios, o que só o afasta dos demais e aumenta seu isolamento, que poderia ser evitado caso este conseguisse encontrar em si mesmo uma referência espiritual sólida que pudesse ser compartilhada com os seus irmãos de sofrimento.

 

Situações como aquelas mostradas na ficção mostram o retrato de uma humanidade que ainda carece de uma referência interior que possibilite a convivência harmônica rumo a um objetivo comum: na falta de um regulador externo, somos engolidos pela selvageria e egoísmo. Diante da iminente ruína social e da ausência de um ideal atualizado, as pessoas buscam refúgio em ideais ultrapassados, sejam de extrema esquerda revolucionária, sejam de extrema direita conservadora. Traídos por seus líderes atuais, começam a desejar um grande líder que venha inspirar a confiança de um “pai da nação”. É neste passo cada vez mais nos aproximamos do mundo desolado, frio e niilista da ficção, destroçado pelo ódio entre facções rivais ou povoado por seres que vivem a vida vegetativa de zumbis, cenário perfeito para a ascensão de um tirano que ocupe este vazio interior.

 

 

Paulo Nunes

 

Médico e Pós-graduando em Psicologia Analítica pelo IJBA/FBDC.

 

 

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