O Homem que Sabia Javanês

21/06/2017

 

 

Desejos de suplantar as dificuldades pessoais e controlar o destino por meio do misticismo são os ingredientes para se descobrir e se nutrir um trapaceiro. A reflexão dos homens podem ser aprisionadas às suas emoções e, com isso, eles podem legitimar as ações e mentiras de um malandro. Essa é a essência de um conto que Lima Barreto escreveu em 1911 intitulado  O homem que sabia javanês.

 

O conto começa com Castelo relatando ao seu amigo Castro como soube levar vantagem em tudo na vida com a postura de um malandro carismático. Esvaziando copos de cervejas, relatou, como se fosse um assunto banal,  “as partidas que havia pregado às convicções e às respeitabilidades, para poder viver”. Uma dessas partidas foi tornar-se professor de javanês sem conhecer a língua. Orgulhava-se de sua esperteza como a sorrir dos ingênuos que foram enganados. Aprendeu que o reconhecimento social nada tem a ver com verdades, e sim com a habilidade política de enganar.

 

Contava Castelo que morava em pensões e se mudava frequentemente, de uma para outra, por falta de pagamento. O trabalho com horários a cumprir não lhe era aprazível. Um dia viu um anúncio no jornal que procurava por um professor de javanês. Intuiu que não teria concorrência e que estava diante de uma oportunidade para usar os seus dotes tapeadores e se inscreveu. Sua função era ler um misterioso calhamaço em língua javanesa para um velho supersticioso, o Barão de Jacuecanga. 

 

Castelo empenhou-se na valorização de sua aparência para sentir-se seguro em enganar. Relatava ao amigo, de forma irônica, como se aproveitou da ingenuidade e estupidez daqueles que nele acreditavam para conduzir a sua sorte para onde queria. Ao constatar a tolice alheia, a luta entre a ambição e a honestidade, tão logo iniciou, cedeu lugar à ganância. 

 

Numa dessas ocasiões em que sua farsa foi desafiada, foi convidado a participar de um congresso, em Paris, com os sábios da língua. Por engano, recebeu o convite para se apresentar na seção de tupi-guarani. A situação foi muito proveitosa e, como em muitas outras vezes, a sorte, aliada à sua autoconfiança, o fez voltar consagrado pelos jornais europeus, que mencionaram o banquete a ele “oferecido”, o qual ele mesmo financiou. Dos mestres ficou o retrato do ridículo, pois não foram capazes de desmascarar um espertalhão impostor.  

 

O Barão de Jacuecanga escutava as histórias inventadas por Castelo, como se ele estivesse lendo o calhamaço escrito em javanês. A sorte, sempre aliada à fé em si mesmo que o malandro tinha, fez com que, nesse ínterim, o barão recebesse uma herança inesperada. Convencido de que a leitura desse livro traria ventura à sua família, o barão admitiu o quão importante era esse homem que sabia javanês. O barão e seu genro conheciam o Visconde de Caruru, que conseguiu colocar Castelo na carreira diplomática e, desse modo, ele se tornou cônsul do Brasil. 

 

Até se tornar esse impostor que fingia ler o javanês, o mundo de Castelo era o das ruas de pensões pobres, onde aprendera a se especializar na malandragem. Saiu desse mundo dos bondes lotados para viver nos reconfortantes lugares frequentados pela burguesia bem-sucedida. Em todas as situações em que Castelo poderia ser desmascarado, o universo conspirou a seu favor. E todos os que se convenceram da sua notoriedade legitimaram suas ações e mentiras.

 

O malandro está sempre preparado para alterar a percepção do outro sobre si mesmo. Tem firmeza no que faz e diz, e isso impressiona. Na ocasião da segunda guerra, Walt Disney criou um personagem para representar o Brasil e deu o nome de Zé Carioca. Era um papagaio desajeitado, pobre, preguiçoso, capaz de aprender tudo rápido e muito criativo para enganar e lucrar explorando os outros. 

 

Lima Barreto nos apresenta um país sem leis e sem preocupação com a verdade, sob a égide dos favores e minado pela desordem. Denuncia o espaço que tem um farsante que, com a sua sorte, consegue enganar pessoas, as quais, no lugar de usarem a racionalidade, usam dogmas e encaminham-se para o fanatismo para, dessa forma, ninguém poder apontar e dizer “o rei está nu”. 

           

Criamos ídolos para compensar nosso sentimento de incompletude. Esses ídolos não podem ter imperfeições para não comprometerem nossa autoestima já cambaleante. Um líder carismático que promete a felicidade a qualquer preço passa a ser uma figura sedutora para uma massa desacreditada que vive o desemprego, a fome e a escassez de alimentos. Os fatos sucumbem ao fanatismo, e a adesão é cega. Não podemos enxergar aquilo que foge ao que esperamos para que nossas fraquezas não sejam denunciadas. Torna-se difícil conseguir um nível de consciência crítica suficiente para perceber a diferença entre o falso e o autêntico, pois essas pessoas, ao se unirem a seus pares, deixam de usar a razão e se aprisionam no fosso fundo das emoções. 

           

Reduzir nossos ídolos a um malandro é tão doloroso que mergulhamos em nosso campo cego e encontramos explicações suficientes para apaziguarmos nosso espírito e continuarmos a defendê-lo. Nesse ponto, as mentiras dos “Castelos” vão ficando consagradas a ponto de todos os atos deles que aparecem como imperfeições tornarem-se invisíveis, pois estas são nossas próprias imperfeições, que temos dificuldades em aceitar. Jung nos alerta que somente com a transformação da atitude do indivíduo é que começará a se transformar a psicologia das nações.

 

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