O Ideal Junguiano

24/05/2017

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Para Freud, a neurose era uma perturbação do funcionamento normal da psique, que deveria ser tratada para que esta pudesse voltar a trabalhar como antes. Jung, no entanto, entendia a neurose como uma reação da psique a uma atitude consciente inadequada diante da realidade. Esta reação não acontecia por acaso: a doença seria parte de uma defesa psíquica natural, que indicava que algo na vida do indivíduo estava errado, provocando um desequilíbrio. A cura da neurose estaria associada então a uma mudança de vida, e não a uma tentativa de retornar ao estado anterior à doença. Este processo assemelha-se ao da árvore, que, exposta à luz solar apenas por um lado, direciona para  ele seu crescimento, para que todas as suas folhas sejam iluminadas igualmente. Por isso os alquimistas chamavam alegoricamente o princípio ativo na psique de spiritus vegetativus: não possui consciência, mas é capaz de orientar e corrigir problemas no seu desenvolvimento espontaneamente.

 

Esta noção despertou grande resistência no meio científico da sua época. Jung foi considerado um místico, que, à moda dos filósofos antigos, acreditava na alma como ser etéreo interior com uma personalidade independente do Eu. Como o daimon dos gregos, esta era específica para cada pessoa, atuando até mesmo contra sua própria vontade, seguindo a ideia de que cada um tem um destino a ser cumprido: se nos desviamos dele, as coisas começam a “dar errado”.

 

Grande parte da obra de Jung destinou-se assim ao estudo das neuroses, à criação de um método de compreensão do funcionamento da psique, à interpretação dos sonhos, à formação de analistas. Porém, ele não parou por aí. Para além de mitigar um sofrimento neurótico crônico e devolver ao indivíduo a esperança de uma vida frutífera, Jung prosseguiu em direção a um ideal mais elevado, a ser atingido através da obra de toda uma vida: a Individuação. Esta, segundo ele, era a meta mais elevada de desenvolvimento psíquico que o ser humano poderia almejar. A resolução do sofrimento neurótico era só o princípio desta jornada: bem-sucedido nesta tarefa, o indivíduo poderia dar o passo seguinte para o caminho que, trilhado conscientemente, seria vivido como uma iluminação.

 

Alguns são condescendentes com este ideal, acreditando que ele não passe de uma expressão figurada da preparação para a morte; ou então um horizonte inalcançável, como metáfora para o entendimento de que o mais importante é a busca, não a meta. No entanto, não é possível fechar os olhos para o fato de que ele investiu muita energia estudando cada tratado de alquimia – seja latino, grego, árabe, hebraico ou chinês – que lhe chegasse às mãos, criando uma vultosa obra baseada quase inteiramente na críptica filosofia medieval que almejava a “pedra filosofal”; que, para Jung, simbolizava este estado último do ser que atingiu a iluminação.

 

A maior parte dos terapeutas passará praticamente toda a sua carreira tratando das neuroses típicas do ocidental comum: problemas de ordem sexual, afetiva, familiar; dificuldades em adaptar-se à vida social adulta em geral. Poucas vezes se falará num paciente que atingiu a meta final da individuação – se é que já se falou disso em alguma vez. Então, como entender o fato de que Jung deu a este assunto o status de pedra angular da sua obra, tema principal de sua maturidade intelectual? Estaria ele adiante demais do seu tempo ou era simplesmente um romântico, cuja obra seria mais apropriada à filosofia do que a uma prática clínica?

 

Para muitos estudiosos do seu pensamento é embaraçoso ter que admitir que o mesmo pesquisador diligente, que contribuiu tanto para o tratamento clínico das neuroses, passou o período final da sua vida dedicado ao ideal de homem que, mais ambicioso que o Super-homem nietzscheano, fosse uma espécie de divindade hermafrodita que transcenderia a morte e a divisão entre os sexos.

 

Uma forma de enxergar esta questão quem nos dá é o próprio Jung. No prefácio que escreveu à última edição de Símbolos da Transformação, ele diz que todos vivem um mito. Os que acreditam não o viverem, ou desconhecem a si mesmos, ou estão desconectados da maioria esmagadora da humanidade, em todos os tempos. Uma crença universalmente compartilhada é o que permite que a humanidade se mova em uníssono, empreendendo esforços que exigem um nível de organização coletiva que seria impossível sem o mito. É o que diz o historiador israelense Yuval Noah Harari em “Sapiens”: foi o poder unificador do mito que teria permitido ao Homo sapiens superar o homem de Neandertal, espécie mais forte, na luta pela sobrevivência. O mito está em todas as partes das nossas vidas, queiramos ou não: a prática de atribuir a um pedaço papel impresso o mesmo valor de uma casa ou um carro só é possível se todos acreditarem nela. O mesmo se dá para cada ideia humana: as leis, as unidades de medida, o tempo, as fronteiras das nações… Tudo isto foi decidido em algum momento da história, com graus variáveis de arbitrariedade, e goza de credibilidade geral.

 

Sem o mito, provavelmente não existiríamos. Se tivéssemos conseguido sobreviver sem ele, seríamos primatas dispersos em pequenos bandos, lutando uns contra os outros por território e comida, à mercê das forças da natureza. Ouso dizer que viver um mito é o que define o ser humano, e está nas raízes da consciência. E Jung, continuando aquele prefácio, confessou, como Descartes, que faria do seu mito a sua vida.

 

A obra de Jung é inseparável do seu mito pessoal. No estudo incessante da alquimia, ele ambicionou de desvendar o mito por trás de todos os outros: a jornada do homem inconsciente, dividido, rumo à consciência superior, indivisa. Para atingir este ideal, seria necessária uma longa jornada de reintegração dos elementos excluídos da psique consciente, e por fim, reconciliar-se com sua contraparte sexual: no homem, a alma feminina, na mulher, o espírito masculino. Da união destes opostos nasceria o ser sem identidade sexual definida, ou capaz de expressar qualquer uma delas; em harmonia com o cosmos, estaria livre da ansiedade causada pela ignorância e impotência diante de um mundo vastíssimo e misterioso, e da incompletude diante do desconhecimento de si mesmo.

 

Porém, nada se sabe dizer sobre este ser, exceto pelas alegorias paradoxais da alquimia que Jung nos trouxe. Ele mesmo jamais citou um exemplo de sujeito “individuado”, e, aparentemente, nem dele mesmo é possível afirmar que concluiu a obra. Como os alquimistas, deixou apenas extensos tratados sobre a “arte régia”, a tentativa empírica de chegar ao fim do processo e os símbolos que o prenunciam.

 

Se o ideal junguiano pode ser levado adiante, desenvolvido ou compreendido melhor do que ele o transmitiu – ou até vivido em sua plenitude –, só o tempo dirá. Porém, ele nos deixou uma lição importante: a nossa obra deve ser a expressão mais legítima de quem somos e buscamos ser. É improvável que alguém consiga produzir algo de significativo sem que sua alma, seu coração, esteja envolvido. Como disse Jesus, “se alguém acha um tesouro num campo, vende tudo que tem para comprá-lo: onde está seu tesouro, lá também estará seu coração.” Ao produzir “com o coração”, o pensador pode sempre ser desacreditado, considerado subjetivo demais, sem valor científico – o que parece ser a blasfêmia dos dias atuais. Porém, é possível, sim, viver o que de mais individual e único temos em nós e ao mesmo tempo deixar um legado de valor para a coletividade. Talvez, como disse o Carlos Castaneda, todos os caminhos levem ao mesmo lugar: mas somente um é sentido como genuinamente nosso. A arte – e a missão – de tornarmo-nos quem devemos ser é o que Jung, inspirado por Nietzsche, deixou para nós.

 

 

Paulo Nunes

 

Médico e Pós-graduando em Psicologia Analítica pelo IJBA/FBDC.

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