Renascer

02/08/2016

É com esta narrativa que o diretor, Alfonso Cuarón, inicia o filme Gravidade: “A vida é incompatível com o espaço, e estar lá fora — explorar o espaço — é uma anormalidade”. O universo é hostil, sem oxigênio e sem som, um vácuo. Ele não oferece condição de sobrevivência à vida humana, caso estejamos fora deste planeta azul chamado Terra. Faz-nos lembrar que, nesse ambiente inóspito, nossas pequenas visitas só são possíveis se repletas de aparatos desenvolvidos para garantir nossa existência no espaço.

 

Esse filme retrata um cenário de desconforto e de risco constante, impressiona-nos pela ousadia, pela estética, pela narrativa, mas principalmente pelo clima de tensão. Diante de tal ambiente, fazemos contato com a nossa finitude, com a nossa posição de fragilidade humana, com a nossa inabilidade de se adaptar fora do nosso mundo, o que nos torna empáticos, pois nos recorda que todos nós somos terráqueos, enfim, da nossa condição de pertencimento ao planeta, muitas vezes esquecida no nosso dia a dia.

 

Seu enredo envolve três astronautas que estão em pleno espaço, realizando consertos externos no telescópio Hubble, uma operação de rotina, quando são surpreendidos pelo aviso da base de controle de que haverá uma chuva de destroços decorrentes da destruição de outro satélite por um míssil russo. Em consequência disso, a nave é destruída, um deles morre e os demais, Matt e Ryan, ficam soltos em órbita da Terra. Ryan está desesperada, agarrada ao equipamento da nave, jogada para todos os cantos, até que consegue soltar-se e girar diversas vezes em direção ao nada, perdendo-se completamente no espaço, até que recebe ajuda de Matt e ficam ligados um ao outro por um cabo.

 

Em meio a tanta adversidade, Matt alivia a tensão com sua comicidade: é um astronauta experiente, que foca no que deve ser feito também no aspecto emocional; é brincalhão, conta suas histórias sobre as mulheres e suas diversões, enquanto Ryan, uma brilhante engenheira – cujo trabalho científico se desenvolve na área de saúde humana. É sua primeira missão espacial, na qual vive uma personagem sofrida, ressentida, fria e focada no seu trabalho, contudo, faz uma revelação em meio ao caos: perdera sua filha num acidente na escola, sua vida perdeu o sentido ante a dor, e relata suas direções automobilísticas diariamente, ao som de uma música qualquer. Mesmo diante daquele cenário tão inóspito, as humanidades dessas personagens se fazem presentes. Aqui, podemos perceber as duas polaridades, se pensarmos na personagem Matt, um aspecto brincalhão, carismático, conversador, lúcido, e Ryan, uma persona ressentida, sofrida e focada apenas no seu trabalho.

 

Matt se desprende do cabo que o ligava a Ryan e se perde no espaço. Quando ela consegue entrar na estação espacial, percebe-se seu estado de angústia, em que está retratado um simbolismo, o qual pode ser visto como um renascimento, quando ela entra, tira a roupa de astronauta e se solta, girando na posição fetal como um bebê no útero da mãe. Com um cabo dando impressão do cordão umbilical, essa imagem vai marcar o inicio de sua trajetória que poderá mudar completamente a sua vida. Jung refere-se ao renascer durante a vida individual, o que indica a ideia da renovação ou mesmo aperfeiçoamento de partes da personalidade, as quais podem ser fortalecidas ou curadas (§ 203). Vemos isso em Ryan, uma mulher genial que parou de viver devido a um trauma sofrido com a morte da filha e, desde então, sua vida se resumia a trabalhar e vagar com seu carro, durante horas.

 

Ryan precisa lutar sozinha para sobreviver e tentar voltar para casa. Houve um momento em que ela quase desistiu. E, nesse momento, é que tudo muda. Em seu sonho, ouvia uma música de ninar para adormecer, eis que surge Matt, seu colega astronauta agora morto no espaço, aparecendo do nada e entrando na nave sem combustível onde está Ryan, milagrosamente, para impedir que ela desista de viver. É a manifestação do animus que lhe traz a força da inspiração da vida, lhe dá uma lição de esperança, incita a busca e a ensina, por meio da criatividade e da determinação, como escapar do caos, naquele aparente “beco sem saída”. Ela, por duas vezes, pergunta ao seu colega como ele chegara até ali, e ele responde da mesma forma, por duas vezes: “É uma história infernal”. Ele desaparece e Ryan decide seguir em frente, aceita a morte de sua filha e de seu colega e tem coragem de viver novamente.

 

Decidida a viver, ainda terá que passar pela última prova: quase destruída, ao entrar na atmosfera, é lançada na água (mar), símbolo do inconsciente, representação dos sentimentos. Luta, emerge de águas profusas, com coragem, audácia e superação, sai de uma vida supostamente corriqueira, de um mundo privado, para voltar para uma nova realidade. Nada, cansa-se e chega à beira da água, segura a terra entre as mãos, sorri numa atitude de agradecimento e reconhecimento, caminhando como uma nova mulher, pronta a desbravar novos caminhos, decidida a viver, numa nova atitude frente à vida. Essa força mobilizadora inconsciente pode ser útil para mulheres acharem em si mesmas qualidades e capacidades que elas atribuem aos homens: retirar suas projeções e reivindicar essas qualidades para si mesmas.

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