O Momento Mágico

25/06/2016

O tempo foi considerado pelos físicos como um conceito que se modifica de acordo com o espaço que o contém, e que este se curva onde existe matéria. Assim o espaço é um dos componentes da matéria. E que matéria faz tudo isso quando se trata de um idoso sentindo seu corpo em dissolução? E o tempo de viver?

 

O romance O Momento Mágico de Márcio Leite foi vencedor do Prêmio Sesc de Literatura em 2009. Conta a história de Adalberto, um homem de 88 anos, portador de uma doença degenerativa, que se dá conta de que sua vida chegou ao fim. Sabe que aproveitou o máximo de sua vida e quer morrer, mas a morte não vem e ele vive a angústia de não terminar.

 

Vive isolado frente ao mar. Observa, por hora, os frequentadores da praia. Em seu universo interior vive como uma montagem de um filme. Assiste a esse filme com os olhos dos arrependimentos de tudo que considera como “os seus erros”.  

 

Teve duas filhas e um filho. Experimentou um evento em que, numa pescaria com o seu filho, sofrera um acidente em que um destino cruel o fez viver a inversão da ordem: o filho morrer antes do pai. Renato, o filho de Adalberto, morreu afogado no mar da Bahia. Adalberto recebe atenção de suas duas filhas, mas rejeita-as em franca deterioração da afetividade para com elas.

 

O oito deitado (∞) – infinito -, é aquilo que não termina. É também onde duas linhas paralelas, como o existir e o não existir, se encontram. A idade de Adalberto lembra a dualidade desse signo: 88 anos. Dois infinitos na vertical. Talvez por isso ele lance o olhar para uma imagem em que o sol doura o mar ao amanhecer como um pacto entre o sol e o mar para ser vivido o momento mágico.

 

Nada sabemos sobre a vida psíquica depois da morte física. Essa mesma ciência nos fala de átomos que compõem nossos corpos e que, durante a vida, encontram-se em constante troca com o cosmo até que, na dissolução desses corpos, esses mesmos átomos serão depois encontrados em todas as coisas.

 

A psique continua a elaborar seus símbolos, mas Adalberto não consegue aproveitar essa preparação, e seu ego se compensa com a culpa e a vontade de transcender por meio da morte física. Com isso vai criando dificuldades para aceitar os cuidados de suas filhas como se elas quisessem mantê-lo em sofrimento.

 

Depois de velho, os olhos não permitem que se enxergue bem o mundo lá fora. Na contrapartida, os “olhos internos”, envolvidos com os eventos, podem nos fazer ver com mais nitidez o mundo interior. A evolução esperada é que possamos olhar para os eventos que passaram em nossas vidas, de forma mais amadurecida do que na época em que ocorreram. Assim as vistas ruins fariam o idoso enxergar o mundo de forma melhor. Adalberto não conseguiu fazer assim e procura em cada jovem que frequenta a praia o seu passado sem conseguir elaborá-lo simbolicamente.

 

Quando olhamos crianças e jovens, revisitamos o nosso passado. Em nossas vidas certamente houve muitos eventos que enfrentaríamos conflitos com mais sabedoria. Dessa forma, nos processos analíticos, podemos revisitar esse passado com segurança e participar desse processo de ressignificação de vivências para transformá-lo. Aí,  o espaço-tempo se relacionam com a matéria sofrendo suas flexões.

 

A física moderna quando fala do espaço-tempo nos lembra as histórias fantásticas contadas pelos nossos ancestrais em volta do fogo. Ela busca verdades e desmancha outras verdades que não fazem mais sentido. Assim ocorre em nossas vidas. Enquanto os físicos enxergam o universo com seus eventos interagindo continuamente uns com os outros, também nossa psique traz os acontecimentos que resultaram de nossas interações com outras pessoas. Nossos pensamentos em vigília, ou aqueles que se revelam em sonhos, são informações para o psicólogo tanto quanto o espectro de um raio de luz o é para os cientistas na informação da natureza da substância que o originou.

 

O que vivemos é o que experimentamos. O universo ou a psique não têm coisas, mas eventos. Nascemos, crescemos e envelhecemos. Isso é o tempo. O tempo medido em dias é imutável. Tem uma única direção, mas tem um outro tempo que não segue essa lei. Tanto faz ir para frente como para trás, é o tempo do inconsciente. E o espaço? Como é essa relação?

 

O dia do evento em que o filho de Adalberto morreu marca um tempo e espaço na psique que se atualiza no cotidiano. Pensar no que se foi é trazermos sua presença para perto de nós. Isso condensa o passado e o presente deixando o ego alheio e aceitando uma realidade ininteligível. Essa relação pode ser transformada simbolicamente, por meio da análise, para acolher outras possibilidades.

 

Adalberto vivia de arrependimentos. Viveu uma cultura religiosa em que a noção de culpa e arrependimentos relacionava o prazer com coisas erradas e se forçava a respeitar o outro por medo da punição divina. Numa cultura mais evoluída, respeita-se o outro por entender que fazendo assim também se é respeitado. É como saber lidar com o outro de si mesmo.

 

Talvez sejamos a única espécie que tem consciência de sua finitude. Nascemos como se fôssemos um filho único que cresce e aprende que o mundo não gira somente ao nosso redor, como pensávamos. Descobrimos que somos importantes para aqueles que nos amam e apenas ínfimos fragmentos de eventos de um grande universo. Treinamos para aprender o desapego para que não se viva como se já tivéssemos morrido.

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