Recursos de Amor no Território de Dor

07/06/2016

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Sofrer uma experiência traumática não é o mais terrível da nossa biografia: o trauma é uma experiência intrínseca à vida, e também a força propulsora para o nosso desenvolvimento, um convite à criação de recursos resilientes, e aos impulsos formativos da personalidade. Portanto viver um trauma não é equivalente a ficar traumatizado, como demonstram os estudiosos do Crescimento Pós-Traumático.

 

O terrível da vida está em não ter a chance de reparação das disfunções provocadas pelo trauma, e de retorno a um estado basal de equilíbrio, segurança e conexão. 

 

Sexta-feira 13, de maio deste, como num filme de terror, a professora Sandra Alfonso foi assassinada por seu cônjuge, tendo como cenário do crime a Escola infantil Municipal Esperança de Viver, no bairro periférico de Castelo Branco (Salvador- BA). Os funcionários presentes, que acompanharam agonizantes com Sandra a sua morte, conseguiram evitar que as crianças ficassem diretamente expostas ao corpo; mas para toda a comunidade local: funcionários, crianças e famílias, exaurida pelo estado permanente de tensão e vigilância decorrentes da violência cotidiana (ainda maior na periferia), a ação violenta e sexista de um suposto bom homem foi a última gota que inundou seus sistemas.

 

O assassino tirou a vida da mulher com quem estivera casado há 21 anos, com quem tem uma filha de 14 anos, alegando que a culpa fora dela, de quem suspeitava uma traição... Sustentou-se no mesmo conjunto de crenças que disparam outras violências de gênero, como o estupro coletivo acontecido uma semana depois da morte de Sandra, à jovem carioca de 16 anos.

 

Os 23 funcionários da escola cuidam de 187 crianças com idade entre 4 e 8 anos em situação de vulnerabilidade social, e oferecem cotidianamente não só educação, mas as refeições diárias, higiene e abrigo, durante o dia de jornada laboral dos pais. Sentiam-se paralisados pela dor do luto, pelo medo da ameaça, pelo terror do trauma, assim como todos aqueles que petrificavam diante do olhar da mítica Medusa: incapacitados para lutar ou fugir da experiência terrível, muitos deles entraram na resposta de sobrevivência mais arcaica da biologia, a resposta dissociativa de congelamento. Este tipo de resposta de sobrevivência, quando perdura, compromete a busca de novos repertórios para o manejo da situação, e incapacita o enfrentamento ativo da dor, que quando é grande demais para ser sentida, se torna intensa demais para ser elaborada. Mesmo cientes de seu relevante papel social, não conseguiam retomar suas funções e enfrentar o território de dor que se transformou a escola. Consideravam a situação imutável (característica também do que Maier e Seligman (1976) denominaram “ desamparo aprendido”,  decorrente da exposição frequente a um ambiente hostil e incontrolável), e expressaram muito medo de entrar de novo na escola e retomar o contato com as crianças.

 

Fomos contatados 3 dias depois do incidente para uma ajuda voluntaria a este grupo, recebendo  suporte logístico da Secretaria Municipal da Educação. Em 2 dias conseguimos reunir 26 profissionais e alunos advindos de diferentes turmas da  pós graduação em Psicotraumatologia (IJBA) e da formação em Experiência Somática (ABT-BA), participantes do projeto social Mãe Providência: uma clínica-escola dedicada a atender gratuitamente a população vulnerável de Salvador vítima de trauma. Um emocionante retorno solidário de pessoas dispostas a doarem tempo, saber e compaixão.

 

Estive na coordenação geral da ação e Danuzia Lopes coordenou a intervenção com as crianças. Dois dias de atividades foram propostos. Recursos individuais e coletivos foram mobilizados para que os enfrentamentos pudessem ocorrer de forma bem sucedida, o choque pudesse ser reduzido, e alguma psico-educação e educação somática pudesse ser estabelecida.

 

Para estabelecer o primeiro enfrentamento: retornar ao ambiente da escola, além de algumas sessões individuais oferecidas às pessoas sob maior choque, o princípio proposto foi retecer o senso de “bando” –o tecido social de conexão e pertencimento, onde as pessoas puderam partilhar o que estavam subjetivamente experimentando e se regular juntas, no contato.

 

Todas as culturas primitivas tinham iniciações de choque para quebrar o ego e se conectar com uma perspectiva mais ampla: ser enterrado vivo, ficar sozinho na floresta, ser pendurado pelo musculo peitoral com uma garra de águia para se tornar um guerreiro... A diferença entre o trauma intencional e o imponderável não é o terror gerado, mas a capacidade da comunidade elaborar conjuntamente um significado à experiência vivida. A maior fome que todos temos é de dar significado à nossa historia, pois loucos-dissonantes-marginais são os significados não elaborados e compartilhados.

 

O segundo enfrentamento feito, no dia seguinte, foi retomar o contato com as crianças, e um ritual foi coletivamente preparado no dia anterior depois que o grupo estava mais estabilizado; ritual idealizado e realizado com eles e por eles, para reverenciar a memoria da professora morta.

 

Com trocas cúmplices de olhares e apoios, e fortalecidos com uma qualidade de dignidade e mutualidade, os funcionários receberam as crianças e alguns familiares nos dois turnos da escola, e puderam dar o testemunho da alquimia do chumbo que se transformou em ouro. O que mais os assustava era ter que dar conta das perguntas e emoções das crianças, mas o que receberam foi uma correnteza de afeto e cumplicidade, suscitado e possível pela capacidade restaurada de incluir sinceramente a emoção, em lugar de evita-la por medo.

E no final pudemos mais uma vez estar juntos, para compartilhar as experiências de êxito e vitórias, programando o retorno às atividades normais da escola, agora possível. O acompanhamento individual foi disponibilizado gratuitamente no projeto Mãe Providencia a todos os funcionários que desejaram, e uma palestra para familiares está sendo preparada por Danuzia e equipe, educando para o reconhecimento de possíveis reações de traumas nas crianças.

 

Considerando conflitos e traumas como elementos básicos e inevitáveis da vida, e o desenvolvimento como um processo de transformação-em-conflito, podemos encarar  tais experiências como obstetras da força e poder pessoal, que só conhecemos quando somos obrigados a usar.

 

Quando apoio e amparo são oferecidos, o trauma pode fazer com que nos tornemos maiores do que éramos, permitindo que algo emerja mais rápido, eficiente, e com condições de decisões mais acuradas do que o ego jamais seria capaz de tomar.

 

Gostaria de expressar minha gratidão a Cybele Amado, que articulou as conexões, e a todos os terapeutas que foram a campo: Alberto Dias, Ana Gilda, Antônio Carlos, Cira Albuquerque, Danuzia Lopes, Daiane Santos, Eliane Martins, Fatima Menezes, Gilka Tourinho, Larissa Rodrigues, Leticia Sampaio, Liana Netto, Marcia, Milene Salomão, Queli Nascimento, Rosiane Carvalho, Stela Queiroz, Tania Moraes, Tatiana Arsan, Tereza Virginia Alvaia, Vanda de Maria, Vivian Oliveira.

 

E a todos que ajudaram indiretamente ou estão no acompanhamento individual dos funcionários: Ana Leal, Anita Meira, Liane Pinto, Sonia Celeste, Sabrina Figueira.

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