Tatuagem como Possibilidade de Expressões Simbólicas da Psique

17/05/2016

Dra. M. Teresa Nappi Moreno

Prof.ª e Supervisora do IJEP

 

Nos dias de hoje é cada vez mais comum nos depararmos com pessoas que possuem tatuagens em seus corpos. Encontramos homens e mulheres tanto com tatuagens pequenas e discretas quanto com desenhos enormes que chegam, em muitos casos, a cobrirem todo seus corpos, cabeças e rostos. Perante este novo fenômeno, e, a leitura do trabalho de Lessa (2016), algumas ideias me surgiram e me fizeram ir em busca da história destes desenhos no corpo ao longo da humanidade.

 

Acredita-se que a primeira tatuagem foi datada em 5.300 a.C., na “Era do Gelo”, na Itália. Este registro diz que a primeira pessoa a ser tatuada foi um homem, encontrado neste país, com desenhos nas regiões lombar, no joelho esquerdo e no tornozelo direito (www.galileuglobo.com).

 

No Haiti, em 1769, James Cook ouviu, pela primeira vez, a palavra “tattow”, relacionada aos desenhos nos corpos das pessoas que lá viviam. Esses habitantes locais usavam desenhos em seus corpos ao invés de vestimentas. Foi, provavelmente, a partir de então, que nasceu a palavra “tattoo” como conhecida nos dias de hoje. Originalmente seu significado veio da reprodução do som produzido pelo cabo da madeira ao bater em algum instrumento que perfurasse a pele a fim de introduzir a tinta (Ramos, Mendonça e Silva, 2007).

 

Apesar de contarmos com novos instrumentos nos dias de hoje, a técnica da aplicação de tinta na pele quase não mudou pois, há quase quatro mil anos as tatuagens são feitas com agulhas que perfuram a derme, assim como hoje (Bello, s/d). Segundo Ferreira a “tatuagem seria o processo de introduzir sob a epiderme substâncias corantes a fim de apresentar na pele desenhos e pinturas. O desenho ou pintura feitos por esse processo; marca.” (1986, p. 1653).

 

Retomando um pouco a historia das tattoos através dos tempos, entre os anos de 509 a.C. a 27 a.C., temos os imperadores romanos que mandavam tatuar os prisioneiros e escravos. Durante a Segunda Guerra Mundial, os nazistas tatuavam um número nos corpos dos judeus com a finalidade de identifica-los. Foram encontradas múmias de mulheres egípcias, com inscrições na região do abdômen, sendo considerados como traços de possíveis tatuagens, entre os anos 2160 a.C. e 1994 a.C.

 

Em 1928, um caminhão repleto de peles tatuadas foi roubado em Chicago. Essa coleção de peles pertenciam a Masaichi Fukushi, médico japonês, o qual queria saber se, e como, a tatuagem ajudava a preservar a pele. (Bello, s/d). Já em 787, o papa Adriano I proibiu as pessoas de se tatuarem, considerando-a algo demoníaco. Nos sites sobre artigos relacionados à tatuagem, temos pessoas que colocam sua indignação frente aos corpos tatuados, pois acham que o corpo é sagrado, pertecente à Deus e portanto não poderia ser maculado. Para estas, a pessoa poderia ter feito a tatuagem sob domínio do “demônio”, como fora visto por muitos, durante séculos.

 

Há inúmeras pesquisas apontando a relação entre tatuagem em pessoas de comportamento de risco, em adolescentes, e de “tribos”. Como também definindo diversos grupos, tais como os dos marinheiros, presidiários, usuários de drogas, grupos agressivos, distúrbios corporais, e outros...

 

Porém esses fatos hoje também apontam para outras necessidades emocionais e não mais as pessoas tatuadas são vistas como “negativas”, apesar de ainda existir certo preconceito em relação à elas.

 

Costa (2003) ao fazer uma pesquisa com a população brasileira, sobre quais os motivos das pessoas se tatuarem no verão, concluiu que essas pessoas se tatuam pela beleza dos símbolos, e, para se sentirem mais atraentes.

 

Faz parte das motivações relacionadas a fazer tatuagem, a vontade de sentirem-se únicos, com uma identidade própria, e de quererem se diferenciar (Lessa, 2016). A sensação dessas pessoas de viverem numa sociedade em constantes transformações levam alguns a terem o corpo tatuado , como se assim essa concretude poderia lhes oferecer uma solidez, sentirem-se no aqui e agora com uma nova identidade.

 

Será que essa posição de concretude, não estaria também numa atitude oposta e de polarização? Se de um lado temos uma liquidez, algo fluido, do outro, temos uma posição de “tatuagem eterna”. Será essa uma posição que poderia levar á uma transformação psíquica?

 

Essa posição poderia ser considerada como um deslocamento das necessidades psíquicas que ainda não conseguem serem elaboradas, e, seriam então expressas pelo e no corpo?

 

Não são todas as pessoas que sabem os motivos conscientes da escolha de seus desenhos e imagens... E aqui, me refiro às que o fazem mais pelos “momentos”, marcar um encontro, uma data, “gostei”, “achei bonito”, “sempre quis fazer”, etc...

 

Parece pelas pesquisas realizadas, sob o ponto de vista da psicologia analítica, que a imagem, ou o desenho escolhido, poderia estar expressando um símbolo de um conteúdo inconsciente, e sendo representado no corpo. (Ramos, Mendonça e Silva, 2007).

 

Sabemos que dentro da visão psicossomática, os complexos, os conflitos podem ser expressos em sintomas, como distúrbios físicos ou psíquicos. Esses sintomas seriam vistos como símbolos, expressando uma parte consciente e uma inconsciente, levando à possibilidade de uma integração e elaboração do conflito e de aspectos do inconsciente. (Moreno, 2007).

 

Dentro desse modo de pensar, as pessoas com múltiplas tatuagens, estariam expressando sintomas psicossomáticos? Se necessitam delas para preservarem sua identidade psíquica, o que esse fenômeno estaria nos comunicando?

 

O marcar o corpo, e no corpo, poderia ser a expressão de coisas que ainda não podem ser ditas? E se formos por esse caminho, quais mensagens esses símbolos querem transmitir? E a quem?

 

Se o fenômeno de tatuar-se está crescendo cada vez mais, independentemente do gênero e idade, será que isso estaria nos trazendo novas mensagens da psique coletiva? Quais caminhos e mudanças poderiam estarem sendo constelados, não só na psique individual, mas também na coletiva?

 

Outro ponto interessante visto nas pesquisas é em relação a dor. Esta parece ser sentida como algo “prazeroso”, “faria tudo outra vez, apesar da dor”... Segundo Ramos, Mendonça e Silva (2007), a dor estaria relacionada ao processo de memorização da experiência, e à da conquista dela. Esse dado parece corroborar com o que Alvarenga (2015), nos fala da dor... “A dor deixa de ser insuportável quando pode ser elaborada e, na condição de símbolo estruturante, passa a compor a identidade, transformando-se em realidade integrante da totalidade do indivíduo. A dor torna-se suportável quando, pela transformação, se faz símbolo estruturante da própria identidade.” (p.9).

 

Se essa dor da tatuagem estaria relacionada com símbolos estruturantes da própria identidade do individuo, quais os símbolos estruturantes estariam sendo constelados na nossa humanidade?

 

 

Referências Bibliográficas:

 

-ALVARENGA, M. Zelia. Anima-animus e o desafio do encontro. In: Junguiana.  Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analitica, vol. 33/1, p. 5-11, SP, 2015.

-BELLO (s/d) In: www.galileuglobo.com, acessado em 17/04/16

-COSTA, Ana. Tatuagem e marcas corporais. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003.

-FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

-LESSA, Ludmilla L. Representação simbólica da tatuagem e seu significado. Orientadora da pesquisa: Dra. Denise G. Ramos. PUCSP, 2016 (não publicada).

-MORENO, M. Teresa Nappi. Raiva, uma das emoções ligadas à gastrite e esofagite. São Paulo: Vetor, 2007.

-RAMOS, Denise. G., MENDONÇA, Branca L., Silva Monica M. Motivação e representações simbólicas no comportamento de tatuar-se: um estudo analítico”. São Paulo, 2007.

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